3.4 Analyse limite pour les structures ma¸ conn´ ees
3.4.5 Limitations de l’analyse limite et calcul ` a la rupture
Turato (2005) concebe a fenomenologia como o paradigma mais influente dos métodos qualitativos de pesquisa e ressalta que, no método qualitativo, o interesse do pesquisador se volta para a busca do significado das coisas porque este tem um papel organizador na existência humana. Van den Berg (1994) corrobora com tal perspectiva e afirma que percebemos o significado que as coisas têm para nós: “se não vemos o significado não vemos coisa alguma” (p. 37). Tal afirmação confere ao significado um lugar de destaque na constituição do ser sujeito e, por isso, é central no processo de nossa investigação. Binswanger (citado por Augras, 1981) também concorda com esta idéia ao afirmar que percebemos não os fatos em si mesmos, mas sim os seus significados.
Ao discutir a especificidade da pesquisa em ciências humanas, Amatuzzi (2001) afirma que a relação que acontece em uma situação de pesquisa em ciências humanas é do tipo sujeito-sujeito, ou ainda, a objetividade surge a partir de uma relação intersubjetiva.
Assim, ao escutar o meu sujeito pesquisado, percebo-o como alguém que detém o saber acerca do fenômeno que estou pesquisando, ou ainda, o depressivo, melhor do que ninguém, sabe como é sua depressão e o que significa vivenciar essa existência nos dias atuais. Com isso, há uma grande diferença de postura do pesquisador, pois em nenhum momento estou avaliando-o, mas sim aprendendo um pouco mais sobre o fenômeno da depressão com quem a vivencia.
Ainda realizando a distinção entre ciências naturais e humanas, o autor descreve que o mundo das ciências humanas não é o mundo em si, mas o mundo tal como experienciado pelo homem, e, portanto, carregado de significados. Mundo, neste sentido, é natureza com os significados humanos e é este o objetivo da pesquisa em ciências humanas: compreender o mundo vivido (significados) do colaborador da pesquisa em relação a alguma problemática.
Amatuzzi (2001) afirma que uma das coisas que caracterizam uma pesquisa fenomenológica é a importância dada ao vivido. O autor define o vivido como “nossa reação interior imediata àquilo que nos acontece, antes mesmo que tenhamos refletido ou elaborado conceitos”. (Amatuzzi, 2001, p. 53). Refere-se à experiência imediata, a como nos sentimos e esta experiência está no plano do significado de alguma problemática trazida pelo pesquisador. Dutra (2000) entende experiência como aquilo que foi ou está sendo experimentado e vivido pela pessoa, ou seja, que faz referência ao mundo vivido, ao momento existencial da pessoa.
Nosso foco de interesse é como alguma questão é experienciada pelo sujeito e concordamos quando Van den Berg (1994) afirma que “o que relatamos nunca é completamente correto”, ou ainda, não buscamos saber os fatos tal como aconteceram ou como acontecem, mas como é experienciado, lembrado e narrado pelo sujeito. Merleau-
Ponty (1945/1994) também traz sua contribuição para o assunto ao atestar que: “não é preciso perguntar-se se nós percebemos verdadeiramente um mundo, é preciso dizer, ao contrário: o mundo é aquilo que nós percebemos” (p. 13).
A perspectiva adotada neste estudo é inspirada na fenomenologia hermenêutica, idealizada por Martin Heidegger. A proposta heideggeriana busca desvelar os sentidos que não estão imediatamente manifestos, buscando ir além do que é diretamente dado. O que está dado de forma imediata é apenas uma pista ou um sinal para o que não está explicitamente dado. Assim, o objetivo da fenomenologia hermenêutica é desvelar sentidos ocultos, que estão, na maioria das vezes, para além do alcance imediato.
Esta ideia se torna mais clara quando analisamos a definição que Heidegger atribui ao conceito de fenômeno em “Ser e Tempo”. Heidegger (1927/ 2009a) estabelece uma relação entre este termo e o conceito de manifestação. De forma literal, o termo fenômeno significa o que se mostra. Tal definição pode causar confusão, na medida em que o conceito de manifestação também remete a um mostrar-se.
Porém, Heidegger (1927/ 2009a) estabelece uma diferença entre os dois termos, ao compreender fenômeno em seu sentido privilegiado, ou seja, como o que não se mostra de início e na maior parte das vezes, permanecendo velado diante das manifestações e dos sintomas. Assim, de início e na maior parte das vezes o fenômeno, ou seja, o sentido não se encontra dado, mas se mantém encoberto, ou se mostra apenas de forma distorcida. O filósofo, apesar de demarcar diferenças no modo de mostrar-se, defende que o fenômeno pertence de forma essencial à manifestação e ao sintoma, de forma a constituir o seu sentido.
