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No campo sindical também houve inovação, vinda, sobretudo, dos operários e setores novos da economia que se tinham expandido durante o “milagre”: o de bens de consumo durável e de bens de capital – metalúrgicos. O movimento começou em 1977, com uma campanha por recuperação salarial, e culminou em 1978 e 1979, com grandes greves que se estenderam a outras partes do país. Em 1978, cerca de 300 mil operários entraram em greve; em 1979, acima de 3 milhões, abrangendo as mais diversas categorias profissionais, inclusive trabalhadores rurais. Eram as primeiras greves, desde 1968.
O novo sindicalismo distinguia-se do anterior pelo fato de ser organizado de baixo para cima e pela insistência de manter-se independente do controle do Estado. As decisões finais eram tomadas em grandes assembléias que reuniam às vezes até 150 mil operários, e não por pequenos comitês de dirigentes.
Era também nova a forte presença de sindicatos rurais. Ausentes até 1963, no regime militar eles cresceram transformados em órgãos assistencialistas. O número de sindicatos rurais cresceu rapidamente, a ponto de em 1979 ser praticamente igual o número de trabalhadores sindicalizados rurais e urbanos (5 milhões para cada lado). Como sindicatos assistencialistas, não se podia esperar grande mobilização política de sua parte. Mas a própria natureza violenta dos conflitos de terra e a ação da Igreja Católica por meio de sua Comissão Pastoral da Terra contribuíram para alterar o quadro. Em 1979, houve greves entre os cortadores de cana de Pernambuco e a CONTAG se firmou.
Fora do mundo partidário e sindical, houve também grandes modificações no movimento popular Dentro da Igreja Católica, no espírito da teologia da libertação, em 1975, surgiram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e expandiram-se por todo o país, abrangendo também as áreas rurais. Por volta de 1985, seu número estava em torno de 80 mil. A partir de Medellín (1968), a hierarquia católica moveu-se com firmeza na direção da defesa dos direitos humanos e da oposição ao regime militar. Ela se tornou um baluarte da luta contra a ditadura.
Desde a Segunda metade dos anos 70, houve enorme expansão dos movimentos sociais urbanos, especialmente de moradores e favelados que caracterizavam-se por estarem voltados para problemas concretos da vida cotidiana. Estes movimentos representavam o despertar da consciência de direitos e serviram para a formação de lideranças políticas.
Houve ainda grande expansão de associações de profissionais de classe média, como médicos, professores, engenheiros e funcionários públicos, que juntamente com os sindicatos tornaram-se focos de mobilização profissional e política. O auge da mobilização popular foi a campanha pelas eleições diretas, em 1984. Os comícios transformaram-se em grandes festas cívicas, onde compareciam líderes de partidos políticos, de associações influentes, jogadores de futebol, cantores e artistas.
A retomada da supremacia civil em 1985 se fez sem retrocessos. A constituição de 1988 pode ser considerada a mais liberal e democrática que o País já teve, recebendo por isso a denominação de Constituição Cidadã. Nesta constituição, a garantia dos direitos civis era preocupação central. Em 1989 tivemos a primeira eleição direta para presidente desde 1960. Os direitos políticos adquiriram amplitude nunca antes atingida. No entanto, “a democracia política não resolveu os problemas
econômicos mais sérios, como a desigualdade e o desemprego. Continuam os problemas da área social, sobretudo na educação, nos serviços de saúde e saneamento, e houve agravamento da situação dos direitos civis no que se refere à segurança individual”. (idem: 199)
No que se refere à prática democrática, houve frustrações e avanços claros. Um dos avanços foi o surgimento do Movimento dos Sem terra (MST). De alcance nacional, o MST representa a incorporação à vida política de parcela importante da população, tradicionalmente excluída pela força do latifúndio. Seus métodos, a invasão de terras públicas ou não cultivadas, tangenciam a ilegalidade, mas, tendo em vista a opressão secular de que foram vítimas e a extrema lentidão dos governos em resolver o problema agrário, podem ser considerados legítimos. O MST é o melhor exemplo de um grupo que, utilizando-se do direito de organização, força sua entrada na arena política, contribuindo assim para a democratização do sistema.
Houve frustração da população com a democratização ao perceber que ela não resolveria automaticamente os problemas do dia-a-dia e, sobretudo a partir do terceiro ano do governo Sarney, constatar que as velhas práticas políticas, incluindo a corrupção estavam de volta. Esta frustração retorna a uma tradição nacional, ou seja, procura de um “messias salvador da pátria”, desembocando na eleição de Fernado Collor de Mello, personalidade arrogante, megalomaníaca e sem sustentação política, que participara de um ambicioso esquema de corrupção jamais visto nos altos escalões do governo. O impedimento do mandato presidencial de Collor foi sem dúvida uma vitória cívica importante.
Embora tenha havido alguns avanços tais como redução na taxa de mortalidade infantil, aumento de esperança de vida ao nascer, redução do
analfabetismo e aumento do índice de educação fundamental, em 1997, 32% da população de 15 anos ou mais era ainda formada de analfabetos funcionais, isto é, que tinham menos de quatro anos de escolaridade. No campo da previdência houve a elevação da aposentadoria dos trabalhadores rurais para o piso de um salário mínimo e a introdução da renda mensal vitalícia para idosos e deficientes, embora persista o problema dos benefícios previdenciários, sobretudo nos baixos valores das aposentadorias.
Mas as maiores dificuldades sociais referem-se às grandes desigualdades sociais que, segundo o IPEA, tem crescido no período de 1990 a 1998. A escandalosa desigualdade que concentra nas mãos de poucos a riqueza nacional tem como conseqüência níveis dolorosos de pobreza e miséria. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1997, o Brasil tinha 54% de pobres. Crescendo ou não, o país permanece desigual. O efeito positivo sobre a distribuição de renda trazido pelo fim da inflação alta teve efeito passageiro.
Os direitos civis eliminados pelo regime militar foram recuperados a partir de 1985. No entanto, pode-se dizer que, dos direitos que compõem a cidadania, no Brasil são ainda os civis que apresentam as maiores deficiências em termos de seu conhecimento, extensão e garantias. De acordo com pesquisa realizada na região metropolitana do Rio de Janeiro em 1997, mostrou que 57% dos pesquisados não sabiam mencionar um só direito e só 12% mencionaram algum direito civil e quase a metade achava que era legal a prisão por simples suspeita. “Os dados revelam ainda que educação é o fator que mais bem explica o comportamentos das pessoas no que se refere ao exercício dos direitos civis e políticos. Os mais educados se filiam mais a sindicatos, a órgãos de classe, a partidos políticos”. (idem: 210)