Com humor e virulência Rafucko (2014) faz ‘aparição’ durante editorial do Jornal Nacional, invertendo os papeis colocando-se lado a lado com o apresentador William Bonner. O vídeo foi retirado do YouTube em menos de 12 horas após sua veiculação sob alegação de ‘direitos autorais’, quando já contava com 40.000 visualizações. Mas a blogosfera o recuperou e replicou em outras redes. 33
33 O vídeo pautou além dos debates sobre os movimentos sociais, violência e ação dos grupos em Black bloc,
também a própria censura da Rede Globo e a questão dos direitos autorais. Irônico Rafucko (2014) afirma em seu site <http://rafucko.com/> que a Rede Globo dedica “extensas reportagens e editorias para versar sobre a liberdade de expressão”, mas “utiliza sistematicamente imagens de coletivos de mídia independente sem dar
vii) Novalíngua
Rafucko é um ser das duas potências da virtualidade: é ser do hard e e do soft. Ele não é
feedback porque não está restrito às relações transmissivas do input-output mas, sim, à
produção de autorias coletivas, à intervenção direta, à mistura, montagem, mixagem com seu corpo elétrico. O que importa nas audiências não é o talento abundante – porque este talento como em Rafucko é mesmo uma exceção -, mas as forças conectivas, os enxames, as picadas entre (e dentre) as redes. Rafucko produz um outro real, impulsiona outras subjetividades, realizando sujeitos pelo discurso que se entrelaçam com as coisas que ele mesmo Rafucko monta e desmonta. Os processos de subjetivação são descentrados: ocorrem no funcionamento das máquinas de expressão – como a máquina de Rafucko, os blogues, sites, páginas pessoais online e também nos sistemas de percepção. Com a produção dos seus agenciamentos, as Audiências Ativas das guerrilhas maquinam resistência, coletivizam as singularidades e produz uma novalingua, corroendo a linguagem do mainstream.
Não há fatos, mas produções nas ações de Rafucko. Ele traz tudo para a planície. Por isso se coloca ao lado de Bonner. Invade seu espaço. Senta na mesa. E também apresenta virtualmente o Jornal Nacional. Cada ser é o que escreve e/ou que omite. Cada blogue propaga o orgulho de Rafucko – o sentimento de pertencimento. Isto significa aproximar os interesses. Este sentimento é a produção de uma subjetividade que une as diferentes audiências ativas. Realizá-lo é chegar a um estado de arte em que o ser se sente membro de uma coletividade. No caso da blogosfera dos blogueiros Sujos é a inclusão da multidão como pertencente, ser da participação. O desafio é fazer com que a audiencia ativa se sinta pertencente ao lugar da política e sinta também que este lugar lhe pertence para interferir.
Manipular, produzir conexões, interferir, criar redes de relações e sentimentos – eis a arte de Rafucko. O conceito tradicional de mídia como elemento de transmissão está em
créditos ou pedir prévia autorização”. Veja link: <http://rafucko.com/2014/02/18/contra-a-censura-da-rede- globo-em-2014/>. Acesso em: 20 fev.2014.
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corrosão na próprio exercício do sentimento de pertencimento. Não ser mero receptor, está produzindo, isto é o belo da internet. Está produzindo é um “belo” não “biônico”, mas interativo porque trata-se da criação de Rafucko. O sentimento de pertencimento articula o ser-belo através de um magnetismo pessoal que se irradia pelas “simpatias” do carisma e redes, e conexões.
viii) Coletivização do singular
Poucos são como Rafucko para editar com maestria. Mas este não é o problema porque Rafucko é de todos. Então muitos pode realizar uma coisa do agora, retroagindo com paixão, sem um quê para dourar a pílula. Os motivos dos engajamentos são produzidos por desejos impessoais. Rafucko nunca fala dentro de um só texto. Um texto fala dentro de outro texto. E o diz deformando, produzindo o mais profundo paradoxo como Rafukco e Bonner. Revelam- se as “raízes” dos discursos, as personalidades das fontes, os senhores das razões, expondo seus contatos, interesses e pegadas.
