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5.3. Résultats et discussion

3.2.2 Maintenance corrective

Antonio Candido (2006) define a literatura como aspecto orgânico da civilização devido aos elementos internos carregados de notas históricas, como manifestações sociais e psíquicas: língua, temas e imagens, escritor e público. A literatura, quando pensada em um conjunto de obras ligadas por esses denominadores comuns, é entendida como um sistema de obras, a literatura propriamente dita, já que esses elementos permitem a literatura como comunicação inter-humana e dão as características necessárias para identificação de uma determinada fase literária. Até o século XVIII, de Anchieta a Gregório de Matos, a literatura brasileira ainda não possuía a organização desses elementos, dada a imaturidade do meio que lhes dificultava a própria formação, o que permite as produções da época serem consideradas apenas como manifestações literárias e não como literatura propriamente dita, embora dotadas de grande valor.

Será nos árcades e nos românticos que se fixa o verdadeiro início da literatura brasileira, quando são percebidas as manifestações dos temas verdadeiramente brasileiros, sobretudo o indianismo e a natureza, temas que expressam a realidade local do Brasil, importantes elementos na construção nacional e que dominarão a produção literária oitocentista. O trabalho de reconhecimento da realidade local para a produção literária adveio dos aconselhamentos e sugestões de um grupo de franceses que residiam no Rio joanino, que vislumbrados com a paisagem brasileira acreditavam que os temas e natureza locais deveriam ser frutos de valorização para o espírito nacional.

Entre esses estrangeiros, constavam escritores e pintores franceses, sobretudo Denis, que contribuiu para o Pré-Romantismo brasileiro, como marco na formação do Romantismo nacional, cujas obras deveriam ter sido conhecidas pela juventude que se formava depois da Independência, fornecendo sugestões para a exploração literária de temas locais “trazendo as tonalidades renovadoras dos franceses em Chateaubriand e seu exotismo literário, da melancolia, da valorização da América” (CANDIDO, 2006, p. 295). Segundo Candido, Dinis divulgava que a terra brasileira fornecia todos os elementos necessários para a criação

da literatura nacional, uma nova literatura para um novo país que se formava, aconselhando os brasileiros a não copiarem os modelos europeus que muito divergiam da realidade do país.

Os escritores deveriam buscar, na sua própria realidade, os temas para essa nova literatura, a partir da valorização da natureza e do local brasileiros, para que se construísse, como o novo país, uma literatura independente, que exprimisse a seu modo os seus temas, problemas e sentimentos da própria nação. Era vital a necessidade de se desenvolver aspectos nacionais na obra dos brasileiros, rejeitando a mitologia greco-latina, que não poderia corresponder ao novo mundo. Os estrangeiros sugeriram a descrição da terra, da natureza e o aproveitamento do índio como tema nacional.

A realização das muitas tarefas advindas do Pós-independência foi importante para a definição da maturidade da nacionalidade brasileira, resultando em mudanças significativas para a estabilização da sociedade, convergindo para a consolidação e ampliação da vida cultural de todo o país, tornando a literatura um elemento vivo na sociedade. Consequentemente, a cultura, como novo fator social, resultou na aceitação da literatura pela nova classe social dominante, e “transformou o escritor, que até então era considerado um elemento marginal à sociedade, em parte integrante da vida social” (CANDIDO; CASTELLO, 1994, p. 281).

Então, à literatura, como fenômeno histórico e social, caberia o papel de exprimir o espírito nacional. Dessa forma, a atividade literária torna-se atrelada ao Nacionalismo, movimento de construção de um país livre no Pós-Independência. O novo movimento envolve a tomada de consciência dos escritores quanto ao seu papel nesse processo, a identificação ou particularização dos temas e o modo de exprimi-los. Assim, a partir do momento em que se pensava na literatura como um meio de expressar o desejo de tornar o país realmente livre, era necessário pensar na responsabilidade do escritor, como ele iria exercer esse caráter nacionalista que envolveria o tema e a forma adequada de expressão nacional.

