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27 The LISP Interpreter Program

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Entre os naturais de Puquio, cidade localizada na cordilheira andina peruana, capital da província Lucanas, na região de Ayacucho, ao centro do Peru, surgem os llamichu (ver figuras 11 e 12). A cidade possui quatro ayllus principais (Pichqachuri, Qayao, Chaupi e Qollana) e seus moradores têm orgulho em se apresentar dizendo a qual deles pertence. Na

78 escola, os/as moradores/as de Puquio aprendem como primeira língua o castelhano, entretanto, seu idioma ancestral é o quechua. Nos anos cinquenta, 70% da população falava a língua, atualmente existem dois movimentos: o de perda do idioma e o de salvaguarda do mesmo, os llamichu, por exemplo, só falam em quechua.

79 Fonte: Ana Carolina Abreu.

A Sequia Tusuy (Festa da Água), uma das mais importantes festas do calendário andino, tem normalmente a duração de sete dias e acontece entre os meses de agosto e setembro. Trata-se tanto do profundo agradecimento da comunidade aos apus e wuamanis pela água recebida, pelo plantio e pela colheita, quanto do pedido para que na próxima semeadura eles sejam presenteados com ainda mais água (sangue que desce das montanhas, pelas acéquias) e mais frutos.

Os llamichu, cômicos andinos, representam as comunidades de pastores que vivem nas terras mais altas, são os filhos do apus enviados por ele para informar sobre os cumprimentos dos princípios e normas da cultura andina. Aparecem vestidos de lã de lhama e sua máscara é o coro da cabeça do animal. A palavra llamichu deriva de lhama e ichu é o pasto da puna, seu principal alimento.

Como afirma Arguedas, os llamichu personificam as lhamas, “representan a los pastores y a las propias llamas” (ARGUEDAS, 1964, p. 248) e de maneira satírica, representam o que o mito os permite pensar, ou seja:

(…) los apus son los padres que viven en los nevados y de los nevados vienes los llamichu con el encargo dado por los nevados, por los apus, para que los llamichu vean y observen, que las normas de los padres están siendo cumplidas por los hijos, entonces ellos tienen el encargo de felicidad a quienes están cumpliendo con las obligaciones del miembro del ayllu y tiene la obligación de reprochar de castigar y de burlarse de las personas que no están portándose como deberían portarse los hombres y mujeres de un ayllu. Esa es la función principal de los llamichus (...) (MONTOYA, 2018).

80 Arguedas (1964, p. 257) sinaliza que depois do primeiro Angoso, durante a Picantada (momentos da festa que serão aprofundados posteriormente), os llamichu aparecem a galopes, lançando de maneira divertida às pessoas da comunidade imprecações a gritos. Imprecação é um desejo intenso de que algo ruim aconteça a alguém, em outras palavras se trata de “rogar uma praga”. Em acordo com Arguedas e Montoya, afirma Juan Francisco Tincopa na revista Mirador Chanka (2016):

Los llamichu representan la consciência ancestral que revolotean con el humor propio del runa quechua, acosando a todos y a cada uno (...) con la implícita intención de alborotar las mentes de los hermanos aculturados y estimular la memoria ancestral, expresándose en un tono muy resuelto y casi ronco, jugueteando con bromas que frecuentemente desnudan la verguenza de los hijos de los ayllus que se niegan a sí mismos (…)

(TINCOPA, Juan. F. C., 2016, p. 4).

Para exemplificar, Montoya contou que em 1974 foi interpelado pelos llamichu na festa, junto a jovens estudantes de Antropologia. Entre eles os brasileiros Felipe Lindosso e Maria José Silveira que haviam recebido asilo político no Peru em função da ditadura militar no Brasil. Um dos llamichu lhe disse em quechua:

Carambas que bien, tu no sabes, tal vez no me reconocerás, pero, tu eres mi hijo y veo que has progresado mucho porque ya tienes unos lentes, pareces doctor, pareces profesor, pero tienes que reconocer que todas las personas que viven aquí, viven gracias a nosotros, ustedes son nuestros hijos

(MONTOYA, 2018).

Quando eu voltava caminhando para a praça de Pichqachuri em 2016, também após o primeiro Angoso, um grupo de llamichu passou por mim e pelo professor Alejo Quispe Licla, puquiano, filho de comunero e comunero do bairro de Pichqachuri. Um deles disse a Quispe em quechua, que me traduziu: “Al año estará vivo, que será, quizás no llega al año”. Rimos muito dessa “praga rogada” pelo llamichu que alertava Quispe de sua possível morte antes mesmo do ano terminar. O senhor Jorge Tincopa, irmão de Juan Tincopa, também do ayllu de Pichqachuri, passou por situações parecidas:

(…)me conoces, si yo soy tu padre y he vendido mis llamas, mis alpacas para hacerte profesional”, me jodan por todos lados. Entonces, a veces… yo he sido diputado, esa fecha me viene como…en la Sequía, los que me conocen, pucha madre, entonces me dicen “diputado, había llegado nuestro

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diputado, por nosotros es diputado” y me dice en quechua que quiere decir “del cuco debe plata que gasta, que gana ...si quiere una partecita que nos invite”, y me arrastraban a la tienda para invitarle cosas, osea, ese tipo de comparaciones o metáforas de lisonjas son lindas de ellos y por quechua, no? El dominio del quechua (TINCOPA, Jorge, 2016).

