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Management interventions

Chapter 4 Husbandry and management

4.3 Stand management

4.3.2 Management interventions

Originalmente, ideologia significava o estudo científico das ideias dos homens. Logo, um ideólogo não era somente alguém que expunha e defendia ideias, mas aquele que as analisava cientificamente. No entanto, não demorou muito para que o objeto ultrapassasse a

abordagem e o termo rapidamente passasse a referir-se aos próprios sistemas de ideias (EAGLETON, 1997).

Eagleton (1997) explica-nos que a ideologia muitas vezes serviu nitidamente de contrapeso à ciência, embora seja irônico o fato de ela mesma ter nascido precisamente como uma ciência, isto é, como uma investigação racional das leis que regem a formação e o desenvolvimento das ideias. Assim, segundo o autor, a ideologia teria raízes profundas no projeto iluminista de um mundo totalmente transparente à razão, livre de preconceitos, da superstição e do misticismo que obscureciam o Antigo Regime. Ser um ideólogo tem aqui o sentido de ser um analista clínico da natureza da consciência; significa, portanto, ser um crítico da “ideologia” no sentido dos sistemas de crença dogmáticos e irracionais das sociedades tradicionais.

Não obstante, o conceito de ideologia mirou uma direção e caminhou para outra, na medida em que se tornou um termo abusivo que representava o vazio, a preguiça e a sofisticação de certas ideias, deixando paulatinamente de denotar um cético materialismo científico vulgar para significar um campo de ideias abstratas e desconexas, e que ao longo da história recebeu uma forte carga pejorativa.

O termo ideologia aparece pela primeira vez no início do século XIX, após a Revolução Francesa, no livro de Antoine Destutt De Tracy, Éléments d’Idéologie (1801). O intento desse filósofo francês enciclopedista era elaborar uma nova ciência, cujo interesse estaria na análise sistemática das ideias e sensações – a geração, a combinação e as consequências do querer (vontade), do julgar (razão), do sentir (percepção) e do recordar (memória) –, tratando-as como fenômenos naturais que exprimem a relação do corpo humano, enquanto organismo vivo, com o meio ambiente. A ideologia, para De Tracy, deveria ser encarada como um subcapítulo da zoologia (THOMPSON, 2011; CHAUÍ, 2001; LÖWY, 1989).

Ele argumentava que não podemos conhecer as coisas em si mesmas, mas somente as ideias constituídas pelas sensações que temos delas na interação entre o corpo e a natureza. Se pudéssemos analisar sistematicamente essas ideias e sensações, ele acreditava que poderíamos também garantir uma base segura para todo o conhecimento científico, bem como tirar conclusões de cunho mais prático a partir dele. A ciência das ideias de De Tracy pressupunha que toda ciência repousa nas ideias, de modo que a ideologia desbancaria a teologia como a soberana de todas elas, conferindo-lhes unidade e tornando-se a “primeira ciência”, pois ela seria positiva, útil e suscetível de exatidão rigorosa (THOMPSON, 2011; EAGLETON, 1997).

Nas palavras de Thompson (2011, p. 45), a ideologia, na acepção que De Tracy lhe emprestara,

possibilitaria a compreensão da natureza humana e, desse modo, possibilitaria a reestruturação da ordem social e política de acordo com as necessidades e aspirações dos seres humanos. É esse cientificismo materialista bastante estreito que caracteriza a obra de Destutt De Tracy (LÖWY, 1989).

Aristocrata de nascença, De Tracy desertou de sua própria classe para converter-se em um dos mais importantes representantes da burguesia revolucionária da França (EAGLETON, 1997). Integrava o grupo dos ideólogos franceses, pensadores antiteológicos, antimetafísicos e antimonárquicos, isto é, críticos de toda a explicação invisível, espiritual ou extramundana das ideias humanas e inimigos do poder absoluto dos reis. Esses ideólogos eram materialistas, no sentido de apenas admitirem causas naturais físicas (ou materiais) para as ideias e ações humanas e somente aceitarem conhecimentos científicos fundados na observação dos fatos e na experimentação (CHAUÍ, 2001).

