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KSA pour les équipes

CHAPITRE 4 PRÉSENTATION DES RÉSULTATS

4.5 Validation des hypothèses du cadre théorique

4.5.2 Méthodes de validation des hypothèses 1 Corrélation deux à deu

A contribuição do construtivismo crítico, destacada nesta parte do estudo, é importante na construção do arcabouço teórico aqui defendido, uma vez que:

a) contribui não apenas teoricamente, mas também em termos de agenda empírica, para a superação da dicotomia objetividade/subjetividade;

b) possibilita uma maior afinação dos conceitos, de forma a torná-los empiricamente manejáveis.

Enquanto Foucault propõe superar a dicotomia objetividade/subjetividade aplicando o conceito de discurso, Latour, com base em pesquisas empíricas no campo da ciência e tecnologia, revê os pressupostos básicos do chamado construtivismo social. Em primeiro lugar, ele olha para a dicotomia objetividade/subjetividade com olhar crítico e vê nela objetivos políticos.

Para Latour (1995, p.15), a existência isolada, a-histórica, desumana e objetiva do mundo exterior foi dada para “combater as massas”, “as massas desgovernáveis”, como invocado por Sócrates e outros para justificar a procura de uma força tão grande que fosse capaz de reverter o poder de “dez mil tolos”. Latour (1999, p.6) vai além e denuncia também o projeto político que visou à substituição do “ego transcendental com a sociedade”. Para ele, foi nesse momento “(...) que os preconceitos, categorias e paradigmas de um grupo de pessoas que moravam juntas determinaram as representações de cada um deles”.

“Nada no mundo tinha que passar por tantos intermediários para chegar na mente individual. As pessoas foram fechadas não apenas na prisão das suas próprias categorias, mas também naquelas do seu grupo social. Em segundo lugar, esta ‘sociedade’ em si não era mais que uma série de mentes-em-tonel, com certeza, muitas mentes e muitos tonéis, mas, cada um destes, ainda olhando para um mundo exterior. Que melhoria! Se os prisioneiros não continuavam a se localizar em celas individuais, eles eram agora confinados no mesmo dormitório, na mesma mentalidade coletiva. Em terceiro lugar, o próximo deslocamento, do Ego para culturas

múltiplas, expôs a única coisa boa sobre Kant, isto é, a universalidade das categorias a priori, o único pedacinho de certeza absoluta que ele foi capaz de manter. Daqui para diante, ninguém era fechado na mesma prisão; agora eram muitas prisões, incomensuráveis, não conectadas. Não foi apenas a mente que se desligou do mundo, mas cada mente coletiva, cada cultura, desconectou-se das outras” (LATOUR, 1999, p.15).

Essa crítica política não deve ser vista como um movimento consciente político. O que Latour faz é reconhecer que no decorrer desses longos anos, ganhadores e perdedores estiveram presentes no jogo da dicotomia em questão. Conseqüentemente, Latour (2004) critica o atual uso do construtivismo social. Para ele, uma das principais falhas do construtivismo consiste exatamente no adjetivo que o acompanha (social), significando quase sempre que a construção é feita com base em social stuff; ou seja, o material escolhido para a chamada construção é sempre social, ignorado o importante papel dos chamados “objetos”. Daí, ele propõe a primeira correção: a palavra social não designa propriamente o “material” da construção, mas o processo coletivo por meio do qual tudo, até os fatos, se constroem. Para dar à palavra “construção” um pouco do seu sentido original é necessário enfatizar o processo coletivo que termina em construtos sólidos por meio da mobilização de ingredientes heterogêneos. É exatamente a heterogeneidade de associações que está em questão, o envolvimento de humanos e não-humanos. As conotações mais interessantes da metáfora de construção começam a aparecer: história, solidez, multiplicidade, incerteza, heterogeneidade, fragilidade e outras.

Paralelamente, os mecanismos inerentes à construção em si são criticados. Existem problemas referentes aos “criadores” e suas “crias”. O vocabulário referente ao processo do “fazer” enfatiza o papel de alguma agência, embora esta possa ser “determinada”, “limitada” e assim por diante. “Quando nos tornamos atentos a maneiras mais humildes de falar, essa agência desloca-se de um mestre todo-poderoso para as diversas ‘coisas’, ‘agentes’, ‘atuantes’ com os quais têm que dividir a ação” (Latour, 2004).

