3.5 Pour aller plus loin
3.5.2 Les logiciels utilis´ es pour ´ elaborer ce rapport
Ao longo do presente estudo, fomos perspetivando em que medida a criatividade poderia influenciar a construção do self narrativo. Pressupostos teóricos indicam que a criatividade integrará os processos cognitivos subjacentes à formação de identidade, podendo esta última ser vista como um processo criativo (Barbot & Heuser, 2017). Consideramos que o construto da criatividade mini-C faz a ligação entre a criatividade e a narrativa, ao ter subjacente o processo de significação como as narrativas. Contudo, a existência destas ligações, é apenas hipotética, pois não se encontraram estudos empíricos, tanto quando nos foi possível pesquisar, que explorem a relação entre a coerência narrativa e a criatividade. O presente estudo surge então neste espaço, explorando a existência de uma relação entre a criatividade e a qualidade da produção narrativa.
O nosso objetivo central consistiu em analisar a relação entre a coerência da narrativa de vida de adolescentes e o seu potencial criativo, via personalidade criativa. Associado a este objetivo, pretendemos também conhecer os resultados da coerência narrativa e personalidade criativa, em função de variáveis de caraterização pessoal, e explorar a existência de relação entre a personalidade criativa e a tipicidade do guião cultural de vida referido pelos adolescentes. A discussão dos resultados seguirá a ordem pela qual os mesmo foram apresentados, iniciando-se assim pela coerência da narrativa de vida, depois a criatividade e, finalmente, o cruzamento entre ambas as variáveis.
Ao nível da coerência das narrativas de vida, verificamos que existem diferenças significativas entre as suas três dimensões, de acordo com a seguinte sequência decresceste dos valores da média da orientação temporal, seguida da consequencialidade desenvolvimental e da coerência temática. Estes resultados estão em linha com o supracitado no enquadramento teórico, podendo ser interpretados à luz da teoria do desenvolvimento das narrativas de vida proposta por Habermas. Os estudos de Habermas e Silveira (2008) mostram que o desenvolvimento das dimensões da coerência ocorre de forma progressiva, através das seguintes faixas etárias: entre os 8 e 12 anos emerge a orientação temporal; entre os 12 e 16 anos a consequencialidade; entre os 16 e 20 anos a coerência
Sendo a amostra do presente estudo composta maioritariamente por adolescentes entre os 15 e 17 anos, será então um período onde já terá havido um bom desenvolvimento da orientação temporal, daí ser a que tem média mais elevada; a consequencialidade estará a desenvolver-se e a iniciar a coerência temática, que surge realmente com valores mais baixos. Encontrando-se os participantes deste estudo numa idade intermédia destas faixas etárias, seria então de esperar que ocorressem diferenças entre as três dimensões de coerência, uma vez que não se encontram ainda numa faixa etária em que já estejam todas igualmente desenvolvidas.
Em linha com estes resultados também se verificou que a consequencialidade desenvolvimental e coerência temática apresentaram uma correlação positiva com a idade, o mesmo não acontecendo com a orientação temporal, o que parece exatamente refletir o esperado para a faixa etária dos participantes. A idade dos participantes sugere que, na sua maioria, o desenvolvimento da orientação temporal está concluído, apresentando-se em desenvolvimento a consequencialidade desenvolvimento e a coerência temática.
Já a nível da distribuição dos resultados da coerência em função do género não foram encontradas diferenças significativas em nenhuma das dimensões, o que é contrário ao referido na literatura. No estudo de Habermas e Silveira (2008) foram obtidas diferenças ao nível do género em todas as dimensões de coerência. Uma possível justificação para esta diferença de resultados entre os estudos, é a idade considerada em cada caso. Enquanto que o estudo de Habermas e Silveira (2008) abrange crianças e adolescentes, entre os 8 e os 20 anos de idade, no presente estudo a faixa etária é restrita a adolescentes entre os 15 e os 18/19 anos de idade, podendo assim não captar as diferenças de sexo, deixando em aberta a possibilidade desta diferença não surgir em todas as idades. Fará também sentido não excluir a hipótese de se tratar de diferenças culturais, pois, num estudo de (Felgueiras, 2017), apenas foram encontradas diferenças significativas de género a nível da orientação temporal. Estes resultados já aparecem mais consonantes com os resultados obtidos. Qualquer destas hipóteses interpretativas, seja a nível de idade ou diferenças culturais, teriam que ser investigadas para se obter um conhecimento conclusivo.
