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4.2. Exploring the Google+ API
4.2.1. Making Google+ API Requests
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artuscElli1O século XIX traz, tanto ao Brasil como a Portugal, momentos de viragem histórica que afetam os ânimos, se não mesmo a própria tradição política dos países. Posteriormente à independência de 1822, verifica-se um espírito de prosperidade e otimismo no meio intelectual brasileiro, ainda que influenciado pelo ambiente inter- nacional. À medida em que a América, ou mais especificamente, os Estados Unidos passam a ocupar um lugar de importância política, económica e cultural no mundo, outros países daquele continente, o Brasil incluído, modelam-se no sucesso do vizinho “do andar de cima”. Tal fenómeno ajudou ao optimismo de mirar o continente não mais como “novo mundo”, isto é, lugar “descoberto” pelos eu- ropeus, assim como era o imaginário americano até então, de modo que passou a assumir-se como nova hegemonia no mundo ocidental. Nessa época, meados do século XIX (em 1867 especificamente), Ale- xandre Herculano afirma, com relação ao Brasil, que era “a nossa melhor colónia [...] depois que deixou de ser colónia nossa” (apud BARBOSA, 2002, p. 10). Tal afirmação irónica permite a assunção
de um Brasil próspero, bem como da manutenção de uma relação intrínseca entre a ex-colônia e o ex-colonizador.
Ao correr dos anos, quando a ideia de República começa a tomar forma no país sul-americano, a relação entre Portugal e o Brasil pa- rece sofrer certa instabilidade – sobretudo no que tange a questão das identidades nacionais –, como se depreende de uma afirmação menos lisonjeira de Fradique Mendes, heterónimo de Eça de Queirós, ao brasileiro Eduardo Prado. Datada de 1888, portanto, um ano antes da proclamação da República, o português lamenta o facto de o Brasil ter perdido a chance de “fundar a civilização especial que lhe apete- cesse” (1966, p. 26). Fradique dá-nos permissão para interpretar sua decepção quanto ao espírito de efervescência dos anos de 1820 e 1830, aquando da independência do Brasil – ainda que com a manutenção do império dos Bragança –, numa tendência de esvaimento até um sentimento de fracasso com relação aos seus vizinhos e consortes europeus, todos eles já republicanos. A proclamação da República serviu, de certo modo, para renovar o sentimento de esperança e de prosperidade, ainda que alguns intelectuais, como o próprio Eça/ Fradique e Eduardo Prado, duvidassem do sucesso do novo regime. Ainda na opinião de Fradique, na mesma carta de 1888, “livres dos seus dois males de mocidade, o ouro e o regime colonial, tiveram um momento único, e de maravilhosa promessa [...] os brasileiros [que] podiam nesse dia radiante, fundar a civilização especial que lhes apetecesse [...] e fazer dele, à vontade, uma vasilha ou um deus [...] [T]enho a impressão que o Brasil se decidiu pela vasilha” (QUEIRÓS, 1966, p.26).
Do período pós-independência até a proclamação da República, merece ser apresentado o modus vivendi da sociedade brasileira, ou
Idade de Ouro do Brasil e a revista literária baiana, As Variedades /ou/ Ensaios de Literatura, por exemplo) foram concebidos e criados por
portugueses, conscientes do papel da imprensa como formadora de opinião. O próprio D. Pedro I (D. Pedro IV em Portugal), segundo aponta João Alves das Neves, teria contribuído como jornalista antes e depois da independência, portanto, enquanto príncipe e imperador, sob pseudónimos jocosos como “Simplício Maria das Necessidades, sacristão da Freguesia de São João de Itaboraí” (NEVES, 1992, p. 18), ou “O inimigo dos marotos” (sendo que os “marotos” eram os portugueses); “Piolho Viajante”, em referência ao personagem pica- resco do romance de mesmo nome, “‘O Anglo-Maníaco e, por isso, o Constitucional Puro’, ‘O Espreita’, ‘O Ultra-Brasileiro’, ‘O Filan- tropo’, ‘o Derrete-Chumbo a cacete’, etc.” (NEVES, 1992, p. 19). D. Pedro era um articulista “cáustico, irreverente”, cujos pseudónimos já permitem entrever, que escrevia o que pensava, denunciando situações e pessoas públicas e privadas, sem se preocupar com as consequências. Mais surpreendentemente, documenta-se de uma entrada de seu diário pessoal, datada de 31 de dezembro de 1861, que o nobre regente teria preferido dedicar-se “às letras e às ciências” e ocupar o cargo de presidente da República ou de ministro a ter de ser imperador do Brasil (apud MAURO, 1991, p. 184).
