KSA pour les équipes
CHAPITRE 4 PRÉSENTATION DES RÉSULTATS
4.4 Interprétation et comparaison des clusters
4.4.2 Comparaison des clusters
Aqui é ressaltado que o conceito de discurso como “unidade” de conhecimento presente num período particular de tempo se baseia no mesmo pressuposto ontológico do pragmatismo de Rorty, especificamente no fim da dicotomia objetividade/subjetividade.
Em A Arqueologia do saber, Foucault (1972) afasta-se de um posicionamento objetivista e/ou subjetivista do discurso. No estudo dos processos discursivos, ele propõe “evitar as coisas” (FOUCAULT:1972, p.63), elidir o momento das “coisas mesmas”, mas sem se remeter à análise lingüística da significação. Na sua análise “as palavras estão tão deliberadamente ausentes quanto as próprias coisas” (FOUCAULT, 1972, p.63-64).
(...) ‘discursos’, (...) não são, como poderia se esperar, um puro e simples entrecruzamento de coisas e palavras. (...) analisando discursos vemos se desfazerem os laços aparentemente tão fortes das palavras e das coisas e separar um conjunto de regras próprias à prática discursiva. (....) Tarefa que consiste em não mais tratar os discursos como conjuntos de signos (de elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam (FOUCAULT, 1972, p.64).
Muitos outros exemplos que não reconhecem a dicotomia objetividade/subjetividade são encontrados na obra de Foucault, demonstrando, dessa maneira, a afinidade com a perspectiva pragmatista. No entanto, para o propósito deste estudo, o foco será no conceito de discurso.
Foucault emprega o conceito de discurso para se referir às relações que propiciam o processo de formação dos objetos. Ele estuda o processo de formação discursiva, definido com base nesse conjunto de relações, tentando mostrar que qualquer objeto do discurso em questão encontra aí seu lugar, sua lei de aparecimento.
Essas relações são estabelecidas entre instituições, processos econômicos e sociais, formas de comportamento, sistemas de normas, técnicas, tipos de classificação, modos de caracterização; e essas relações não estão presentes no objeto. Elas não desenham a trama, a racionalidade imanente, essa nervura ideal que reaparece totalmente ou em parte quando pensamos na verdade do seu conceito. Elas não definem a constituição interna do objeto, mas o que lhe permite aparecer, justapor-se a outros objetos, situar-se quanto às próprias relações, definir sua diferença, sua irredutibilidade e eventualmente sua heterogeneidade; enfim, ser colocado num campo de exterioridade (FOUCAULT, 1972, p.59-60).
Assim, as relações discursivas não são intrínsecas ao discurso, como também não são exteriores a este, que as limitariam, ou lhes imporiam certas formas ou, mesmo, as forçariam em certas circunstâncias a enunciar certas coisas. Elas estão, de alguma maneira, no limite do discurso, caracterizam o discurso como prática. O discurso deve ser considerado como prática que sistematicamente forma os objetos sobre os quais falam. O conjunto de regras que são imanentes a uma prática que define a sua especificidade. Daí o uso corrente do conceito das práticas discursivas em pesquisas influenciadas pela perspectiva foucaultiana, que, na nossa opinião, não deixa de ser uma tautologia. A palavra discurso, em si, já compreende a dimensão da prática.
Portanto, buscar a unidade de um discurso é buscar a dispersão de elementos descrito em sua singularidade de determinar regras específicas segundo as quais foram formados objetos, enunciações, conceitos e opções teóricas. A unidade do discurso está nesse sistema que rege e torna possível a sua formação. Quando se fala de um sistema de formação, não se compreende somente a justaposição, a coexistência ou a interação de elementos heterogêneos (instituições, técnicas, grupos sociais, organizações perceptivas e relações entre discursos diversos), mas seu relacionamento pela prática discursiva (FOUCAULT, 1972).
Campo discursivo, onde a dimensão tempo-espaço se contempla, é outro conceito importante em Foucault. Campo é o espaço onde se desenvolvem os acontecimentos discursivos. É no campo onde se manifestam, se cruzam, se emaranham e se especificam as questões do ser humano, da consciência e do sujeito (FOUCAULT, 1972, p.25). Temporalidade e espacialidade se tornam uma única coisa no conceito de campo. Campo é tempo e espaço, ser e devir, estrutura e história, formação e (trans)formação.
