Chapitre 1 : Etat des connaissances des sédiments de curage
1.5 Prétraitement des sédiments Séparation des phases solides / liquides
1.5.1 Mécanismes physico-chimiques de coagulation et floculation
O desafio que nos colocamos, frente a Heidegger, está em compreender o que caracteriza a linguagem a partir da subjetividade, frente ao sentido como possibilitador de compreensão. Num primeiro momento, faz-se necessário refletir, à base de Heidegger, a necessidade de uma superação da filosofia da subjetividade. Para tanto, iremos nos concentrar nos parágrafos 31,32,34,43 e 44 de Ser e Tempo. Também serão abordados diretamente os comentadores Ernildo Stein, Manfredo A. de Oliveira e João A. MacDowell. Sendo assim, o presente capítulo busca a "pré-compreensão" gadameriana, à base da qual depois buscaremos abrir a discussão hermenêutica em torno da obra Verdad y
Método.
318Cf. ibid., p. 333. 319Stein, 1987, p. 84.
Heidegger não é um teórico da ciência do espírito, ele aproxima-se mais da característica de ontólogo. Vem do neokantismo e da fenomenologia transcendental e ele sabe que Filosofia é, em última instância, o saber do sentido320.
Como ontólogo, Heidegger não poderia deixar de dirigir a pergunta pelo ser. Por sua vez, o ontológico se dá, pelo assim dizer, no ente intramundano que pergunta. Portanto, nós temos a condição de possibilidade de enunciar algo sobre os entes, a partir do ser.
Tal visão deixa claro que, para Heidegger, não existe acesso aos entes, sem passar pela compreensão do ser. Dito de outro modo, o ente que pergunta sobre algo se eleva ao ser. Algo, enquanto algo, se dá, num primeiro momento, no nível dos disponíveis. Nesse sentido, pode-se falar que o Dasein entende os entes como mediação entre os entes e o ser. O que torna essa situação mais clara é que a caracterização ôntica do Dasein consiste em que é ontológico.
Segundo o que podemos perceber, Heidegger explicita que o Dasein ocupa um lugar prévio em relação aos demais entes. Por um lado, percebe-se uma prioridade ôntica, pois o Dasein está determinado em seu ser pela existência, ao passo que, por outro lado, surge a prioridade ontológica, já que ele mesmo é, por razão da determinabilidade de sua existência, em nível ontológico. Parece que no fundo, para Heidegger, a ontologia é única e exclusivamente aquela indagação que se ocupa do ser enquanto ser, porém não como uma mera entidade formal, nem como uma existência, senão como aquilo que faz possíveis as existências.
Com relação à estrutura da compreensão, Heidegger vai tomar o sentido como uma estrutura antecipadora, ao passo que a linguagem entendida, a partir da subjetividade, aparece como uma obra da própria subjetividade. É, portanto, um produto da própria subjetividade, para que ela possa se formar e assim manipular o mundo.
320A esse respeito, MacDowell dirá que “a nova aspiração a deixar os fenômenos anunciarem, por si mesmos, o seu sentido, entendida radicalmente, implica que a verdade, meta de toda a inquietação filosófica, não significa senão aquilo que os gregos chamavam de alêtheia, o desocultamento do ente. A íntima conexão entre a verdade como alêtheia e a idéia de fenomenologia manifesta-se claramente na explicação que Heidegger dá do termo na introdução de Sein und Zeit, remontando ao sentido grego de phainómenon e de
lógos (SZ §7). O significado da expressão phainómenon, diz ele, é: o que se mostra a si mesmo por si
Sujeito, para Heidegger, quer dizer aquele que se relaciona com o mundo como aquele que manipula o mundo. O pólo sujeito-objeto é inseparável, sendo que o objeto é aquilo que está diante de, ou então dito de outro modo, “todo sujeito é o que é somente para um objeto e vice-versa”321. É aquilo de que o sujeito pode dispor, aquilo que está à mão, como um ser simplesmente dado (Vorhandenheit)322, aquilo que eu posso pegar.
Para Heidegger, “a circunvisão descobre, isto é, o mundo já compreendido se interpreta. O que está à mão se ‘explicita’ na visão da compreensão. (...) O que se interpreta reciprocamente na visão de seu ser-para como tal, ou seja, que se explicita na compreensão, possui a estrutura de algo como algo”323.
Ora, pensar o mundo, a partir da subjetividade, é pensar o mundo como objetalidade. Nesse caso, mundo é aquilo de que eu posso dispor, sobre o que eu posso dominar, a que eu posso me impor324. O sujeito é sujeito, na medida em que se impõe ao objeto. Cabe ao sujeito manter uma atitude ativa frente às coisas que são nada mais que objetos disponíveis. “O mundo é composto destes dois elementos: de objetos que estão
disponíveis no mundo. Este é um mundo que já sempre está aí, composto por existenciais e
por instrumentos que são utilizados”325. Portanto, que está aí a nosso dispor.