Os ideólogos franceses foram partidários de Napoleão Bonaparte no golpe de Dezoito Brumário, quando Napoleão toma o poder e institui um período conhecido como Consulado. Esse apoio advinha do fato de os ideólogos franceses julgarem Napoleão como um liberal continuador dos ideais da Revolução Francesa. Todavia, quando Napoleão começa a renegar o idealismo revolucionário, esses ideólogos, dentre os quais estava De Tracy, logo se tornam indigestos ao regime de Bonaparte, e então a própria noção de ideologia passa a ingressar no campo da luta política, pois agora significava o liberalismo político e o republicanismo em conflito com o autoritarismo bonapartista (CHAUÍ, 2001; EAGLETON, 1997).

Para os ideólogos franceses, a ideologia era a expressão teórica de uma estratégia ampla de reconstrução social, na qual De Tracy cumpria função essencial. Contra isso, a resposta de Napoleão foi ridicularizar as pretensões da ideologia e substituí-la pela disciplina da instrução militar (EAGLETON, 1997). Bonaparte passa, então, a considerar a ideologia como uma doutrina especulativa e abstrata, apartada das realidades do poder político (THOMPSON, 2011). Ele atacou os ideólogos franceses num discurso ao Conselho de Estado em 1812, após ter sido derrotado pelos russos:

É à doutrina dos ideólogos – a essa metafísica difusa que artificialmente busca encontrar as causas primárias e sobre esse alicerce erigir a legislação dos povos, em vez de adaptar as leis ao conhecimento do coração humano e das lições da história – que se deve atribuir todos os infortúnios que se abateram sobre nossa amada França (BONAPARTE, 1812 apud EAGLETON, 1997, p. 69).

Com tal declaração, surge o sentido pejorativo de ideologia, visto que Bonaparte invertia a imagem que os ideólogos nutriam de si mesmos:

Eles, que se consideravam materialistas, realistas e antimetafísicos, foram perversamente chamados de tenebrosos metafísicos, ignorantes do realismo político que adaptava as leis ao coração humano e às lições da história (CHAUÍ, 2001, p. 31, grifos da autora).

A conotação do termo muda, deixando de referir-se apenas à ciência das ideias para reportar-se às ideias mesmas, ou seja, a um sistema de ideias que, supostamente, seria equivocado, porque divorciado das realidades práticas da vida política (THOMPSON, 2011). A maneira como Bonaparte utiliza o termo ideologia obteve tanto sucesso à época que acabou entrando no linguajar corrente (LÖWY, 1989).

Não obstante, explica Eagleton (1997), se Napoleão denuncia os ideólogos franceses, na verdade é porque eles eram os adversários juramentados das velhas ideologias, fielmente empenhados em desmistificar as ilusões sentimentais e os insensatos apelos religiosos com os quais ele esperava legitimar seu governo autocrático. Mas o golpe de Napoleão é, sem dúvida, atordoante. Esse sentido pejorativo faz com que a ideologia, projetada por De Tracy como ciência positiva e eminente, digna do mais alto respeito, gradualmente ceda lugar a uma noção de ideologia enquanto corpo de ideias abstratas e ilusórias, digna apenas de desdém (THOMPSON, 2011).

Dessa forma, a ideologia nasce em De Tracy como ramo de um materialismo mecânico apegado à fé de que as operações da mente são tão previsíveis quanto às leis da gravidade, em seguida seu significado é alterado por Napoleão e assume um caráter distintamente negativo.

Depois, nas mãos de Marx e Engels, ideologia tem esse viés pejorativo e crítico preservado, passando a denotar a inversão de que as ideias são o motor da vida real, referindo-se a uma distorção do pensamento que decorre das contradições sociais, mas que se impõe sobre elas e as oculta (LÖWY, 1989; LARRAIN, 1988). Mais tarde, Marx ainda amplia o conceito de ideologia e fala-nos das formas de consciência – formas jurídicas, filosóficas, religiosas, morais, políticas, estéticas, etc. – que compõem aquilo que se designa por “superestrutura ideológica”, não sem antes efetuar uma análise específica das relações sociais no capitalismo, quando apresenta-nos o conceito de “fetichismo da mercadoria”.

Como se percebe, os escritos de Marx, especialmente, ocupam uma posição seminal na história do conceito de ideologia. Segundo Thompson (2011), foi com Marx que o termo ideologia adquiriu um novo status como elemento crítico e como componente fundamental de um novo sistema teórico, apesar de haver certa opacidade em torno das maneiras específicas pelas quais ele lidou com o conceito, como abordaremos adiante.