Tais afirmações não parecem descabidas do ponto de vista do pensamento progressista, liberal e, porquê não?, americano da época. De outro diário, este do abolicionista André Rebouças, por exemplo, assíduo frequentador do Paço Isabel – habitação da princesa Isabel, quem assinou a Lei Áurea, e de seu marido, o conde d’Eu, o general vitorioso na Guerra do Paraguai (1864-1870) – descobre-se que o ambiente e o gosto da mobília e do vestuário dos anfitriões eram mais parecidos com os “salões de um burguês fino e bem educado”
(MAURO, 1991, p. 193), do que propriamente de uma família real. Ainda em outra ocasião, é o escritor britânico William Hadfield quem assinala, sobre as receções do casal real, que eram “[a] mélange of Royalty and Democracy probably not to be found in any other cou- ntry in the world” (Mauro, 1991, p. 198). Os salões de festa eram espaços democráticos onde conviviam tanto conservadores como liberais, nobres e burgueses, abolicionistas e donos de escravos. Tais reuniões compunham o retrato social do que era o Brasil pós-indepen- dência. Cabe sublinhar, entretanto, a visão que o próprio D. Pedro II tinha de seu papel político, combinada com a postura da família real na sociedade: o ambiente era informal para os padrões europeus de etiqueta. Como anfitriões, eram receptivos aos monarquistas e anti- monarquistas. O imperador tinha fama internacional de revolucio- nário, uma vez que preferia ser presidente de República ou ministro parlamentar. Eça de Queirós documenta esse momento brasileiro nos seguintes termos, num artigo que assina como “João Gomez” na
Revista de Portugal:
A surpreendente facilidade com que a República se subs- tituiu ao Império provém de que há muito no Brasil nada separava a República da Monarquia – senão o Impera- dor. E o Imperador tinha-se a tal ponto desimperializa- do, que entre Monarquia e República não havia realmen- te senão um fio – tão gasto e tão frouxo, que, para o cortar dum golpe brusco, bastou a espada do marechal Fonseca. Todo o mundo no Brasil era republicano [...]. O próprio Impe- rador, por vezes, em viagem, nas salas de hotel, se declarava republicano. (1889, p. 778)
Para além de um modus vivendi em que a nobreza se misturava com a burguesia, em que os conservadores e os liberais conviviam sob o mesmo teto, o tema geral das discussões entre a camada pensante no país era o conceito de nacionalidade, ou de identidade brasileira. José Veríssimo é um dos pensadores que relacionam intrinsecamente a movimentação política com a literária no Brasil, sem se esquecer do papel de intelectuais portugueses na formação desse país novo. Para o crítico, a geração de escritores imediatamente posterior à geração dos românticos, portanto, a dos realistas-naturalistas, contempo- rânea à República, compõe o movimento de ideias ligado ao “positi- vismo comtista”, ao “transformismo darwinista”, ao “evolucionismo spenceriano” e ao “intelectualismo de Taine e Renan” (1978, p. 170). Viu-se o desabrochar de um espírito crítico e a liberdade de pensa- mento, depois de “[s]ucessos de ordem política e social, e ainda de ordem geral” (VERÍSSIMO, 1978, p. 169), tais como a queda do se- gundo Império napoleônico e a proclamação da República francesa, em 1870, e a República espanhola de 1873. Esses acontecimentos e a vitória do Brasil na guerra contra o Paraguai influenciaram a movi- mentação republicana, bem como o exemplo dos países latino-ameri- canos. Anote-se também a presença cultural portuguesa, cujas ativi- dades da Geração de 70 introduziram no Brasil o referido pensamento de influência comtista, darwinista e spenceriana. Os portugueses, segundo o testemunho de Veríssimo, “atuaram poderosamente na nossa mentalidade”, afirmando ainda que a Questão Coimbrã, ou “Do Bom-Senso e do Bom-Gosto”, ocorrida por volta do ano 1865, “teve certamente muito maior repercussão na mentalidade literária do tempo” (VERÍSSIMO, 1978, p. 173). Ainda que incitado com tantos exemplos de mudança política ao redor do mundo, anote-se que ao Brasil faltava o espírito de autoconfiança, o espírito de nacionalidade
ou de identidade. Adoptar as ideias e os ideais europeus era fácil, mas adequá-los à realidade do país era um desafio.
