É inegável o desconforto que a teoria da evolução darwiniana causa nos meios religiosos, especialmente por colocar em cheque a doutrina de que tudo foi criado por Deus, do jeito em que as coisas estão, no presente. Isto não quer dizer, entretanto, que a teoria deva ser rejeitada como sem qualquer valia para o presente estudo. Para isso, é conveniente simplesmente deixar de lado, por um momento, as argumentações cosmogônicas próprias da concepção judaico-cristã, bem como resistir à tentação de refutar a idéia de que a vida iniciou- se acidentalmente, como a teoria da evolução defende.
Os estudos evolucionistas sobre altruísmo, apresentados neste capítulo, utilizam-se de uma linguagem metafórica. Esta comporta uma bifurcação que conduz a duas direções, e que não pode escapar de um olhar mais atento. De um lado, são abordados organismos que lutam pela existência, seguindo adaptações designadas para que ocorra seu sucesso evolutivo. De outro lado, os estudiosos evolucionistas argumentam que os processos evolutivos são cegos e que não têm intencionalidade ou previsão. É esta linguagem metafórica da motivação que permite a representação dos genes de modo ambíguo, como agentes da ação evolutiva, ao mesmo tempo em que são os mecanismos pelos quais os organismos agem. Por isso, o que parece ser altruísta é, na verdade, comportamento egoísta, quando a ênfase no organismo individual é transferida para o gene individual. O que parece como auto-sacrifício, comportamento para o bem de organismos que são alvo de uma ação altruísta, na realidade seria resultado de auto-interesse, comportamento para o bem do gene.
Os desdobramentos das explicações evolucionistas, sócio-biológicas, para os comportamentos altruístas não dão conta, contudo, das variações que costumam ocorrer nos comportamentos humanos, em geral. Por exemplo, a preferência pelos parentes não elimina a liberdade humana. O fato de compartilhar genes com os parentes consangüíneos não significa que as pessoas amarão automaticamente seus familiares e que tomarão suas dores para assegurar sua segurança e bem-estar. Nos dias atuais, desrespeitando a seleção por parentesco, quantas não são as famílias biológicas que desprezam seus membros que tenham contraído o vírus HIV? Embora haja fortes vínculos inter-pessoais, nas famílias, a experiência comum fornece uma enorme gama de reações afetivas para com os parentes, que vão desde as mais devotadas e íntimas, passam pela indiferença, às vezes, e podem chegar àquelas marcadas mesmo pelo ódio. Uma filha ou uma irmã que tenham sido vítimas de abuso psicológico ou físico podem não vir a desenvolver amor e cuidado para com seu pai ou irmão, só porque
estes compartilham um percentual razoável de cópias de seus genes. Sem mencionar que o apego afetivo entre pais adotivos e seus filhos costumam ser tradução de que o amor, em suas formas mais intensas, não reflete obrigatoriamente uma ligação genética.
Em estudo realizado por Dixon e Abbey (2000, pp.407-411), os pesquisadores investigaram os preconceitos e dificuldades que dois doadores de rins para transplante sofreram, no Canadá, da parte do pessoal do hospital em que os transplantes ocorreriam. Nenhum dos dois doadores (um homem e uma mulher; um é membro de uma igreja cristã protestante e o outro membro de uma igreja católica) tinha uma relação biológica ou conexão emocional mais próxima com os recebedores. Sua justificativa para o gesto altruísta foi baseada em valores religiosos. A religião foi a moldura pela qual a idéia de fazer a doação foi concebida e abrigada. Contudo, os clínicos e demais profissionais hospitalares demonstraram pouca sensibilidade ao rotular os doadores como casos patológicos de religiosidade. Para aqueles profissionais de saúde, a idéia de motivação religiosa para doação de órgãos inter- vivos é inconcebível diante da predominância de relações de parentesco entre doadores e beneficiários, em transplantes, quando a doação não ocorre a partir de pessoas cuja morte cerebral tenha sido decretada.
