• Aucun résultat trouvé

Eu acho que até os 16 anos eu não tinha nenhum namo- rado, eu me lembro que eu fazia atletismo, eu era enorme, magrela, não tinha peito, não tinha bunda, não tinha nada, era muito menina, morando ali em S. Lázaro e vivia junto com os meninos, jogando bola e tal e nunca pensava em namorar. Aí quando eu fiz 16 anos eu comecei uns amores muitos estranhos, primeiro porque eu acho que os meninos não me viam como menina, como uma possibi- lidade de afetividade.

retomando a trajetória de dandara, de forma descontínua, pude observar no seu relato acima que sua vida amorosa foi estruturada por aqueles lugares sociais nos quais descrevera. a rua tem uma significação importante em seu percurso de vida, sobretudo, na construção do cor- po e da afetividade. naquele período, lembremos, dandara trabalhava “pesado” nas barracas de rua com seu pai, num espaço classificado por ela mesma como masculinizado, redefinindo, assim, algumas noções tradicionais sobre a relação entre o público e privado no que se refere ao trabalho de homens e mulheres.

além do trabalho “pesado” na rua, dandara morava com seu pai numa “barraca de madeira”, numa invasão. segundo ela, isso a tornava perigosa para as meninas que habitavam aquele bairro. afastando-se destas e da vizinhança, seu contato era mais com os meninos nas áreas de esporte, no trabalho e na rua. Como ela mesma afirma: os meninos

não me viam como menina.

a construção de seu corpo “masculinizado” em vários espaços sociais vai influenciar nas escolhas afetivas de dandara. aos quatorze

anos de idade, dandara teve um primeiro namorado, que era negro e pobre: “ele era o único menino que me olhava como menina”. depois disso, aos 16 anos, tivera outra experiência afetiva com outro rapaz. afirma que a sua situação de pobreza e sem uma família estruturada (morava sozinha com seu pai) a tornava vulnerável aos assédios sexu- ais de seus namorados. relata um episódio que retrata essa situação:

A gente começou a namorar e meu pai não sabia porque ele tinha desaparecido, ele [o namorado] achou que pelo fato de eu morar só nesta situação que tudo ia ser muito fácil... e eu falei que eu não transava com ninguém e ele veio para cima de mim e como eu vendia jaca, eu puxei o facão e falei: – não venha se não você vai embora agora.

após esse acontecimento, dandara teve outros relacionamentos afetivos, como com um rapaz negro que era um atleta conhecido no cenário baiano. Com este tivera a primeira experiência sexual, entre- tanto, logo se decepcionou, pois descobrira que seu namorado era casado com uma mulher de “pele clara” e tinha um filho. segundo seu depoimento, o seu namorado não assumia o seu relacionamento pu- blicamente, entre os colegas de equipe [atletismo] ele me tratava como

amiga. em sua percepção, isso acontecia porque eles [os seus namo-

rados] tinham constrangimento em assumir um namoro “sério” com alguém na situação social igual a dela: eles não queriam namorar com

uma menina pobre que morava na rua não tinha nem roupa para vestir.

após esse relacionamento que durara pouco tempo, dandara relacionou-se com um outro rapaz. revelou-me que nesta relação a sua paixão foi intensa, mais uma vez, havia se decepcionado com o seu parceiro. semelhante à relação anterior, seu namorado mantinha um compromisso conjugal com outra mulher e possuía um filho, o que fez romper com mais uma relação amorosa.

entre 19 e 20 anos de idade, dandara teve vários namorados, mas, segundo ela, suas relações amorosas não eram assumidas publicamen- te, isso a deixava insatisfeita. de acordo com o seu depoimento isso

132 ana cláudia lemos pacheco

ocorria porque: “eles não falam eu te adoro em público por medo da nossa cara preta, do nosso nariz, da nossa bunda, do nosso corpo que não é de mulher branca”.

