As tabelas apresentadas neste capítulo (que também encontram-se, em anexo nº2) reúnem as informações características e conteúdos dos filmes de Ficção Científica analisados nesta pesquisa. Foram inseridas como uma ferramenta da Análise de Conteúdo a fim de categorizar, classificar através de unidades de análise, alguns aspectos fílmicos e de linguagem que compõem a mensagem cinemática.
A seleção dos vídeos foi realizada por meio de um banco de dados chamado
Videbook, escolhido como um instrumento de pesquisa por tratar-se de um site cujo acervo é de mais de 21 mil títulos lançados em vídeo e DVD no Brasil. O acesso a este site pode ser feito pelo endereço eletrônico: http:// www.videobook.com.br.
No Videobook é possível pesquisar a filmografia em vídeo de atores, diretores e escritores; receber as últimas notícias sobre artistas e diretores; conhecer a lista dos
melhores filmes antigos e atuais, além de trocar informações sobre cinema. Neste banco de dados a busca pode ser realizada de duas formas - a Rápida e a Avançada. Na primeira é necessário selecionar a modalidade de pesquisa (título, ator, diretor e escritor) e a palavra que deve ser procurada. A segunda, Busca Avançada, é uma forma mais refinada de
procura, nela os filmes são pesquisados pelo título original, gênero, ano e país de produção, ator, diretor e escritor.
Com o banco de dados (Videobook), foi possível identificar durante as décadas de 70, 80 e 90, 513 obras do gênero Ficção Científica e a partir do resumo destas, foram selecionados os filmes cujos protagonistas fossem cientistas, num total de 59 produções americanas.
Num universo de 513 produções disponíveis no Brasil, foram selecionados os filmes cujo protagonista fosse cientista e caracterizado em seu ambiente de trabalho como pesquisador, realizando experimentos. A partir desses critérios, foi possível selecionar uma amostra, considerando a data de produção, isto é, início, meio e fim das décadas em análise.
Pode-se observar a partir deste primeiro levantamento que a produção cinematográfica do gênero Ficção Científica, ao longo de três décadas, cresceu, aproximadamente, 95 %, conforme pode-se observar na seleção de filmes, exposta a seguir:
Universo: 513 produções no gênero Ficção Científica Amostra: 59 filmes, sendo:
Período Nº de produções Pré-Selecionados Selecionados
de 1970 a 1979 29 04 01
de 1980 a 1989 162 18 01
de 1990 a 1999 322 37 09
70-90 513 59 11
Conforme dados da tabela acima, dos 59 filmes que foram pré-selecionados para primeira análise, 25 não estavam disponíveis para locação. Desta forma, 34 filmes foram assistidos para confirmação do perfil desejado para esta pesquisa. A verificação dos critérios pré-estabelcidos para a seleção do corpus do objeto foi realizada nos 34 filmes, enquadrando- se, como amostra significativa, apenas 11 filmes, nos quais o cientista é protagonista e está ligado a atividades de pesquisa. Os demais filmes foram excluídos a partir de critérios identificados, abaixo e na tabela, em anexo nº1, que expõe os filmes produzidos no período, bem como a seleção proposta para esta pesquisa.
1º) " não disponível para locação 2º) * cientista não protagonista;
3º) ** cientista, porém não desenvolve pesquisa;
4º) +analisa-se a 1ª obra da trilogia.
Sendo assim, os filmes selecionados são:
ANO TÍTULOS SELECIONADOS
1977 1. 1. A Ilha do Dr. Moreau 1983 2. 2. Projeto Brainstorm 1985 3. 3. De Volta para o Futuro I 1990 4. 4. Limite da Loucura 1993 5. 5. Apex 1994 6. 6. O Falso Poder 1995 7. 7. Defensor do Futuro 8. 8. A Experiência 9. 9. 5ª Dimensão – O Filme 1998 10. 10. Esfera 1999 11. 11. Do fundo do mar
Para o estudo sobre os estereótipos acerca da imagem do cientista, foi realizada análise
de conteúdo das obras, segundo roteiro, temática, cenário e composição do personagem, pois
segundo Bardin, 1979, este método de pesquisa é indicado para estudos sobre motivações, atitudes, valores, crenças, tendências e até mesmo de ideologias. Bardin define a comunicação impressa como objeto principal deste método, porém não exclui outras formas e linguagens de comunicação como o cinema, o que fez Kracauer, para identificar a propaganda nazista no cinema alemão, uma das primeiras referências da Análise de Conteúdo aplicada ao cinema (BAUER, 2003); perfeitamente possível desde que atenda a requisitos básicos de pré-análise,
descrição analítica e interpretação inferencial do conteúdo analisado.
