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28 Garbage Collection

Dans le document 2 The Atom Table and the Number Table (Page 79-102)

O Pàrti (“tora grande”) ou Jàt jõ pĩ (“tora da batata”) como dito anteriormente, é “uma das principais festas do povo Krahô (...) um evento grandioso e importantíssimo” (YAHÉ, 2017, p.50). Para Luciano Caprãn “A festa de batata é a festa tradicional Krahô” (in ALBUQUERQUE, 2012, p. 23) e conforme Zé Miguel Cõc, o “Pàrti é um amjĩkĩn grande (...) é do Wacmẽjê” (in LIMA, 2016, p. 238). Trata-se do ritual, que dentre outras características, revela a relação entre os/as hôxwa e a fertilidade das plantas cultivadas.

A finalidade do ritual é a de celebrar, determinar a troca dos partidos (Catàmjê para o Wacmẽjê), a mudança da estação do inverno para o verão (ARAÚJO, 2015). Segundo Lima (2016, p. 233), a passagem das estações (chuvas do inverno para o tempo seco do verão) está associada à cerimônia do ciclo de vida da batata-doce, ciclo ritual extenso, que conta com “cantos” e “danças” que também operam como marcadores-temporais (do dia, da tarde, da noite, da madrugada, do amanhecer) como se verá ao longo da tese.

Afirma a antropóloga (2016) que o verão é o tempo ideal tanto para colher quanto para plantar a batata-doce, no período entre os meses de abril e agosto. O plantio deve ser na lua cheia, de modo que cresça grande e redonda, geralmente pouco tempo depois da colheita, pois a batata-doce se conserva embaixo da terra (LIMA, 2016, p. 157-158). Para Tadeu Cajhy,

91 não só a água é dona do plantio, mas também a lua: “o resfriado da lua faz bem para a terra” (CAJHY in LIMA, p. 158).

Entretanto, desde a imposição de uma lógica de desenvolvimento que privilegia o agronegócio, afirma Lima (2016), como a produção da soja transgênica, introduzida ao norte do Tocantins, o povo Krahô e os pequenos produtores rurais da região vêm sofrendo com a contaminação do ar, da terra e da água dos rios, em função dos agrotóxicos utilizados na produção do cereal e na lógica de desenvolvimento que privilegia o agronegócio.

Vale ressaltar que os/as Wacmẽjê são homens e mulheres que pertencem a essa metade, a esse partido que trabalha, administra e organiza os rituais, dentre outras atividades, nessa época do ano, onde

o sol esturrica as folhas, cascas e peles, deixando o céu inflamado pelo poente vermelho alaranjado. (...). É o período de estiagem, a terra desseca e vira areia, a tortuosidade e aparência ressecada dos troncos espetam os olhos. A vegetação arde, pois é também o tempo do fogo. Impressionante a rapidez e o vigor com que os brotos novos aparecem após a queimada! Aos poucos, os diferentes tons de verde substituem a cinza, o rebrotar é seguido pelo colorido da floração, e o Cerrado vai se transformar em um verdadeiro jardim (LIMA, 2016, p. 237).

Vale relembrar que idealmente, são as mães e irmãs dos hôxwa que plantam e colhem a batata-doce que será distribuída na festa. Para Lima (2016), a colheita é um ato de apropriação, se trata de arrancar algo que se cria como um filho para comer e com esse filho não se pode brincar, mexer, se não ele fica com raiva e não cresce: “se a agricultora não cuida das cabeças-filhos de batata, a Batata pode se vingar, vai embora e não mais vai “dar” para ela” (LIMA, 2016, p. 173). As plantas cultivadas não “nascem” simplesmente, elas brotam para alguém.

Outro detalhe, quem planta a batata-doce também precisa fazer resguardo, por exemplo, essa pessoa não deve comer tatu-peba, pois se isso acontecer, o tatu vai atrás das batatas novinhas, caçando-as e desenterrando-as com suas unhas pontiagudas (LIMA, 2016, p. 166). Ainda se tratando de resguardo, a batata-doce sem ihhôc (leite), bem seca, assim como a variedade de milho, é o principal alimento consumido nos resguardos de parto e furação de orelha dos jovens rapazes iniciados que têm como objetivo secar o sangue e demais secreções decorrentes desses processos (LIMA, 2016, p. 168).