Relativamente ao bem-estar emocional dos adolescentes, verificou-se uma ausência de associação com as dimensões da coerência das narrativas de vida.
Este resultado não parece reforçar a associação encontrada por Baerger e McAdams (1999), que verificaram que o bem-estar emocional está relacionado com a habilidade do individuo criar e manter uma narrativa coesa. Contudo, esta discrepância de resultados não é surpreendente uma vez que a maioria dos participantes deste estudo se situa no nível normal em relação à escala de problemas do YSR, evidenciando-se pouca variação na distribuição dos resultados. Ao nível da personalidade criativa, e apesar da escala ter sido validada numa amostra diversificada, entre as idades de 10 e 70 anos, sem terem sido indicados valores específicos para a adolescência, observa-se que a média obtida neste estudo parece próxima da média existente para a população geral (M = 46.17, DP = 3.99, M = 44.32, DP = 6.14, respetivamente). Infelizmente, no estudo de Garcês e colaboradores (2015) sobre o questionário, não são apresentados dados da distribuição da criatividade de acordo com variáveis sociodemográficas e escolares, o que não permite enquadrar os resultados obtidos a este respeito. Com efeito, procuraremos de seguida interpretar os resultados obtidos, com base na literatura da criatividade.
Relativamente à idade, a ausência de uma correlação significativa com a criatividade, poderá prender-se com o desenvolvimento irregular da criatividade na adolescência (Barbot & Lubart, 2012; Barbot et al., 2016). Quanto ao género, os estudos empíricos analisados não exploram esta variável, apenas apresentando a hipótese de que os estereótipos internalizados relacionados com género possam afetar a expressão das características de personalidade ligadas à criatividade (Barbot et al., 2016), o que não parece confirmado pela inexistência de diferenças obtida neste estudo.
A ausência de associação entre a escala e o bem-estar emocional dos adolescentes parece ir contra o que é referido na literatura. A criatividade aparenta ser uma competência chave para um sentimento de bem-estar psicológico e promoção da saúde mental (Cropley, 1990; Garcês et al., 2013). Para além de facilitar a superação de sentimentos de ansiedade e stress associado às tarefas desenvolvimentais normativas da adolescência, através da sua influência na autoexpressão – facilita a expressão de pensamentos, ideias, sentimentos e emoções - permitindo um coping adaptativo (Barbot & Heuser, 2017). Entretanto, o que poderá explicar os resultados obtidos é a falta de variabilidade na escala de
ajustamento e bem-estar emocional, o YSR, em que os valores apontam para uma grande homogeneidade e situada no nível normativo.
A nível da relação entre a personalidade criativa e a coerência narrativa, os resultados apontam para uma correlação positiva significativa entre a personalidade criativa e a coerência da narrativa de vida dos adolescentes, na dimensão da consequencialidade desenvolvimental. Verificou-se especificamente que os adolescentes cujas narrativas tinham uma coerência extremadamente baixa ou alta, apresentavam diferenças significativas no valor obtido na escala da criatividade. Finalmente, apurou-se que a variável da personalidade criativa explica 44% da variância da coerência na dimensão da consequencialidade desenvolvimental, ou seja, a personalidade criativa teve um impacto positivo significativo na consequencialidade desenvolvimental, mas não nas restantes dimensões da coerência. Em parte, tal pode ser explicado pelos mecanismos subjacentes a cada dimensão de coerência narrativa.
