• Aucun résultat trouvé

MODELISATION DU RECEPTEUR SPECIFIQUE DU GLP-1

5.1. Modélisation du récepteur du GLP-1 (GLPr)

5.1.1. Localisation et construction des segments transmembranaires

Ao acentuarmos a presença do conjunto de denominações religiosas em Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, e relacionarmos essas denominações com os números apresentados nos censos produzidos pelo IBGE no referido período, foi possível identificar a presença de um campo religioso bastante diversificado.

A pluralidade religiosa identificada em Guaramirim é marcada pelo contraste da predominância do catolicismo e do protestantismo7, embora também tenham registros nesses levantamentos sobre a presença de outras religiões. É a partir da identificação dessa predominância das religiões cristãs e fiéis católicos e protestantes que dirigimos o foco de nossa análise. A já anunciada sobressaliência nos é significativa, uma vez que foi a partir dela que construímos nossas problematizações, essa condição subsidiou o entendimento das relações e das experiências religiosas narradas por nossos entrevistados.

Em se tratando de pluralidade religiosa Guaramirim não destoa do crescimento do campo religioso brasileiro, contudo, em Guaramirim, é pertinente chamar a atenção para o fato de que esse alargamento do campo religioso encontra uma retração, pois esbarra nas ações empreendidas por Pe. Mathias que visam fortalecer o catolicismo na cidade.

Essa retração denuncia a eficácia das ações de Pe. Mathias, que se amparavam pela oferta de uma percepção de mundo, o que faz desse pároco um orientador da vida social e espiritual. Ao discutir o campo religioso brasileiro na História do Tempo Presente Huff Júnior (2009, p.7) observa:

O campo religioso é, nesse sentido, aquele em que os bens religiosos estão em jogo, havendo nele lutas pelas maneiras de desempenhar os papéis determinados no próprio jogo. Nele manipulam-se visões de mundo na elaboração de estruturas de percepção do mundo, palavras, princípios de construção da realidade. A religião tem, nessa perspectiva, um caráter de linguagem. É um sistema simbólico de comunicação e de pensamento.

Diante desse quadro podemos caracterizar o lugar que compete à religião na definição de práticas e valores, das normas e das crenças que norteiam a ação dos fiéis em diferentes domínios.

Contudo, ao exercitarmos nosso olhar acerca do campo religioso brasileiro podemos perceber que essa condição contrasta com a emergência de novos componentes no campo religioso brasileiro na atualidade, conforme observa Isaia (2009, p.100):

O campo religioso brasileiro na atualidade apresenta uma complexidade empírica enorme, marcada pela emergência de componentes novos, voláteis, que aparecem e desaparecem de uma maneira tão rápida que não chegamos a registrá-los.

[...]

A articulação de novos componentes ao campo religioso brasileiro, obviamente, que se dá à medida que os mesmos passam a desfrutar de credibilidade. Quando suas prescrições ou interpretações do mundo ganham o que é fundamental, na acepção de Bourdieu, para valorizá-los no interior do campo: a legitimidade.

7 Ao citarmos a presença do protestantismo em Guaramirim estamos nos referindo as denominações que

compõem o grupo do protestantismo histórico, entre estas denominações estão a Igreja Luterana e a Igreja Batista e a Presbiteriana Independente.

Apoiados nas considerações de Isaia (2009) foi possível observar que a religiosidade brasileira vem apresentando manifestações de pluralidades cada vez mais atuantes, anunciando uma redefinição de fronteiras e até mesmo do campo religioso. Esse quadro fica cada vez mais evidente na medida em que o autor se aproxima das discussões trazidas por Sanchis (2005), que questiona se, no Brasil, o campo religioso ainda é o campo das religiões.

Nesse sentido, Isaia (2009) chama a atenção para os perigos de se defender o discurso de uma identidade religiosa fixa, na medida em que há uma emersão de componentes do campo religioso brasileiro que confrontam a imagem do Brasil como um país predominantemente católico, ou inserido em um projeto de um Brasil evangélico. Portanto, pensar o campo religioso brasileiro é pensar, antes de tudo, na extrema complexidade do universo de crenças entre nós.