A Festa da Batata ocorre praticamente todos os anos e participam da festa os/as moradores da aldeia, além de indígenas de outras aldeias que são convidados/as. Os sentidos

92 do ritual vêm sendo constantemente reinventados em diversas aldeias, não somente na Manoel Alves Pequeno. Isso tem acontecido particularmente no contexto do contato, como afirma Lima (2016, p. 239) e se verá ao longo deste trabalho, em função da diminuição da caça e do cultivo nas roças; da transformação da alimentação e do aumento da dependência em relação aos mercados; da nova dinâmica de realização dos rituais através de projetos; da forte presença de visitantes, fotógrafos/as, antropólogos/as e palhaços/as, que chegam em caravana, ensaiam seus números, se apresentam durante o ritual, etc.; e, sobretudo, de uma nova temporalidade que emerge, descolada do ritmo sazonal do Cerrado e do calendário agrícola o que acarreta algumas consequências para a festa, como por exemplo, as batatas- doces não estarem prontas para serem colhidas e as chuvas ainda não cessarem por completo, impedindo, como vivenciou Lima em 2007, a feitura das fogueiras e a brincadeira no pátio, a “apresentação” dos hôxwa.

Na sequência uma versão da história da batata, apresentada pelo mẽhĩ Zacarias Ropkã da aldeia Manoel Alves Pequeno em 2006 a Lima (2016, p. 241-243). Essa versão do mito será complementada com a de Ismael Ahpracti, revelada a mim em 2013 (ano de falecimento de Zacarias, com seus 90 anos) que será compartilhada neste trabalho mais à frente, no tópico Caxêkwỳj e Chuquisuso: Calendário agrícola e Calendário das festas.

Zacarias Ropkã:

Jàt, Batata.

Antes não tinha festa da batata, não tinha mesmo.

Inventaram há pouco tempo, porque alguém viu a Batata fazendo a festa. Nossos parentes antigos, alguém foi lá e viu.

Então foi por isso que eles inventaram a festa da Batata e correm com a tora da batata.

Jucelino Huhtê:

E o que ele viu?

Zacaria Ropkã:

Batata. A Batata e outras coisas. Foi o canto da Batata que ele viu. Todas as coisas estavam juntas lá:

Milho Pohypej, Cana, Banana, Batata, Cará, Carampá, Amendoim, Mamão, Abóbora, Croá, Inhame

E essas coisas estavam juntas lá, andando.

Elas estavam jogando cabeças de batata um no outro, comemorando e fazendo:

ooooooohhhhh ooooooohhhhh

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Falou: ‘O que é isso?’ Mas assim mesmo ele foi.

Então ele entrou na roça e viu que as coisas estavam diferentes… Pohypej estava com cabelo diferente, assim louro, comprido e bonito. E a Banana estava com o mesmo cabelo bonito.

Homem bonito, mulher bonita.

A Cana estava também bonita, o Amendoim estava bonito, a Abóbora estava bonita, estava todo mundo bonito!

E alguém viu tudo isso, foi um dos nossos.

E os outros estavam lá pro mato ainda, estavam lá pro mato ainda. E mandaram esse alguém visitar a roça

Jucelino Huhtê:

Ele viu mesmo?

Zacaria Ropkã:

Ele viu mesmo!

Deixaram a roça toda plantada, todo mundo foi. E deixaram a aldeia vazia, vazia...

E eles saíram pro mato, foram mudando de lugares, caçando, matando os bichos...

Passou esse mês, mais esse mês, mais esse mês, mais esse mês, mais esse mês… 5 meses!

Tudo o que foi plantado já estava maduro.

Eles já estavam voltando, mas mandaram alguém pra ver a roça e esse alguém viu.

Ele chegou de repente e viu as Batatas comemorando e fazendo:

ooooooohhhhh

E falou: “O que é isso? Será que é meu povo?”

