3.2 Modeling
3.2.2 Modified static model
Fonte: Relatório das atividades do distrito de Joinville, referente ao exercício de 1952.
Contudo, também as áreas centrais das cidades foram foco desse trabalho. No Relatório de Atividades do Distrito de Joinville correspondente ao exercício de 1950, o relator destaca que nem mesmo as famosas palmeiras imperiais da Alameda Bruestlein foram poupadas da destruição. Esse relatório, cujo objetivo era descrever todas as atividades desenvolvidas pelo SNM, fazia também alusão às comemorações do centenário da formação de Joinville, que se realizaria em 9 de marçode 1951. Na página inicial do documento, havia um cartão postal comemorativo que continha imagens referentes ao início da colonização daquela região e da fundação do município, bem como a imagem de um cartão postal descrito como sendo uma ―lembrança do centenário de Joinville‖. A Figura 21 trata-se exatamente desse cartão, que tem em sua parte central a Alameda Bruestleinn e suas palmeiras. Em frase escrita logo abaixo da foto, o redator atenta para o fato de que, nesta alameda, a qual era o principal cartão postal da cidade, o SNM efetuou serviço de destruição das bromeliáceas.
Figura 21 – Cartão postal comemorativo ao centenário do município de Joinville
Fonte: Relatório de atividades do distrito de Joinville, referente ao exercício de 1950.
Nesses relatórios, podiam ser ainda encontradas tabelas que traziam a dimensão do processo de desbromelização em números, como, por exemplo, a quantidade de unidades destruídas, de áreas limpas, de homens empregados no trabalho e os custos das obras, separados entre
gastos totais e unitários. É o que pode ser observado na Tabela 6, elaborada pelo mesmo redator do relatório acima mencionado. Tais informações revelam uma extensa rede de controle sobre o corpo de servidores que compunham o SNM no estado. O monitoramento fazia- se sentir por todos os setores, desde os funcionários que se dedicavam aos trabalhos de campo, controlados por seus inspetores por meio de minuciosas anotações que eram entregues aos guardas-chefes, os quais contabilizavam as informações e repassavam-nas aos chefes de distrito. A partir desses dados, eram elaborados relatórios destinados ao chefe do setor–neste caso o chefe do setor do estado de Santa Catarina–, que, por fim, enviava também seu relatório ao Ministério da Saúde.
Para que os dados acerca do processo de desbromelização pudessem ser devidamente registrados, os guardas trepadores contavam cada uma das plantas que haviam sido arrancadas e posteriormente queimadas.216 Essa contagem permitia que seus superiores enviassem números precisos em seus relatórios e simultaneamente possibilitava o controle de suas atividades. Outro dado relatado era a data precisa em que cada serviço foi efetuado. Percebe-se na Tabela 6, por exemplo, que houve uma interrupção do trabalho de desbromelização em Joinville entre fevereiro, março e abril, bem como entre novembro e dezembro do ano de 1952. Isso pode ser explicado pelo fato de que os meses de calor intenso e umidade eram marcados pelo aumento do número de casos de malária, boa parte devido à proliferação de mosquitos. Nesses períodos em que se faziam necessárias medidas rápidas e eficientes – tais como a que se observava com o uso do DDT para contenção de possíveis epidemias, os servidores deixavam de executar esse ofício para dedicar- se à outra tarefa: a dedetização intradomiciliar, que, nesse determinado momento histórico, já estava sendo empregada concomitantemente aos trabalhos de desbromelização e desmatamento.
216 Cabe ressaltar que esta contagem muito provavelmente não poderia resultar em números exatos, em função da impossibilidade de contagem de algumas espécies.
Tabela 6 – Referente ao serviço de destruição de bromélias no 4º distrito em 1952
Fonte: Relatório das atividades do distrito de Joinville, referente ao exercício de 1952.