Como dispositivo maior, o abalo se dá sobre a linguagem – esta agora desprovida do falso pudor, personificada, virulenta, impregnada de paixões. Com Rafucko, a praxiologia incipiente insinua ser a enunciação de uma nova linguagem mais apegada aos sujeitos que à deontologia da comunicação. A primeira pessoa vem para o centro dos acontecimentos com seus aforismos, ironias, pegadas em forma de drops, textos minúsculos, ou análises densas hibridizadas com uma multiplicidade de recursos linguísticos.
Bonner, o mestre do discurso hegemônico, o narrador, perde território – o poder de produzir opinião – por conjugar tudo ao individual, utilizando o meio social apenas como ambiente, moldura do teatro para as cenas delimitadas. O contrário ocorre com Rafucko: como ser do desequilíbrio, faz sua própria farsa ficar às claras para desfazer o real que repulsa-nos: dar asas a Bonner para fazê-lo não voar. Rafucko com seu jogo de linguagem
detona a terceira pessoa – aquele ser oculto, omitido capciosamente para dizer nas entrelinhas que não existe o ser do seu discurso… No jogo de exposição, a terceira pessoa ou morre ou desaparece ou fica gravemente ferida.
É, isto sim, a matéria prima da cooperação produtiva - como afirma Negri:
A nova organização do trabalho e o próprio novo modo de produção têm por base aquilo que há de mais comum na vida dos homens: a
linguagem. A linguagem é, nessa perspectiva, digamos, o modelo,
mais rarefeito embora mais intenso, de economia externa. E, justamente como ocorre para as economias externas, o comum linguístico será continuamente reproduzido e enriquecido pelo trabalho vivo. (NEGRI, 2003, p. 257).
Este autor assinala que estamos no ponto mais significativo das novas tecnologias informáticas – posto que o da aplicação da engenharia da mente: um saber social geral - um
knowledge! A imposição de novas relações, novos processos, novas culturas produziu também
a protagonização de seres da criação. Uma fúria on-réptil que desliza em veredas elétricas.
ix) Ferrugem nos barcos
O sistema mainstraem tinha uma relativa tranquilidade – ancorado que está na tradição da reprodução de ideologia, do pertencimento e da identidade. Toda sua estrutura fixa e imaterial foi bem consolidada com uma linguagem bem definida, divisão do trabalho específica e auto-explicativa e um abastecimento farto em publicidade. Suas diferenças eram sem maiores percalços para a coisa como um todo. Os abalos ocorriam entre incorporações de seres-parasitas. Nada que o descaracterizasse como cérebro social do stablishiment - até a emergência das redes de redes online.
Um digite se interpôs, abalando o sistema com uma gramática impregnando ferrugem em seus barcos. Uma nova energia resulta deste protagonismo em que o “pequeno” se agiganta diante de um ser golias. Com efeito, esta esfera pode ser caracterizada além do mundo do pensamento, vanguarda da linguagem, íma que se faz coletivo por produzir
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intensidades permanentes. Seu tecimento ocorre por desdobramentos, forças reticulares que se sobrepõem, agregações, parcerias, produzindo um desejo de um mundo por vir. Isto de fato vem ocorrendo em todos as linguagens – um refazimento editorial online de jornais, revistas e TV. A intelectualidade geral não apenas protesta – numa análise crítica da mídia, mas também cria conteúdos, produz corrosões.
§ A blogosfera constrói a toca para tecer a participação. Diria que faz em torno das esferas do ‘grande jornalismo’ um jornalismo “menor”, que no entanto, o corrompe, corrói, desmonta, resistindo aos fluxos instituídos, agenciando máquinas, desejos, ações, conspirando contra o grande castelo. E produz um valor-coletivo: a ação ao mesmo tempo como comunicação e educação. Uma arte não sistêmica, não pré-definida, não bem dita. Escritores malditos de dias não previstos.