O facto de ter vencido a guerra contra o Paraguai de certo modo ajudou o Brasil a ter mais autoconfiança enquanto nação. Para além do poder político e diplomático decorrente do fim da guerra, o que deu prestígio internacional ao país, para Veríssimo, facilitou ainda a coesão, isto é, a manutenção do território brasileiro como um só. Tal opinião é de interesse porque, com a proclamação da República, o que aparece nas páginas da Revista de Portugal, dirigida por Eça de Queirós, inclusive no seu referido artigo assinado sob o pseudónimo de João Gomez, é o temor – ou mesmo a (falsa) premunição – de que os estados do Brasil iriam acabar por se dividir e que o país iria passar por diversos conflitos e guerras separatistas.
Ainda assim, a mudança de regime poderia trazer uma mudança política (que não ocorreu exactamente!) e, por conseguinte, uma queda no sempre almejado prestígio internacional. Lembre-se que, sob o regime imperialista, o Brasil tinha entrado para o hall das nações “civilizadas”, superior, aliás, a seus vizinhos latinos. A tendência para uma interpretação de que houve um afastamento do país com relação a Portugal no século XIX pós-independência dá-se como resultado da construção de uma história que é mais próxima da ordem da representação transformada em imaginário.
O exemplo da figura de Eça de Queirós no Brasil se presta ao ar- gumento de que havia um reconhecimento mútuo, uma cultura luso-
-brasileira. Nas palavras de Cassiano Nunes,
Qual dos nossos escritores [brasileiros] podia suportar um cotejo com os maravilhosos estilistas, argutos psicólogos e finos artistas que, na ocasião, dominavam, com Flaubert,
Zola, Maupassant e Daudet, e ao mesmo tempo ser popular? Nenhum, sem dúvida, pois o extraordinário Machado de As- sis, com o seu amargo desencanto e a sua sutileza requintada, só muito mais tarde seria compreendido e Alencar servia ape- nas para uso interno. Apareceu, então, Eça de Queirós, alma ensolarada, meridional, crítico de costumes, criador de tipos, trazendo nas mãos jovens o facho das ideias novas e usando o idioma com um senso estético até àquela época ignorado. (apud TOLOMEI, 2010, p. 106-107)
Além de os brasileiros adotarem Eça como representante, em língua portuguesa, de um pensamento e de uma geração, na linha do hibridismo cultural, que pode ser compreendido como os fluxos, as redes e os processos, os brasileiros não podiam achar graça das críticas aos portugueses, pois reconheciam os personagens de Eça de Queirós na sua própria sociedade que, aliás, era muito maior. Ate- nham-se, por alguns momentos, a referentes que podem ser consi- derados de hibridismo cultural, com base ainda nos escritos de Eça e também Fradique, como a questão da figura do “brasileiro” de tor- na-viagem e do brasileiro enquanto cidadão do país sul-americano. Retomando o exemplo de Fradique Mendes na referida carta a Eduardo Prado datada de 1888, sublinhe-se que o heterónimo de Eça reivindicava um Brasil e um brasileiro com “uma identidade tropical quase adâmica […] em que de certa forma se antecipam valores e representações que o primitivismo modernista do século XX tratou de reclamar”, na opinião de Carlos Reis (2001, p. 86). Ao satirizar que “[a]penas as naus do senhor D. João VI se tinham sumido nas névoas atlânticas, os brasileiros, senhores do Brasil, abandonaram os campos, correram a apinhar-se nas cidades e romperam a copiar
tumultuariamente a nossa civilização europeia, no que ela tinha de mais vistoso e copiável” (QUEIRÓS, 1966, p. 100), o português dá algumas pistas de hibridismo cultural, o que vai além da noção de cópia. Trata-se de lidar com uma complexa, para não qualificar de traumática experiência da colonização, do processo de reprodução de tradições advindas da hierarquização colonizador-colonizado, que posteriormente deixam de aceitas por parte do colonizador, uma vez que perde seu estatuto de dono da terra e de tudo que nela há. A opinião de Fradique não parece deixar de estar carregada de um olhar do colonizador que ridiculariza a aculturação do colonizado, processo que é inevitável, aliás. Percebe-se desse modo um confli- tuoso processo de hibridização devido à “descolonização”, marcado tanto pela “assimilação” como pela “disparidade” entre colonizador e colonizado. Fradique sublinha o “inapropriado” dessa nova identi- dade brasileira: “Os velhos e simples costumes foram abandonados com desdém: cada homem procurou para a sua cabeça uma coroa de barão, e, com 47 graus de calor à sombra, as senhoras começaram a derreter dentro dos gorgorões e dos veludos ricos” (QUEIRÓS, 1966, p. 100). Não há como não deixar de lado uma visão colonizadora quando exige do Brasil uma singularidade perante o mundo. Desse modo, Fradique Mendes entende o termo “novo mundo” como com- pletamente original, sem influências externas: “no dia ditoso em que o Brasil, por um esforço heróico, se decidir a ser brasileiro, a ser do Novo Mundo – haverá no Mundo uma grande nação” (QUEIRÓS, 1966, p. 102, grifo do autor).