Os estudos evolucionistas, contudo, encorajam a psicologia da religião e da pastoral a admitir que o conflito nas relações humanas ainda persiste, devido, segundo a explicação dos primeiros, à diversidade genética de interesses. Se, por um lado, isso aparece como um problema, por outro sublinha que as pessoas tendem a amar alguns mais do que outros, dando atenção especial aos parentes mais próximos. No reconhecimento da fraternidade cristã, o altruísmo é exaltado não mais em função da consangüineidade, mas em função da fé compartilhada. O texto bíblico já exortava a que “no que depender de vós, façais o bem a todos, especialmente aos da família da fé”. A natureza pode ser, portanto, aperfeiçoada pela graça, revertendo o sistema de prioridade para com os que estão mais próximos, em termos genéticos, a fim de que a solidariedade e o altruísmo alcancem também aos que estão mais distantes.
A proximidade da definição de altruísmo com o linguajar religioso é encontrada em conceitos como o de auto-sacrifício, empatia, resgate, ações nobres e falta de expectativa de ganhos externos pelo agente. Não se pode desprezar, tampouco, o fato de que em muitos grupos religiosos há a formação de relacionamentos em muito semelhantes aos familiares. Não deve ser por acaso que, nas igrejas, os membros costumam se referir uns aos outros usando termos próprios das relações de família, tais como irmão e irmã. Na Igreja Católica
Romana, a superiora das ordens religiosas é chamada de “madre”, enquanto o sacerdote é tratado por “padre”, palavras que mantiveram, na língua portuguesa, a forma espanhola para “mãe” e “pai”.
Talvez o maior desafio para a Psicologia que estuda as questões morais, atualmente, seja o de construir um sistema teórico que dê conta satisfatoriamente de incorporar razão e emoção, com atenção maior à discussão sobre valores éticos. Afinal, devido à capacidade de reflexão, os seres humanos podem encontrar nos valores importante orientação para sua ação. Tomando-se o altruísmo como objeto de estudo, verifica-se que ele trouxe para o campo da psicologia do desenvolvimento moral elementos como afetividade, empatia, generosidade, dentre outros. Esses elementos são relevantes para a compreensão do outro e constituem-se como fundamentos para que ocorra o desenvolvimento moral e efetiva ação social. Contudo, nem sempre uma maior compreensão do outro vai resultar em comportamento altruísta. Este só ocorrerá se estiver em correspondência aos valores efetivamente abraçados pela pessoa, já que uma maior habilidade em perceber sentimentos e necessidades dos outros pode tanto resultar em ação altruísta, como pode conduzir à manipulação do outro para alcançar objetivos egoístas do agente. A Psicologia Pastoral pode, então, auxiliar no propósito apresentado no início deste parágrafo, integrando cognição, afetos e volição, para que nas atividades próprias das religiões os valores defendidos e ensinados abracem ideais correspondentes ao mais alto respeito pelo ser humano e pelo planeta.
O cristianismo lida com idéias com amor ao próximo, para citar um conceito positivo e diretamente relacionado ao tema do altruísmo, na religião, mas também com alívio de sentimento de culpa por erros cometidos anteriormente, além da busca de admiração por indivíduo que é uma boa pessoa. Além disso, há uma certa expectativa social de que pastores apresentem comportamentos altruístas, que levem o outro em consideração, ainda que o façam às vezes em função de seu trabalho. Exatamente por este trabalho se associar à idéia de ajuda prestada regularmente, só quando alguma ação fora de planejamento ocorre da parte do pastor é que seu altruísmo é reconhecido, sem que ele mesmo busque louvor ou admiração por sua atitude. Por exemplo, quando vai a um hospital, durante a madrugada, para atender pastoralmente a alguma pessoa de sua igreja que tenha sido internada, por doença súbita ou em decorrência de algum acidente. Para que a ação altruísta ocorra, o senso de que sua humanidade é compartilhada com outros parece ser suficiente para ele. Sua perspectiva é de que todo ser humano está conectado aos outros por meio de sua humanidade em comum, na qual cada indivíduo está ligado aos outros e ao mundo no qual todos os seres viventes
merecem tratamento humano pelo simples fato de estarem vivos. Não se trata de uma união mística de si mesmo com o outro, mas de um simples e profundo reconhecimento de que todos partilham certas características, inclusive a vulnerabilidade, em alguns momentos, e a capacidade de socorrer, em outros.
