A pesquisa desk analisou três grupos de fontes documentais: dissertações de mestrado, site e redes sociais do MCC e artefatos utilizados para pesquisa de públicos no museu. Para adentrar no histórico do museu foram consultadas as dissertações de mestrado de Silva (2008) e Pessoa (2009). O Museu Câmara Cascudo foi criado em 1973 (PESSOA, 2009). Teve como objetivo inicial manter o acervo do antigo Instituto de Antropologia Câmara Cascudo (IACC), fundado em 1960 pelos pesquisadores Luís da Câmara Cascudo, José Nunes Cabral de Carvalho, Veríssimo Pinheiro de Melo e Dom Nivaldo Monte. O IACC foi um dos polos de pesquisa mais importantes do Brasil (PESSOA, 2009).
O IACC foi o primeiro departamento de pesquisa da UFRN. Era um espaço multidisciplinar, onde se realizavam pesquisas voltadas para antropologia cultural,
antropologia física, paleontologia, etnografia e genética. A ideia que norteava o Instituto era a de “promover e divulgar estudos sobre o homem em seus diversos aspectos físicos e culturais, além de realizar pesquisas relativas às jazidas pré-históricas do território norte-rio-grandense.” (PESSOA, 2009 p.55). No início, o Instituto era composto por três departamentos: Departamento de Antropologia Física, Departamento de Etnologia Geral e Departamento de Genética, Monsenhor Nivaldo Monte. Logo depois as subseções de Linguística e Inglês, e de Geologia e Paleontologia do Quaternário foram criadas. O intercâmbio com professores e instituições internacionais foram um ponto chave para o desenvolvimento de pesquisas em ciências naturais e antropologia (PESSOA, 2009).
A coleta de dados físicos era constante com o desenvolvimento dessas pesquisas, principalmente nas áreas da geologia e arqueologia. Deste modo, foi inevitável a criação de um acervo robusto. Outro fator que contribuiu para a construção do acervo foram trocas, compras e doações realizadas com outras instituições (PESSOA, 2009). Isso tudo cooperou para que o IACC obtivesse sede própria e permanente em 1965 na Avenida Hermes da Fonseca, Natal- RN. Tempos depois, o Instituto passou a expor seu acervo e a cobrar pelas visitas.
“Por consequência, em uma espécie de extroversão dos dados advindos das pesquisas a partir de perspectivas educativas e tendo em vista atender o caráter extensão deste órgão, enquanto uma entidade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, passaram a ocorrer visitas, um fato que levou, inclusive a congregação dos professores do Câmara Cascudo a decidir em assembleia para uma taxa para visitas” (ATA, julho de 1970 apud SILVA, 2008)
Em 1968, a estrutura da universidade foi modificada para a conhecida atualmente. Os diversos departamentos foram agrupados e reorganizados em centros acadêmicos de acordo com as características dos cursos e disciplinas. O IACC juntou-se com o Instituto de Ciências Humanas, Letras e Artes, o Serviço de Psicologia Aplicada (SEPA), a Escola de Música e o Núcleo de Estudos Brasileiros. Dessa fusão foi criado o Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).
Para evitar a perda do acervo, o Museu Câmara Cascudo (MCC) foi criado como parte do Departamento de Geociências, pertencente ao Centro de Ciências Exatas e da Terra (CCET). Mas tempos depois passou a ser vinculado diretamente à reitoria.
“Quando o IA é transformado no Museu Câmara Cascudo, a instituição assume o compromisso de “preservar os resultados das pesquisas”,
“estruturar as atividades de proteção, utilização e exposição das peças”, consideradas então como “patrimônio” da UFRN.” (PESSOA, 2009 p.67)
A proposta inicial do museu foi construir e manter o acervo do antigo Instituto de Antropologia Câmara Cascudo (IACC), ou seja, ele era uma instituição voltada para professores, pesquisadores e estudantes universitários, tendo como seu foco principal o universo acadêmico. Durante muitos anos este foco manteve-se como principal, apesar de aos poucos o MCC também ter começado a se preocupar com o público em geral através das exposições. Nos últimos anos, o MCC tem passado por modificações físicas e organizacionais importantes, que têm aumentado a preocupação com o público em geral. Assim, as pesquisas de públicos tornam-se um importante instrumento para o MCC incluir de forma mais efetiva a comunidade em seu planejamento e atividades diárias.
O contexto mais recente do museu foi analisado pela sua atuação nas redes sociais Facebook1 (Figura 6) e Instagram2 (Figura 7) e no website3 do MCC (durante o período que
ele permaneceu disponível). Esses documentos digitais ajudaram a entender as ações realizadas pelo museu recentemente, como ele se comunica com seus públicos, e quais são seus objetivos e motivações atuais. O uso que o museu tem feito dos meios virtuais apontou para uma preocupação em estabelecer uma boa comunicação com seus públicos. Para isso, a instituição procura utilizar uma linguagem visual (vídeos, fotos, imagens) e escrita cotidiana e simples para divulgar eventos, exposições, cursos e informativos sobre o próprio museu. Essa estratégia visa informar, aproximar e expor o museu às pessoas interessadas de forma que ele esteja presente no dia a dia delas.
1 https://www.facebook.com/mccufrn/?epa=SEARCH_BOX - Acessado em abril de 2018 2 https://www.instagram.com/mccufrn/ - Acessado em abril de 2018
Figura 6. Página Facebook do MCC.
Figura 7. Instagram do MCC.
Também foi possível identificar que o MCC já se envolveu com atividades relacionadas à pesquisa de públicos. Os artefatos analógicos encontrados apontam para três objetivos de pesquisa diferentes: o controle do número de visitantes, a pesquisa de público escolar e a pesquisa de recepção. Alguns funcionários do museu foram consultados para auxiliar a compreensão sobre o uso destes artefatos.
O registro de visitantes se dava pela utilização de um caderno de assinatura. Assim, era possível contabilizar quantas pessoas visitaram o museu diariamente e atender à exigência do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). O caderno era destinado aos visitantes espontâneos, que não haviam agendado visitação. Para analisar estes dados, um funcionário da recepção
contabilizava manualmente as assinaturas. Apesar de existirem dados como cidade onde mora e profissão do visitante no livro de assinaturas, os funcionários geralmente calculavam apenas o total de visitantes diários. Não era possível responder perguntas como: Os moradores de Natal visitam o museu? O museu é frequentado por turistas? Em qual turno o museu costuma receber maior fluxo de pessoas? Ainda que a contabilização diária de visitantes seja limitada, ela ainda sofria com erros humanos e ineficiência. Por exemplo, quando questionados sobre o uso do caderno de assinaturas, os funcionários da recepção relataram que estavam contabilizando os dados de visitação de um ano e meio atrás, por se tratar de um processo demorado e muito suscetível a equívocos e recomeços.
A coleta de dados para pesquisa de público escolar ocorre por meio de um “carimbo questionário” (Figura 8) em um caderno pautado. Ao chegar ao museu, um professor responsável pelo grupo escolar visitante deve preenchê-lo com o dia da visita; o nome da escola (e indicar se é pública ou particular); grau; série; endereço; telefone; números de alunos menores de sete anos; número de alunos pagantes; total de alunos; se a visita é didática ou recreativa; o professor responsável; servidor do MCC que recebeu a escola e o valor recebido, caso algum ingresso seja cobrado. As informações coletadas neste questionário são guardadas junto com o caderno e não houve relato de análise.
Figura 8. “Carimbo questionário” utilizado no MCC.
Os dados da pesquisa de recepção foram coletados por meio de peças gráficas impressas, como o pequeno questionário apresentado na Figura 9. Buscou-se obter dados sobre a experiência dos públicos na visitação do museu com a pergunta “Que atividade visitou e
gostou mais?” e as escalas sobre qualidade do conteúdo, apresentação e estrutura. O visitante podia escolher entre ótimo, bom, regular, ruim e péssimo, cada um sendo representado pelo rosto de um animal com expressões relativas à opinião pessoal. Um funcionário do museu informou que estes questionários preenchidos estão guardados numa caixa sem nenhuma análise.
Figura 9. Questionário de avaliação utilizado no MCC.
Apesar de o MCC ter realizado alguns esforços relacionados com pesquisa de públicos, os resultados foram pouco significativos. Os instrumentos de coleta de dados empregados não ofereceram apoio suficiente para os funcionários do museu conseguirem seguir adiante com essas pesquisas em conjunto com as demandas diárias da instituição. A tabulação e análise de dados em meio analógico requer muito tempo, esforço e mão de obra, dificultando a análise dos dados e intervenções consequentes, em especial, se considerarmos a realidade financeira do museu. Além disso, os instrumentos analógicos apresentam dificuldades de atualização para acompanhar a dinâmica do museu. Por fim, o suporte analógico exige muito trabalho para triangular dados de várias pesquisas com o objetivo de melhorar a compreensão da realidade. A pesquisa de públicos no MCC ainda precisa de instrumentos e suporte adequado para contribuir significativamente com a gestão do museu no curto, médio e longo prazo.