CHAPITRE IV : RESULTATS ET ANALYSE
Section 4. La satisfaction est-elle une variable médiatrice partielle ou totale des effets des
3. Limites et voies de recherche futures
Os modos como se conceitua a língua podem revelar não só as filiações teóricas daqueles que se dedicaram ao assunto, mas também outras implicações nem sempre tão evidentes. Como já dito no capítulo anterior, a língua esteve várias vezes a serviço da governabilidade, numa tentativa de manutenção de Estados-Nacionais. Isso se verifica no trabalho de Fernandes (2010) que afirma que a utilização da noção de língua nacional visa à unificação de territórios cultural e etnicamente desmembrados e à proteção da soberania nacional. Sobre esse tema, temos que as postulações de Fairclough (1989) nos encaminham para o entendimento que uma língua nacional é uma variante linguística espalhada em todos os domínios públicos e que goza de alto status entre a população. A propósito, pode-se considerar que em vários casos, esse espalhamento se dá pela consagração da língua nacional em documentos oficiais como uma constituição.
O que Fairclough (1989) chama de mito da língua nacional acompanhou a emergência da língua como objeto de estudo da Linguística. Cumpre dizer que este era um período em que vigia o paradigma da Ciência Moderna, preocupada com a delimitação de um objeto, a investigação empírica, a observação metódica, a experimentação e, finalmente, a classificação de um fenômeno. Esta preocupação pode ser vista com clareza no trabalho de Saussure (2006, p. 16) que afirma que
[...] se estudarmos a linguagem sob vários aspectos ao mesmo tempo, o objeto da Linguística nos aparecerá como um aglomerado confuso de coisas heteróclitas, sem liame entre si. Quando se procede assim, abre-se a porta a várias ciências – Psicologia, Antropologia, Gramática Normativa, Filologia, etc -, que separamos claramente da Linguística, mas que, por culpa de um método incorreto, poderiam reivindicar a linguagem como um de seus objetos.
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Assim, no intuito de conferir um grau de cientificidade à Linguística afastando-a dessas fragilidades metodológicas, Saussure inicia sua empreitada pela separação entre fala (parole) e língua (langue). A primeira é considerada pelo estudioso a língua em uso, uma manifestação física, individual e sujeita a interferências externas. Por essa razão, a fala e todos os outros elementos da linguagem devem ser subordinados à língua, esta sim, passível de estudo científico e conceituada como um sistema ou código autônomo e autossuficiente. O autor ratifica esse posicionamento afirmando que a língua existe sob a forma de um “dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos” (SAUSSURE, 2006, p. 27).
Todavia, mesmo contemplando a importância dos trabalhos de Saussure no percurso da Linguística, há que se considerar que sua definição de língua como sistema pronto e fechado já não condizia, à época, com a gama de situações sociais de interlocução em que as diversas formas da linguagem – como a língua - se manifestavam e para as quais eram essenciais. Logo, tomando a linguagem como um construto social e a língua como um elemento da linguagem, temos que são as identidades sociais das pessoas e os propósitos sociais das interações que determinam as variações da língua, e não as escolhas individuais dos sujeitos, como defendia o pensador suíço. Portanto, conclui-se que o que contradiz a tese de Saussure é justamente a relação dialética entre língua(gem) e sociedade.
Essa relação dialética é abordada por vários estudiosos da linguagem. Por exemplo, de acordo com Abaurre (2003), a linguagem é um trabalho de sujeitos histórica, social e culturalmente situados, uma atividade através da qual se organizam as experiências desses sujeitos. Nesse âmbito de linguagem como trabalho, encontra-se um conceito de língua como “um sistema estruturado que [...] apresenta constante instabilidade e mutabilidade, características de quaisquer atividades do homem [...]” (ABAURRE, 2003, p. 14).
Nessa mesma linha, Faraco (2003, p. 64) defende que a língua, situada na cena das práticas de linguagem, é uma rede semiótica complexa, “estruturada
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sim, mas necessariamente aberta, fluida, cheia de indeterminação e polissemias, porque é atravessada justamente por nossa condição de seres históricos”.
Também para Fairclough (1989, p. 23, tradução nossa), a língua não pode ser separada do bojo da linguagem. Segundo o autor, os fenômenos sociais são fenômenos linguísticos e a atividade linguística que os permeia “[...] não é meramente um reflexo ou expressão de processos e práticas sociais, é parte desses processos e práticas19”. Nesses termos, a língua é discurso, isto é, uma
forma de prática social.
O autor explica sua ideia defendendo que ver a língua como discurso ou prática social implica num compromisso não só com a análise e interpretação de textos, mas também com a interação entre textos, além das condições sociais, atuais e remotas, a que essa interação certamente respeita. Em suma, é preciso estar atento à “[...] relação entre textos, interações e contextos20”
(FAIRCLOUGH, 1989, p. 26, tradução nossa).
Geraldi (2003, p. 78) retoma a noção de trabalho ao defender que a língua é fruto do trabalho social e histórico de sujeitos de uma dada comunidade. Para o autor,
[...] a língua enquanto esse produto de trabalho social, enquanto fenômeno sociológico e histórico, está sempre sendo retomada pela comunidade de falantes. E ao retomar, retoma aquilo que está estabilizado e que se desestabiliza na concretude do discurso, nos processos interativos de uso dessa língua.
Pode-se dizer, por fim, que na reunião desses trabalhos que se afastam da ideia de acabamento é onde está a concepção de língua que interessa a esta tese. Aqui, tem-se a língua como resultado de um trabalho sócio histórico, uma construção que conta com relativa estabilidade, mas que ao mesmo tempo é aberta, fluida e inacabada.
19 “[…] is note merely a reflection or expression of social processes and practices, it is part of
those social processes and practices” (FAIRCLOUGH, 1989, p. 23).
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É também na perspectiva de construção sócio histórica que se apresenta o conceito cultura desta pesquisa, o qual é assunto na próxima seção.