RETOMANDO O CONTROLE
SOBRE O ENCARNADO
Realmente, não tardou muito tempo, depois de ter sido reconduzido à via pública, para que Jefferson se apresentasse ao lado de sua vítima, como que a buscar retomar o processo de influenciação.
As primeiras tentativas se fizeram infrutíferas.
Luiz, favoravelmente impressionado pelas emissões magnéticas de elevado teor desfechadas a seu benefício pelos Espíritos generosos que o estavam amparando, não aceitou o abraço fluídico que Jefferson lhe estendera.
A entidade, percebendo que algo havia acontecido, passou a vociferar como se falasse sozinha, desafiando seres que ela não via, gritando:
— Pois vocês não pensem que vão conseguir ganhar esta, "facinho" desse jeito. Ah! Isso é que não vão. Este imbecil me pertence e será meu instrumento para tudo o que eu deseje praticar. Se está com peso na consciência, isso não vai durar mais do que algumas horas. Ainda hoje voltarei a cuidar do meu patrimônio.
Daquele local de vibrações pesadas e desagradáveis, Jefferson saiu, deixando Luiz com seus pensamentos sintonizados em outra faixa, uma faixa de energias positivas.
Mobilizando os seus contatos com outras entidades grosseiras e maléficas, conseguiu induzir uma jovem prostituta que fazia ponto naquela região e se valia das mesmas habitações, para que viesse até a porta do quarto, como a verificar se estava sem ocupantes.
Seus trajes minúsculos e provocantes e a exuberância de suas formas seriam a isca que Jefferson usaria para retomar a sintonia com Luiz.
Não se haviam passado mais do que trinta minutos, então, quando o rapaz escutou suaves batidas na porta. Procurou compor-se adequadamente e foi atender.
Assim que abriu, deparou-se com o rosto curioso da jovem que, desejando saber se o quarto estava disponível, investigava sobre seus ocupantes.
Ao mesmo tempo, Jefferson se postava ao lado de Luiz para retomar a influência no domínio de seus pensamentos e desejos.
— O que você quer? — perguntou o rapaz, pensando se tratar de alguém que estivesse desejando tirar-lhe o quarto. Já paguei por este apartamento...
— Ah! Tudo bem, moço, não queria incomodar. Só estava vendo se havia alguém aqui dentro.
— Sim, agora você já viu... — falou secamente... com raiva da situação.
E enquanto estava se irritando com a presença da jovem e esbelta mulher em trajes sumários, Jefferson se associou à sua mente e exclamou, imperativo:
— Se você não é "gay", por que não aproveita e mostra isso com a mocinha? Veja como ela é bonita e está aí, oferecida...
Luiz não escutou as expressões vulgares da entidade, mas, no fundo de seus pensamentos, uma idéia lhe brotou, aliviando o peso de suas culpas.
“Puxa, nada melhor do que manter uma relação heterossexual para limpar-me do contato promíscuo que acabei de ter. Assim, pelo menos, posso me sentir normal...”
— Isso mesmo, mostre que você é macho, que é homem, que não está no rol dos que viraram a casaca... — respondia, mentalmente, a entidade, influenciando seus interesses sexuais. — Veja como ela é sedutora e provocante....
E enquanto falava isso, em uma fração de segundos, a entidade passou a acariciar a região genésica do rapaz, como a estimular suas forças sexuais para despertar seu interesse no envolvimento com a moça.
Sentindo-se provocado em sua masculinidade e desejando provar para si mesmo que não se enquadrava no rol dos homossexuais, Luiz passou a olhar a moça com outros olhos e, adocicando a voz, alongou a conversa que, momentos antes, se preparava para terminar, com o fechamento da porta no rosto da jovem.
— Puxa, será que eu não a conheço? Você é tão bonita... está sempre por aqui? Sabendo usar sua beleza como isca para ganhar a vida, a jovem percebera o interesse do rapaz e, de imediato, aceitou o pequeno joguinho que, segundo suas experiências pessoais, ela bem sabia onde iria terminar.
— Passo por aqui, de vez em quando, mas não me lembro de tê-lo encontrado. — Prazer... meu nome é Luiz — disse o rapaz, estendendo a mão para a moça. — Prazer, Luiz, meu nome é Carla...
— Entre um pouco....
— Ah! Não quero incomodar... — respondeu a moça, fazendo um pouco de charme.
— Você não incomoda, Carla. Ao contrário, só pode me dar prazer....
E dizendo isso, Luiz puxou a moça, delicadamente, para o interior do quarto, onde, por mais algum tempo ambos permaneceriam para os contatos íntimos e superficiais, durante os quais todo o cuidado dos amigos invisíveis se perderia e Jefferson restauraria as ligações magnéticas com o seu associado de prazeres.
Quando os dois se despediram, já se podia perceber claramente que ambos, o encarnado Luiz e o desencarnado Jefferson, em verdadeira simbiose, estavam novamente integrados reciprocamente, sem se poder dizer quem é que falava ou agia.
Sentindo-se feliz consigo mesmo, Luiz aceitara a companhia do Espírito obsessor que o manipulava facilmente, valendo-se de sua fragilidade sexual a fim de usá-lo como arma na realização de seus planos.
— Viu como você é homem? — afirmava, mentalmente, a entidade inteligente. — Sim, eu não sou "gay"... apenas me divirto, de vez em quando....
— Isso mesmo... diversão é só diversão... — repetia a entidade, concordando com seus pensamentos.
E não pretendendo perder a chance de tal entrosamento, Jefferson apresentava a Luiz a idéia de abordar Glauco para esclarecer aquele flagrante no qual se vira envolvido.
— E você, sendo homem, como é que Glauco vai ficar com a imagem de um cunhado maricas? Ele pode usar isso para denegrir você, falar de você para todo mundo, jogar seus parentes contra você...
Imediatamente, nos pensamentos de Luiz, a figura de Glauco brotou do fundo de suas lembranças, identificando-lhe o rosto assustado e surpreso, além dos gestos de repulsa que, involuntariamente, externara nos rápidos minutos em que puderam se ver, naquela noite de jogos sexuais no interior do carro, estacionado em rua sem movimento.
“Sim, o maldito Glauco está pensando que me tem em suas mãos...” — pensava
o moço, perturbado em seu equilíbrio.
Claro, Luiz, ele vai acabar com sua vida, revelando sua conduta para os seus amigos... Você vai deixar que isso aconteça? — manipulava suas idéias, o Espírito perturbador.
Identificando como suas as idéias que lhe chegavam ao pensamento, como se estivesse falando consigo próprio, Luiz continuava.
— Maldita hora em que minha irmã se arrumou com esse cara. Agora, sentindo-se dono de um segredo, pode pensar tirar o proveito que quiser, imaginando que pode me usar. Isso é que não....
Em sua personalidade arrogante, orgulhosa e altiva, Luiz começava a assimilar a idéia de ir até seu cunhado para colocar as coisas em pratos limpos.
Naturalmente que teria que admitir a sua presença naquele local suspeito, mas, de qualquer forma, poderia inventar um motivo plausível para aquele encontro e, sem atinar para o inexplicável da situação, arrumaria uma desculpa para aquele descuido, para aquela experiência passageira, sem maiores repercussões em sua vida.
Não poderia ficar fugindo do cunhado a vida inteira, como se tivesse cometido algum grave delito.
Iria procurar Glauco e, de homem para homem, conversariam. Obviamente, odiava aquela situação e essa necessidade de entrevistar-se com o cunhado que sabia de suas práticas clandestinas.
— Isso mesmo, Luiz, você acabou de provar a si próprio que é tão macho quanto qualquer outro homem. Não tem que temer nada nem ninguém. Além do mais, Glauco também é uma pessoa cheia de defeitos e fraquezas, não sendo justo que se sinta mais do que você! — falava-lhe Jefferson ao pensamento.
“Glauco não é mais do que ninguém...”, pensava Luiz, respondendo aos termos
mentais sugeridos pelo Espírito trevoso. “Eu me lembro do trabalhão que deu para
Gláucia, quando ele se envolveu com uma mulherzinha qualquer que, segundo correu notícia na época, tinha até engravidado dele. Como é que um cara desses vai querer botar banca pra cima de mim?”
Todas estas justificativas corriam por conta da imaturidade de Luiz e das influências de Jefferson que, aproveitando-se da leviandade do rapaz, fazia seus sentimentos migrarem da sua condição de agente leviano para o terreno de vítima.
Deliberou, então, procurar Glauco em algum lugar distante de sua casa para, passados mais de um mês daquele flagrante inusitado, conversar com o futuro cunhado, de homem para homem.
Luiz voltava para casa, naquela noite da oração familiar, chegando depois que Glauco já tinha se despedido e seguido para seu apartamento.
— Esperamos por você, meu filho, achando que fosse dar tempo para sua participação em nossa prece — falou Olívia, carinhosa.
— Ah! Mãe, os compromissos me impediram... mas quem sabe, da próxima, eu consigo chegar.
— Tudo bem, Luiz, esperaremos pela próxima. No entanto, não se permita viver sem um apoio espiritual, sem algum alicerce mais nobre porque a vida é traiçoeira e as relações sempre cheias de armadilhas e espinhos.
— Certo, mãe. Na próxima semana vou tentar.
Sabendo que não era do perfil de seu filho aceitar reprimendas, Olívia se deu por satisfeita e deixou que Luiz se dirigisse para o quarto, visando o repouso da noite.
Nos próximos dias, Jefferson, que estava a serviço da Organização, prepararia no íntimo das emoções e pensamentos de Luiz o ambiente necessário para que fosse instrumento adequado no envolvimento de Glauco nas teias da perseguição espiritual, ainda que o noivo de Gláucia, a pouco tivesse se saído muito bem durante a tentativa da implantação dos corpos ovóides em sua atmosfera vibratória.
A partir de então, na mente de Luiz, o cunhado seria o objeto de seus pensamentos inferiores, no desejo de não mais permanecer sob o domínio do temor de se sentir revelado, principalmente quando pensava que sua condição de heterossexual deveria prevalecer numa luta constante e sofrida entre suas condutas homossexuais e o medo da
repressão ou repulsa social. Com base nesse temor, que Jefferson fazia crescer com a ação intuitiva a envolver os pensamentos de sua vítima, Glauco surgia como a pior ameaça à sua tranqüilidade, porque seria capaz de acabar com a sua farsa.
Por isso, a mente do rapaz seguia bombardeada pelas intuições escravizantes do Espírito com quem sintonizava, jogando com suas tendências sexuais, empurrando-o ora para a homo ora para a heterossexualidade.
Jefferson, então, organizava a ação das entidades sedutoras, Espíritos de homens e mulheres que, qual chusma de viciados, estavam sempre dispostos a se valerem das energias de Luiz para o abastecimento de seus próprios anseios de gozo.
A noite do rapaz, assim que o corpo adormecesse, se via povoada Dor encontros eróticos, clandestinos e excitantes, com comportamentos arrojados e alienantes, manipulados pelos Espíritos que Jefferson conduzia, nas diversas práticas obsessivas.