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2.3 Techniques de suppression de l’ordre zéro

2.3.2 Méthodes numériques

Ao longo da realizaªo deste estudo foram surgindo aspectos relevantes, que permitiram uma melhor compreensªo face reacªo po ssvel e reestruturaªo interna perante uma situaªo inesperada e traumÆtica que provoca ir remediavelmente danos fsicos.

Esta situaªo inesperada e traumÆtica com que o Pe dro se confrontou, obrigou-o a recorrer a diversos elementos organizativos da sua personalidade, socorrendo-se de todas as suas vivŒncias, de forma a ultrapassar o problema.

Nesta situaªo houve inevitavelmente, como em toda s as situaıes que pressupıem um trauma, a necessidade de um processo de adaptaª o.

Neste processo hÆ respostas inevitÆveis de teor depressivo, que neste caso sªo reactivas perda da funcionalidade. O saber conviv er e elaborar estes sentimentos depressivos constitui um dos pontos-chave no processo de adaptaªo do Pedro.

AtravØs de mecanismos mentais inconscientes o Pedro revelou um evitamento permanente em relaªo perda, provocando assim um distanciamento afectivo reportado ao possvel sofrimento que leva elaboraªo mental da parte depressiva.

Esta forma de adaptaªo parece ter sido o modo mai s imediato sob o ponto de vista emocional e psquico para o Pedro poder lidar com a sua nova condiªo.

O modo como o sujeito enfrenta a disrupªo do seu quadro de vida Ø algo que pode estar relacionado com a sua personalidade, num determinado contexto familiar, social e afectivo (Oliveira, 2001). A intensidade do sofrimento e a forma como o Pedro reagiu, estªo por inerŒncia associados ao estado anterior da estruturaªo de si mesmo. Facto que nos obriga a conceder o processo Adolescente, admitindo que o acidente precipitou uma mudana relativa s vivŒncias do Pedro, o que exalta o reforo verificado ao nvel da sua identidade, que se veio progressivamente a traduzir nas suas atitudes face lesªo.

Sentimentos de choque, desconfiana e negaªo estªo inerentes a esta vivŒncia, permitindo progressivamente uma atitude mais defensiva, com significado protector e adaptativo, tal como Fink verificou nos seus estudos (1967, cit. Por Heineman, 1995).

A modificaªo do corpo, consequente lesªo fsica provocada por um acidente Ø acompanhada de uma progressiva tomada de consciŒncia da perda das suas capacidades, e esta perda altera as relaıes com o mundo e consigo prprio.

Perante isto hÆ uma necessidade de realizar um trabalho de luto, podendo existir uma dificuldade de aceitaªo da incapacidade e da reali zaªo daquele trabalho. O sujeito experiencia um sofrimento psquico, tentando constr uir mecanismos para ultrapassÆ-lo.

O Pedro recorreu a um mecanismo de evitamento patente na sua postura, discurso e no cruzamento dos resultados dos testes projectivos, com o objectivo de nªo reconhecer a realidade na sua totalidade, impedindo uma possvel percepªo traumatizante.

O Pedro evitou assim conceder nas suas vivŒncias a perda inerente sua lesªo, acabando por activar um outro mecanismo, a sublima ªo, que estÆ patente no supra investimento profissional e pessoal.

A aparente falta de efeito e consequŒncia que verificamos existir na imagem corporal do Pedro, deve-se provavelmente sua habilidade pe ssoal para nªo negar, mas antes evitar os efeitos da transformaªo, que conscientemente ele i dentificou como ameaadora. Ele evitou a perda, pois nªo permitiu que esta alterasse as suas relaıes de forma negativa com o mundo, com os outros e consigo prprio, proporcionando um reforo do Ego, ao integrar apenas as partes mais saudÆveis, potenciando-as para lidar com esta situaªo.

Esta forma de defesa parece traduzir o facto de o Pedro deprimir pela falha que passou a existir ao nvel do seu desempenho, sendo atravØs desta que ele tenta reverter a situaªo.

Tavares (2003) defende que a pessoa tem um desenvolvimento satisfatrio da sua imagem corporal se vivŒncia os seus movimentos e direcciona as suas acıes para um mundo externo, de uma forma conectada com as suas sensaı es e processos fisiolgicos referentes ao seu corpo, conhecendo as suas possibilidades e aceitando as suas limitaıes corporais. O Pedro potenciou as suas possibilidades e contrariou as suas limitaıes ps acidente, evitando ou ignorando a vivŒncia da perda.

Depois de um acidente com estas consequŒncias uma nova imagem corporal e de si tem que ser construda, de forma a corresponder s alteraıes fsicas sofridos. Essa imagem Ø tanto mais positiva quanto maior for a aceitaªo fa ce sua deficiŒncia. O Pedro fomentou um efeito valorizador no qual nªo se vŒ inferiorizado relativamente ao que realmente Ø.

O auto-conceito e auto-estima do Pedro engrandecidos contriburam muito para a camuflagem de possveis alteraıes na imagem corpor al com efeitos positivos na sua prpria identidade.