assim, como as outras entrevistadas, dandara refere-se ao corpo como um lugar no qual várias relações sociais são materializadas, in- clusive as desigualdades raciais. lembremos que Clementina também se referia ao seu corpo negro e gordo como uma interdição; precon- ceito a impedi-la de entrar em vários lugares sociais e manter relações afetivas duráveis com os homens.

em 1989, dandara namorou um rapaz “de pele clara”. a relação que mantinha com seu parceiro não era publicizada, ele não a assumia publicamente perante os amigos. narrou-me que os homens negros e pobres que tivera tinham preferência por mulheres negras de “pele clara”. nesse momento, a informante aponta para mim e diz: assim,

igual a você. afirma que os homens negros têm preferência mais por

mulheres da pele clara do que por parceiras pretas, iguais a ela. acentua que na sua família, o seu pai casou-se com sua mãe, que além de jovem é uma negra da pele clara. revela que a segunda mulher de seu pai tam- bém é uma negra de tez clara, e a última, é branca, ambas pobres.

dandara se envolveu afetivamente com uma amiga que, segundo ela, era também negra e pobre. disse-me que manteve uma relação du- pla, namorava sua amiga e o namorado, ao mesmo tempo. ambas se sentiam “confusas” e se relacionavam somente nos espaços privados. depois de algum tempo manteve outro relacionamento, desta vez, foi com uma mulher branca, de classe média.

a trajetória afetiva de dandara é interessante para desconstruir- mos a ideia de que as relações afetivas instáveis são algo intrínseco, naturalizada, aos modelos hegemônicos de relações heterossexuais44

ou a de um grupo étnico-racial. ao contrário, é necessário perceber quais são os contextos sócio-históricos nos quais as escolhas afetivas

44 É interessante ver, por exemplo, o artigo de Uziel (2002), em que a autora discute a adoção de crianças por homossexuais homens. Nesse artigo, a autora também de- monstra que o celibato entre homens é visto pela lei como uma ameaça para a socie- dade, devido a suposições socialmente construídas em torno da instabilidade afetiva e a rotatividade de parceiros, ameaçando a constituição da família.

estão estruturadas. ou melhor, atentar para a dinâmica e o intercâmbio de como certos marcadores sociais, entre estes, o de gênero e o de raça, po- dem ter significados diferentes em situações diversas e locais. a solidão afetiva das mulheres analisadas é mais um campo de possibilidades como outro qualquer.

na trajetória de dandara, a dinâmica desses marcadores sociais descritos anteriormente é perceptível na continuação de seu relato. até os 25 anos de idade, dandara teve várias relações afetivas instá- veis, primeiramente com homens negros ou de “peles claras”, pobres, posteriormente com mulheres negras e brancas, e também com um

cara branco mesmo, que era gay, nós tínhamos muita coisa em comum, mas não era isso que eu queria.

no entanto, quando a informante fala de sua trajetória afetiva-sexual constrói uma diferenciação entre antes e depois de sua atuação políti- ca no movimento negro. a prática política é uma fronteira simbólica importante nos discursos das ativistas aqui analisadas. seus percursos sociais e políticos são importantes elementos definidores e redefinido- res de suas escolhas afetivas. isso fica evidente na continuação de relato de dandara.

Quando eu fui para a Europa eu me distanciei desse re- ferencial do movimento [negro], eu vivia no país que ba- sicamente só tinha branco, lá na Áustria [...] aí quando eu retornei para o Brasil. Ao mesmo tempo, que eu tomei um choque eu não queria entrar num relacionamento somente porque a pessoa era negra, eu tinha que ter uma afetividade e eu tinha que resolver um problema que eu tinha vivido enquanto eu estava aqui em 1993. Aí, em 1998, depois que eu retornei da Haward, eu tive uma conversa com pessoas do movimento negro, esta conversa foi decisiva para eu voltar para casa e eu saber que eu não podia continuar mentindo em minha vida, e que para eu estar com uma pessoa a cor era definitiva e que a questão racial era fundamental [...]. Em 1998, eu voltei para casa e falei com essa pessoa, que era a minha companheira