Para tanto, foi necessário estabelecer categorias de análise, classificando o conteúdo
manifesto, por meio de análise, neste caso, das falas do personagem, do cenário, do figurino e
das atitudes do personagem, bem como o conteúdo latente - exposto numa relação dialética com a temática e o contexto do roteiro do filme. Neste sentido, a análise, segundo BAUER, 2003, permeou os princípios de classificação: a coerência na construção de um referencial de codificação eficiente, claro e único; a transparência na descrição, demonstração das relações verificadas; a fidedignidade na análise das imagens em movimento a partir do primeiro requisito (coerência), sem o risco de julgamento subjetivo do pesquisador; e por fim a
validação dos recortes selecionados como significativos para toda a obra, considerando a
representatividade do extrato na freqüência apresentada no filme. Sendo estas fases interdependentes no seu grau de importância. Foram elencadas categorais de análise que atenderam aos objetivos da pesquisa, através de unidades de análise geral, parcial, como também, mutuamente excludentes para melhor classificação dos conteúdos fílmicos.
A pesquisa teve essencialmente um enfoque quantitativo, principalmente ao utilizar dados para mensurar a freqüência das caracterizações. A análise de conteúdo serve de subsídio para observação, registro e utilização dos dados coletados a fim de verificar a representação da imagem do cientista. Faz-se necessário comentar que o diálogo dos personagens em algumas passagens foi significativo e por isso acompanha a seleção de imagens do filme que subsidiam a pesquisa.
Quanto aos procedimentos, todos os 34 filmes foram assistidos e em seguida, registradas as observações quanto ao contexto, roteiro, temática. Em seguida selecionadas as categorias e
unidades de análise e identificação nos filmes. Sendo extraídas seqüências relevantes para análise (mais adiante) aprofundada na exposição do personagem cientista.
Desta forma as categorias de análise que foram estabelecidas para esta pesquisa, foram codificadas por meio unidades de análise, devidamente acompanhadas de descrição para este estudo, conforme explicitadas a seguir:
Quanto ao roteiro e cenários:
Categorias Unidades de Análise Necessidade de descrição
Passado Presente Futuro Não Informado 1. 1. Tempo fictício Viagem no tempo - Seres Vivos Armas Alienígena Medicamento 2. 2. Objeto da Pesquisa Outros - Instituição Particular Instituição Federal Pessoal (do cientista) Sigilosa Pública 3. 3. Interesse da Pesquisa Outros - Contribuição Notoriedade Realização Financeiro 4. 4. Interesse do Pesquisador Outros -
Categorias Unidades de Análise Necessidade de descrição
Isolado Integrado Organizado Desorganizado Iluminado Sombrio Vidrarias Computadores 5. 5. Local de trabalho Substâncias - Não apresentada Integrada Socialmente Organizada Desorganizada Extensão do Trabalho Sombria 6. 6. Residência Iluminada -
Categorias Unidades de Análise Necessidade de descrição Penteado Despenteado Longo Curto Grisalho Tonalidade 7. 7. Cabelos Careca - 20-30 anos 40-50 anos 50-60 anos 8. 8. Idade Aparente Acima de 60 -
Formal Clássico, terno, gravata etc. Esportivo (informal) Despreocupado com
formalidade e etiquetas.
Discreto Cores sóbrias, combinadas entre si, sem chamar atenção das pessoas.
Extravagante Cores fortes e não combinadas. Desperta atenção de outro personagens.
Específicos Anti-fogo, aquáticos, espaciais. Uniforme Padronizado para todos os
profissionais. 9. 9. Vestuário
Jaleco Branco Aventais Óculos Canetas 10. 10. Acessórios Calculadoras -
Categorias Unidades de Análise Necessidade de descrição
Competente Capacitado, adequado. Incompetente Incapacitado, não capaz.
Responsável Responde por seus atos e do
grupo.
Inconseqüente Não pondera sobre conseqüências.
Determinado Disposto, decidido. Obcecado Não pensa em outra coisa. Arrogante Muito orgulhoso soberbo. Retraído Anti-social, tímido, isolado. Ansioso Desejo forte e angustiante. Sociável Compartilha com o grupo e
família.