Não existe nenhum master ou criado que possa dominar os “materiais”, as “coisas”. No processo de construção, a materialidade é tão presente quanto a agência.

se a palavra “construtivismo” tem alguma importância é porque nos leva a agências que nunca se reduzem a esses papéis estúpidos e infantis. Sim, elas atuam, sim, elas ordenam, sim, elas resistem, sim, elas são plásticas, mas o que tem se mostrado interessante são todas as posições intermediárias que elas são capazes de assumir simultaneamente. (...)

Em tudo, construção, criação e trabalho, significa apreender como tornar-se sensível às exigências e requerimentos-chave, às pressões de agências conflitantes, onde nenhuma está realmente no comando (LATOUR, 2004).

Ao final, a realidade construída é construída ou é real? As duas, responde o autor:

Somos tão ingênuos a ponto de pensar que temos que escolher? Não sabemos que até as ideologias mais loucas têm conseqüências reais? Que vivemos num mundo da nossa própria construção e que nem por isso é menos real? “Nós” nunca construímos um mundo de “nossa própria desilusão”, porque não existe esse criador livre em “nós” e porque não existe material suficientemente maleável para reter as marcas da nossa divertida ingenuidade (LATOUR, 2004).

Para Latour, humanos e não-humanos estão engajados numa história que torna sua separação impossível. Palavras e mundos (words and worlds) marcam extremidades possíveis e não muito interessantes; pontos finais de um conjunto complexo de práticas, mediações, instrumentos, formas de vida, engajamentos, envolvimentos por meio dos quais novas associações são geradas. O projeto político que Latour propõe visa evitar a demarcação entre palavras e coisas, natureza e cultura, fatos e representação; de fato, visa assegurar que não exista tal separação.

Com base nesse posicionamento ontológico − que evita atribuir superioridade epistemológica aos sujeitos ou objetos − e, a partir de um esforço contínuo de pesquisa no âmbito da sociologia da ciência e tecnologia, desenvolve-se a chamada actor-network theory (ANT), da qual Latour, Michel Callon e John Law são reconhecidos como os principais representantes (ANDRADE, 2003).

Enquanto a abordagem do construtivismo social da tecnologia diferencia as pessoas e sociedades do mundo de artefatos (e também do mundo natural), distinguindo assim o social do técnico, a ANT se opõe a esse dualismo. Law (2004) define a ANT como semiótica; isto é, como um método (ou melhor, sensibilidade) que tem a ver com relações e que as explora (relacionalidade). Com base na lingüística saussuriana, os termos assumem significância em contraste com outros termos: homem, mulher, pai, filho, filha, bisavô e assim por diante.

A ANT − e o autor também destaca outras semióticas pós-estruturalistas de materialidade, como a contribuição de Foucault − estende este entendimento além da linguagem para todas as entidades, as quais, assumem significância, estando relacionadas entre si. Assim, na ANT, entidades, pessoas e coisas não são categorias fixadas.

Os representantes dessa corrente desenvolvem um vocabulário que não leva em consideração a distinção entre sujeitos e objetos, o subjetivo e o objetivo (PECI, 2003). O que eles chamam actant é mais que um ator humano. Humanos e não-humanos podem ser “actantes”. Na rede de humanos, máquinas, animais e matéria em geral, os humanos não são os únicos seres com agência e nem os únicos a atuar. A materialidade é importante.

Sem levar em consideração a confusão da ANT com a literatura gerencialista dos últimos anos, que explora exaustivamente o conceito de rede (ANDRADE, 2003; PECI, 2003), a abordagem vem sendo criticada pelos seus próprios representantes, devido ao seu uso inadequado. Para Latour, “existem quatro coisas que não funcionam com a teoria actor-

network: a palavra ator, a palavra rede, a palavra teoria e o dígito!” (LATOUR, 2004).

Resumindo, o autor critica o uso gerencialista da teoria e a sua confusão com os debates de superação estrutura/agência ou macro/micro.

Já que aqui não cabe entrar em detalhes quanto a desdobramentos da ANT, será destacado um conjunto de pesquisas realizadas no âmbito dos estudos da ciência e tecnologia. No meu entender, essas pesquisas vêm contribuindo para a discussão sobre a demarcação científica, e com foco na circularidade existente entre diferentes campos – social, econômico, tecnológico, científico etc. – podem se tornar relevantes para discutir o processo de formação dos campos organizacionais.