Então ele foi chegando perto e viu que estava todo mundo diferente estava todo mundo de pele branca e cabelo louro.

Então ele viu. As coisas chamaram ele: “Ikrãtũm, ikrãtũm, vem, vem!

Já que você já viu seus filhos, seus netos, já que você já viu a gente Vem, vem! E escute, escute bem mesmo!”

Então ele entrou no meio deles.

“Escuta, nós estamos deixando para vocês,

você está vendo as toras, as toras estão aí. Você está vendo a tora, está vendo a tora. Nós já corremos com a tora,

e os recém casados já trocaram os paparutos. Todo mundo já trocou.

Já é tarde, nós estamos juntos aqui, ikrãtũm e você chegou de repente.

Agora você tem que entender mesmo.

É para vocês continuarem a fazer a festa, ikrãtũm”

Jucelino Huhtê:

Então a Batata era gente mesmo?

Zacaria Ropkã:

Batata? Era gente.

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Amendoim, Batata, Inhame eram gente mesmo.

Então eles fazem assim, uns desafiam a Batata e os outros vão jogar. O Amendoim pegava a [cabeça de] batata e jogava nos outros a Cana desafiava, a Banana desafiava,

o Mamão desafiava a Batata, a Macaxeira desafiava a Batata Todas as coisas desafiavam a batata!

Abóbora não, a Abóbora é hoxwa, a Abóbora só acompanha a Batata. Croá também não desafia a Batata, ele só fica perto da fogueira.

Cipó do mato também fica perto da fogueira, Gaviãozinho também fica perto da fogueira.

E os hôxwa fazem um grupo,

entram na casa e se pintam como a pintura da Abóbora.

É assim a pintura da Abóbora que vocês vêem no corpo dos hôxwa.

E o cantador era o Amendoim, o Amendoim que comandava a brincadeira, ele é quem cantava.

Então os hôxwa vêm em fila e começa a brincadeira.

Um se mostrando, outro se abraçando, o outro fingia que transava. Eles iam se apresentando e os outros só ria, só riam, riam… Então os hôxwa cansaram e voltaram para o lugar deles.

Então, o cantor volta para o seu lugar de novo e continua cantando. Logo em seguida, os hôxwa voltavam de novo.

Eles brincavam na beira desse fogo aí.

Eles se divertiam, arrancavam os pentelhos, dançavam… e os outros só riam, só riam…

Fingiam que transavam, aí que eles riam mesmo…

Fingiam que lutavam, caiam no chão, eles iam se apresentando e os outros só olhando e rindo.

E os hôxwa cansavam e voltavam de novo lá para o lugar deles. Então o cantor volta de novo, e o croá chega na beira do fogo movimentava os braços e voltava.

E o Gavião também vem para a beira do fogo grita igual Gavião e volta para o seu lugar.

O Cipó do mato vem pra beira do fogo também e volta para o seu lugar. Croá tem uma fogueirinha separada, Gavião tem uma fogueirinha e o Cipó também.

Os hôxwa brincam na beira do fogo

e os parentes dele vão com uma cabaça d’água e molham ele porque o fogo é quente.

O Milho, a Banana e as outras coisas também molhavam os seus parentes. O cantor vai pro seu lugar e os recém-casados vão para perto dele

e andam em torno da fogueira, enquanto o cantor canta para eles. Antigamente a música dos recém-casados era assim

Eu sei e vou cantar, não sei se vai gravar a minha voz, mas era assim: “Eu quero que vocês amarrem o jabutizinho macho

eu quero que vocês amarrem o jabutizinho macho no lombo, no lombo

Eu quero que vocês amarrem a abelha macho eu quero que vocês amarrem a abelha macho no lombo, no lombo”