134 ana cláudia lemos pacheco

branca, terminei o relacionamento, esta pessoa não en- tendeu nada.

aos 25 anos de idade, dandara reorienta o curso de sua preferência afetiva. Para ela, essa idade foi um marco simbólico definidor de sua afetividade. Perguntei-lhe por que. em 1998, já inserida no movimen- to negro, dandara conheceu uma mulher negra, cujo relacionamento afetivo durou seis anos. esta seria a sua primeira relação afetiva estável, diferentemente das anteriores – dos 16 anos até os 25, eles não me as-

sumiam publicamente.

essa relação afetiva foi importante para dandara porque, segun- do ela, houve “troca”, cumplicidade e assunção pública, ou seja, pela primeira vez em sua vida dandara esteve com alguém sem escondê- -la do mundo público, das pessoas, dos amigos. não quero dizer, com isso, que tal relação foi possível porque foi com uma “mulher negra”, mas é necessário perceber vários significados de modelos de relações afetivas, de gênero e de outras relações sociais nelas contidas que favoreçeram esse fato.

em vários momentos da entrevista, ao fazer uma leitura de sua trajetória, ela própria teria acionado tais relações ou categorias para re- ferir-se à sua instabilidade afetiva com os seus parceiros/as. Primeiro, lembremos, a informante relata que desde a juventude (quando tinha 16 anos de idade) seu corpo havia se “masculinizado” (os meninos não

me viam como menina), não só pelas características de seu corpo físico,

alta, “magrela”, “sem bunda”, “sem peito”, como também, pela situa- ção social que se encontrava. Morava no “barraco”, na rua, inicialmente com seu pai, depois sozinha, tendo inclusive de se utilizar da violên- cia física (eu peguei o facão) para se defender das investidas sexuais dos rapazes. depois, desenvolvia atividades atléticas em ambientes consi- derados masculinos, onde havia mais homens do que mulheres. em relação ao trabalho, exercia funções consideradas “tipicamente” mas- culinas: carregava caixas de cervejas na cabeça a noite toda.

em seu estoque discursivo, dandara atribui aos “lugares sociais” as ra- zões estruturais de suas preferências afetivas. isto fica evidente quando

a informante aciona várias categorias para interpretar seus percursos sociais, políticos e afetivos. a sua “feminilidade masculinizada” 45 é

construída a partir de vários marcadores de classe, gênero, raça, gera- ção e sexualidade. isto se evidencia quando dandara refere-se aos seus parceiros/as afetivos. Quando era jovem, namorava homens negros de “pele clara” e “brancos mesmo”. Porém, seu modo de vida era uma

menina pobre que não tinha roupa, não tinha nada fazia com que esses

homens não assumissem seu relacionamento publicamente. Com algumas mulheres que namorou, negras e brancas, sofria o mesmo tipo de constrangimento social, segundo seu depoimento, não apenas por- que era pobre e negra, mas porque era homossexual. isso a impedia de assumir os relacionamentos em público: até os 25 anos eu nunca tinha

vivido uma coisa de afetividade onde as pessoas não tivessem problemas em estar comigo em público.

a assunção pública para dandara é carregada de significado, não mostrar-se em público, significa uma relação passageira como outra qualquer, baseada no desejo sexual, não no compromisso, no amor e no companheirismo. esses significados foram materializados no cor- po “masculinizado”, “racializado”, por exemplo da sexualidade e da pobreza que marcaram sua trajetória. assim, sua solidão afetiva que ela, metaforicamente, chamou “o olho do furacão” é resultante desses intercâmbios conflitantes de categorias vivenciadas em vários contex- tos e situações culturais que percorrera.