Habermas e Bluck (2000) referem que são a consequencialidade desenvolvimental e a coerência temática que apresentam a interpretação idiossincrática do indivíduo, enquanto que a coerência temporal fornece uma sequência ordenada de eventos significativos como uma base para a construção da narrativa de vida. Esta distinção entre as dimensões pode traduzir-se na relação com a criatividade, uma vez que, os processos subjacentes de interpretação e construção pessoal da criatividade iriam ter impacto na consequencialidade desenvolvimental e coerência temática, ao potenciar os processos de interpretação e significação do adolescente.
Apesar disto, os resultados não demonstraram uma associação entre a coerência temática e a personalidade criativa. Esta ausência pode dever-se a dois aspetos. Primeiro, dada a faixa etária deste estudo, a coerência temática encontra- se ainda no início do desenvolvimento. Em segundo lugar, como foi usado um instrumento que explora apenas a personalidade criativa, levou a que não fosse
possível uma avaliação holística do processo, limitando a visibilidade de uma eventual relação entre a criatividade e a coerência temática. A coerência temática
refere-se à habilidade de reconhecer e combinar múltiplas fontes de informação (Habermas & Bluck, 2000) e a este processo de reconhecimento e combinação podemos associar os processos de pensamento divergente-exploratório e convergente-integrativo, caracterizadores do processo criativo. Entretanto, a
avaliação destes processos requer a utilização de medidas de avaliação especificas, tais como o Evaluation of Potencial of Creativity de Lubart et al. (2013). Será relevante usar este instrumento em estudos futuros, uma vez que permite uma avaliação aprofundada dos processos de pensamento caracterizadores da criatividade.
Consideramos que a associação encontrada entre a consequencialidade desenvolvimental e a criatividade é altamente relevante. Ou seja, a consequencialidade desenvolvimental foca-se nas ligações explicitas que o adolescente faz entre a experiência pessoal e o self, ocorrendo um processo ativo de compreensão e interpretação, onde antecipamos que o mini-C atue diretamente.
Apesar da escala de personalidade criativa ser unidimensional e estar associada à subescala Estilo Inconformista Transformador da Escala de Estilos de Pensar e Criar de Weschler (Garcês et al., 2015), verificamos que os itens correlacionados com a consequencialidade desenvolvimental (“Gosto de questionar e dar sugestões”, “Descubro problemas no meio envolvente e ocorrem- me ideias para a sua resolução”, “Adoro aperfeiçoar as minha ideias até que fiquem bem definidas”) têm subjacente o processo criativo de uso do pensamento divergente-exploratório (“questionar”, “descubro problemas”), e pensamento convergente-integrativo (“dar sugestões”, “ocorrem-me ideias para a sua resolução”, “aperfeiçoar as minha ideias”).
Quanto à exploração do impacto da personalidade criativa na consequencialidade desenvolvimental, através dos resultados da regressão linear múltipla, apuramos que a personalidade criativa e a idade influenciam diretamente esta coerência, explicando cerca de 26.3% da variação. Tal, vai ao encontro de um estudo realizado por Berman e colaboradores (2001), no qual verificaram que a criatividade explicava 16% da variação da exploração de identidade.
Para além disto, os resultados demonstraram que a personalidade criativa apresentou uma contribuição superior à idade na explicação do desenvolvimento da consequencialidade desenvolvimental. Naturalmente que isto se poderá prender com o facto de o espetro de idades em estudos ser reduzido, pelo que uma interpretação deste dado carece absolutamente de um alargamento da faixa etária. Mas também é necessário ver que, mesmo perante uma amostra que se encontra num período desenvolvimental caracterizado uma evolução irregular da
criatividade, esta apresentou na mesma um efeito na consequencialidade desenvolvimental.
Por último, a nível da relação entre a criatividade e a tipicidade do guião cultural de vida, verificamos que não ocorreu nenhuma associação entre estas variáveis. Considerando que na literatura, a coerência cultural se apresenta ao mesmo nível da orientação temporal, como constituindo uma base para a narrativa, não dependente de processos de interpretação e significação singular do indivíduo, poderá compreender-se que a criatividade não tenha então impacto na sua expressão.