A partir desse entendimento e reconhecendo que o Brasil, apesar dos esforços dirigidos durante séculos na tentativa de se fazer e mostrar um país católico, nunca teve condições de sustentar essa imagem, uma vez que o catolicismo praticado em todo o país sofreu mutações e hibridizações, mesmo recebendo as orientações de Roma.

Na medida em que Isaia (2009) reconhece que a noção de campo religioso oferecida por Pierre Bourdieu empresta inteligibilidade às transformações nas configurações históricas das religiões, ao ponderar sobre a emergência numérica da diversidade religiosa brasileira, nos chama a atenção para o fato de que essa emergência está acompanhada de um novo reconhecimento de suas eficácias e que destoa da tentativa de traduzir hegemonicamente a realidade religiosa brasileira.

Assim, nos apropriamos da noção de campo apresentada por Bourdieu (2009), conforme pontuamos no início deste capítulo, por entendemos que esse conceito carrega consigo algumas questões muito importantes e que nos oferece condições para compreender as articulações entre as religiões, as tensões, o capital simbólico e as estratégias de legitimação presentes em cada religião.

Ao desenvolver um estudo sobre os tênues limites da religiosidade católica na associação Tradição, Família e Propriedade (TFP)8, Zanotto (2009, p.104), ao considerar a ressonância da diversidade religiosa brasileira e da pluralidade de mensagens salvíficas em oferta no campo religioso brasileiro, constatou que:

Essa diversidade de religiões e de formas de adesão dos fiéis à mensagem de salvação afeta também a cotidianidade da igreja Católica Romana que, apesar do centralismo, da sólida hierarquização e controle, abarca em seu seio uma variedade

díspar e mesmo antagônica de grupos e movimentos, muitas vezes em conflito aberto pela legitimidade da interpretação da mensagem cristã ou pelas formas de expressão social de tais interpretações.

A partir de tal afirmação Zanotto (2009) observou que a Igreja católica, ante a essa extensa lista de denominações, práticas, crenças religiosas e mensagens de salvação, sentiu-se afetada, pois teve que investir ainda mais em sua eficácia na disputa por fiéis. E embora tenha empreendido essa disputa externa, a Igreja católica internamente teve que lidar com uma multiplicidade de compreensões eclesiais que sempre conviveu com a reiterada hierarquia de uma Igreja que, principalmente no século XX, se pretendeu homogênea.

A discussão apresentada por Zanotto (2009) nos é pertinente, pois auxilia a compreender como a Igreja católica lida com essa larga oferta de bens e mensagens de salvação, situada fora de seu domínio e como aparecem internamente movimentos de cunho conservador que abrigam leigos e/ou clérigos.

Esses movimentos de retração que brotam no seio da Igreja e que se dirigem à valorização da hierarquia e de rígidos códigos comportamentais, em nome da moral e da fé, nos oferecem condições para entender que Guaramirim não se distancia dessa realidade, pelo contrário se aproxima e muito. Contudo, é preciso esclarecer que não apuramos em Guaramirim a presença da TFP, mas por outro lado identificamos a presença das intenções de valorização da rígida hierarquia da Igreja e a presença de códigos e interditos comportamentais ditados em nome da fé.

A partir do desenvolvimento dessas práticas em Guaramirim identificamos que seus propósitos tiveram êxito porque puderam se valer de uma estrutura articulada e trazida para a cidade, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, por intermédio do pároco católico da cidade. Seus esforços voltaram-se para a instalação e estruturação de instituições, que contaram com o trabalho de outros religiosos, principalmente de freiras, que atuaram diretamente em instituições de ensino e saúde da cidade, possibilitando por meio dessas instituições a ampliação e o fortalecimento da fé católica. Toda essa estrutura fazia com que as fronteiras que separavam a vida pública da privada além de voláteis ficassem ainda mais tênues.