Proponho aqui substituir os conceitos de rede, matriz etc. (presentes na análise institucional, anteriormente apresentada) pelo conceito de campo discursivo. É nos campos discursivos que os processos de reificação e institucionalização ocorrem. O processo de formação discursiva trans(forma) os objetos. Relacionando os processos de institucionalização com o discurso, abre-se espaço para incorporar a dimensão negligenciada da análise institucional: a dimensão do poder. Paralelamente, uma vez que defendo que o conceito de discurso baseia-se na superação da dicotomia objetividade/subjetividade, será possível evitar a consideração do processo de construção da realidade – no decorrer do qual fenômenos como reificação, institucionalização e instituição se manifestam – apenas como
um processo de construção “social”. O construtivismo crítico a ser apresentado servirá para operacionalizar esse argumento na parte empírica da tese.
Argumento ainda que incorporando essa dimensão discursiva é possível dar um passo à frente na compreensão dos processos de “seleção” institucional ou simplesmente responder à pergunta: “quais práticas se institucionalizam?”
Com base em Nietzsche, e numa linha muito próxima à perspectiva pragmática, Foucault incorpora a dimensão do poder na sua análise, falando sobre a política da verdade e a relação poder/conhecimento. Ele argumenta que o conhecimento foi inventado; isto é, não tem origem.
O conhecimento é o simples resultado da ação recíproca, encontro, junção, luta e compromisso entre os instintos. Alguma coisa é produzida, porque os instintos se encontram, brigam entre si, e, ao final da sua batalha, finalmente chegam a um compromisso. Esse compromisso é o conhecimento (FOUCAULT, 1994, p.8).
Da mesma maneira que o conhecimento não é de forma alguma relacionado com a natureza, não deriva da natureza humana, ele também não se relaciona com o mundo a ser conhecido, não tem afinidade com esse mundo a ser conhecido com as coisas. O mundo não tenta imitar o homem; o mundo não conhece leis. Aqui, temos a primeira ruptura entre conhecimento e as coisas. Assim, se realmente se quer saber o que é o conhecimento, compreendê-lo na sua raiz, na sua produção, não devemos olhar os filósofos, mas os políticos. Nesse sentido, podemos compreender o que é o conhecimento examinando as relações de luta e poder, a maneira pela qual coisas e homens se odeiam, brigam, tentam dominar um ao outro, exercer relações de poder sobre o outro. Considerando que não existe conhecimento em si, devemos tentar compreender a política da verdade.
Foucault tenta diferenciar o conceito de discurso do conceito marxista de ideologia. Para ele, as relações de poder com o conhecimento são inseparáveis porque dentro de qualquer sociedade existe um “regime de verdade”, com seus mecanismos particulares para produção da verdade. As sociedades contemporâneas caracterizam-se pela “economia política da verdade”, com base na qual:
a) a “verdade” é centrada na forma de discurso científico e nas instituições que o produzem;
b) sujeita-se ao constante incitamento econômico e político (a demanda pela verdade, assim como pela produção econômica e o poder político);
c) é objeto, sob diversas formas, de intensa difusão e consumo (circulando por meio do aparato de educação e informação, cuja presença é relativamente ampla no corpo social, sem resistir a algumas limitações rigorosas);
d) é produzida e transmitida sob o controle dominante, embora não exclusivo, de alguns notáveis aparatos políticos e econômicos (universidade, Exército, escritura, mídia);
e) é o foco de um profundo debate político e de confrontação social (batalhas “ideológicas”) (DIAMOND e QUINBY, 1988).
Assim como na abordagem pragmatista de James, Foucault destaca o papel do conhecimento como útil e necessário ao exercício do poder. Para Gordon (1999, p.XVIII), um dos pontos-chave em Foucault é que ele ressalta que o mais interessante nas relações entre poder e conhecimento não é a detecção de conhecimento falso, espúrio, mas o papel de conhecimentos que são valorizados e efetivos por causa da sua segura eficácia instrumental. Foucault usa a palavra savoir para expressar o conhecimento próximo ao know-how (uma maneira de tornar um problema tratável ou um material manejável). Esse tipo “médio” de conhecimento − que pode não ser rigorosamente científico − demanda um certo grau de ratificação dentro de um grupo social e confere alguns benefícios sociais.