Acabou, pronto! Assim eles terminaram

e vão se espalhando pelas casas…

95 Como afirma Lima (2013), mito e rito estão interpenetrados, numa continuidade cíclica e mimética, um reelaborando o outro. Segundo Antonin Artaud (1999, p. 104), os ritos têm o objetivo de colocar a sensibilidade em um estado de percepção mais aprofundada e mais apurada e o retorno aos mitos (poesia apaixonante) é uma grande necessidade do teatro. Por isso, o interessante é observar como os relatos indígenas, a narrativa das experiências vivenciadas na aldeia e as vozes de outros/as pesquisadores/as, dispostas a partir do próximo tópico, intitulado Jogos para Exercitar a Expressão Corporal, se relacionam com este relato de Zacarias Ropkã e vice-versa. De antemão, segue resumidamente o relato de Renato Yahé (2017) sobre o rito Pàrti ou Jàt jõ pῖ, para que se possa conhecer como o ritual personifica e atualiza a mitologia Krahô:

No primeiro dia, é feita uma reunião quando são decididas as medidas da organização da festa (...). Os hôxwa vão para o mato cortar a tora da batata

Jàt jõ pῖ. (...) E todas as mulheres da aldeia irão buscar os alimentos da roça

como: batata doce, inhame, cará, mandioca e etc. A mandioca é para fazer

paparuto servido na confraternização entre os noivados ou recém-casados. E

cada família é responsável pela preparação do paparuto de novos casais, que seria uma oferenda entre as famílias. Essa troca ocorre depois da corrida de tora da batata (...). Durante o dia as atividades culturais realizadas são: corridas de tora, (tronco de buriti), corte de cabelos, pinturas corporais, cantorias nas ruas da aldeia. Durante a noite toda até amanhecer o dia, só tem cantorias no pátio da aldeia. Dessa atividade todos participam os homens, as mulheres e as crianças. (...) Quando amanhece o dia, mais ou menos seis horas, os homens vão buscar a tora da batata. (...) Essa corrida é competida entre dois partidos o Kỳj catêjê e o Harã catêjê. (...) Antes da corrida, é feito um ritual de cerimonial das toras, no qual somente os conhecedores da cantiga podem participar desse momento. Após isso, é liberada a corrida, ou seja, é permitida a largada. O partido que chegar primeiro no pátio da aldeia é considerado o campeão do ano. Essa corrida é muito importante para os Krahô, os jovens se preparam o ano todo para essa competição. (...) Após a chegada das toras, as famílias dos recém-casados começam a trocar

paparutos entre si e somente os pais dos recém-casados que não tiverem

filhos ou são noivos podem trocar o paparuto. Ao entardecer, é realizada cantoria no entorno da aldeia, onde somente as pessoas especialistas nos cânticos da festa da batata podem participar, não sendo permitida a presença de outras pessoas participando desse momento. Dentro desse grupo existe uma pessoa especial que tem a função de arremessar as batatas nos outros. (...) E após esse ritual, no final da tarde, são apresentadas várias atividades culturais em torno do fogo onde os hôxwa se apresentam de forma engraçada, imita as frutas da roça, ou seja, representam simbolicamente os alimentos da roça. Em cada gesto dos hôxwa, são percebidos nos movimentos deles a imitação das plantas. (...) Os pais dos hôxwa preparam as fogueiras enquanto eles se organizam para a apresentação. Eles pintam o corpo e o rosto. Essas pinturas são feitas com pedra branca, especial para essa ocasião. (...) Durante essas apresentações os noivos andam em torno da fogueira esperando que as mães de suas noivas as entreguem para eles. Depois que as noivas são entregues aos noivos, os casais andam em torno da fogueira simbolizando a realização do casamento. Essa fogueira é revezada pelos hôxwa e pelos

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recém-casados. Quando os hôxwa se apresentam, os recém-casados se retiram e quando os hôxwa se retiram os recém-casados retornam. São apresentações muito alegres e trazem muita felicidade para as pessoas. Se tiver alguém triste, logo a tristeza daquela pessoa vai embora. (...) E após apresentação dos hôxwa, os parentes levam a água para dar banho neles e depois é feita a cantoria de caprãn xũm juhkô para os jovens e moças e assim se encerra a festa da batata (YAHÉ, 2017, p. 50-53).

No mito, tudo o que foi plantado já estava maduro, vivo, fazendo a festa. No rito, que acontece na época da colheita, as mulheres vão para a roça buscar os alimentos semeados. No mito, alguém viu a batata realizando o ritual com as plantas cultivadas, aprendeu a maneira de realizá-lo, sua sequência, quem participa e as funções desempenhadas. O ensinamento mítico, passado de geração para geração é vivenciado ano após ano na preparação e durante o ritual.