Fenômeno, no sentido fenomenológico, é definido, assim, como “o que se mostra, o ser dos entes, o seu sentido, suas modificações e derivados” (Heidegger, 1927/ 2009a, p. 75). Tal citação ressalta, novamente, que este mostrar-se não é um mostrar qualquer ou uma
manifestação. Neste momento, também se torna necessário esclarecermos que, diferente de outras abordagens teóricas, que ignoram as manifestações a favor do que “se esconde”, na fenomenologia, consideramos os dois aspectos como constitutivos do homem, a saber, a manifestação e o fenômeno, de forma que o fenômeno pode encontrar-se velado.
O filósofo afirma que ao nos referirmos à manifestação de uma doença, esta se refere a um indício de algo que não se mostra totalmente, ou seja, não significa um mostrar-se, como imaginamos de início, mas um anunciar de algo que não se mostra por meio de algo que se mostra. Assim, no campo da psicopatologia, os sintomas, por exemplo, são as manifestações, eles mostram algo, mas não o sentido, ou seja, o fenômeno. Heidegger explica: “fenômeno nunca são manifestações, toda manifestação está remetida a um fenômeno” (Heidegger, 1927/ 2009a, p. 69).
Com isso, percebemos a intrínseca relação existente entre a manifestação e o fenômeno, na medida em que o fenômeno constitui a manifestação. Tal associação se mostra fecunda para a nossa reflexão atual a respeito dos fenômenos psicopatológicos, devido ao predomínio do sintoma em detrimento do fenômeno, quando, na verdade, ambos são constitutivos e co-originários. Metodologicamente, o pensador se utiliza da interpretação e adverte que a idéia de apreender o originário e intuitivo do fenômeno, não quer dizer que seja uma visão casual e impensada.
Em “Ser e Tempo”, Heidegger já afirma que o sentido do Dasein, a sua “essência”, está em sua existência, ou seja, nos modos possíveis de ser, no seu poder-ser, na sua abertura ao mundo e aos entes. A analítica do Dasein, segundo Heidegger (2009b), tem como objetivo questionar o homem e seu poder existir no mundo contemporâneo. Com isso, em uma investigação fenomenológica, buscamos compreender como se encontra a liberdade do
perguntamos como se encontra o poder existir de pessoas em depressão na contemporaneidade.
Heidegger (2009b) compreende o Dasein como ser-no-mundo, como relação com o que está presente: “a relação, com algo ou alguém, na qual eu estou, sou eu” (p. 222). Tal relação significa um corresponder, ou seja, um responder a algo. Assim, “comportamento” é definido como a maneira como a pessoa corresponde com o que vem de encontro, aos outros entes. Dessa forma, em toda investigação, consideramos o existir humano como a forma que a pessoa responde às interpelações do mundo. Critelli (2006) reitera esta ideia ao considerar que a tarefa de se pensar a possibilidade de uma metodologia fenomenológica de conhecimento está intimamente associada a uma reflexão sobre o modo humano de ser-no- mundo. Tenório (2003) considera que a adequada descrição fenomenológica do mundo particular, singular e concreto do sujeito e de sua situação atual tem que apoiar-se numa aproximação que procure apreendê-la em sua totalidade.
Amatuzzi (2001) estabelece uma estreita relação entre o campo da pesquisa fenomenológica e o da clínica, afirmando não haver diferenças essenciais entre os dois campos, na medida em que a aproximação do vivido desencadeia mudanças nos envolvidos. Porém, considero importante estabelecermos as peculiaridades e diferenças existentes entre os dois contextos, apesar de também concordar com o envolvimento que acontece entre as partes nos dois momentos e na sua conseqüente modificação de atitudes. Na clínica não há uma questão específica a ser discutida e introduzida pelo psicoterapeuta, diferente da situação de pesquisa, onde o pesquisador possui uma questão de pesquisa bem definida e busca compreendê-la melhor. A diferença também acontece em relação à continuidade dos encontros: na psicoterapia, há mais tempo para o mundo vivido do paciente ser acessado, significado e re-significado, o que não ocorre na pesquisa, em que a relação que o pesquisador estabelece com o participante é pontual e restrita a alguns encontros.