História da Educação no curso de normalistas do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio também depende da compreensão das questões institucionais ligadas à fundação, formação, consolidação e expansão das atividades apostólicas e missionárias da Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar.
Em 1995, a congregação das irmãs comemorou 150 anos de fundação e como parte das atividades empreendidas houve a publicação da obra 150 anos (1845-1995) – Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar. Trata-se de um levantamento histórico realizado por uma equipe do KADOC (Centro Católico de documentação), sediado em Lovaina, Bélgica, cujos pesquisadores envolvidos com tal projeto
específico são: Yves Segers, Carine Dujardin, Godvried Kwanten, Patricia Quaghebeur, Jan De Maeyer.
A obra citada foi editada por representantes da congregação e todas as comunidades da congregação receberam um exemplar, com um estudo pormenorizado da trajetória nos países onde se fez presente: Bélgica (local de fundação), Congo belga, Brasil e Dinamarca. Representa importante iniciativa no sentido de empreender uma pesquisa histórica tanto ao nível documental como iconográfico.
A Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar originou-se numa época, século XIX, em que há um ressurgimento do espírito católico para as atividades pastorais e missionárias. Consiste também numa reação ao avanço de correntes e movimentos considerados perniciosos pela Igreja Católica Romana como, por exemplo, a maçonaria, o liberalismo, o socialismo, o comunismo, o anarquismo, dentre outros.
Conforme classificação da obra citada (SEGERS et al, 1995), a pré-História da Congregação de Berlaar resume-se ao período que se estende de 1722 a 1886, baseada na obra das donzelas piedosas que formavam uma pequena comunidade em Berlaar, lugarejo do interior da Bélgica7, voltado destacadamente para a economia de subsistência agrícola.
Essas mulheres dedicaram-se desde o início às atividades apostólicas do ensino popular, assim como o cuidado com os doentes e os idosos. Duas personalidades destacaram-se como precursores do grupo de “marolas”, designação pela qual as donzelas ficaram conhecidas em Berlaar no início das atividades apostólicas: o pároco da localidade – Padre Henricus Haes (1793-1869) – e Maria Theresia Vermeylen (1776-1884).
Consoante Segers et al (1995), além da direção espiritual, normalmente assumida pelo pároco de Berlaar, a resistência da Congregação das Irmãs de Berlaar foi conquistada graças ao modelo de gestão normalmente assumido pelas instituições católicas, o que proporcionou a fundação oficial no ano de 1845.
No âmbito da Congregação, todo o poder e autoridade hierárquica sustentavam-se e personificavam-se na figura da superiora geral. Valores como a dedicação ao trabalho e à
7 Segundo Segers et al (1995), em 1831, a Bélgica se torna autônoma diante da Holanda e adota uma
constituição progressista e liberal como modelo político para o aperfeiçoamento da nação, assim como a separação entre o Estado e a Igreja. Isso proporciona a possibilidade de revitalização do catolicismo, diante das restrições protestantes anteriores do reino holandês. Percebe-se uma retomada da atuação católica no interior da Bélgica nas áreas ligadas ao ensino, com destaque para o crescimento das congregações religiosas femininas. Anteriormente, a Bélgica encontrava-se sob domínio da França, entre 1794 e 1814, ou da Holanda, entre 1815 e 1830. Em 1796, por ordem do Governo francês, houve a suspensão dos trabalhos e atividades nos conventos e abadias no interior da Bélgica, com exceção para o ensino e a assistência aos doentes. A autonomia da Bélgica a partir de 1831 garantiu o direito à liberdade religiosa e a oportunidade de retomada das atividades típicas das congregações religiosas, tanto femininas como masculinas.
oração inspiraram a formulação dos primeiros estatutos sob inspiração agostiniana, cujos ideais contemplativos e a vivência dos votos de pobreza, castidade e obediência garantiram a identidade religiosa e institucional diante dos membros e da comunidade local.
Figura 3 – Padre Henricus Haes (1793-1869).
Acervo: álbum de fotografias da Casa-mãe em Berlaar – Bélgica. (Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar).
