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Como havia dito, Carmosina chegou à salvador quando tinha ape- nas 16 anos de idade, isto é, há dez anos atrás. ela foi a única dos filhos e das filhas a deixar sua família e aventurar-se a procura de emprego na cidade. outro dado a ser registrado é que as filhas/irmãs mais velhas são aquelas que cumprem esse “papel” de deixar o lar em busca do sustento financeiro. em outras trajetórias observei também este fato. a sociali- zação das filhas tende a assemelhar-se à função da mãe na educação dos irmãos pequenos, no zelo e na responsabilidade da sustentação familiar. a categorização de gênero/parentesco descrita influi na hora da escolha da ocupação a ser exercida pelas “meninas”, articuladas a outros fatores estruturais que contribuíram para o ingresso dessas mulheres no em- prego doméstico.

Falando de sua educação familiar, Carmosina relatou-me que sua mãe era dona de casa, cozinhava, lavava e trabalhava no plantio; não era muito severa com os filhos, sobretudo, depois que seu marido a abandou por causa de outra mulher. os filhos foram educados com ajuda de seu avô. depois que este falecera, sua mãe criou os filhos so- zinha. Para garantir a educação dos filhos, irmãos, Carmosina e sua mãe contaram com uma rede de ajuda: minha mãe malmente sabia

das coisas, quem me ensinou a realidade da vida foi uma senhora que morava no interior.

também no caso da trajetória de Carmosina, ficou evidente a im- portância dessa rede de ajuda. ao sair de sua comunidade rural para salvador, o fez sob orientação de uma senhora que a conduziu ao tra- balho doméstico e empregou-a em uma casa de “família”. nessa casa trabalhou durante três anos, porém, de acordo com sua narrativa eles

[os patrões] me exploravam muito e eu nem tinha direito de falar nada, eu não sabia ler e nem escrever. Contou-me que não possuía carteira de

trabalho, não tinha folga aos domingos e “ganhava uma mixaria”. aliás, é necessário registrar, que é lugar comum as trabalhadoras domésticas re- latarem a exploração no local de trabalho. isso vem a reforçar as perversas

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categorizações que o trabalho doméstico abriga: classe, gênero, raça e geração como também já observou Castro (1991) e Kofes (1990) em suas pesquisas.

Carmosina falou-me que, devido às enormes jornadas de trabalho, adoecera; foi acometida por uma forte anemia. neste momento, uma senhora, segundo ela, morena e de meia idade, que habitava na fazenda aos redores de sua casa na área rural, ajudou-a. esta teria denunciado às autoridades legais em salvador as suas péssimas condições de trabalho e reivindicado os seus direitos trabalhistas, junto ao sindicato das tra- balhadoras domésticas. de acordo com seu depoimento:

Ela me ajudou porque eu estava com uma anemia muito forte, ela me tirou da casa [trabalho] e disse que ia ver meus direitos porque eu era de menor e que a minha fa- mília era muito pobre, da roça, e que ela ia conseguir um dinheiro para mim, pelo tempo que eu trabalhei e eles [os patrões] não pagaram. Ela entrou na justiça, a gente ga- nhou, ela me levou também no sindicato.

no relato de Carmosina, este episódio tornou-se um marco em sua trajetória. a palavra “direito” aparece, recorrentemente, na sua narrativa, sempre que se refere à situação de trabalho. esses termos colocados em relação operam como um divisor simbólico de mudan- ça em seu percurso. tanto, assim, que ao descrever o seu passado, Carmosina relembra momentos de opressão: eu era explorada, agora

eu sei dos meus direitos.

relatando ainda sobre o trabalho, Carmosina contou-me que tra- balhou em várias “casas de família”. Perguntei-lhe se nessas “casas” que trabalhara sofreu algum tipo de violência física ou sexual. segun- do seu depoimento, os seus patrões sempre a respeitaram eles nunca

fizeram nada comigo. diferentemente de outras trabalhadoras domés-

ticas entrevistadas, Carmosina não sofreu situações de assédio sexual ou tentativa de violência física praticada pelos “patrões”. referiu-se, apenas, às relações de exploração no ambiente do trabalho:

Na época eu trabalhava na casa dos outros e ganhava uma comida, um salariozinho, uma roupinha e achava que era festa, mas não era, eu trabalhava domingo, fe- riado e tudo [...] eu não sabia os meus direitos porque eu não sabia nem ler e nem escrever, depois que eu conheci Creuza (Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Do- mésticos) e depois que eu comecei a estudar eu passei a exigir os meus direitos.

outro elemento recorrente nos discursos das empregadas domés- ticas entrevistadas refere-se ao projeto de possuir uma casa “própria”. a casa passa ter uma significação importante para essas informantes, nas palavras de Carmosina: dizer que é bom não é, se eu pudesse mudar

de [trabalho] eu mudaria, porque trabalhar e morar na casa dos outros não é bom, é bom, a gente morar em nossa casa. entretanto, ter uma

casa não significa necessariamente no sentido jurídico, possuir um imóvel próprio. ter uma casa “própria” significa morar num lugar que é percebido como seu, familiar, fora da casa do empregador.

Como demonstra Castro (1991) em sua pesquisa, essa dife- renciação entre público-privado se constrói para as trabalhadoras domésticas de forma contrária às análises feministas tradicionais acerca do trabalho no âmbito doméstico. segundo a autora, enquan- to o espaço doméstico para o feminismo aparece como um lugar que deve ser desprivatizado, para as trabalhadoras, o doméstico ganha vá- rias dimensões importantes:

[...] não é ao azar que um dos vetores da essencialidade do conhecimento feminista foi a conquista do público e a desprivatização do ‘lar’, buscando a fusão dos espaços sociais [...] já as trabalhadoras domésticas organizadas, por outro lado, reivindicam a separação dos espaços, e a sua realização como membros de classe operária passa por privilegiar o público como espaço político, e o direito ao privado, pela separação lugar da residência e lugar de trabalho. (Castro, 1991, p. 4)

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no relato de Carmosina e das trabalhadoras domésticas analisadas, tal separação, também, se evidencia. várias vezes, a informante refere- -se à casa dos empregadores como um espaço público, de trabalho, a “casa dos patrões”, a “casa dos outros”; refere-se à separação, que Castro observa sobre a importância da casa como espaço privado, no projeto de ter um lar, uma casa própria, um ambiente familiar, como diz Carmosi- na, “trabalhar e morar na casa dos outros não é bom”.

Kofes (1990, p. 25-30), também observou esta problemática por outro ângulo, nos escritos sobre o trabalho doméstico assalariado. dialogando com várias autoras que escreveram sobre este tema, tal como saffioti, Jelin, abreu de souza e outras, acentua a necessidade de investigar a especificidade do doméstico como um espaço simbólico, recheado de significações e constituído de relações sociais. esse tipo de análise complementaria e enriqueceria as pesquisas sobre o tema, cujo enfoque restringe-se em identificar se o trabalho doméstico re- munerado se insere ou não nas classificações de trabalho capitalista, produtivo, improdutivo, se pertence à esfera do público ou do privado e seu caráter de classe, minimizando, assim, as representações acerca do trabalho doméstico tout court.

tais significações do trabalho doméstico, ressaltados tanto por Kofes como por Castro, vem corroborar com a análise da trajetória de Carmosina e de outras mulheres trabalhadoras domésticas investiga- das – Clementina e de Zeferina, por exemplo. o doméstico ganha, de fato, várias dimensões, além daquela tradicional da esfera pública e privada e se expressa no projeto de vida: de um dia ter um teto e uma família.

semelhante às outras trabalhadoras domésticas, Carmosina vê na educação formal um meio importante de mobilidade social a gente tem

que estudar e crescer pra ser alguém na vida. em sua narrativa, o traba-

lho doméstico é um trabalho digno, porém é um trabalho exercido por pessoas que não possuem capital cultural. Carmosina tem aspirações de mudança profissional: meu sonho é ser jornalista.

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