A idéia da instrumentalidade das verdades (isto é, conhecimentos), encontrada em James, é muito similar ao interesse de Foucault quanto ao papel dos conhecimentos como úteis e necessários ao exercício do poder, porque eles são efetivamente úteis (practically
serviceable). No entanto, diferentemente de Foucault, para James o foco da análise continua a
ser o sujeito.
Foucault expande o conceito além do sujeito, no nível do discurso. Sem dúvida, essa noção de praticabilidade, presente em Foucault, tem a vantagem de oferecer outra dimensão à
análise da formação de campos discursivos; a dimensão do poder, que, de fato, não é explicitamente reconhecida na abordagem pragmática.
Para Foucault, o poder não é capaz de promover e explorar conhecimentos espúrios, mas o exercício racional do poder tende a fazer uso pleno dos conhecimentos capazes da eficácia instrumental máxima. Assim, duas idéias presentes nas investigações de Foucault foram:
a) a produtividade do poder − relações de poder são integrais aos modernos aparatos sociais de produção e, também, estão relacionadas aos programas ativos para a parte fabricada da substância coletiva da própria sociedade; e
b) a constituição da subjetividade por meio de relações de poder − o impacto individual das relações de poder não se limita à repressão pura, mas também inclui a intenção de ensinar, moldar condutas, implantar gradualmente formas de consciência própria e identidades (GORDON, 1994).
Talvez, a maior contribuição de Foucault esteja no reconhecimento de que, além do aspecto negativo do poder (sua força destrutiva), existe esse lado positivo, que é o lado produtivo e transformador do poder, sua eficácia produtiva. “De fato, o poder produz; ele produz real; produz domínios de objetos e rituais de verdade” (FOUCAULT, apud MACHADO, 1979, p.XVI). Além disso, o poder é também o produtor da individualidade. “O indivíduo é uma produção do poder e do saber”, resume Machado (1979, p.XIX), referindo-se ao poder disciplinar que Foucault destaca a partir de uma análise que, no entanto, é histórica e específica. O poder disciplinar é característico de uma época, de uma forma específica de dominação.
É essa dimensão produtiva do poder que será de crucial relevância para a composição do argumento teórico deste estudo. Vale a pena deter-se um pouco mais nesse ponto de análise.
A dimensão negligenciada: o poder
Como se pode perceber, a dimensão do poder é crucial na análise foucaultiana. Contudo, no âmbito dos estudos organizacionais, essa dimensão, quando não esquecida, tem sido tratada sob a ótica gerencialista, como um variável possível de ser identificada e passível de manipulação. Prevalece o pensar do poder como algo possuído por um agente poderoso e utilizado por este a fim de impor sua vontade a um outro agente desprovido de poder, isto é, o poder tem uma fase e é exercido por A em prejuízo de B, seguindo, assim, a tradição estabelecida por Robert Dahl7 (DAHL, 1961; PERISSINOTTO, 2003)
Entre os autores que mais exemplificam a noção predominante acerca do poder nas organizações destaca-se Pffefer (1981) que define o poder como a capacidade de um ator social ultrapassar a resistência, no seu esforço por atingir objetivos ou resultados desejados. Para esse autor, o poder é um fenômeno estrutural, conseqüência da divisão do trabalho e da departamentalização presentes nas organizações, mas que é especificado em termos das relações e do contexto no qual se insere. Para ser neutro e objetivo, Pffefer tenta operacionalizar a definição do poder, de forma a facilitar as pesquisas na área, definindo as organizações como concentrações de poder. Embora o autor apresente sua perspectiva como uma crítica das teorias da escolha racional e funcionalista – acusando-as de servir à justificação e legitimação das organizações –, ele argumenta que eficiência, produtividade e efetividade são as dinâmicas dominantes que operam na base da organização. Segundo a análise de Pffefer, o poder torna-se um objeto “palpável” de manipulação, não apenas para pesquisadores, mas também para membros organizacionais.
