2.3 Smart Device Services and Functionalities
2.3.2 List of Services and Functionalities
Com o intuito de compreender o processo utilizado pelos indivíduos na construção do conhecimento sobre a saúde e o significado dado a prevenção, nesta pesquisa a vida cotidiana é entendida como uma realidade que é dotada de significados e por sua vez é interpretada pelos homens na medida em que forma um todo coerente para cada um, ou seja, é um processo subjetivo e que é perspassado pela especificidade dos grupos em que se inserem. Este mundo da vida cotidiana se origina no pensamento e na ação humana, e desta forma, torna-se um mundo real materializado pelos próprios indivíduos (Berger & Luckmann, 1985). As práticas cotidianas são experiências que originam diferentes significados e a linguagem é o meio utilizado para a construção do que explicam e interpretam sobre os acontecimentos e fenômenos que estão ao seu redor. A linguagem torna-se o tradutor da ação e das atitudes dos indivíduos no mundo (Chiaravalloti & cols., 2002).
O repasse de conhecimento às pessoas e comunidades sobre saúde-doença e as informações sobre condutas de prevenção ocorrem de várias maneiras, duas formas principais são: os meios de comunicação em massa, a mídia, e especificamente pelos profissionais da saúde que atuam diretamente com os usuários dos serviços. Estas informações constituem o fundamento sobre o qual os indivíduos e grupos constroem o conhecimento e conseqüentemente significam os comportamentos de saúde e a prevenção. Todavia, mesmo havendo conhecimento, a pouca efetividade dos programas de prevenção chamam a atenção (Stotz, 1993, Stroebe & Stroebe, 1995).
Autores como Stotz (1993), Oliveira e Valla (2001), apontam que a baixa resolutividade ocorre pela falta de reconhecimento das prioridades, à falta de incentivo à participação comunitária nas medidas preventivas e pela desconsideração da construção compartilhada do conhecimento, através do saber popular, nesta pesquisa entendido como o fenômeno das representações sociais. Neste cenário, Stotz (1993), pontua que a responsabilização individual torna os programas preventivos descontextualizados, com um extremo caráter individualizante contrariando a necessidades requeridas pelos programas preventivos. Além disso, este autor destaca que o método de trabalho
que se adapte a perspectiva preventiva deve envolver os indivíduos e os grupos agindo em defesa da saúde.
Corroborando com a discussão acima, Chiaravalloti e cols., (2002, p. 1323) afirmam que o modelo médico de prevenção que se baseia apenas na divulgação de informação focando os procedimentos preventivos geralmente não alcança mudanças de hábitos e estilos de vida. “Isso ocorre porque se define um nível de conhecimento como ideal e supõe-se que o seu repasse à população” é suficiente para estabelecer mudanças de comportamento ou ainda adoção de estilo de vida saudável. Todavia, não se estabelece a interlocução entre usuários e o serviço de saúde, desconsiderando que o processo de construção do conhecimento ocorre por meio desta intercomunicação e se estabelece a partir das trocas sociais.
Rouquette (2003) afirma que os conhecimentos, independente de sua natureza, são forjados e difundidos no quadro das comunicações, o que ocorre no plano da sociabilidade. Este aspecto é notório na formação das representações sociais, já que este é um conhecimento socialmente partilhado e que se constitui não de conhecimentos individuais acumulados, mas sim de condições e de práticas comuns, que o nutrem e o modelam. Esta questão pode ser evidenciada pelo hábito de fumar. Em pesquisa realizada por Almeida e Mussi (2006), constata-se que a maioria dos jovens tabagistas conhece o efeito prejudicial do tabaco à saúde, e este conhecimento foi adquirido por meio de orientação familiar. Todavia, os jovens permanecem com este hábito. O estudo pontua que independente da informação sobre a saúde ter sido transmitida da melhor maneira, ainda assim é insuficiente para traduzir mudança de comportamento. Este ponto remete a relação entre representações sociais e comportamento, que será exposta no próximo capítulo.
Pires e Mussi (2008), em pesquisa empírica sobre crenças e hipertensão, demonstram à relação das primeiras no comportamento preventivo, neste caso a redução da ingestão do sal para promover o controle e a prevenção dos agravos à saúde dos hipertensos. Apontam que as mudanças comportamentais se tornam ainda mais difíceis em indivíduos que lutam pela sobrevivência, visto que as contingências já os submetem a privações, e as mudanças comportamentais representam o abandono de alguns prazeres, o que dificulta principalmente a adoção de dietas. Neste contexto, os autores apontam a educação em saúde, contemplando a individualidade e o contexto de inserção do indivíduo como essencial para encorajar a adoção de comportamentos preventivos.
Até então foi abordado o conhecimento e suas implicações no processo saúde-doença, apontando a discrepância existente na relação deste com os comportamentos saudáveis e ou preventivos, já que aquisição de conhecimento não se traduz diretamente em comportamentos de cuidados de saúde. De que forma, pode-se modificar os comportamentos de risco para a saúde e contribuir para a adoção de comportamentos saudáveis? Stroebe e Stroebe (1995) apontam dois tipos de abordagem que se ligam à modificação dos comportamentos de saúde: o modelo de saúde pública e o modelo terapêutico. O primeiro modelo envolve programas de promoção à saúde com o intuito de modificar o comportamento de grandes grupos, e podem envolver apelos persuasivos, medidas legais e os incentivos econômicos. Já o segundo foca-se em trabalho mais individualizado ou de pequenos grupos, em que se pretende ensinar os indivíduos estratégias para manutenção da motivação e implementação da mudança. Estas abordagens não são mutuamente excludentes, já que podem ser utilizadas juntas e se complementam.
Para a utilização destas medidas e a sua eficácia, é necessário avaliar a situação como um todo, pois Stroebe e Stroebe (1995) referenciando Jeffery (1989) salientam que o fracasso das campanhas em saúde permeia a inadequação do conteúdo ao público em questão. Sendo assim, torna-se importante considerar a especificidade dos grupos como também os conhecimentos que são forjados nestes, por meio das representações sociais, aporte teórico utilizado nesta pesquisa.