Frio Insensível, inexpressivo. Equilibrado Prudente, cauteloso. Desequilibrado Louco, desvairado.
Ético Segue normas de conduta da comunidade científica.
Aético Não segue normas de conduta da comunidade científica. Estabelece seus próprios valores.
11. 11. Temperamento,
comportamento, atitudes28[28]
Dominador Excede poder, reprime, controla.
28[28]
Além da descrição apontada para cada categoria utilizou-se também a opinião dos próprios personagens, para evitar erros de julgamento.
Ambicioso Desejo incontrolável de riqueza e poder Homem Mulher Grupo heterogêneo 12. 12. Gênero Grupo homogêneo - Familiar Amigos Colegas de trabalho 13. 13. Vida Social Não apresentada -
Os dados sobre estas categorias estão disponibilizados nas tabelas do título seguinte com as observações sobre os filmes, analisando-os e correlacionando-os a cada unidade de análise.
3.3.1 Análise dos Dados de Categorização do Conteúdo dos Filmes
Para a devida observação dos conteúdos dos 11 filmes selecionados, foram estabelecidas categorias de análise do conteúdo manifesto que permitiram inferências sobre o conteúdo latente e, através das freqüências foram possíveis algumas análises e correlações entre as unidades de análise do perfil dos cientistas apresentados nestes filmes. Para tanto, foram utilizados os seguintes aspectos de observação 1º dados gerais do roteiro como tempo fictício, tema da pesquisa, interesse da pesquisa e do pesquisador, local de trabalho e residência; 2º) composição do personagem – aspectos físicos tais como gênero, faixa etária, tipo de cabelo, vestuário e acessórios;e 3º) composição do personagem – aspectos de personalidade tais como temperamento, atitudes e vida social. Nesta última categoria foram mensurados ainda os períodos de exposição que demonstram tal valor ou comportamento do cientista em observação, a partir de tabelas (expostas a partir da
próxima página) que permitiram essa categorização. Estas tabelas podem ser interpretadas a partir de uma leitura horizontal que possibilita identificar a freqüência das unidades de análise em cada filme e em sua totalidade. Além dessa, uma outra leitura vertical privilegia uma visão do conjunto de unidades de análise presentes em cada filme, bem como,
especificamente na tabela 3, possibilita, ainda, o cruzamento de dados sobre a natureza da unidade de análise e a relação com o seu período de exposição nos filmes. Desta forma, detalham-se a seguir alguns aspectos relevantes da categorização dos conteúdos dos 11 filmes observados, considerando que em sua quase totalidade fere a princípios básicos dos valores primordiais à ciência, destacados por Santos, 1989, são eles:
[...] os quatro grandes conjuntos de valores são: universalismo, comunismo, desinteresse e ceticismo organizado. O universalismo baseia-se no caráter impessoal da ciência: a aceitação de uma teoria não depende das qualidades pessoais ou sociais de seu ator. O valor do comunismo consiste em que as conquistas da ciência são produtos da colaboração social e são propriedades das
descobertas [...] o desinteresse significa que, quaisquer que sejam as motivações pessoais dos cientistas, a instituição científica em si mesma não está vinculada a quaisquer interesses particularistas [...] o ceticismo leva o cientista a submeter à discussão e por em questão princípios ou idéias seguidos por rotina e pela força de uma autoridade qualquer; o cientista suspende o seu juízo antes de observar detalhada e rigorosamente [...]” (p.126)
A maioria dos filmes do gênero Ficção Científica, norte-americanos e lançados nas décadas de 70, 80 e 90, objetos desta pesquisa, não são, necessariamente, superproduções ou mesmo receberam premiações. Os filmes de grande reconhecimento como Star Wars ou Jornada nas Estrelas imprimiram a idéia de que Ficção Científica está associada a um tempo fictício futuro. No entanto, estranhamente, nos filmes observados, o tempo fictício (ver extrato da tabela nº 1, a seguir29[29]) não é retratado apenas no futuro, mas 6 entre 11 filmes têm tempo fictício presente, apenas 2 no futuro e ainda 3 com viagem no tempo. Dentre estes:
- a trilogia De volta para o futuro, que tem seu tempo fictício retratado numa máquina do tempo.
- - Apex, com máquinas do tempo.
- O falso poder, apresenta tempo fictício futuro e ressalta
o homem máquina em prol da segurança.