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Macro-séquence archétype 2 : « Suivre et élaborer une cohérence 1.3

As argamassas ou ligantes – os inertes – são uma mistura de argilas e areias com cal, que nas situações mais humildes incluem apenas terra argilosa. As argilas quando associadas às areias (de ribeiras, montes, furnas ou do mar) formam o barro, utilizado sem mistura (cru), para a fixação das pedras nas paredes de alvenaria e no seu revestimento, recebendo depois a caiação. Dos diferentes tipos de areias as das furnas e dos montes eram as mais utilizadas, em especial, para rebocos finos no interior das habitações. Sobre o reboco era aplicada uma fina camada de gesso ou estuque. Só mais recentemente se começou a extrair a areia do mar.

A cal era um material relativamente caro pelo que o seu uso era restrito e, como já se referiu anteriormente, as rochas de cal não eram comuns na Madeira, sendo provenientes do Porto Santo. A cal foi utilizada, desde o início do povoamento, como material construtivo.

Imagem 57 - Esquema construtivo de vão em cantaria

Imagem 58 - Janela da capela de Nossa Senhora da Piedade, (1692) situada na Quinta das cruzes, Funchal

Imagem 59 - Esquema de emparelhamento de cunhais e Aparelho de pedra, Porto Santo

A pedra cal ou “cal viva” resulta da calcinação de pedras ricas em calcário, sendo a sua extracção circunscrita a São Vicente ou ao Porto Santo, onde existem grandes jazidas de cal no Ilhéu da Cal, Campo de Cima e Sítio do Espírito Santo.

Os fornos de cal têm uma forma de cone invertido, são integralmente em alvenaria com paredes de grande espessura e apresentam um aspecto robusto. São utilizados para cozinhar a cal durante dois dias, que depois de cozida, ainda em pedra, é retirada do forno para o tratamento final, que ocorre num terreiro coberto a pedra de cal, onde entra em contacto com a água fria e transforma-se em cal em pó. Em seguida separa-se o pó dos detritos e é posto a secar. A cal está pronta para ser ensacada e comercializada. Noutros tempos, usava-se a “pedra viva” para a caiação, ou seja, a pedra cozida ainda por tratar. Em 2002116, o único forno activo no arquipélago situava-se no Porto Santo.

Da arquitectura popular à erudita os edifícios são, na sua maioria, rebocadas e depois caiadas. A falta de caiação de uma casa significa, geralmente, limitações económicas. Por vezes a diferenciação de uma casa urbana de uma casa rústica faz-se, simplesmente, pela qualidade dos materiais e dos acabamentos, onde se inclui a caiação. Deduz-se que a caiação pela utilização de pigmentos terá sido uma prática importada para a ilha, inicialmente aplicada exclusivamente na arquitectura erudita (edifícios nobres, igrejas, conventos ou fortes). Progressivamente o seu uso estendeu-se aos edifícios habitacionais.

A cor das tintas tradicionais é dada pela adição dos pigmentos à cal branca. Os pigmentos são pós de diversas cores – corantes naturais ou artificiais – que misturados na cal originam tintas coloridas. Os pigmentos têm diversas origens (moagem de minerais e terras, vegetal ou animal). Os pigmentos mais utilizados são o “óxido de ferro ocre” e o “óxido de ferro vermelho” que originam o ocre e o rosa-forte quando misturados com a cal. Os pigmentos misturados na cal – para “dar cor” – eram adquiridos nas vendas; boticas que vendiam um pouco de tudo, desde ferragens, a produtos de limpeza, ferramentas de lavoura, pequenos utensílios para a casa, gesso, cal, e pigmentos usados na caiação das casas.

