Naamloze vennootschap,
MAATSCHAPPELIJK KAPITAAL, INBRENGEN EN AANDELEN
Luz, temperatura e água
Respeitada a discussão anterior, a Caatinga situa-se toda entre o Equador e o Trópico de Capricórnio (cerca de 3o a 18o sul). Portanto, dispõe de abundante
intensidade luminosa, em todo seu território, durante todo o ano. As altitudes são relativamente baixas; exceto uns poucos pontos que ultrapassam os 2000m, na Bahia, os outros pontos extremos ficam pouco acima dos 1000m. Portanto, as temperaturas são altas e pouco variáveis, espacial e temporalmente, com médias anuais entre 25oC
e 30oC e poucos graus de diferença entre as médias dos meses mais frios e mais
quentes. Assim, luz e temperatura não são limitantes ao crescimento vegetal e não são causa de maior variabilidade ambiental na área de Caatinga (SAMPAIO, 2003).
A disponibilidade hídrica, por outro lado, não só é limitante quanto extremamente variável no tempo e no espaço. Essa variabilidade origina-se de quatro causas principais: (i) sistema muito complexo da formação das chuvas, com frentes que vêm de vários quadrantes e que vão perdendo sua força à medida que penetram no núcleo do Semi-Árido, resultando em chuvas erráticas e concentradas em poucos meses do ano e em anos chuvosos alternados irregularmente com anos de secas; (ii) disposição orográfica, com serras e chapadas mais altas interceptando as frentes mais úmidas, recebendo mais chuvas que o entorno e criando zonas pouco chuvosas a sotavento; (iii) escoamento das águas, deixando as encostas mais secas e concentrando-se nos vales, formando lagoas e rios, no mais das vezes temporários, mas onde a disponibilidade hídrica estende-se por semanas e até meses depois que as chuvas cessam; e (iv) variabilidade dos solos, com maior ou menor capacidade de reter as águas das chuvas, por conta de diferentes profundidades e texturas.
As médias de precipitação anual oscilam de pouco menos de 300mm, na região dos Cariris Velhos na Paraíba, até pouco mais de 1000mm, nas zonas limítrofes da Caatinga, com um padrão geral de diminuição deste entorno até o núcleo mais seco (REDDY, 1983). Essas médias contrastam com as evapotranspirações potenciais, bem menos variáveis que as chuvas, situando-se, em geral, entre 1500mm e 2000mm anuais, e que, conjugadas, caracterizam as deficiências hídricas definidoras da semi- aridez climática (relação precipitação/evapotranspiração potencial < 0,65). Às médias baixas há que se acrescentar os coeficientes de variação altos, muitas vezes ultrapassando os 30%, e que podem ser até mais condicionantes à adaptação da vegetação do que as médias de décadas. O regime de chuvas tem como características, ainda, precipitações intensas, muitas vezes ultrapassando 100mm em um único dia, e sazonalidade irregular, com a época de chuvas podendo iniciar-se em meses distintos, prolongar-se por períodos incertos e encerrar-se, também, em meses diferentes de um ano para outro.
As serras e chapadas mais altas, principalmente quando se estendem em longas distâncias, cortando as principais frentes de chuva, formam linhas de locais mais úmidos (PÔRTO; CABRAL; TABARELLI, 2004; JUNCÁ; FUNCH; ROCHA, 2005; QUEIROZ; RAPINI; GIULIETTI, 2006). Nessas áreas, o balanço hídrico é favorecido, ainda, pelas temperaturas mais amenas, resultando em menor evapotranspiração e em condensação noturna, nos meses mais frios e mais úmidos
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do ano. As águas que recebem podem se acumular em depressões destas partes altas, criando locais com boa disponibilidade hídrica ao longo do ano, ou, mais frequentemente, infiltram-se e escoam originando fontes de meia encosta e pés de serra úmidos. Nelas nascem os pequenos e os grandes rios da região. As principais chapadas estendem-se no sentido norte-sul e são a Chapada da Ibiapaba, no limite entre o Piauí e o Ceará, e a Serra Geral e Chapada Diamantina, na Bahia (SILVA et al., 1993). No sentido oeste-leste, destaca-se a Chapada do Araripe, que se prolonga até o maciço da Borborema, dividindo Ceará, Paraíba e Pernambuco. Formações mais baixas, como a Serra de Dois Irmãos e a Serra Bom Jesus do Gurguéia e a Chapada das Mangabeiras e do Apodi, servem de limites entre Estados, no sábio uso político dado pelos portugueses aos divisores de águas.
Os grandes rios da região marcam os vales principais. Dentre os de regime perene, o maior é o rio São Francisco, proveniente de Minas Gerais, cruzando a Bahia de sul a norte, entre a Serra Geral e a Chapada Diamantina, até dirigir-se para leste, dividindo a Bahia e Pernambuco e, em seguida, Alagoas e Sergipe, saindo do Semi-Árido. A bacia do rio São Francisco inclui a maior parte da porção semi-árida desses Estados.
O curso do rio Parnaíba está fora do Semi-Árido, situando-se no limite entre o Maranhão e o Piauí, mas sua bacia inclui o semi-árido piauiense e parte do cearense, com a contribuição do rio Poti, que atravessa a garganta da Chapada da Ibiapaba. No Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, os principais rios não são perenes. O rio Jaguaribe está confinado ao Ceará e o rio Piranhas-Açu tem curso que corta da Paraíba para o Rio Grande do Norte. Todos esses rios, assim como muitos de seus maiores afluentes, criam zonas ripárias com água disponível o ano todo, além de lagoas temporárias e zonas alagadiças.
