“[...] toda obra de arte contemporânea –seja da alta cultura e do modernismo, ou da cultura de massa e comercial – contém como impulso subjacente, embora na forma inconsciente amiúde distorcida e recalcada, nosso imaginário mais profundo sobre a natureza da vida social, tanto no modo como a vivemos agora como naquele que – sentimos em nosso íntimo – deveria ser.”
Fredric Jamenson (1995)
Antes de uma abordagem sobre as influências cinemáticas, faz-se necessário destacar que, em um século de produções, o cinema fez uso de diversas representações sociais, dentre as quais a imagem do cientista; relatada em várias pesquisas como: maluco (MEIS, 1998); uma mistura de gênio e maluco que vive no mundo da lua (MARTINS, 1996) cuja atividade científica é, geralmente, “fonte de ameaça à humanidade” (TUDOR, 1989); com instrumentos bizarros (BARCA, 2003); e segundo Orsi, 2002, utilizando com mais
freqüência “máquinas perigosas” do que “maravilhosas”.
Desde os contos de Georges Mièles, cineasta francês, responsável pela primeira filmagem e sobre ciência, até as produções de Steven Spilberg, a imagem do cientista tem sido retratada pelo cinema em seus diversos gêneros e formas, por isso as correntes
teóricas do cinema e da comunicação, citadas a seguir, são fundamentais para análise desse processo de divulgação e entretenimento e, principalmente, do conteúdo fílmico
apresentado.
Diferente de todas as outras formas de arte anteriores ao seu surgimento, o cinema carrega consigo a grande estrutura de produção, técnicas e práticas específicas que exigem altos investimentos para sua realização. Tal situação proporcionou ao cinema a condição paradoxal grandiosa e imponente do meio, como também, pequena diante das críticas que sofre quanto à sua função e possíveis influências sobre o público. Esta posição paradoxal é discutida sob o olhar das teorias da comunicação críticas do cinema, destacando-se a Escola de Frankfurt - teoria crítica e a Corrente Culturalista.
O papel do cinema foi extremamente discutido pelos frankfurtianos Theodor Adorno e Walter Benjamin. Adorno, defende o termo indústria cultural e tem como um dos focos o cinema, cuja principal função é estabelecer o status quo e não apenas entreter como
pressupõe a grande massa. Benjamim, estuda e critica a reprodutibilidade técnica das obras de arte em diversos meios de entretenimento, incluindo reproduções para o cinema e teatro. É ponto marcante dessa corrente a crítica ao cinema, principalmente sobre suas funções como meio de comunicação de massa, seu poder como veículo empresarial e, sobretudo por suas influências na formação de opinião e valores coletivos (HOHFELDT, 2001).
Já a corrente dos estudos culturais entende a cultura como uma rede vivida de práticas e relações que constituam a vida cotidiana de uma sociedade, através da qual é possível reconstruir o comportamento padronizado e as idéias compartilhadas em grupo que produzem e consomem as práticas culturais (HOHFELDT, 2001). Enfatiza a produção ativa da sociedade diante de tais valores, ao contrário da passividade sugerida pelos
frankfurtianos.
Enquanto Adorno, 1990, afirma que a cultura marca tudo com traço de semelhança e atribui este papel também ao cinema, como forma de reforçar e validar o sistema de valores da sociedade, Jamenson, 1995, defende que não há manipulação ou influência que resista se não houver um “grão genuíno” de conteúdo na mensagem exposta como
também propõe Benjamin (apud HOHFELDT, 2001), com a idéia de que o cinema reflete valores da realidade, isto é, busca no cotidiano vivenciado referências para o que é
apresentado na tela do cinema e, desta forma, reforça conceitos já estabelecidos, no entanto sua função, de qualquer forma é inconcebível, porque liquida com o valor tradicional do patrimônio da cultura..
De um lado, o cineasta é exposto a uma série de valores morais e culturais como qualquer cidadão, também pode incluir ao roteiro conceitos e estereótipos arraigados em sua própria cultura e formação pessoal. Fato indiscutível pelos estudiosos como Betton, 1987, que acredita:
“[...] o que aparece na tela não é realidade suprema [...] é um simples aspecto relativo e transitório da realidade estética que resulta da visão eminentemente subjetiva e pessoal do realizador [...]” (p.9)
Pode-se dizer, a partir dos dados desta pesquisa que, se o universo de inspiração para o roteirista de ficção científica não tem uma exata noção do conceito ciência e das atividades científicas, conforme se apresentam na amostra, essa mesma concepção pode ser exposta ao público. Não apenas como recurso artístico, mas também como forma de especulação característica do gênero. No entanto, como o cinema expõe e as possíveis formas de absorção desta mensagem e estereótipos é no que divergem frankfurtianos e
culturalista.