A cor é um importante elemento na arquitectura popular madeirense que complementa a ausência de ornamentação – um complemento à austeridade construtiva. Está

116Victor Mestre em “Arquitectura Popular da Madeira”, pg. 196/197

Imagem 60 - Solar do Esmeraldo parede caiada a rosa forte

Imagem 61 - Parede caiada a ocre e cinza

patente em casas e muros pintados a ocre e rosa forte emolduradas por longas faixas brancas. A cor é «uma das características mais significativas desta Região Autónoma, [...] parece reflectir a alegria vibrante deste povo que diariamente supera as contrariedades da vida dura da lavoura com uma boa disposição indisfarçável e ainda encontra energia para dedicar a romarias e a festas domingueiras, estando também nestas profusamente presentes as cores vibrantes.»117

O ocre, o rosa-forte e o branco - são as cores mais características da arquitectura popular madeirense e as mais usadas para caiar as paredes das casas, criando contraste com as cantarias em basalto e tufa das molduras das portas e janelas. Existem outras cores mais raramente aplicadas como o verde e o azul, característicos do Curral das Freiras e do Seixal respectivamente. Contudo, há uma grande variedade cromática aplicada em molduras, socos, cunhais e cornijas um pouco por todo o território, com especial destaque para a Camacha, onde se utilizam por vezes duas ou mais cores na fachada.

O processo de preparação da caiação com pigmento de cal deve usar, sempre, cal viva, depositada num recipiente de grande dimensão para que esta possa ferver (a mais de 300º). Junta-se água e sebo e vai-se mexendo com um pau. O sebo é adicionado para ajudar a diluir a cal e funciona como impermeabilizador e fixador da pasta resultante. O pigmento é adicionado à pasta através de várias experiências para “acertar” a tonalidade. Uma vez obtida a cor desejada experimenta-se a pasta num pedaço de barro ou na parede.

Preparada a tinta, a cal é depois aplicada nas paredes exteriores e interiores, porém, no interior, é mais comum a tinta-cola cuja preparação passa por derreter o sebo em água a ferver, junta-se-lhe “gesso cré” e o pigmento. A tinta cal ou a tinta-cola podem ser também aplicadas nos tectos de madeira.

As portas, janelas, portadas, rodapés e outros elementos de madeira são pintados com tinta de óleo à base de linhaça, um secante (liquido ou em pedra transformado em pó) e o pigmento desejado. O processo inicia-se com o demolhar do secante no óleo de linhaça durante um dia, só depois é adicionado o pigmento. Como diluentes usam-se petróleo, benzina ou aguarrás. À semelhança do processo de preparação da tinta de cal, o processo de fabrico da tinta de óleo é muito empírico.

4.3.3 – Madeiras

Depois da alvenaria em pedra, as madeiras são os materiais construtivos mais utilizados na arquitectura popular. Existem inclusive, tipologias populares construídas integralmente de madeira indígenas da Camacha e São Jorge. Grande parte das espécies arbóreas endémicas era desconhecida dos exploradores, pelo que a sua utilização na construção foi aperfeiçoada à medida que se descobriam as suas características e se trabalhavam as suas qualidades. Persistiram até à actualidade construções com distintos tectos de alfarge, como a Sé Catedral do Funchal, a Igreja Matriz da Calheta, a Igreja de São

Paulo e a capela-mor da Igreja Matriz da Ponta de Sol. Para além dos tectos de alfarge, de arquitectura erudita, na arquitectura popular a madeira era um material importante na construção dos telhados de palha ou de telha, e, em alguns casos, para erigir as paredes interiores (conhecidas como paredes de tabique). Também as portas, janelas e portadas eram exclusivamente de madeira.

A madeira mais utilizada inicialmente terá sido o cedro, depois terá sido substituído pelo pinho. No exterior (latada e palheiros) a madeira mais comum terá sido o barbusano.

Pela vasta quantidade e variedade de madeiras presentes na ilha, este terá sido um lugar onde se instalaram muitos carpinteiros, entalhadores, douradores, pintores, entre outros – mestres experimentados de diversos ofícios acompanhados de “mestres-arquitectos” que criaram uma escola nas artes da construção, cujas aptidões ficaram registadas nos edifícios públicos, privados, militares e religiosos. As experiências realizadas por estes mestres construtores na cidade do Funchal eram depois replicadas um pouco por toda a ilha, influenciando assim a arquitectura popular. Como Victor Mestre infere «não será de estranhar que o erudito e o popular tenham surgido a paredes meias, separados “apenas” pela escala, pela qualidade dos materiais e por alguma diferença no grau tecnológico, na sua combinação e, naturalmente, por razões económicas. Mas a base na “maneira” de elevar uma parede, ou na execução de uma armação do telhado não diferia.»118