Vista sob a perspectiva da teoria da subjetividade, a linguagem necessariamente é apenas um instrumento de que o sujeito dispõe para ter as informações necessárias, a fim de se impor ao objeto. O que nos é revelado na compreensão, chega para nós como algo enquanto algo. Esse algo enquanto algo se dá, num primeiro momento, no nível dos entes que estão-aí. Temos uma compreensão de algo que se manifesta enquanto algo, que passa pela linguagem. A linguagem tem essa tarefa de ser mediadora, para que a compreensão possa se efetivar. Ao que percebemos, um dos grandes problemas da linguagem, na modernidade, é que ela passou a ser compreendida como mera informação, ou seja, ela ficou restrita à informação, mesmo sendo condição de possibilidade de os homens agirem no mundo.
321Heidegger, 1995, p. 275.
322“Vorhandenheit é um substantivo formado do substantivo ‘Hand’ (= mão) e da preposição ‘vor’ (=diante de, no sentido espacial, e antes de, no sentido temporal). Designa o modo de ser da coisa enquanto o que se dá simplesmente antes e diante de qualquer especificação” (Heidegger, op. cit., Notas Explicativas, p. 311 – 312).
323Ibid.., p. 205.
324Cf. Reale; Antiseri, 1991, p. 584. 325Stein, 1997, p. 109.
Em Heidegger, a própria linguagem é instância fundadora de sentido. Nesse sentido, podemos dizer que, na modernidade, a experiência fundamental do sentido do ser é objeto. Objeto é o sentido que o ser tem para o homem moderno; ele aparece como um disponível, aquilo de que se pode dispor, aquilo a que eu posso me impor, ou seja, o real é o manipulável, é o dominável, aquilo que pode pôr-se à disposição do homem.
Nesse sentido, Heidegger dirá que "a verdade (descoberta) deve sempre ser arrancada primeiramente dos entes. O ente é retirado do velamento"326. Parece que não se ignora aqui o caráter ontológico de Heidegger, pois trata-se de um ente que, por sua vez, pergunta pelo ser. Pode-se dizer, aqui, que algo enquanto algo se dá num primeiro momento, no nível dos entes disponíveis.
Nesse contexto, a linguagem é simplesmente vista como informação, ou seja, um meio através do qual o homem tem os conhecimentos necessários para impor-se ao real. Essa é a concepção hoje universalmente vigente e, na ótica de Heidegger, é uma forma de manifestação da verdade. Veja-se bem, uma forma, portanto, não é a forma.
Nessa linha de raciocínio, segundo MacDowell, "o compreender humano não é absoluto; ao mesmo tempo que manifesta, ele oculta também o ente. Heidegger introduz aqui o elemento da finitude histórica do compreender, negligenciado por Husserl"327. Admitindo, que algo enquanto algo se revela na compreensão, percebemos claramente o limite de sua finitude. Logo, jamais é possível a compreensão em sua totalidade.
Todo esforço de Heidegger vai consistir em demonstrar que essa não é a forma originária de manifestação, nem do homem, nem do mundo, nem da linguagem328. Não é que Heidegger negue a importância da modernidade como tal, o problema é a absolutização de uma forma da verdade, que não é a mais originária. Isso se torna um dos problemas centrais para Heidegger, uma vez que, na perspectiva objetificadora, o real cada vez mais reduz-se, em última instância, ao manipulável. Dito de outra forma, "como outrora, o problema central para ele é o da verdade do ser, esta já não é entendida, todavia,
326Heidegger, op. cit., p. 291. 327MacDowell, op. cit., p. 122.
328A esse respeito, ver Apel, K.-O. La Transformación de la Filosofía - Tomo I, p. 283, onde discute sobre a intenção heideggeriana de, em certo modo, "superar" a redução moderna da pergunta pelo ser, mediante a pergunta pela linguagem.
como o valor do conhecimento do ser, mas sim como o sentido da compreensão do ser"329. Poderíamos aqui nos perguntar: como se dá essa "verdade do ser"?
Não é que não haja a experiência da manipulabilidade, a questão é saber se essa é a experiência fundante e originária da vida humana. "O autor move-se neste mundo, mundo da compreensão, da compreensão do sentido, mundo hermenêutico, definitivamente cortado para a Filosofia, da totalidade metafísica, onto-teo-lógica, critológica e natural. A posição filosófica se dá sobre um plano em que há apenas o homem" 330. É nesse sentido que, para Heidegger, a linguagem hoje virou informação, sendo que cada vez mais vemos as abreviações. Linguagem virou um meio, a mediação necessária da manipulação do mundo.