O Brasil foi colonizado sobretudo pelos portugueses e, mais ainda, foi local de moradia da Coroa por quase todo o século XIX, desde a transferência da Corte ao Brasil (1808) até a proclamação da Repú- blica (1889). Compreende-se que, ao envergar a casaca do europeu,
o brasileiro irá perder parte de sua própria vestimenta – aquilo do que reclama Fradique. Mesmo que um indivíduo logre assimilar-se à cultura do colonizador ou hibridizar-se de modo a ser aceito como um par – tal é o caso de alguns pensadores que iam e vinham da Europa como agentes do pensamento brasileiro no mundo –, a nação, como um todo, ainda assim, não era aceita como assimilada.
Nessa mesma linha, anote-se que no conhecido estudo de Gilberto Freyre, Ordem e Progresso, o autor argumenta que “houve no passado um estilo brasileiro de sociedade baseado no patriarcalismo, com seus atributos de personalismo, familismo e privatismo, atributos esses que são despóticos e segregadores de um lado, mas democrá- ticos e inclusivos de outro. É a dialética desses pólos que tem ga- rantido a longevidade do patriarcalismo brasileiro” (apud OLIVEIRA, 2001, p. 200). Essas observações dialogam com as tradições herdadas do processo de colonização. Se antes da urbanização e “europeização do Brasil” (OLIVEIRA, 2001, p. 201) o patriarcalismo agrário dava ao senhor de terras autoridade centralizada na sua figura, com sua decadência, depois, o Estado passou a criar sistemas burocráticos que acabaram por minar o poder pessoal do chefe de família. De uma sociedade “moura e Africana, já que o português era também pouco europeu […] [sem] ‘ideais absolutos, nem preconceitos inflexíveis’” (OLIVEIRA, 2001, p. 201), o Brasil passou a uma sociedade burguesa, em que o conhecimento ia delinear a nova hierarquia social. Tanto o Estado quanto o Mercado se mostraram como “locus de uma mo- dernidade híbrida”, num “tempo plural” (OLIVEIRA, 2001, p. 202). Por tempo plural pode-se entender a aparente contradição em que a República era uma “continuação sociológica do Império” (OLI- VEIRA, 2001, p. 202), ainda nas palavras de Freyre. O Brasil manteve os valores tanto de ordem (conservação) quanto de progresso (mu-
dança) na sua estrutura social. Nesse contexto, em que a estrutura da sociedade se desenvolve numa zona cinzenta, híbrida, ao invés de zonas antagônicas, pode-se pensar num país “europeizado” que, entretanto, abre espaço para o singular nacional (e a convivência dos intelectuais mestiços com bacharéis, aristocratas e reformadores sociais, todos “doutores”, para voltar a referir Fradique Mendes).