após ingressar no Movimento negro e no Movimento de Mulheres negras, dandara reorienta sua afetividade para uma só direção, só se re- laciona com mulheres negras. em sua percepção, suas escolhas estariam agora redefinidas, porém, não isentas de conflitos. ao relatar outras re- lações afetivas que contraíra com outras mulheres negras na atualidade, apresenta novas barreiras nessa relação. disse-me que por ser uma pes- soa pública, com muita visibilidade – na televisão, na imprensa escrita

45 A expressão feminilidade-masculinizada está sendo utilizada análoga àquela utilizada por Souza (2002) em seu artigo sobre adolescência corpo e violência nas escolas. Nesse artigo, a autora adota a expressão “masculinidades femininas” para entender como as adolescentes ressignificaram práticas sociais e corporais ditas masculinas, como o esporte e a violência.

136 ana cláudia lemos pacheco

– uma grande liderança negra, isso cria tensões em suas novas relações afetivas com suas parceiras. segundo seus depoimentos:

Depois do relacionamento que tive em 2001, eu me en- volvi com uma outra pessoa, eu fiquei mais ou menos 6, 7 meses e foi super-legal, também era uma coisa muito gla- murosa, duas mulheres negras lindas, maravilhosas, inte- ligentes, com o texto na ponta da língua. Este nosso brilho causou algum atrito entre nós, porque em todo lugar que você chega tem muita gente querendo falar com você, isso prejudicou a minha relação.

[...] Talvez eu esteja ficando muito exigente, sei lá depois dos trinta anos, eu quero uma relacionamento com qualidade, eu já pensei até em namorar com alguém que come feijão com arroz, vê novela e fala normalidade, até já tentei, mas não dá certo, eu falo do conteúdo da conversa.

esses últimos depoimentos são ilustrativos de como as categorias raça, gênero, classe, sexualidade e outros marcadores, como geração (a idade) e política podem delinear as preferências afetivas das pes- soas, as suas subjetividades a depender da posição que ocupam em certos contextos históricos e específicos. vimos que nessa trajetória há pontos em comum com Clementina: são mulheres negras solitá- rias e ativistas; de origem social e familiar calcada na pobreza; foram e são trabalhadoras domésticas; provieram do interior; seus familia- res foram trabalhadores braçais; passaram por discriminação racial, assedio sexual e preconceito no trabalho, bem como violência social e simbólica materializada nos corpos “masculinizados” e racializados. entretanto, através de redes familiares, ambas persistiram nos estudos, na formação educacional. nesse ponto, as trajetórias se separaram por- que o grau de investimento ancorado nas redes familiares – em maior ou menor grau – e na “performance” das entrevistadas operaram no sentido de possibilitar a uma das informantes, por meio da educação, posições socialmente valorizadas (viajar para o exterior, falar línguas)

na estrutura social, tornando-se educadora, socióloga e pós-graduan- da, enquanto a outra informante permaneceu no trabalho doméstico, por falta de maiores investimentos de capital cultural.

as diferenças de capitais culturais entre as duas informantes pro- vocaram afastamentos em termos de trajetórias, se pensarmos que para Clementina “as acadêmicas” e as feministas (negras) são diferentes do ponto de vista das hierarquias sociais em relação às trabalhadoras do- mésticas, que têm baixa escolarização e baixo investimento de capital sociocultural. além disso, a construção da sexualidade de cada uma se deu de forma oposta, uma confirmando os padrões hegemônicos de heterossexualidade e a outra contrariando o padrão afetivo normati- vo de escolhas sexuais, passando pelas construções de “feminilidades masculinizadas”. aqui, os “nós” mulheres negras se separam, mesmo havendo pontos em comum entre elas.

a prática política de dandara e Clementina foi importante na ressignificação das relações de denominação através do corpo, da es- tética, da religião, das mudanças de atitudes em relação ao outro, das escolhas afetivo-sexuais, porém criando tensões nos relacionamentos amorosos, principalmente no campo político e contribuindo para sua instabilidade afetiva. É o que veremos na próxima história.

Documents relatifs