Ora, sendo que "o ser recebe o sentido da realidade"331, o ser do homem hoje, na linha de raciocínio de Heidegger, determina-se a partir da máquina. A máquina é a expressão do que é o ser humano como sujeito. O problema da nossa época não é ter entendido a linguagem como informação, é ter reduzido linguagem a informação. E as conseqüências desse processo podem tranqüilamente ser percebidas. Basta ver a quantidade de reprodução do saber que se oferece via os mais diversificados meios de informação332. O mundo contemporâneo absolutizou a dimensão instrumental da linguagem. Linguagem se reduz a puro instrumento, em poder do qual se tenta encontrar com os outros e com o mundo. No entanto, a linguagem deveria ser entendida como mediação necessária de nosso acesso ao real333.
329MacDowell, op. cit., p. 180. 330Stein, op. cit., p. 22. 331Heidegger, op. cit., p. 267.
332 Entenda-se aqui a reprodução do saber enquanto meras cópias, ou seja, meras repetições feitas de uma maneira diferente, não raro, com criatividade. Isso se manifesta, sobretudo, em mecanismos que se criam com a preocupação voltada, acima de tudo, a atender a um mercado consumista. Exemplificando, isso pode ser percebido na ilusão que se criou em relação ao uso do computador nas escolas. Na verdade, tal máquina, enquanto acesso a textos, não oferece nada mais do que é oferecido em livros. Ela o faz, isso sim, de um modo mais atraente. No entanto, cria uma falsa concepção (impressão), ao mostrar mecanismos que possibilitam ao usuário ouvir mensagens, que no fundo não passam de reprodução das obras ali concentradas, criando uma falsa impressão de que é a máquina que está manifestando ou que ela é a "reveladora" . O que acontece, no fundo, é quase que uma inversão e desapropriação do texto mesmo, passando o computador a ocupar o lugar que lhe pertence por excelência.
333Segundo Manfredo A. de Oliveira, “as filosofias da consciência na modernidade foram, assim, como Hegel viu muito bem, filosofias da subjetividade, mas não filosofias da sociabilidade, da práxis comunicativa, como dizemos nós hoje. Substituir o paradigma da 'consciência' pelo paradigma da ‘linguagem’, para pensar o conhecimento significa passar da subjetividade para a sociabilidade. Nisso há uma coincidência de fundo entre hermenêutica e a filosofia analítica, a partir do segundo Wittgenstein. É a partir daqui que se deve entender a ‘reviravolta lingüística’ da filosofia transcendental como a articulou K. O. APEL, em seu livro
O ideal, ao que podemos perceber, é tornar esse instrumento o menos complicado possível. Por isso, vai-se buscar falar a língua mais simples possível. Isso porque é uma linguagem extremamente instrumental. Leibniz traz a idéia de que deveríamos ter um instrumento extremamente imune de defeitos com o qual eu possa, em dois segundos, ter uma vasta teoria em nossa disposição. Extremamente simples e ao mesmo tempo rigoroso, com o qual se logre fazer um discernimento de todas as linguagens. O menos complicado possível e extrema facilidade na utilização.
No entanto, por mais que se queira manipular a linguagem e reduzi-la ao caráter instrumental, para Heidegger é impossível à razão absolutizadora conseguir determiná-la. Para ele, é claro que, “como pronunciamento, a linguagem guarda em si uma interpretação da compreensão do ‘Dasein’”334.
Ao longo de sua reflexão, Heidegger expõe a importância do escutar, salientando que "a escuta é constitutiva do discurso"335. Talvez aqui repouse um dos grandes problemas de nossa época, pois o ritmo que o mundo urbanizado impõe aos indivíduos, bem como a disputa pelo espaço físico, de trabalho, e assim por diante, parecem criar um espaço desfavorável para que o ente concreto, ou autêntico, possa ir além do senso comum.
Nesse meio, como não poderia deixar de ser, não raro o indivíduo foge de si mesmo, por desconhecer-se a si mesmo. O existir autêntico, ou, talvez, do ponto de vista heideggeriano, o desocultamento da constituição do ser da existência, através do "descobrimento" da finitude da existência, exige a escuta e o silêncio enquanto pertencentes à linguagem discursiva como possibilidades intrínsecas336. Isso tudo remete à consciência de um ente que se reconhece finito, ôntico.
Falar muito não assegura em nada uma compreensão maior. Conforme o veremos adiante, "discurso e escuta se fundam na compreensão. A compreensão não se
secundário para comunicação aos outros daquilo que já fora antes conhecido sem ela para emergir como a mediação necessária de nosso acesso ao real. Ela é, assim, condição de possibilidade e de validade da compreensão e, com isso, de nosso pensamento conceitual, do conhecimento objetivo e de nossa ação portadora de sentido” (Oliveira, 1997, p. 19).
334HEIDEGGER, M. , Ser e Tempo, p. 227. 335Ibid., p. 222.
origina de muitos discursos, nem de muito ouvir por aí. Somente quem já compreendeu é que poderá escutar"337.