Se por um lado, Adorno tem razões para associar a função do cinema aos interesses mercadológicos da indústria cultural26[26], com isso estabelecendo uma conexão de poder e dominação de ideologias entre o meio e os que o controla, o que ele denomina obras por
encomenda. Por outro lado, perde a medida quando atribui pura e exclusivamente ao
cinema o poder na formação de conceitos e impõem total passividade do público diante da mensagem exposta. Sobre isso Nogueira, 1998, entende que a mensagem do cinema é uma forma autoritária de comunicação, pois com ela “surgem inevitavelmente modelos
narrativos estereotipados, uniformizações éticas das mensagens e estéticas das formas capazes de satisfazer os desejos criados no e pelo público consumidor”, porém mais
totalitária, segundo ele, a forma com que Adorno caracteriza como má-fé toda e qualquer forma de narrativa. Deve-se acrescentar a isso, o fato de que estas podem suportadas por arquétipos já consolidados socialmente e cuja conversão podem ou não acontecer no momento de caracterização pelo cinema, conforme já discutido no capítulo II.
Sobre isso Jamenson, 1995, contribui:
26[26]
Sobre tal indústria, Edgar Morin, 1977, a denomina como cultura de massa e aponta: “a cultura de massa
certamente nasceu dos meios de comunicação de massas, mas para desenvolver uma indústria capitalista e expandir a cultura burguesa moderna. A cultura de massa hoje se estende para fora do estilo campo dos meios de comunicação de massa e envolve o vasto universo do consumo e dos lazeres, da mesma forma como alimenta o microuniverso do lar[...] (p.113). Habermas (apud Hohfeldt, 2001), acrescenta que “a cultura de massa recebe este duvidoso nome exatamente por conformar-se às necessidades de distração e diversão de grupos de consumidores com um nível de formação relativamente baixo” (p.138)
Tanto o modernismo como a cultura de massa mantém relações de repressão com as angústias e preocupações sociais, esperanças sociais, esperanças e pontos cegos, antinomias ideológicas e imaginários de desastres fundamentais, que são sua matéria- prima; a diferença é que onde o modernismo tende a manusear esse material produzindo estruturas compensatórias de vários tipos, a cultura de massa os recalca por meio da construção de narrativa de resoluções imaginárias e de projeção de ilusão ótica de harmonia social (p.26)
O recalque pode ser encarado como uma forma de negar a própria realidade, quando dura demais ou inatingível como a cultura científica tal como se anuncia na mídia, por isso, uma resolução para o cientista incompreendido intelectualmente, possa ser a compreensão de um cientista irreverente, “amalucado”, que erra como todo mortal e que, no entanto, nem sempre se arrepende. Ou ainda aquele que, diferentemente de qualquer cidadão comum, detém o poder sobre as radias da humanidade.
Ainda sobre as possíveis relações entre cinema e sistema de valores, os estudos culturais, representados por Willian e Thompson apontam para absorção crítica das
mensagens, pois não acreditam no consumo passivo de valores culturais através dos meios de comunicação de massa. O que os une, segundo Hohfeldet, 2001, “é uma abordagem
que insiste em afirmar que através da análise da cultura de uma sociedade – as formas textuais e as práticas documentadas de uma cultura – é possível reconstituir o
comportamento padronizado e as constelações de idéias compartilhadas pelos homens e mulheres que produzem e consomem os textos e as práticas culturais daquela sociedade. É uma perspectiva que enfatiza a ‘atividade humana’, a produção ativa da cultura[...]”
(p.155).
A relação entre ficção e realidade seja pela especulação artística ou pelo simples prolongamento do que o público já conhece, talvez seja o ponto mais discutível das críticas ao cinema a medida em que a confusão entre o que se vê nas telas do cinema e em outros meios de comunicação, também possa ser vista na vida cotidiana. Não a ciência como ferramenta de desenvolvimento, diga-se, com espaço restrito e pouco privilegiada pela mídia, e quando encontra espaço, seja pelo discurso jornalístico facilitador ou mesmo
pelos recursos audiovisuais espetaculares utilizados, acaba por indiferenciar-se da
pseudociência. Essa sim, bastante perigosa - para leigos ou para os não muito próximos dos procedimentos científicos – é divulgada na mídia e referenciada nos filmes.
Não se trata de condenar as formas de comunicar do cinema (como arte, documentário ou Ficção Científica), mas de levantar mecanismos que desvendem os caminhos pelos quais o cinema engendra seus valores, bem como refletir sobre em quais fontes possa beber o que expõe ao público. Certamente, um dos caminhos passa pelo mercantilismo da indústria cultural defendida por Adorno, passa pela descaracterização da
aura que Benjamin defende na obra como arte e, por fim, passa também pelos reflexos aos
quais Jamenson atribui os valores vivenciados cotidianamente e expostos no cinema e em várias formas de cultura.
E quanto às fontes, estas são as ideologias que Adorno determina como dominantes e que prefiro dizer uma das inúmeras formas de pensar politicamente no papel do meio cinema; tem também como fonte as escolas estéticas que reconhecidamente ocupam lugar na história da arte, como propõem Benjamin e Jamenson e por fim, há que se destacar: todas as formas citadas acima, sem exceção, bebem, mesmo que instintivamente, na mesma fonte arraigada nos arquétipos consagrados pelo inconsciente coletivo em forma de estereótipos. Se estas imagens sociais são de fato preconceituosas, pejorativas ou fazem parte da realidade, é uma outra discussão.