Os resultados dos testes projectivos, que tinham como objectivo apelar emergŒncia de conteœdos mais internos, traduziram um reduzido envolvimento, impedindo a emergŒncia

de emoıes ou angœstias que provocassem uma desorga nizaªo no funcionamento psicolgico adaptativo do Pedro. No entanto, foi po ssvel evidenciar a dificuldade em conceder a componente fsica no contacto relacional com os outros. Dificuldade que vem ao encontro do mecanismo de evitamento que o Pedro usa no seu funcionamento defensivo, contornando assim possveis alteraıes. A sua image m nªo Ø explcita, pois o Pedro funciona num registo de evitamento de afectos e estes poderiam ter significado no valor desta imagem corporal. Mas, para o Pedro o verdadeiro significado que atribui sua imagem traduz-se no investimento social que continua a potenciar, assim como nas tentativas que promove no sentido de realizaªo de novas actividades e proxim idade com as pessoas. Pois a imagem corporal Ø lÆbil, mutÆvel e incompleta, dependendo do que o sujeito faz dela, do seu pensamento, percepıes e da forma como se relaciona com os outros.

O aspecto de maior relevncia neste processo prend e-se com o facto de o Pedro deprimir narcisicamente, criando um efeito valorizador, atravØs de fantasias compensatrias de sobrevalorizaªo, que permitiu um reforo da sua auto-estima, auto-conceito e consequentemente no processo de integraªo da nova imagem corporal e reestruturaªo da identidade. Ou seja, para o Pedro o que parece ter maior importncia Ø o desempenho da sua capacidade fsica, sendo apenas a este nvel que el e permite a expressªo dos seus sentimentos, os œnicos valorizados, e que tenta atravØs deles reverter a situaªo da sua perda. Perda que Ø evitada e que lhe permite deprimir narcisicamente, recorrendo a uma inflaªo neste mbito, possivelmente de forma a encobrir uma imagem pobre que inevitavelmente a vivŒncia interna lhe poderÆ suscitar nesta situaªo.

A falha narcsica desorganiza-o de uma forma menos intensa que o luto da perda. Pois a maneira como ele reage a esta falha, contornando as suas limitaıes e procurando um enriquecimento profissional e pessoal, permite-lhe estruturar a parte mais frÆgil que ele conscientemente admite.

Parece evidente que a sua reestruturaªo atravØs d a posiªo narcsica, lhe permitiu um evitamento face s possveis alteraıes da sua imag em corporal e levou a um fortalecimento ao nvel da identidade.

Ele conseguiu organizar-se a partir de uma possve l distorªo da imagem corporal que ele evitou, que nªo Ø explcita face aos resultados dos testes aplicados, postura ou discurso, adaptando-se perda de uma parte de si, e que por inerŒncia a sua prpria identidade

individual e social saiu reforada. Ele consegue ob ter satisfaıes pessoais dentro dos limites impostos pela sua incapacidade.

Concluindo, as alteraıes provocadas por uma incapa cidade fsica, podem nªo ser desorganizadoras, mas antes sujeitas a um processo de adaptaªo, permitindo um reforo ao nvel da identidade.

Pode-se dizer que a lesªo vem reforar ou agravar o s traos de personalidade do sujeito com incapacidade fsica, permitindo-lhe int egrar adaptativamente as alteraıes do seu corpo e da sua vida. As caractersticas que lhe era m inerentes, posteriori foram fortalecidas e ajustadas, permitindo ao Pedro uma atitude empreendedora ao nvel profissional e pessoal, postura fulcral neste processo de adaptaªo.

Posso dizer que os mecanismos de coping, utilizados pelo Pedro foram suficientemente adequados para o desenvolvimento positivo deste processo. Para o qual foram determinantes, como pressupıe Kennedy (1991), as su as caractersticas pessoais, materiais e sociais, mas essencialmente as estratØgias defensivas, que passaram a traduzir o seu comportamento habitual, os estilos cognitivos face s vÆrias situaıes novas, utilizados na resoluªo do problema com que se confrontou.

HÆ necessidade de realar que o factor tempo favorece este processo adaptativo, promovendo uma progressiva reestruturaªo.

Nove anos aps o acidente, depois de desenvolver pr ogressivamente estratØgias que lhe permitiram adaptar-se ao seu novo estado fsico , o Pedro apresenta um equilbrio ao nvel da sua identidade, fomentando um ambiente afectivo, social e cultural gratificante. Sendo que, actualmente destaco o facto de parecer revelar uma maior capacidade para tentar centrar-se na sua vida psquica e tentar compreender algumas expe riŒncias de vida, nomeadamente o que lhe aconteceu e as mudanas associadas ao traumatis mo sofrido. A ida a Cuba, a habilidade na gestªo das suas expectativas face a possveis resul tados, assim como o facto de continuar a acreditar no progresso da ciŒncia face a uma possvel recuperaªo podem ajudar a traduzir essa capacidade. Nesta ultima fase de maior introspecªo parece que o Pedro tenta conseguir desenvolver a capacidade de se deprimir atravØs do luto da perda, pois atravØs das partes mais saudÆveis ele parece conseguir estruturar inconscientemente a parte mais frÆgil que ele conscientemente admite.

Pelo que em meu entender, beneficiaria de uma intervenªo psicoterapŒutica onde pudesse ser trabalhado o luto pela perda, sequela do traumatismo do acidente, que

seguramente teve um efeito inconsciente nªo s na s ua identidade mas tambØm na sua imagem corporal. De forma a permitir ao Pedro, que conseguiu incorporar as suas limitaıes e pensar em estratØgias que lhe permitiram adaptar-se ao seu novo estado fsico de forma consciente, tornar-se um ser uno e integrado, com vista a encontrar o seu self e internalizar na totalidade todos os seus aspectos face ocorrŒncia da perda.

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