Dessa maneira, o espírito romântico estava vinculado ao movimento de Independência, parte no processo de tomada da consciência nacional, de valorização da terra e da natureza, um processo que deveria cortar o laço com a pátria-mãe, Portugal. O Romantismo, aliado ao Nacionalismo, pressupôs uma ruptura como o passado e deu boas vindas a tudo que significou mudança “Foi o espírito diretor que animava atividade geral da literatura” (CANDIDO, 2006, p.

332). Havia pontos comuns entre a Independência e o Romantismo que formaram as bases da renovação literária brasileira.

O despertar da consciência romântica no Brasil se deu em Gonçalves de Magalhães que dispunha do ânimo para o ideal de um lirismo brasileiro. Juntamente com outros dois jovens intelectuais brasileiros, Francisco de Sales Torres Homem e Manuel de Araújo Porto Alegre, residindo fora do país, Magalhães fundou em 1836 a revista Niterói, o marco da instauração do Romantismo no Brasil. Em Magalhães as gerações de romancistas sucessores se inspiraram, “animados no seu exemplo de desejo e ânimo” (CANDIDO, 2006, p. 317).

De acordo com Candido (2006), o Indianismo e a natureza vinham presentes aos temas brasileiros desde os árcades, refletidos em Basílio da Gama e Santa Rita Durão. No período joanino e no Pós-Independência, os escritores foram estimulados pelo exotismo de Chateaubriand. A febre levava nomes indianistas às festividades nacionais, a pseudônimos e nomes de jornais, inclusive D. Pedro I, que animado pelo espírito da Independência, utilizou pseudônimo indígena. O índio era o adversário dos portugueses e o herói nacional; nele foram plasmados o cavaleio medieval e o herói mitológico, elementos que o Brasil não possuía.

Houve, então, um exagero ao culto exacerbado pelo nativo brasileiro, imputando-lhe características de um comportamento alheio à sua própria natureza, de um homem civilizado, dotado de cortesia; a ética e o cavalheirismo do homem medieval foram moldados ao aborígene para dar realidade local. No nativo da terra buscou-se um passado que chancelasse a independência do país, ao modo europeu, com um passado mítico e lendário. Sentimento de religiosidade, o amor pela natureza e o indianismo foram temas presentes em todo o período que se estendeu o Romantismo (CANDIDO, 2006). Com isso, pode-se dizer que começou aí a importação de um modelo europeu adaptado ao que a terra oferecia.

Resumidamente, assim como na Europa, o Romantismo no Brasil foi divido em três significativas gerações. A primeira geração romântica brasileira deu-se no momento dos rompimentos dos laços com a coroa portuguesa, com profunda exaltação da pátria, desejando a configuração de um novo rosto para a nação brasileira, estando, portanto, ligada ao desejo de autodeterminação, à vontade de exercitar o conceito de soberania da nação. Os gritos da independência ecoaram para a liberdade de todas as formas no país em uma independência geral, uma espécie de afirmação da nacionalidade, refletindo significativamente

na literatura, “onde se conclamava a retomada das referências típicas que constituíam o nosso elemento diferencial enquanto povo” (CITELLI, 2002 p.47).

O Romantismo brasileiro da primeira geração repete as mesmas características do europeu, mas o poeta brasileiro tinha consciência da necessidade de criar uma literatura que traduzisse a realidade do seu país. Essa fase correspondeu à busca de um legítimo passado nacional, para o qual o poeta buscou todo o respaldo de que precisava na natureza que, juntamente com a pátria e o índio como símbolo de exaltação nacional, foi um dos elementos da inspiração poética da primeira geração de românticos, também conhecida como nacionalista ou indianista. Os maiores expoentes brasileiros foram Gonçalves Dias e José de Alencar.