Ao tratar das figuras do sagrado que estão situadas e transitam entre o público e o privado, Montes (1998, p.76), localizando sua discussão nas décadas de 1930 e 1940, período da formação sacerdotal de Pe. Mathias9, afirma que:

[...] a crescente presença de ordens estrangeiras, como conseqüência do triunfo da romanização, levará a Igreja a buscar manter sua influência na vida pública mediante um retorno “privatizante” sobre si mesma, procurando controlar instituições sociais capazes de formar o caráter e moldar as atitudes do homem por meio da educação, ao mesmo tempo que, no plano propriamente religioso, volta-se ainda mais para a esfera privada, reduzindo o catolicismo a uma dimensão puramente individual e familiar, ao incentivar a formação de consciência e as práticas de devoção.

O indivíduo e a família são envolvidos por uma demanda de obras assistenciais e religiosas que assumem destacado papel na comunidade em que estão inseridos. E ao mesmo tempo em que são conduzidos, seja pela formação ou pela devoção, a integrar e legitimar essa estrutura, também assume um papel de vigilância em relação àqueles que estão próximos a fim de garantir e fortalecer seu funcionamento.

A presença ativa do discurso de disciplinarização de fiéis e de práticas que referendam este discurso fica exposta ao analisarmos a relação do catolicismo praticado em Guaramirim com os propósitos defendidos pela Igreja católica em Santa Catarina no período em questão. A aproximação do pároco católico com as famílias de agricultores, a pulverização de códigos, interditos e posturas que valorizam a unidade familiar e que reconheçam a figura do padre como uma liderança civil e religiosa deixa transparecer uma das faces desse catolicismo.

Ao apresentar o norteamento que conduziu algumas discussões sobre as diferentes faces que compõem o catolicismo e em função dessa estrutura tão heterogênea que permite que sejam dirigidos diferentes olhares sobre as práticas religiosas dessa denominação, Souza (2008, p.11) chamam a atenção para o fato de o catolicismo ser visto

[...] como parte de um sistema de poder em constante mutação. É permeado por imaginários sociais e adquire, a cada momento, novas feições justamente por estar em processo e devido aos seus diferentes sujeitos, tanto dos que se envolvem na busca de sentido para a existência, quanto dos que fazem dele um lugar permanente de conflito para a defesa ou ataque dos seus múltiplos discursos e práticas.

Ao reconhecermos essa estrutura multifacetada do catolicismo e inserirmos nossa discussão como parte integrante dessas faces passamos a percorrer e problematizar as tensões e as legitimações que partem de uma institucionalização mais presente do catolicismo em Guaramirim reconhecida a partir do decreto oficial de criação da paróquia de Guaramirim, desmembrando-a da paróquia da Catedral de Joinville.

Não se trata de sobrepor o catolicismo em relação às demais denominações religiosas, pelo contrário, buscamos dialogar com outras práticas devocionais, contudo é preciso reconhecer que em Guaramirim o peso de práticas católicas mais institucionalizadas, representadas pela presença de Pe. Mathias, fez com que voltássemos nosso foco para essa

denominação. Trata-se de assumir que optamos por trilhar este caminho porque elegemos as experiências evidenciadas pelas narrativas de sujeitos que viveram em Guaramirim, durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, para construir nosso trabalho e essas memórias apresentaram narrativas acerca do enrijecimento da posição institucional do catolicismo, dos enquadramentos e ordenamento dos ritos e das práticas devocionais dos fiéis católicos.

3 CAPÍTULO II – OLHARES COMPARTILHADOS: FÉ E COTIDIANO EM LEMBRANÇAS, FALAS E GESTOS

Mas era melhor antigamente10[...]. (Sr. João)

A língua tem indicado inequivocamente que a memória não é um instrumento para a exploração de um passado; é antes, o meio. É o meio onde se deu a vivência, assim como o solo ó o meio no qual as cidades antigas estão soterradas. Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. (BENJAMIN, 1995, p.239)

[...] Longe se vai Sonhando demais

Mas onde se chega assim Vou descobrir

O que me faz sentir Eu, caçador de mim.

(Milton Nascimento, Caçador de mim, 1981; composição: Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá)