Através desse estudo, buscou-se analisar a divisão sexual do trabalho, partindo de um esforço teórico, no sentido de desvendar os aspectos que marcam a mescla de novas e antigas formas de organização do trabalho e como se dá no seu interior o desenvolvimento do trabalho feminino.
Tendo como suporte a literatura que aborda as questões de gênero e do trabalho, em autores como Marx, Hirata, Beauvoir, Antunes entre outros, buscamos uma apreensão crítica do nosso objeto, respaldadas numa perspectiva de totalidade. Ou seja, no âmbito da realidade concreta do modo de produção capitalista e das contradições de classe que o movem - o que implica em considerar o aspecto intraclasse e interclasse – buscamos analisar a inserção de homens e mulheres no mercado de trabalho, considerando as particularidades da divisão sexual do trabalho. Analisar o seu aspecto intraclasse significa dizer que a classe trabalhadora - ou o seu oposto, a classe burguesa - não se constitui em blocos monolíticos do ponto de vista de gênero, ou seja, homens e mulheres trabalhadores/as pertencem a mesma classe, porém as relações que se dão entre eles, possuem suas especificidades que não podem ser entendidas somente, a partir de sua condição de classe, podendo-se incorrer, se assim age-se, numa redução sociológica. Assim, buscou-se abordar o gênero no âmbito da natureza das contradições de classes e isto se constituiu entre uns dos principais esforços teóricos no desenvolvimento desse trabalho.
Partindo desta postura teórico-metodológica, nossa pesquisa, mediada pelo campo dos estudos de gênero e do trabalho, ao ser realizada, empiricamente, em uma rede de fast food, na cidade de Natal – o Restfood - buscou um avanço no nível da compreensão da realidade dos processos de trabalho, em geral, e da situação do emprego feminino dentro do âmbito dos fast food.
A esse respeito, o estudo demonstrou que as novas formas de organização da produção, implicando tanto no uso de novas tecnologias físicas e organizacionais, quanto nas conquistas femininas na inserção do mercado de trabalho, estão longe de garantir, no Restfood, melhores condições de trabalho, seja para homens ou mulheres. Contudo, apesar de constatação de exploração
constante e condições de trabalho precárias para ambos os sexos, constatou-se que, especificamente para as mulheres, restringe-se a ascensão funcional mantendo-as em funções subalternas na hierarquia da produção, em relação aos homens.
Essa situação de inferioridade da mulher trabalhadora da rede de fast food
Restfood nas funções estabelecidas pela empresa foi relatada no discurso dos
segmentos entrevistados na nossa pesquisa.
A ausência de mulheres em setores como a cozinha e a produção de alimentos - existem 2 mulheres na produção, mas seu trabalho se restringe ao corte das verduras - são atribuídas a “ausência de força física”, a não adaptabilidade das mulheres ao calor existente na cozinha e a falta de agilidade para esse tipo de trabalho. O cuidado com os filhos e os afazeres domésticos, têm sido partilhados, no caso dos trabalhadores que possuem união estável, mas quando questionados se essa divisão seria modificada em função de seu desejo, eles – os homens - afirmaram que gostariam que sua esposa se encarregasse dessas funções, que são “femininas”. A cônjuge, nos dois casos, abandonou o trabalho após o nascimento dos filhos, devido as responsabilidades que assumem na divisão sexual do trabalho.
Confirmou-se, portanto, nesse estudo o que a literatura especializada já dizia a respeito, ou seja, além da ainda persistente situação de precarização do trabalho para a classe trabalhadora em geral, no bojo do paradigma flexível de acumulação de capital, há, de forma específica, a precarização, exploração e dominação das mulheres, através da sua inserção em funções diferenciadas no mercado de trabalho, na permanência em funções subalternas e na continuação da dominação no âmbito doméstico, através da dupla (ou tripla) jornada de trabalho. Os trabalhadores homens, em sua maioria, afirmam que as mulheres poderiam, sem grandes dificuldades, desenvolver funções na cozinha e que a divisão sexual do trabalho existente no Restfood é estabelecida pela administração da empresa. Pode- se inferir que esse fator tem sua origem na cultura patriarcal e nas relações de poder e de controle da produção pelo capital que dita como se dá a divisão sexual do trabalho, segundo sua lógica de acumulação.
Dessa forma, com base na literatura utilizada como referência para o nosso estudo, constatamos que o trabalho feminino têm se mantido na situação de
subalternidade, caracterizado pelos crescentes índices de desemprego e/ou subemprego, registrando um acentuado grau de precarização nas condições da inserção e permanência da mulher no mercado de trabalho.
Neste sentido, esta pesquisa possibilitou-nos aprofundar estudos na área de gênero, trabalho e fast food. Apontamos no sentido de que gênero deve ser compreendido enquanto categoria social, fora da perspectiva essencialista, não atrelada a seu sentido biológico, restrita a divisão do feminino/masculino, mas sim, compreender gênero na sua dimensão relacional mediado pelas condições de sexo, raça/etnia, idade, classe, assim como considerando suas dimensões econômicas, políticas e culturais.
Durante o transcurso de nossa pesquisa, alguns desafios foram colocados tanto no campo teórico quanto em sua fase empírica.