Tanto dos estudos evolucionistas como do que pode ser classificado aqui como “psicologia do altruísmo”, fora do campo da psicanálise, permanece o sentido de que o altruísmo pode ser desenvolvido pela espécie humana e pelo indivíduo. O que deve mudar, a partir da proposta de Piaget e Kohlberg, é a pretensão de líderes, sejam eles políticos, educacionais, religiosos e outros, de incutir a moral, em geral, e o altruísmo, em particular, nas pessoas, como algo que vem de fora para dentro, sob a chancela da autoridade e clamando pela obediência, mesmo que seja a um mandamento bíblico. Altruísmo pode ser aprendido, principalmente a partir do conceito de responsabilidade, como capacidade da pessoa de
responder pelos seus atos, em um dado contexto histórico e social. Se o mundo não se divide
entre altruístas e não-altruístas, ainda assim é relevante reconhecer que o altruísmo existe em potencial. Há grande concorrência para se compreender que os grupos culturais da humanidade podem ter criado comportamentos sociais únicos para incentivar ações altruístas. Esta propensão foi, enfim, cultivada, sem que tenha sido colada obrigatoriamente aos órgãos humanos encarregados pela vida mental.
CAPÍTULO 4 – ALTRUÍSMO E AUTO-IMAGEM DE PASTORES E PASTORAS METODISTAS – ANÁLISE DE DADOS COLETADOS NA PESQUISA DE CAMPO
4.1APRESENTAÇÃO
O ser humano atua no mundo relacionando-se com ele, interpretando-o a partir de suas percepções e organizando sua ação tomando como base aquela interpretação. Por isso, é corrente a afirmação de que ele deve ser sujeito da história e não um mero objeto que reage unicamente aos estímulos externos. Não se quer dizer com isso que suas interpretações estejam sempre corretas, mas que a construção de sua ação se dá freqüentemente em função do que ele percebe e planeja, de como toma conhecimento do mundo ou interpreta a ação do outro (Nóbrega, 2000, p. 205). Sua identidade se dá na conjugação das forças internas (sua vontade) e externas (meio social) de sua ação. O indivíduo pode tomar ciência, portanto, de que está dividido entre o que ele julga que é e o que os outros julgam que ele é. O mundo de sua percepção não é apenas o seu mundo, mas também o mundo de seu encontro com os outros e seus mundos individuais.
Assim é que cada ser humano constrói para si uma imagem que considera que o representa, o que resulta que, naquela imagem, ele se identifica e se confunde. Sua imagem move-se entre o que parece e o que o indivíduo pensa que é. Esta imagem comporta elementos cognitivos, mas também afetivos, relacionando-se com os valores da cultura e com a constituição anatômico-fisiológica do corpo em que está sediada. Em sua história de vida, o indivíduo constrói uma consciência de si mesmo, nas relações com os mundos objetivo e subjetivo em que vive. A auto-imagem se encontra, portanto, naquela consciência de si que a psicanálise argumentou ser imperfeita, por não ser totalmente racional e sofrer distorções operadas pelo desejo, pelos afetos e pelos conteúdos inconscientes acumulados ao longo da existência da pessoa.
No presente trabalho, não se está fazendo juízo de valor da imagem que pastores e pastoras metodistas fazem acerca deles mesmos. A expressão “auto-imagem” aqui empregada serve para indicar que a pesquisa foi desenvolvida com base nas respostas de múltipla escolha oferecidas às cinco situações apresentadas no questionário e nas justificativas dadas às escolhas realizadas pelos respondentes. Ou seja, não foram realizadas sessões de observação que buscassem encontrar correspondência entre o que os sujeitos declararam como seu juízo
acerca do que deveria ser feito, em cada uma das situações hipotéticas, e os seus comportamentos efetivamente apresentados. Daí o recurso à expressão “auto-imagem”, significando um exercício de introspecção pelos respondentes para buscar e justificar o que seria o comportamento entendido como mais apropriado para cada situação. O que se tem com a pesquisa de campo realizada para o presente estudo, portanto, não são escores objetivos de altruísmo obtidos pelos sujeitos por meio de uma escala psicométrica. O que se tem são indicações de como os componentes da amostra abordada se percebem, no que se refere a comportamentos que visam mais ao bem-estar do outro do que ao bem-estar de si mesmo. Os dados obtidos são apresentados e discutidos a seguir.