Reafirma Jorge Tincopa que os llamichu são a expressão do homem andino, “el personaje del hombre andino” e que eles usam a máscara porque na festa dizem às pessoas “tus frescas y en quechua, lo que no puede decir ahí por N razones, de la aculturación, de la cuestión histórica opresiva hacia ellos, todo lo que hay, un acumulo de cosas”, então eles o fazem (as críticas) em tom de broma: “mil cosas de lisonja, pero la sátira de ellos, bien elegantes, es genial”. Tincopa, com grande entusiasmo, disse que os llamichu são espetaculares, que eles realmente fazem as pessoas rir e que se trata de um teatro aberto onde as pessoas gozam e “los que entienden en quechua y los entienda gozan porque no se quedan callado, los reprochan, los hablan, responden”.

Pude vivenciar esses diversos diálogos entre os llamichu e os/as moradores/as dos ayllus, que respondem também em tom de broma, como diz Tincopa: “se agarran en quechua” e se pode chegar a uma importante reflexão “el día que se pierda el quechua ya no hay llamichu, ya sabes que es la esencia de tu tesis”. Também fui “vítima” dos chistes dos llamichu e como se verá na etnografia da festa, só fui saber o que os llamichu me disseram depois que minha professora fez a tradução dos vídeos da pesquisa de campo. Meu parceiro de viagem, Victor Illizarbe, que fala e compreende o quechua, aparece rindo nesses momentos, por isso ele pouco conseguia me traduzir ao vivo o que os llamichu diziam.

Sobre a vestimenta dos llamichu, veja os detalhes, a começar pela roupa, que me foram revelados por Quispe (2016), quando voltávamos para a cidade, desde o campo, após o primeiro Angoso:

El lenguaje no es solo un instrumento, el lenguaje es todo, ¿no es cierto? Entonces uno te transmite... ¿Qué crees que viene? “Este es bien tradicional, sí?” Sí, pero porque viste así? ¿Por que crees? Los llameros, los representan al personaje típico de la altura, donde se crea más el ganado de la llama, de la alpaca. “Ah, de ahí viene”. Por eso la máscara todo eso, porque ellos viven ahí, hacen su ropa, se visten así, ¿cierto? A diferencia de un nacacho. “Que es extranjero”. Claro. Ellos se visten con lo que producen, ¿que cosa producen? Producen lana de alpaca, de oveja, de llama, ¿no? Eso es. Las hogas que lleva es porque es parte de su trabajo, con las hogas carga la llama y con la llama viaja. (...). Los pantalones son balletes, la balleta es un pantalón tejido de la lana de oveja, tiene dos caras. (...) Su bolsa hecho de lana de alpaca, su soga igual. Chuspa, se llama la

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bolsa grande, hay la más chiquita que es pisca para llevar la coca y antes era con su zapato hecho de cuero de llama, alpaca. (...) Esa campana es la campana que lleva la llama en el viaje, que los incas antes o la gente indígena de la altura va de viaje con su llama a traer diferentes cosas para lá. Hacer intercambio de la lana con maíz, las llamas son las que van adelante con la campana, ese es el llamero creador de llamas. A la campana es la que le pesa más. Ahora la bolsa ya no es de la lana, es de plástico

(QUISPE, 2016, grifo meu).

Vale ressaltar que um llamichu quando vê o outro vestido de outra maneira faz muitos chistes e bromas porque, segundo Quispe, todos deveriam usar a vestimenta tradicional. Entretanto, afirma o comunero e mestre llamichu do bairro de Pichqachuri, Antonio Lucuica, que hoje em dia é muito caro ter a vestimenta típica dos llamichu feita de couro de lhama. Poucas pessoas têm condições de pagar por ela, o que resultou em uma transformação/adaptação ao longo dos anos, mas que os acessórios, a graça, os chistes em quechua, continuam os mesmos.