Trata-se de celebrar o alimento, a vida, a fertilidade das plantas cultivadas. As jàt (batatas-doces), cultivadas pelas parentes maternas dos/as hôxwa (abóbora), são entregues por eles/as aos parxô (croá) e crô (rama) e lançadas nas ihpàr (plantas de crescimento vertical), como o milho, que as desafiam, junto aos/as participantes que acompanham o cortejo, a cantoria da batata, ao longo do krincapê (caminho circular da aldeia). Os/as mẽhĩ personificam as plantas de acordo com o seu nome pessoal. Ao final, as batatas lançadas que caem ao chão são pegas num repente pelas crianças e levadas para suas casas, onde serão transformadas em alimento.

Ao final, terminarei este tópico pelo começo, voltando no tempo, em um movimento cíclico e contínuo, para que se conheça os primeiros habitantes da terra, os demiurgos Pyt e Pytwrỳre, Sol e Lula. Dois compadres de caráter dual e antagônico que segundo a mitologia Krahô provocaram a transformação do mundo (aparecimento dos seres humanos, da menstruação, da morte, do trabalho, dos insetos que picam, das cobras, da aquisição do fogo, etc) (ALBUQUERQUE, 2014b, p. 20).

Enquanto o Sol fazia as coisas boas, o Lua travesso, transgredia, discordava e fazia as coisas ruins. O Sol fez os peixes, os pássaros, a sombra, as folhas, os animais de caça, como a anta, o veado, a paca, a ema, a capivara, a onça pintada e o Lua fez o urubu, a raposa e tudo aquilo que não presta: lacraia, formigão, mosca e muriçoca17. Explica o mẽhĩ Dodanin Alves Pereira (in ALBUQUERQUE 2014b, p. 86) que o Sol foi à roça, escolheu a cabaça mais bonita, jogou na água e falou para ela se transformar numa mulher. Então a cabaça se

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Para aprofundar os estudos sobre as mitologias Krahô, buscar nas referências bibliográficas os livros publicados pelo Projeto Núcleo de Estudo e Pesquisa com Povos Indígenas (NEPPI), vinculado ao Laboratório de Línguas Indígenas (LALI/UFT) e os livros do antropólogo Julio Cezar Melatti.

97 transformou numa mulher muito bonita e levou também uma cabaça com água para a casa do Sol. O Lua reclamou e disse que também queria uma mulher. O Sol pediu para ele ter calma e esperar. O Lua não teve calma e foi até a casa da mulher do Sol e teve relações sexuais com ela. Quando o Sol voltou, viu sua mulher sentada numa folha de palmeira, sangrando muito. Ele ficou triste, mas não disse nada porque era amigo do Lua. A partir daí toda mulher passou a menstruar. No dia seguinte, o Sol foi à roça, escolheu a cabaça mais feia e fez a mulher para o compadre Lua, mesmo sendo muito feia, o Lua ficou com ela.

Segundo Lima (2016, p. 230), a aldeia ancestral, fundada e habitada pelo Sol e Lua, estava localizada no Pé do Céu, lugar onde o espaço e tempo se convergem, de onde parte o dia, a noite e as estações (seca e chuvosa). A imagem cíclica e dinâmica do espaço-tempo é projetada na aldeia circular Krahô e na organização social das metades Catàmjê e Wacmẽjê. Afirma a antropóloga em acordo com Melatti (1978), que todos os seres, sejam pessoas, plantas ou animais, pertencem a uma das metades de acordo com o nome que recebe, sendo essa dualidade estendida à construção da pessoa. Em torno das metades sazonais organiza-se o calendário das atividades rituais, sociais e agrícolas, o Pàrti ou Jàt jõ pĩ, marca essa transição e assim, ciclicamente voltamos ao início deste tópico, para então finalizá-lo, ressaltando que os ritos reatualizam o espaço-tempo dos mitos (poesia apaixonante).

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