Inicialmente, a congregação manteve até fins do século XIX um modesto crescimento quantitativo (eram cinco membros em 1845 e trinta e três em 1885), restringindo- se às atividades apostólicas do ensino. Nesse sentido, a Bélgica ingressava no período de formação do sistema nacional de ensino, como outros países da Europa ao longo do século XIX. Por isso,
A lei sobre o Ensino Primário de 23 de setembro de 1842, um compromisso entre liberais e católicos, ia ao encontro deste desejo dos bispos. Cada município tinha a obrigação de fundar uma escola primária. Não devia ser necessariamente uma escola municipal. Os municípios podiam reconhecer ou admitir uma ou mais escolas particulares. Além disso, os municípios eram obrigados a dar ensino gratuito para as crianças de famílias pobres. O programa, imposto por lei às escolas municipais e reconhecidas, continha, além de religião e ética cristã, também as seguintes atividades: ler, escrever, calcular, o sistema legal de medidas e pesos e o estudo da língua materna. Este restrito programa expressava bem a tarefa primordial da escola primária: moralizar a criança por meio de uma educação religiosa e o entrosamento
nas três habilidades culturais básicas: ler, escrever e calcular. Até meados do século XIX, os católicos e os liberais eram da mesma opinião quanto à consideração do ensino religioso como base de todo o ensino. A ascensão dos liberais radicais acabou com esta unanimidade. As tensões levavam à primeira luta escolar de 1879. (SEGERS et al, 1995, p. 54)
A partir de 1886 até 1920, a Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar entrou num período de expansão em suas atividades de apostolado, assumindo primordialmente o ensino e a enfermagem. Atentas ao espírito missionário empreendido pela Igreja Católica às diversas congregações fundadas no decorrer do século XIX, as irmãs de Berlaar iniciaram novos trabalhos em outros países como o Congo belga (1899), Brasil (1907)8 e Dinamarca (1911).
O acentuado crescimento da congregação entre 1890 e 1910, bem como as novas missões estrangeiras exigiram da congregação um intenso trabalho de institucionalização “[...] na estrutura da direção, no desenvolvimento quantitativo, no modelo de pastoral vocacional, na vida religiosa, na vida espiritual e nos contatos com o bispado e o mundo”. (SEGERS et al, 1995, p. 69) As reformas estruturais da Congregação englobaram questões como o típico trabalho cooperativo entre a superiora geral, responsável pela gestão administrativa, e o diretor espiritual, referência da hierarquia clerical da Igreja Católica.
Anteriormente, a espiritualidade das irmãs demonstrava-se mais contemplativa, assumindo determinadas características como o desapego ao material e ao mundano; valorização, em contrapartida das questões escatológicas, voltadas para a vida eterna; a prática constante do jejum e da abstinência; a mortificação como forma de penitência pelos próprios pecados e do mundo, com o uso constante da disciplina (flagelação), do cilício e da corrente; a valorização do silêncio; intensa devoção mariana.
8 Os planos missionários de Berlaar para a América Latina eram anteriores à partida das primeiras Irmãs
missionárias para o Congo e datam de 1896, quando os norbertinos de Aberbode se preparavam para partir para São Paulo, a pedido do papa Leão XIII, em 1894. O Pe. Van Tongel, então presidente da confraria de Nossa Senhora do Sagrado Coração e um bom conhecido da Congregação foi, antes de partir para a missão, tratar pessoalmente das modalidades de uma eventual colaboração das Irmãs de Berlaar. Da sua correspondência com a vice-Madre Angela, parece que havia, no mínimo, um acordo oral. Embora o bispo de São Paulo, em dezembro de 1896, tenha concordado com a vinda das Irmãs de Berlaar, a opção finalmente, foi pelas Irmãs de Gijzegem, talvez porque, na época, elas tinham mais experiência no ensino. Os norbertinos tinham uma tarefa especial no ensino do Brasil. Deveriam fundar um colégio, que serviria como seminário menor para o bispo de São Paulo. O prelado de Aberbode, Gummarus Crets, teve provavelmente um papel na opção definitiva. Em 13 de janeiro de 1897, ele veio para preparar mentalmente, o insucesso da Congregação. Neste momento, a Congregação tinha ainda pouca experiência no ensino. Ele colocou a condição de que as Irmãs não poderiam partir antes de “ter encontrando um bom meio de subsistência no Brasil”. Em 1904, a Congregação recebeu um novo convite para o Brasil. Desta vez dos norbertinos da Abadia Park que, desde julho de 1898 estavam trabalhando na pastoral paroquial no Estado de Minas Gerais, inicialmente na diocese de Mariana e, desde 1903, também na diocese de Diamantina. A solicitação de Irmãs missionárias veio do cônego Moureau, vigário em Montes Claros, que estava na Bélgica em 1906, por motivos de saúde. Ele retornou a Montes Claros, em 16 de abril de 1907, acompanhado de quatro irmãs de Berlaar. (SEGERS et al, 1995, p. 151 – 2).