A segunda geração seguiu os princípios do byronismo e ficou conhecida como o “mal do século”, devido ao pessimismo exacerbado e ao culto pela morte. A terceira geração, conhecida como condoreira, reflete a poesia social e os romances de crítica social, obras influenciadas pelas ideias liberais, abolicionistas e republicanas que formaram a base do pensamento brasileiro no período de 1870. Nessa fase, os literários já se encontram influenciados por Auguste Comte (1798-1857), Charles Darwin (1809-1882) e outros teóricos positivistas europeus, dando início à estética do Realismo.

Para Candido e Castello (1994), o Realismo é efetivo em qualquer época, estando presente em todas as fases da literatura, mas que apenas fora definido após o Romantismo, tendo o seu auge no século XIX, corroborado pelo positivismo e cientificismo implantado nesse século. Assim, segundo os críticos, a melhor definição para esse movimento que surge em oposição ao Romantismo é Naturalismo. O termo Realismo seria impróprio para designar esse movimento tanto pela sua presença constante na sociedade em todos os tempos e pela literatura ser permeada por dois importantes polos: a tendência para reproduzir nas obras os traços observados no mundo real, e o outro, a fantasia, cujos autores definem como “a tendência para inventar um mundo novo, muitas vezes oposto às leis do mundo real, e os autores e as modas literárias oscilarem constantemente entre ambos” (CANDIDO; CASTELLO, 1994, p. 285).

Isso posto, os escritores realistas adaptaram às suas obras as teorias científicas da época, ressaltando o efeito das taras, das doenças, dos vícios, da formação familiar, da educação e do nível cultural, pregando a atitude objetiva como

um pesquisador de verdade, formando, então, para a base do romance realista, a descrição da realidade captável pelos sentidos (sensações): visual, auditivo, olfativo, gustativo e tátil. No romance de ficção, as características da estética estão centradas na narrativa de análise, a qual esmiúça o caráter das personagens e seus conflitos internos. Os romancistas usaram na literatura os mesmos procedimentos da ciência no método científico: observar, formular hipóteses, fazer experiências e, posteriormente, tirar as conclusões. Nas hipóteses encontra-se a linha de causa e efeito. O método é rigorosamente cientista.

E, diferentemente do Romantismo, o Naturalismo não poupa a sociedade burguesa. Almeja agora, diante da moda cientificista, analisar a sociedade à luz do determinismo da raça e do ambiente; mostrar o real como ele se apresenta, sem idealizações; a sociedade com todas as suas mazelas, já que a vida real não é composta apenas de moços de boa aparência e com apadrinhamento. A preocupação analítica em conhecer a sociedade e revelar seus conflitos reais, verdadeiros, através da investigação psicológica do indivíduo e da análise dos caracteres biológicos e sociais, permite ao Realismo-Naturalismo ser chamado de estética da observação da realidade.

O Realismo-Naturalismo procura fixar-se no homem acometido pelos problemas e situações comuns, do dia a dia, e em suas relações com o social, dentro de uma concepção naturalista do mundo que trata da apresentação do real sem o recurso do sentir, da emoção, da imaginação. O estudo da alma – o fato psicológico e o estudo das complicações psicológicas – foi tratado com maestria por Machado de Assis.

Na estética realista encontram-se os movimentos naturalistas para a prosa e para o conto, e o parnasianismo para a poesia. Na Europa, embora ligados à estética romântica, são considerados como fundadores do Realismo Charles Dickens (1812-1870), Stendhal (1783-1852), Gustave Flaubert (1784-1846), Honoré de Balzac (1799-1850) e Émile Zola (1840-1902), cuja influência marcou fortemente os escritores brasileiros, sobretudo Aluísio Azevedo. No Brasil, o Realismo- Naturalismo foi oficialmente introduzido com os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), de Machado de Assis, e O Mulato (1881), de Aluísio Azevedo.

Nesse momento, funda-se a Academia Brasileira de Letras, cuja função foi a de oficializar a literatura no mundo social, dando à literatura um importante papel de força atuante no país.