Já foi destacado que os estudos institucionais também não escapam dessa visão funcionalista do poder, incorporada na sua vertente regulativa. No arcabouço teórico que se tenta construir neste estudo, o poder está presente em duas dimensões:
a) na crítica da dicotomia objetividade/subjetividade; e
b) no papel que ele desempenha como uma categoria fundamental para uma análise discursiva baseada na contribuição foucaultiana.
Nesse ponto, vale a pena abordar novamente a questão da dicotomia objetividade/subjetividade, para ressaltar que a dimensão do poder está incluída nos próprios pressupostos que lhe servem de base.
Muitos pós-estruturalistas argumentariam que o processo histórico de estabelecimento da dicotomia objetividade/subjetividade é essencialmente político (CATLAW, 2002; KELLER, 1995a; LATOUR, 1990, 1999). Além do que é verificado em autores como Latour – cuja contribuição será destacada −, o jogo político presente na dicotomia objetividade/subjetividade também é analisado por Keller (1995a). Enfatizando a dimensão ideológica da categoria do gênero, a autora, baseada numa abordagem psicanalítica, tenta compreender a associação culturalmente persistente entre objetividade e masculinidade. Ela mostra que essa associação reflete e contribui para uma complexa rede de desenvolvimento cognitivo, emocional e sexual. Para ver como os objetivos da ciência (conhecimento e poder) são traduzidos em termos de objetificação e dominação, Keller examina as raízes psicodinâmicas que juntam esses objetivos.
Objetividade, eu argumentaria, é a contrapartida cognitiva da autonomia psicológica, e, adequadamente, deve ser compreendida como enraizada no espaço interpessoal; a capacidade para a objetividade se desenvolve junto com a articulação do “eu” e do gênero (KELLER, 1995a, p.71).
As relações entre objetividade, poder e dominação são vistas a partir de uma perspectiva interpessoal, argumentando que a dominação, até dos não-humanos, é um projeto interpessoal.
Como já vimos, Foucault não apenas reconhece essa dimensão política verificada na dicotomia objetividade/subjetividade, mas também une cuidadosamente a dimensão do poder à análise de discurso. O conceito de poder não está presente apenas na análise foucaultiana. É por meio das relações de poder que o próprio processo de formação discursiva se torna possível.
Como Machado (1979, p.X) ressalta, para Foucault “não existe algo unitário e global chamado poder, mas unicamente formas díspares, heterogêneas, em constante transformação.
O poder não é um objeto natural, uma coisa; é uma prática social e, como tal, constituída historicamente”. Ele visa distinguir a mecânica de poder que se expande por toda a sociedade, assumindo as formas mais regionais e concretas, investindo em instituições, tomando corpo em técnicas de dominação e não apresentando uma imediata relação com o Estado. Para Foucault, o poder é capilar, minúsculo.
Poder este que intervém materialmente, atingindo a realidade mais concreta dos indivíduos – o seu corpo – e que se situa no nível do próprio corpo social, e não acima dele, penetrando na vida cotidiana e por isso podendo ser caracterizado como micropoder ou subpoder (...). Os poderes se exercem em níveis variados e em pontos diferentes da rede social, e nesse complexo, os micropoderes existem integrados ou não ao Estado (MACHADO, 1979, p.XII).
Da mesma forma que Machado (1979), concluo que para Foucault não existe o poder como coisa (objeto); existem, sim, práticas ou relações de poder.
O que significa dizer que o poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona. E que funciona como uma maquinaria, como uma máquina social que não está situada em um lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social; não é um objeto, uma coisa, mas uma relação (MACHADO, 1979:p.XIV).
Resumindo, tentei ressaltar que a dimensão do poder está presente não apenas na controvérsia objetividade/subjetividade (pressuposto desta tese), mas que essa dimensão é também um relevante componente analítico do referencial teórico foucaultiano que alimenta a proposta teórica deste estudo, uma vez que enfatiza a dimensão produtiva do poder. Combinando a dimensão pragmática da instrumentabilidade com essa visão do poder foucaultiano, afirmo que práticas que se institucionalizam são práticas que “funcionam”; ou seja, são práticas necessárias e úteis às relações de poder presentes num campo discursivo.