83 Fonte: Ana Carolina Abreu.

Lucuica (2016) também me contou que é llamichu desde pequeno, que começou ao lado de seu irmão Fortunato, à época com 12 anos. Fortunato foi morto pela violência política, nos anos 1980. Ele disse que ser llamichu é um trabalho duro, que acontece muitas vezes de eles caírem na água no som dos foguetes e terem de carregar a vestimenta pesada, encharcada durante toda a festa. Os llamichu se assustam com os foguetes, por que eles desconhecem tudo o que é ocidental, da cidade, tudo o que não é da natureza, que não pertence à serra, às terras altas (ver figura 15). O presidente do ayllu de Pichqachuri convidou Lucuica e o ajudou no transporte para que ele participasse da Sequia Tusuy em Lima, ali o conheci, no dia 7 de julho de 2016 e nos reencontramos em agosto na Sequia Tusuy em Puquio no mesmo ano. Em 2017 ele passou o cargo, foi cargonte da festa16, onde tive a honra de viver e participar deste importante momento de sua vida, de sua esposa e filhos junto de sua família.

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Homens e mulheres, escolhidos em assembleia comunal, dentro de cada ayllu, durante a Sequia Tusuy, responsáveis por financiar e ajudar na organização da festa do ano seguinte.

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Figura 15- Llamichu assustados com os foguetes, Puquio, Peru, 2017

Fonte: Ana Carolina Abreu.

Ao final, afirma o professor Chamana (2016), como se verá ao longo dos jogos, os chistes, as imprecações, as brincadeiras, as críticas e as mensagens em tom de broma dos apus e wamanis às pessoas que não estão cumprindo com as normas e princípios da cultura andina, feitas pelos llamichu, acontecem no “aqui e agora”, ou seja, com quem está presente, por exemplo se o prefeito estiver na festa “hagan mofa de él, pero sin la presencia de él no hacen ellos. (...) La imitación, la risa es con quien está (...)”.

Vale ressaltar que essas ações cômica-críticas também são destinadas não apenas aos seres vivos, mas também aos “não vivos”, por que a cultura andina, como disse Quispe é mágica: “le damos vida a todo, nada está muerto”. Por isso o respeito a água, a terra, ao ar, ao sol, as pedras e a convivência harmônica entre todos, ou seja, “en la filosofía del pensamiento indígena no objetivamos y no hay un punto de vista egocéntrico del hombre, (...) todos somos iguales, todos somos hermanos y hay un equilibrio, eso sería, el respecto al apu, al wamani (...)”. Em suma, os llamichu, filhos e mensageiros dos apus e wamanis, cumprem na festa a função de lembrar a cada um que lhes cruza o caminho, satiricamente, o lugar de onde veio, as raízes, os valores andinos de sua cultura que não devem ser esquecidos, perdidos e sim revividos e valorizados.

O riso como dispositivo cultural, crítico e educativo, um riso que ensina, mas um ensinar freiriano, visto que os llamichu sabem muito bem que ensinar exige o que preconiza Freire: alegria, esperança, curiosidade, liberdade, respeito aos saberes da comunidade,

85 criticidade, estética e ética, corporalização das palavras pelo exemplo, risco, reflexão crítica sobre a prática, reconhecimento, consciência do inacabamento, humildade, apreensão da realidade, convicção de que a mudança é possível, generosidade, segurança, comprometimento e disponibilidade para o diálogo.

Os Nacaq fazem a paródia “de las personas deshumanizadas (se pintan el rostro con el negro del hollín)” (TINCOPA, Juan. F. C., 2016, p. 4) que eram os capatazes nas minas ou nas fazendas. Arguedas narra que os nacaq simulam marchas militares, execuções e degolações (ARGUEDAS, 1964, p. 257). Montoya me contou em entrevista que em pesquisa de campo ele perguntou para um nacaq por que razão ele estava pintado de negro, o nacaq respondeu que era porque ele vinha do país mais longe do mundo e que o país mais longe do mundo era a África, que na África todos eram negros e que eles só falam em castelhano, não entendem nada do que falam esses “índios brutos”, estes “cholos” (referindo-se aos llamichu e ao quechua) e finalmente que eles vestem as botas dos policiais e usam uma espada de madeira ou de cactos porque é a espada do abuso e da morte (ver figura 16).

Figura 16- Nacaq, Puquio, Peru, 2017

Fonte: Ana Carolina Abreu.

A réplica é feita pelos llamichu que só falam em quechua e não entendem nada do que falam os nacaqs “gringos estrangeiros sem vergonhas”. Trata-se, portanto, de uma “representação” do mito e ao mesmo tempo a “recriação” do mito antigo, porque aparecem de

86 um lado os espanhóis como estrangeiros que vem de longe, “ellos no tiene en la cabeza ni idea de donde esta España ni donde está África, pero suponen que África es el lugar más lejano y desde ahí vienen esos bandidos españoles que ha venido a hacernos daño en la historia del país (MONTOYA, entrevista, 2018, p. 3). O encontro na festa entre os llamichu e os nacaq é um embate simbólico das relações de poder que revelam os abusos históricos a partir do confronto teatral, jocoso e escarnecedor que fica a cargo da criatividade desses atores sociais ao vivenciar na festa esses “personagens”, ao cumprirem na festa sua função social. Em meio à Sequia Tusuy, os llamichu botam os nacaq para correr. A oposição também se encontra nos timbres vocais, não por acaso a voz dos nacaq é fina, agudíssima e se contrasta com a voz dos llamichu, forte e quase rouca.

