Matériels et Méthodes
V. L'infrarouge à transformée de Fourrier
Era lindo sabe... E ali era coisa muito respeitada. (Sr. Abílio)
Em um sábado, no dia 21 de maio de 2011, Sr. Abílio Belarmino de Borba (Figura 5) e D. Odete (Figura 6) nos receberam em sua casa20. Ele, um senhor muito irreverente que afirmou não revelar sua data de nascimento, nem sua idade, por nada. Morador de Putanga, região onde vive um grande número de famílias afro-brasileiras, Sr. Abílio é uma liderança comunitária, foi um dos criadores da associação de moradores daquela localidade. Sr. Abílio é católico e foi integrante da diretoria da Igreja Nossa Senhora do Rosário, padroeira da comunidade, e enche-se de orgulho ao nos contar que foi um dos principais responsáveis pela construção da nova capela.
Filho de Belarmino de Borba e Cristina da Silva Borba, que também moravam em Putanga, casou-se com D. Odete em 1956 e é pai de dez filhos. Lamenta-se por não ter estudado e conta que um dos motivos que fez com que ele não frequentasse a escola foi um problema que tinha no joelho, que fez com que os médicos da cidade sugerissem a amputação de sua perna. Entretanto, sua mãe, contrariando as orientações médicas, o levou a Joinville em uma benzedeira para curar esse problema.
20 BORBA, Abílio Belarmino de; BORBA, Odete da Silva. Entrevista concedida a Elaine Cristina Machado,
D. Odete da Silva Borba, que é natural de Joinville, foi morar em Putanga quando tinha 15 anos e ao tratar da grande presença de famílias de afrodescendentes da localidade lembra do que seu pai contava:
Que assim, quando deu a lei áurea, que assim que eles saíram [negros recém-libertos] então vieram muitos pra cá, porque aqui era uma região só de pretos, aí depois que foram vindo os poloneses, foram vindo alguns alemães e aí que foram se misturando, foram casando. A maior parte era negro com polonês. Daí foi que se formou Putanga, daí tinha a Igreja, a igrejinha era dos pretos também.
A Igreja, além do principal espaço de sociabilidade dessa comunidade, aparece nas narrativas do casal como uma das principais referências de suas lembranças, pois constantemente frisavam seu envolvimento com aquele espaço. Sr. Abílio, ao falar das igrejas que já foram construídas na comunidade, procura demonstrar todo seu empenho na construção da igreja da padroeira:
A igreja daqui era de madeira, bem simplesinha. Depois foi indo e fizeram outra igreja de madeira também, construída no tempo do Padre Mathias. Aí depois nós construímos essa aí, agora que eu fiz uma folha [para arrecadar dinheiro] para tirar materiais de construção e aí conseguimos fazer essa igreja ali.
As lembranças da festa da padroeira misturam-se à saudade e à ausência deixada pela festa que não acontece mais. Soma-se a essa saudade a da festa de São Sebastião, um segundo padroeiro da comunidade, que tinha a data de 20 de janeiro dedicada a homenagens a esse santo.
Essa festa [Nossa Senhora do Rosário] era começada a ensaiar dia 29 de setembro, eles [os festeiros] começavam com a bandeira, iam de casa em casa, ia até 25 ou 24 de dezembro, mas antes já estava preparado. Tinha o juiz, o rei e a rainha e essa festa era feita por eles, [pelos festeiros] eles é que arcavam com toda a despesa. Isso era tudo de graça, era feito por eles e ninguém pagava nada, era só eles. E dava uma festa que todo mundo comia, todo mundo bebia e todo mundo brincava. E era três dias de festa. Era uma dança, tinha uns capacetes, uns saiotinhos na cintura, espadinha e cantava esses cantos.
Ao ser convocado a trabalhar sua memória e cantar uma dessas canções, Sr. Abílio se emociona, mas segue mostrando a performance e batucando na mesa,
“Senhor rei e rainha receba a coroa, De ouro ou de prata receba a coroa.” Aí outros já cantam:
“Ô bendita seja aqui Senhora das dores Da vida senhora perdoa os pecadores.”
Aí eles cantam, depois na hora de coroar então traziam uma coroa, eu me lembro que era branca assim, bem bonita. Não sei o que era aquilo que não enferrujava nada. Aí coroavam o rei e aquela coroa assim que nem (sic) uma noiva coroava a rainha. [...] Então formavam tudo ali e eles ficavam com aquela coroa na hora do almoço tudo, eles eram coroado, estavam ali, né? (sic)
Tinha instrumento, tinha tambor que dava aquele som para as cantorias que eles cantavam. Aí ficava bonito porque se eles batiam também sapateava e se tinha quatro de um lado e quatro do outro então eles dançavam pra banda da Santa.
Em relação a essas práticas, Sr. Abílio afirma que gostaria muito que a comunidade retomasse a festa, pois segundo ele tem muita gente que sabe como acontecia, mas ele não consegue explicar por que deixaram desaparecer. Já D. Odete, que é catequista na comunidade há 31 anos, exibindo uma bandeira de Nossa Senhora do Rosário, que ela guarda com muito cuidado e carinho, conforme mostra a Figura 6, de maneira mais contundente, afirma que a festa acabou porque muitos negros foram migrando, segundo ela “saindo aqui do
lugar”.
D. Odete e Sr. Abílio, envolvidos e nos envolvendo com suas narrativas carregadas de
saudade, lamentam a presença do preconceito na comunidade, mesmo vivendo ali um grande
número de famílias negras. D. Odete afirma: “esse pessoal daqui não dão valor, porque se é
Figura 4 – Sr. Angelo
Fonte: Elaine Cristina Machado, 16 maio 2011. Acervo pessoal.
Figura 5 – Sr. Abílio