No lado português, refira-se o Novos Factores da Política Portuguesa, também assinado por Eça de Queirós. Originalmente publicado na
Revista de Portugal, em abril de 1890, o autor faz uma reflexão em que
relaciona o recente Ultimatum inglês com o crescimento do interesse da população portuguesa pelo republicanismo. Não se tratava, na sua opinião, de um interesse genuíno acerca das ideias republicanas, mas de um reflexo do ambiente português pós-Ultimatum. “[A]ntes qualquer outra coisa do que o que está!” (QUEIRÓS, 2007, p. 7), era expressão, nas palavras do autor, que mais comumente se ouvia nas ruas. O articulista sublinha inclusive a descrença em novos políticos, devido a um “sentimento desalentado” geral (QUEIRÓS, 2007, p. 8), que se resumiria em outra máxima: “Tão bons são uns como ou- tros!” (QUEIRÓS, 2007, p. 8). Eça vai um pouco mais além ao admitir que a então nova República brasileira era, de facto, influência para o republicanismo português ou “causa exterior que veio concorrer para o engrossamento do Partido Republicano” (QUEIRÓS, 2007, p. 9). O autor coloca a República brasileira lado a lado com a reconhe- cida influência do regime francês, mais comumente referida pelos estudiosos. Para o autor, a República brasileira foi
[f]eita por uma raça filha da nossa, que fala a nossa língua e tem tantos interesses ligados aos nossos, e feita aparen- temente com uma cordura, uma generosidade, uma ordem
que espantou (e enganou) o mundo, esta revolução veio en- tre nós, de mil maneiras indiretas, desenvolver o sentimento republicano; já provando como sem desordem social se pode melhorar um regime político; [...] já dando a esperança dum forte apoio moral e [...] dum forte apoio material. (QUEIRÓS, 2007, p. 9)
Sua afirmação e aceitação da força política brasileira marcam pro- fundamente o intercâmbio cultural (social e político) entre iguais, não existindo um discurso ou uma postura condescendentes, nem uma hierarquização dos papéis. Desta feita, é curiosa a opinião do autor acerca da revolução no Brasil, uma vez que vai criticar o mo- vimento e a proclamação em si anos mais tarde, em 1889, na sua
Revista de Portugal, assinando João Gomez, como já se referiu. Re-
corde-se que no artigo, Gomez observa – não sem alguma razão –, que o ambiente do Império no Brasil era tão republicano que havia sido preciso simplesmente oficializá-lo. Retomando também os co- mentários de Fradique Mendes em carta a Eduardo Prado (de 1879), a experiência brasileira, servindo de parâmetro para o ideário re- publicano português, desmonta a pirâmide hierárquica, bem como permite aceitar a semelhança desses pares.
É de sublinhar o facto de Eça principiar o texto sobre os Novos
Factores da Política Portuguesa enaltecendo o discurso que foi o seu e
de seus companheiros de geração 20 anos antes. É possível assinalar que foram esses jovens também influentes no ideário republicano brasileiro, marcando, desse modo, um movimento de vaivém no que se refere à evolução política ou, mais especificamente, ao hibridismo cultural (inclusive político) entre os dois países. Querem todos estes factores – assunção da influência das Conferências na elite letrada
brasileira, assunção da influência da República brasileira no imagi- nário político português, a presença de um debate sobre o Brasil em Portugal, etc. –, significar uma real troca cultural.
Retomem-se ainda as discussões entre intelectuais publicadas nos jornais portugueses quando da proclamação da República na ex- -colônia. No jornal português Os Debates, de 16 de novembro de 1889, já na primeira página, divulga-se a notícia de que “O povo brasi- leiro, esse povo nosso irmão pela raça, pelo idioma, pelas tradições e pelo temperamento, acaba de dar ao mundo um grande exemplo e de praticar um ato nobilíssimo de patriotismo e de justiça. Siga Portugal o seu exemplo” (apud BARBOSA, 2002, p. 31). Também na primeira página do jornal A República, a 23 de abril de 1890, Magalhães Lima afirma que “O momento é de surpresa. A hora avança. A proclamação da república no Brasil e o conflito anglo-português operaram sobre a sociedade portuguesa no sentido de uma transformação, que, se hoje é ainda parcial e incompleta, acabará amanhã por ser radical e com- pleta” (apud SILVA, 2013, p. 77). Contudo, é a referida relação intrínseca entre colonizador e colonizado que figura na declaração de Quintino Bocaiúva, então ministro das Relações Exteriores no novo Governo brasileiro. Em entrevista ao jornal português Os Debates, informa cate- goricamete que “O filho passou adiante do pai. Possui um professorado muito inteligente, homens de ciência que são frequentemente citados no estrangeiro, pensadores profundos, jornalistas vigorosos, uma ex- celente organização de ensino, uma imprensa numerosa e forte” (apud BARBOSA, 2002, p. 39). Já Latino Coelho, em O Século, a 1 de dezembro daquele mesmo ano, procura exaltar o poder político dos Estados Unidos como referência para as repúblicas do continente americano, retirando de Portugal qualquer mérito em relação aos acontecimentos no Brasil: “A América é hoje, em todos os seus governos independentes
e autónomos, uma vasta confederação republicana, solidária pelos vín-