Em fins do século XIX, com a expansão quantitativa da congregação e o fato de terem assumido gradativamente novas missões, a congregação assumiu uma espiritualidade mais apostólica, por meio dos novos estatutos de 1913, sob inspiração dos moldes franciscanos.
Conforme Segers et al (1995), a formação de novas religiosas foi revisada e perpassa por três períodos distintos: o postulantado (tempo de exercícios e preparação para o ingresso no noviciado); o noviciado (tempo de formação especificamente religiosa, ao final do qual a candidata professa temporariamente os três votos – pobreza, castidade e obediência) e a profissão (cerimônia em que a religiosa assume definitivamente o compromisso de viver o modelo monástico).
Além dos fatores geopolíticos, o papel missionário assumido pelas religiosas de Berlaar atendia também ao apelo do Papa Leão XIII, especificado na Encíclica Rerum Novarum (1891), pela promulgação de um espírito de renovação e da imagem de uma Igreja Católica como religião do sentimento, da interioridade. Tais questões podem ser sintetizadas na máxima atribuída ao pontífice Leão XIII: “reconquista aqui, conquista lá”. Em fins do século XIX, a Igreja Católica conclamou para o combate ao avanço protestante na Europa e à conquista de novos fiéis em terras americanas, africanas e asiáticas.
Segundo Segers et al (1995), a partir de 1920 até 1958, a Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar já pode ser considerada um grupo consolidado, a serviço das atividades apostólicas da Igreja Católica. Este momento coincidiu com o Governo da Irmã Maria Eugênia como madre superiora. Novos estatutos foram elaborados e oficializados a partir de 1928, buscando a adequação à realidade institucional e aos desafios assumidos como missão apostólica: ensino, as ações voltadas para os leigos, a manutenção de pensionatos e a assistência aos doentes e idosos.
Em termos administrativos, “[...] os Estatutos de 1928 criaram mais uniformidade com as outras Congregações diocesanas e levaram em conta a ampliação por que passava a Congregação. Uma vice-madre e uma ecônoma deviam ser nomeadas, como também as superioras nas filiais [...]”. (SEGERS et al, 1995, p. 182) É neste período (1920 a 1958) que a presença missionária das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar no Brasil teve sua nova inspiração, superando as primeiras dificuldades percebidas desde 1907.
Em 1927, com a colaboração da Congregação dos Padres dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e da Adoração Perpétua do Santíssimo Sacramento no Altar (picpucianos9),
9 A designação “picpucianos” é oriunda da Rua Picpus, n.º 35, onde ficava situada a casa-mãe do Instituto, da
missionários holandeses, responsáveis pela direção espiritual, as irmãs de Berlaar reforçaram a missão em Araguari – Minas Gerais, onde já funcionava o Colégio Sagrado Coração de Jesus desde 1919. É implantado o noviciado e a Madre Blandina torna-se a superiora na missão brasileira.
Houve a reabertura do Colégio Imaculada Conceição em Montes Claros – Minas Gerais (1927) assim como a instalação de novos trabalhos apostólicos em Patrocínio, também em Minas: Escola Normal (1928); hospital (1938); asilo (1955) e patronato (1956). Já em Belo Horizonte (1941), bem como em Pará de Minas (1942), com a colaboração de franciscanos holandeses, fundaram-se o jardim de infância, o colégio e a Escola Normal.
O projeto apostólico da Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar, desde sua fundação e expansão na Bélgica, englobava inúmeras atividades relacionadas ao ensino, ao cuidado dos doentes, dos idosos e dos órfãos.
Figura 4 – Reverenda Irmã Maria Eugênia, superiora geral.
Acervo: Álbum de fotografias da Casa-mãe em Berlaar – Bélgica (Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar).
Congregação dos Sagrados Corações instalar a sua casa mãe. Pois a finalidade medular da Congregação é reparar. E nesta ruazinha simples, chamada Picpus, está prestes a ser adorada a hóstia branca, dia e noite, junto aos restos mortais de tantos injustiçados”. (SANTA CRUZ, 1981, p. 108)
No que diz respeito ao campo educacional, a fundação de escolas sob responsabilidade da congregação representou uma resposta aos apelos do Papa Pio XI, que publica, em 1929, a Encíclica Divini Illius Magistri. Nesse documento, há a clara defesa dos princípios cristãos na difusão de escolas pelo mundo, como forma de garantir a resistência diante dos desafios impostos pelos tempos, bem como a restauração do catolicismo como referência social.
2.3 O discurso educacional católico na Encíclica Divini Illius Magistri – Papa Pio XI,