No que diz respeito as bases teóricas e no que se refere ao estudo da categoria gênero, percebeu-se que os estudos existentes dentro dessa temática concentram seu foco, de forma mais acentuada no sujeito, com recortes mais culturalistas e menos centrados na dialética e totalidade, a qual os sujeitos estão remetidos. Há, portanto, que se buscar a compreensão interrelacional, através de estudos como o de HIRATA (2002), SAFFIOTI (1976), KERGOAT (2003), CASTRO (1997), MORAES (1990) e ARAÚJO (2007), WHITAKER (1989), BARBIERI, (1993) e BEAUVOIR (1949). Mesmo que algumas destas autoras não assumam a perspectiva crítica-dialética, foi-nos possível, partir de suas considerações e contribuições e construir inferências acerca das relações de gênero numa perspectiva de totalidade.
Ainda no campo teórico, constituiu-se um desafio construir as bases conceituais para o desenvolvimento deste estudo no campo dos fast foods – área pouco estudada no âmbito do Serviço Social. Assim, serviu-nos fundamentalmente de base, os estudos de FONTENELLE (2002) e ORTIGOZA (1997).
O segundo desafio posto a nossa pesquisa, foi em relação a pesquisa de campo. Esse desafio diz respeito à conjuntura no âmbito do Restfood. Já que se trata de uma empresa privada, qualquer informação relacionada a seu funcionamento e relações de trabalho que se desenvolvem dentro da empresa, podem comprometer, segundo informações de seus responsáveis, a “imagem” da
rede. Foi um longo caminho a ser percorrido até a realização das entrevistas, que por fim foram colhidas. Apesar da concordância com as entrevistas por parte dos/as responsáveis na rede, ao iniciarmos a coleta, surgiram desconfianças e temores e os funcionários/as que concordaram em colaborar com as entrevistas tiveram receio de perder seus empregos. A nossa observação foi motivo de enorme apreensão por parte da empresa por acreditarem se tratar de algum tipo de fiscalização. Contudo, ao concluirmos a coleta, nenhum deles/as foi demitido/as por causa das informações prestadas, até porque asseguramos o anonimato tanto dos/as funcionários/as como da empresa na qual se deu a pesquisa.
Devemos destacar que através da nossa pesquisa pode-se concluir que os trabalhadores e trabalhadoras do ramo de fast food estão submetidos a exaustivos horários de trabalho, que não respeitam as leis trabalhistas e que ainda permanecem formas “compensatórias” para os funcionários/as que melhor se adaptarem a exploração. Pode-se constatar também, que existe no âmbito do
Restfood a presença ainda muito forte da divisão sexual do trabalho que subjuga as
mulheres, em funções consideradas inferiores. Permanece ainda, a separação de papéis “femininos” e “masculinos” construídos pela sociedade, que leva as mulheres a serem consideradas mais eficientes para trabalhos que exijam trato com os outros, carisma e simpatia como no caso do atendimento e na administração, como forma de perpetuar papéis desenvolvidos historicamente na esfera reprodutiva, como administradoras do lar.
Os homens são considerados mais aptos a trabalhos como na gerência, na produção de alimentos e na cozinha – estes últimos, embora tenha sido historicamente definido como feminino, passou a ganhar status social com a entrada dos homens nesse mercado, adquirindo status de trabalho profissional.
A impossibilidade de ascensão a cargos superiores – fato que só aflige as mulheres dentro do Restfood - se caracterizou como um dos pontos mais graves no que se refere a subjugação feminina. Existem garçonetes há 9 (nove) anos desenvolvendo a mesma função, enquanto alguns homens em média, levam de 4 (quatro) a 8 (oito) meses para ascender de função, mesmo que isso em muitos casos, não tenha se refletido em aumento de salário. Fica claro, que a inserção feminina no Restfood, ou se dá em cargos que exigem maior escolaridade, como no
caso, do marketing e administração ou se inserem no setor de atendimento ao cliente, como garçonetes e caixas, nos quais não existe a possibilidade de ascensão.
Por fim, há que se desatar a permanência da exploração de trabalhadores e trabalhadoras do ramo de fast food, mas também se faz preciso analisar a dimensão de gênero, relacionando-a com a natureza da contradição de classe postas pelo capitalismo contemporâneo, nas quais o gênero está inserido.
Por fim, este estudo, apesar das dificuldades encontradas, nos instigou e nos despertou para a necessidade de novos estudos sobre outras redes de fast food, a fim de constatar as condições em que se dá a inserção de homens e mulheres dentro de um âmbito mais abrangente, pesquisa que pode ter um caráter comparativo, com novos sujeitos sociais, dentro de um segmento de trabalhadores/as compreendidos não dentro de uma só empresa, mas no interior do ramo de serviços, mais especificamente, nas grandes redes de fast food encontradas no Brasil. Acreditamos que um estudo mais abrangente possa nos revelar as duras condições de vida e trabalho de homens e mulheres inseridos na engrenagem de produzir alimentos rápidos, bem como nos fará conhecer melhor a divisão sexual do trabalho persistente no mundo capitalista contemporâneo.
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