O Relatório desse mesmo distrito, correspondente ao ano de 1954, notificava a necessidade de revisão de áreas onde a desbromelização já havia sido feita. Segundo o relator, a destruição dos gravatás na cidade, iniciada em 1947, chegou a seu término em 21 de junho de 1954, no entanto, ainda era possível encontrar, por todo o município, incluindo-se algumas ruas centrais, um grande número dessas plantas adultas, as quais, caso fossem devidamente verificadas, apontariam índices positivos referentes a larvas de anofelinos. Conforme esse relatório, o trabalho de destruição das bromélias em Joinville, no decorrer daquele ano, foi pequeno, já que se tratava apenas de uma revisão. Naquele período, o objetivo da tarefa era a eliminação dos gravatás adultos que ainda podiam ser encontrados em algumas ruas do município. Esses advinham de sementes que restaram em alguns locais mesmo após a destruição das plantas, ou eram gravatás que não foram eliminados durante a desbromelização. Ainda conforme esse relatório, ao longo do período entre 10 de março de 1954 e 21de junho de 1954, foram ―destruídas 85.540 unidades, procedendo a limpeza de uma área de 536.729 ms², empregando-se 1.702 homens-dia, com o custo de Cr$ 104.113,65.‖217Sendo assim, nota-se que, mesmo após o processo de limpeza, efetuado sob o controle dos fiscalizadores, com o objetivo de garantir a eliminação completa das plantas, ainda era grande o número das que escapavam do processo de destruição.
Em Blumenau, como já visto, os guardas trepadores se encarregavam de dar fim às bromélias encontradas nas árvores das matas. Mas a população também foi conclamada para auxiliar no processo de desbromelização que se propunha para aquele município. Em nota veiculada no Jornal Cidade de Blumenau, a população era solicitada a cooperar e auxiliar no extermínio das bromélias, através da destruição destas nos locais de fácil acesso em seus jardins ou em suas propriedades. Tentando convencer a população em geral da importância da desbromelização, a ocorrência desse trabalho passou a ser anunciada em jornais, especialmente quando de sua ocorrência na área central da cidade, na casa de empresários conhecidos e respeitados e em locais de importância como na chácara das Irmãs, nos Colégios e no Hospital Santa Izabel. Buscava-se, assim, convencer a população Blumenauense
217 BRASIL. Ministério da Saúde. Serviço Nacional de Malária, setor Santa Catarina, 4º distrito. Relatório das atividades do 4º distrito, com sede em Joinville, durante o exercício de 1954, apresentado pelo encarregado do distrito, Sr. João Luiz Gonzaga. Joinville, 1954. p. 65.
a aderir e apoiar esta campanha. Tal atitude, de acordo com os jornais, denotaria patriotismo e inteligência do povo. Nesse sentido, noticiava o jornal:
Para se avaliar a importância desta campanha, basta dizer-se que no centro da cidade, nos jardins do Sr. Müller-Hering, foram derrubados e destruídos cerca de três mil gravatás, e que na chácara das Irmãs, no Colégio e no Hospital Sta. Isabel, a turma de operários destruiu quase cinco mil gravatás! Avaliando em cerca de 100 gramas a quantidade média de água existente em cada gravatá, pode-se facilmente calcular a extensão dos focos de mosquitos que infestam a nossa cidade, onde existem milhões e milhões em jardins e nas matas vizinhas. Se cada morador cuidasse do seu jardim ou da sua propriedade, destruindo os gravatás mais acessíveis e fáceis de tirar, deixando os mais difíceis para as turmas especializadas de operários do Serviço de Malária, estaria contribuindo com patriotismo e inteligência da terrível malária em Blumenau.218
Em São Francisco do Sul, o trabalho de desbromelização também mostra-se expressivo. Conforme o Relatório Mensal de Entomologia, referente a março de 1972, nesse município, as atividades de desbromelização iniciaram-se em 1969 e prolongaram-se até março de 1972. Durante esse período, foram destruídas 2.058.33 bromélias. No Mapa 6, incluso nesse documento, apresentam-se as regiões do município nas quais a destruição das bromélias foi efetivada, bem como aquelas em que o serviço ainda seria efetuado. Observa-se também, no mapa, o quanto os casos de malária espalhavam-se por diferentes locais no interior do município, no início da década de 1970.
218 Quase cinco mil gravatás na chácara das Irmãs. In: Jornal Cidade de Blumenau. Blumenau: ano XIX, n.102 11/09/1943.
Mapa 6 – Áreas de ocorrência do processo de desbromelização em