No prefácio e na introdução de A Nova Gramática do Português Brasileiro de Ataliba T. de Castilho, observa-se que essa é uma obra que, sem o caráter prescritivo das gramáticas tradicionais, elabora uma análise das estruturas do português brasileiro. Sobre sua gramática, o autor afirma que:
Esta não é uma gramática-lista, cheia de classificações, em que não se vê a língua, mas uma gramática. Em lugar disso, procuro olhar o que se esconde por trás das classificações, identificando os processos criativos do português brasileiro que conduziram aos produtos listados. (CASTILHO, 2010, p.31)
Partindo das afirmações de Castilho, nota-se que não há a definição da classe substantivos, mas sim, uma pesquisa do estatuto categorial31. Essa é iniciada por meio de uma pequena introdução histórica e pelo fato de uma menção à tradição grega, afirmando que substantivos são o fundamento do texto. Outra questão que marca a análise feita por Castilho, não só em relação aos substantivos, é o aspecto de não apresentar uma definição de classe. Uma vez que a proposta é descrever o estatuto categorial do substantivo, ele faz um percurso descritivo apresentando-o na estrutura de sintagmas de acordo com as suas funções sentenciais.
Não há a apresentação, como em Perini, de uma classe gramatical fechada sendo preenchida por uma série de exemplos que caberiam nas definições e classe. Castilho, por meio da sintaxe, demonstra como funcionam as funções sentenciais do substantivo, a transitividade, a nominalização, a estrutura argumental e a concordância nominal. Da mesma forma, por meio da semântica dos substantivos, demonstra o funcionamento desses de acordo com a teoria de referência32de Fauconnier, bem como sendo analisados pela teoria de traços. Faz também a apresentação dos substantivos contáveis e não-contáveis, os quais não são mencionados nas gramáticas de Bechara, Cegalla33 e Perini (neste último pelo fato de substantivos e adjetivos formarem a subclasse dos nomes). O autor termina o capítulo do estatuto categorial dos substantivos, explicando a função e o papel dos substantivos como operadores referenciais e de fluxo de informação nos textos34.
Castilho analisa, então, o processo pelo qual o uso da língua fez com que fossem determinadas as classes. O autor ressalta que não faz a análise a partir das classes estabelecidas pelas gramáticas para se chegar à língua. Entretanto, ao descrever o estatuto categorial do substantivo, não houve escapatória da classificação gramatical fixada na estrutura tradicional de encaixe dos exemplos nas definições dadas. Por exemplo, ao descrever os traços semânticos inerentes aos
31 Aparentemente o autor não define a classe, pois a noção de substantivo por ele utilizada é igual à
das gramáticas tradicionais, por isso, já é dada pela tradição dos estudos gramaticais.
32 Castilho elabora toda uma seção (capítulo destinado à Semântica) em sua gramática diferenciando
as concepções de referenciação encontradas em autores como Ducrot, Todorov, Frege, Ilari, Marcuschi e Gilles Fauconnier.
33As gramáticas desses autores serão analisadas no capítulo a seguir.
34 Nesse tópico de sua gramática, Castilho discursa a respeito da importância dos nomes no aspecto
da referenciação textual e do fluxo informacional. Citando autores como Koch, Marcuschi e Fauconnier, Castilho demonstra, por meio de exemplos, diferentes estratégias de referenciação textual sendo o substantivo o operador responsável por essas estratégias. Castilho (2010, cap.O Sintagma Nominal)
substantivos, especificamente na caracterização dos substantivos contáveis e não- contáveis, ele recorre à subclasse dos abstratos como se faz em outras gramáticas.
Exemplo de Castilho (2010, p.468):
os substantivos não-contáveis frequentemente são também
abstratos, e designam “entidades não perceptíveis fisicamente” e,
portanto, não facilmente enumeráveis. A pluralização dos substantivos abstratos compromete seu sentido lexical de base, como em os amores (= os casos de amor), as verdades (= as
declarações verdadeiras) etc. (CASTILHO 2010, p. 468. Grifo
nosso).