Perguntei ao professor Quispe (2016) se os nacaq e os llamichu sempre existiram e ele disse que os llamichu surgem “mucho más antes”, porque os negros e negras escravizados/as nas fazendas, principalmente na costa peruana, vão surgir depois da invasão espanhola e os llamichu representam ao autóctono, “do lugar”:

(…) siempre, miles de años acá nosotros vivimos, entonces pienso que los llamichu siempre estuvo aquí, mucho más antes, porque el llamichu representan al poblador alto andino, su oveja, entonces participa en la fiesta del agua, el nacacho viene de la costa, de las haciendas, entonces, te das cuenta de como la Sequia reúne a todos, no excluye, no es cierto? Reúne y se hace un encuentro ahí (QUISPE, 2016).

Para exemplificar esse enfrentamento, disponho de uma “cena”, das muitas que vivenciei na festa. O nacaq estava vestido com o uniforme das pessoas que trabalham nas empresas de mineração, tinha uma capa, um capacete na cabeça, óculos escuros, o rosto pintado de negro, um pau de madeira enorme nas mãos cuja ponta tinha um grande pedaço de cacto, cheio de espinhos, causava medo. O llamichu corajoso gritou para o nacaq em quechua: “Imataq kay, yana, yana kasqa, morsilla, morsillam kay, qanratayá (que cosa es esto, bien negro había sido, esto debe ser morsilla, morsilla, este sinvergüenza pues)”. Segundo a professora de quechua, Fanny Aurea Ccoyllo Sulca, morsilla é um chouriço, um produto comestível, preparado com o sangue de um animal que foi morto, colocado normalmente nas tripas de porco que são mais grossas e reservadas para consumir. Todos ao redor riram muito, do llamichu comparar o nacaq matador a um chouriço. O llamichu saiu correndo com certo medo de levar uma paulada de espinhos e foi dançar junto da capitana e da milícia.

87 serrano (llamichu) e o outro costeño (nacaq) e que o costeño sempre quer se sobrepor, fazer melhor que o serrano. O serrano não pode ser melhor que o costeño e enquanto o nacaq entra para matar, visto que nacaq significa o que mata; o llamichu entra para fazer rir, representam os lhameros que vivem nas altas punas e baixam somente para essa festividade, para distrair, recrear o mundo (ver figura 17). Entretanto, sinaliza o professor Chamana em acordo com o professor Quispe, ambos estão variando o sentido de seu comportamento, suas atitudes.

Figura 17- Jovens Lamichu e Nacaq, Puquio, Peru, 2017

Fonte: Ana Carolina Abreu.

Os llamichu mais jovens aproveitam para entrar nas lojas e pegar coisas, inclusive roubar ou aproveitar-se da mulher de alguém para lhe dar um beijo, forçando a comicidade no âmbito sexual “de la morosidad del espectáculo y no salen de ahí, entonces van distorsionando”. No caso dos nacaq, apareceram “el maricon y la maricona”. Segundo Quispe, antes os nacaq eram somente homens, depois apareceu uma nacachito que era seu filho e depois apareceu o nacacho mulher, feito por um homem, que representava as mulheres negras escravizadas na costa peruana, “hasta ahí estaba bien”, até que os nacacho resolveram se vestir de gringa, com o rosto pintado de negro e a peruca loira, com minissaia, mudando a mensagem que a comunidade quer passar, distorcendo a comicidade, do conflito com os llamichu, usando de piadas preconceituosas, que imitam os jovens e os personagens da

88 televisão.

Em suma, a comunidade está atenta às mudanças que vem acontecendo na festa ao longo das décadas, percebendo o desaparecimento de alguns “personagens” como o huamanguino e o gañán, refletindo e discutindo sobre essas transformações e buscando salvaguardar a mesma e sua estrutura, bem como o interesse dos jovens. Ao meu ver esse interesse é radiante e crescente, visto a quantidade de jovens na festa e a aproximação das escolas com a festividade e tudo o que ela significa na vida das pessoas da comunidade que, sem dúvida, está em ascensão, fazendo presença não apenas nos meses que ela acontece mas, ao longo do ano escolar.

Dans le document 2 The Atom Table and the Number Table (Page 65-79)

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