Os solos da região da caatinga têm a maior variabilidade do país. Eles originam-se de duas formações geológicas principais (SILVA et al., 1993). A formação sedimentar predomina na porção oeste e a cristalina, na porção leste. O limite entre as duas é uma linha, mais ou menos sinuosa, que desce pela Chapada da Ibiapaba, atravessa o oeste de Pernambuco e encontra-se com a linha da Chapada Diamantina, seguindo pela Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. As chapadas são o testemunho sedimentar do antigo leito marinho onde foram formadas antes de seu soerguimento, há poucas centenas de milhões de anos. Dentro da porção leste há, ainda, duas grandes incrustações sedimentares: (i) a bacia Tucano–Jatobá, que sobe do Recôncavo Baiano e atravessa o rio São Francisco, entre os municípios de Petrolândia e Floresta, seguindo para leste até Buique, em Pernambuco; e (ii) a zona cárstica do Apodi, no limite norte entre o Rio Grande do Norte e o Ceará, avançando até o Atlântico. Quase todos os solos desta porção sedimentar são antigos, bem intemperizados, profundos, menos variáveis que os cristalinos e geralmente bem drenados, com boa capacidade de retenção de água.
A porção do cristalino corresponde às partes do antigo escudo cristalino pré- cambriano, exposto pela erosão geológica, formando a grande depressão sertaneja e relevos residuais de material mais resistente, em cristas, inselbergues e serras intermediárias e baixas (SILVA et al., 1993). Corresponde, também, à formação mais recente do maciço da Borborema (PÔRTO; CABRAL; TABARELLI, 2004), que se estende no limite leste do Semi-Árido, do Rio Grande do Norte a Alagoas.
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A variabilidade dos solos advém, principalmente, do efeito diferencial da erosão geológica, descobrindo camadas distintas, até o limite da exposição das rochas, formando os lajedões de muitas áreas e os pavimentos recobertos de rochas, pedras e pedregulhos. As profundidades vão desde o quase nada das superfícies rochosas até camadas de muitos metros e podem ser arrumadas em progressão, dos Neossolos Litólicos, muito rasos, aos de profundidade intermediária, como os Neossolos Regolíticos, os Luvissolos e os Planossolos, já chegando a cerca de 1m, até Neossolos Quartzarênicos, de vários metros de espessura. As texturas também diferem em função do material originário e, em menor grau, do processo de formação posterior, podendo ir dos muito arenosos (Neossolos Quartzarênicos) aos muito argilosos (Vertissolos). Os primeiros com menor capacidade de retenção de água, mas percolação mais fácil. Nos solos com menos de 1m de profundidade, a água retida é suficiente para suprir as plantas apenas por poucas semanas. Findo este estoque, se não houver novas chuvas, inicia-se um período de deficiência hídrica. Nos solos com vários metros de profundidade, o estoque de água pode durar meses e as plantas podem não ter deficiência se suas raízes conseguirem explorar um volume grande.
Nutrientes
As diferentes disponibilidades de nutrientes formam, junto com a disponibilidade hídrica, a outra grande fonte de diferenciação das condições ambientais. Em grande medida, as características que influenciam a capacidade de retenção de água são as mesmas que influenciam na disponibilidade de nutrientes. De maneira geral, os solos de origem sedimentar, lixiviados ao longo de milhões de anos, são pouco férteis, deficientes em fósforo e cálcio (MENEZES; GARRIDO; MARIN, 2005). São semelhantes aos do planalto central brasileiro, onde predominam os cerrados. Nas chapadas, tendem a ser mais pobres em nutrientes que os dos patamares intermediários, porque estes últimos recebem menos chuva e são formados por camadas de descobrimento mais recente, logo, com menor intemperismo. Muitos desses solos ainda são eutróficos. As três grandes manchas de solos de origem cárstica — no Apodi (na fronteira entre o Rio Grande do Norte e o Ceará) e entre a Serra Geral e a Chapada Diamantina (na Bahia e norte de Minas Gerais) —, são exceções entre as áreas sedimentares, pelas suas altas fertilidades.
Os solos do cristalino são mais variáveis, indo dos férteis (em geral, os de textura mais argilosa), aos pouco férteis (como os muito arenosos). De forma muito genérica, há deficiência de fósforo em boa parte deles, mas não de potássio, cálcio e magnésio. Merecem destaque os solos dos aluviões (Neossolos Flúvicos) que, embora de composição muito distinta, em função do material depositado, costumam acumular camadas profundas e nutrientes lixiviados das encostas e depositados com as cheias dos rios, guardando boa fertilidade. Juntando com a disponibilidade hídrica dos lençóis freáticos, dão aos aluviões boas condições de crescimento das plantas.
Quase todos os solos do Semi-Árido têm pouco nitrogênio, que se acumula na matéria orgânica, com baixos teores nesses solos, por causa da produção vegetal limitada e da mineralização rápida na época de chuvas (SALCEDO; SAMPAIO 2008). Na vegetação madura, a reciclagem é capaz de suprir as quantidades
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relativamente pequenas que as plantas requerem para seu crescimento limitado. Os distúrbios graves, como as queimadas ou as intensas erosões, eliminam boa parte da matéria orgânica e com ela o estoque de nitrogênio. A reposição vem com a fixação do nitrogênio atmosférico, principalmente pela associação de leguminosas com rizóbios (FREITAS; SAMPAIO, 2008). Pouco se sabe sobre as disponibilidades de enxofre e de micronutrientes (MENEZES; GARRIDO; MARIN, 2005), mas é possível que elas expliquem parte da variação da vegetação.