Muito embora Castilho tente se afastar da rigidez das classificações tradicionais, ele se “rende” às questões extralinguísticas para determinar um substantivo abstrato. Dessa forma, a definição pelo aspecto perceptível, torna esta caracterização tão pré-paradigmática quanto a apresentada nas gramáticas anteriores, pois confundem-se aspectos de linguagem e língua com percepção do mundo.
Outro aspecto a ser elencado é que não há questionamento do autor a respeito de que, em determinados contextos enunciativos, como apresentado a seguir em Neves, a classificação de determinados termos pode ser alterada. Ele apenas menciona a ambiguidade de classificações, como no caso do termo amigo, que dependendo da interpretação dada pelo sujeito, pode ser adjetivo ou substantivo:
Um item como amigo é ambíguo, e por isso deve entrar no vocabulário como amigo¹ e amigo². Em
(4) O Júlio é amigo da família.
ele será adjetivo se for interpretado como
(4a) O Júlio gosta da família.
e como substantivo se for interpretado como
(4b) O Júlio é um amigo (entre vários) da família. (CASTILHO, 2010,
P.457. Grifo nosso.)
Apesar de o autor ter explicitado a questão da influência de espaços mentais35 na referenciação e a variação dessa em contextos discursivos
35 Mencionando a teoria de Fauconnier, Castilho afirma que “rejeitando a explicação clássica segundo
a qual as “ideias”, os “sentidos”, os “conteúdos” são codificados nas palavras, nas sentenças e no discurso, Fauconnier argumenta que os significados podem ser descritos como construção mental permanente de espaços, de elementos, de papéis e de relações no interior desses espaços, a partir de índices gramaticais e pragmáticos. (...) As estruturas gramaticais fornecem indícios sobre a
diferenciados, a variação classificatória (termo que pode apresentar mais de um tipo de classificação, como no exemplo do termo amigo) aparece como fato constatado, com explicações de ordem sintática, morfológica, que se resolveriam na situação de mais uma classificação com algumas paráfrases. Para Castilho (2010, p.369), “[...] como as expressões linguísticas podem enquadrar-se em mais de uma classe, há situações em que ficamos numa espécie de intervalo [...]”
Embora o foco de Castilho ao descrever a classe de substantivos tenha sido o estatuto categorial, a primeira vez em que o substantivo abstrato é mencionado é no capítulo de sentença complexa e sua tipologia, no subtópico das funções do pronome relativo, justamente quando o próprio autor levantou uma questão de instabilidade em que uma sentença pode ser classificada ora como substantiva ora como adjetiva.
Outra menção se faz, logicamente, no tópico a respeito do estatuto categorial dos substantivos. Castilho aponta uma correlação entre substantivos abstratos e substantivos deverbais e transitividade. O autor não afirma que abstratos são os deverbais, entretanto, ao descrever o processo que ele denomina nominalização, pontua aspectos como operação de resultados que tangem uma definição de substantivos abstratos (numa perspectiva tradicional). Outro momento em que há referência a respeito dos substantivos abstratos é durante a descrição dos substantivos contáveis e não contáveis.
Segundo o autor, “os substantivos não contáveis frequentemente são também abstratos e designam ‘entidades não perceptíveis fisicamente’ e, portanto, não facilmente enumeráveis. A pluralização dos substantivos abstratos compromete seu sentido lexical de base” (CASTILHO, 2010, p.468). De fato, não há uma seção ou descrição analítica específica acerca dos substantivos abstratos, nem definição de tal subclasse. No entanto, percebe-se que esta subclasse teria as mesmas características do que o autor nomeia como substantivos deverbais.
construção desses espaços, o que permite uma primeira definição dos espaços mentais: trata-se de percepções evocadas diretamente por uma expressão linguística ou por uma situação pragmática. (...) Quer dizer que os espaços mentais são distintos das estruturas ou expressões linguísticas, pois são construídos em cada discurso de acordo com as indicações fornecidas pelas expressões linguísticas.” (CASTILHO, 2010, p.462)