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Lilienfeld: qu’est-ce que la psychopathie et qu’est-ce qu’elle n’est pas?

Chapitre I Recension des écrits

1.4. La personnalité psychopathique

1.4.6. Lilienfeld: qu’est-ce que la psychopathie et qu’est-ce qu’elle n’est pas?

A maior parte dos jovens pesquisados relatou com precisão as suas histórias de vida até chegarem ao assentamento. Reconstruíram suas trajetórias sem titubear, trazendo para o presente situações vivenciadas, lembrando os momentos difíceis que atravessaram, acompanhando seus pais em busca de um sentido para suas vidas. Tais narrativas são formas de criar um vínculo identitário, estabelecer uma raiz para demarcar não apenas um “território”, mas seus espaços no mundo, semelhantes histórias, que escrevem juntos.

As famílias instaladas no assentamento são oriundas de localidades circunvizinhas do meio rural ou de bairros periféricos da cidade de Campina Grande. De uma forma ou de outra, migraram para o assentamento em busca de um lote de terra.

Para a maioria, a notícia de desapropriação da terra na citada localidade foi recebida através da mídia (rádio e televisão), o que os motivou (seus pais) a realizar inscrição junto ao Incra. Outros vieram para o local através de informações de parentes e por último por convites de lideranças já articuladas ao MST, que buscavam arregimentar pessoas para a conquista da terra.

Walter, 18 anos, embora muito pequeno na época da ocupação, relata como o processo aconteceu:

Meu pai trabalhava sempre na agricultura, aí passou um senhor que vinha para cá , lá de Alagoa Nova. Lá no logradouro está surgindo umas terras, o governo está dando as terras ao povo, ele sabia onde era a fazenda porque

morava em Boa vista (Entrevista realizada em 26 de Outubro de 2007). Para Jandyra, 28 anos, a articulação ocorreu de forma diferente;

Eu conheço Lito há muitos anos,a gente morava na caluête, aí Lito sabia que minha mãe gostava de criar, plantar, aí chamou ela para cá, aí ela veio primeiro, ajeitou o canto dela e depois foi me buscar. Eu vim, ajeitei um canto para mim, um barraco (Entrevista realizada no dia 27 de Outubro de 2007).

Já para a família de Tibério, 17 anos, as dificuldades não foram tão grandes tendo em vista que já moravam na localidade antes da mesma se transformar em assentamento.

115 A busca incessante em prol de um local de moradia já foi experienciada pelos jovens em outras situações, seja no contexto rural seja no urbano. Muitas dessas experiências não lograram o êxito desejado.

Joaquim, 16 anos, lembra que morou em alguns locais e teve que sair porque foram despejados. Mesmo assim expressa que não queria vir morar no assentamento. “A gente morava na catirina e foi despejado e foi para o morro do urubú, aí chamaram minha mãe pra cá, mas eu não queria vir não”( Entrevista realizada em 10 de Novembro de 2007).

Já Wilson, 20 anos , ressalta que a família preferia o meio rural para morar tendo em vista o índice de violência existente na zona urbana.

A gente morava no Santo Izidro, depois veio para Bodocongó. Vamo procurar um sítio porque na rua é muito violento. Aí viemo atrás de uma granja pra tomar conta. Quando chegamo aqui falamo com o dono desta fazenda e ele mandou a gente buscar as coisas110( WILSON, 20 anos.

Entrevista realizada em 26 de Outubro de 2007).

Artur, 16 anos, relata que a mãe tinha muita vontade de criar animais e sonhava com um espaço adequado para tal. Aceitou o convite de uma tia que já morava no assentamento. Entretanto, temendo os conflitos entre os “latifundiários”111 e o Movimento, foram embora para Pedra Lavrada. Retornaram mais tarde quando a situação se normalizou.

Nós já saímos da cidade porque hoje em dia existe muita criminalidade, então minha mãe teve medo da gente se tornar um desses que transporta droga, aí fomos para Pedra Lavrada, mas como era muito pequeno e aí a gente chegou aqui ( Entrevista realizada em 14 de Outubro de 2007).

É importante atentar que o acesso ao assentamento não ocorreu necessariamente pelo próprio Movimento enquanto organização e/ou instituição, muito mais pela via dos laços de parentesco e de amizade. Estes indicadores demonstram que a incorporação ao MST foi circunstancial, já que antes de integrarem o Movimento não se inseriam em nenhuma entidade representativa. Primeiro buscaram o acesso à terra, depois, engajaram-se junto ao Movimento como forma de garantir sua permanência no local.

Alguns jovens relatam que até hoje o pai se recusa a aceitar a ideia de que foi o MST o intermediador pela conquista da terra. De acordo com Antonio, 23 anos, o seu pai é categórico ao afirmar que se encontra naquele espaço por causa do Incra. “ Quem deu a casa dele, os créditos foi o Incra, não foi uma conquista do movimento não” (Entrevista realizada em 26 de Outubro de 2007).

110 A família desse jovem chegou ao assentamento antes da desapropriação da terra

116 Outros jovens também compartilham dessa concepção quando anunciam em seus depoimentos que ali chegaram porque o Incra estava desapropriando a terra.

Meu pai viu passando no jornal e se inscreveu no Incra. Aí passamo dois anos vindo de bicicleta procurando um terreno bom, depois montamo um barraco (FRED, 17 anos. Entrevista realizada em 05 de Novembro de 2007).

Na verdade, eles não tinham a clareza de que o processo de desapropriação da terra se configura por intermédio das lutas empreendidas pelos movimentos que defendem a reforma agrária,e o MST é um deles.

Já para os que estão engajados junto à luta do MST, a opinião é diferente. Eles esboçam com lucidez a importância do Movimento naquele momento de conquista pela terra.

John, 15 anos, assim se expressou:

Eu vi os sem terra em conflito, botei na cabeça como era a estrutura deles, até que eu fui para um assentamento e fiquei por 3 anos. Este aqui foi o dirigente Lito que informou. A gente veio para cá faz mais de 2 anos (Entrevista realizada em 10 de Novembro de 2007 ).

Interessante que esse jovem, ao recompor sua chegada ao assentamento assume um discurso nítido de militante, se portando com certa independência. A sua construção textual na primeira pessoa do singular indica uma autonomia que normalmente não é compatível com discursos de outros jovens que, normalmente, estão submetidos a uma condição de subalternidade.

Roberto, 25 anos, igualmente apresenta as mesmas características quando afirma que almejava entrar para “os sem terra”.

Por intermédio de Miltinho. Eu passei um tempo fora trabalhando em um engenho. Mas já conhecia o Movimento por perto de Taperoá tinha uns sem terra acampado lá. Quando eu vim visitar ele, disse que estava com vontade de entrar para os sem terra. Aí Miltinho disse que ao invés de entrar lá viesse para cá porque ele também fazia parte, me mostrou a bandeira e me explicou ( Entrevista realizada em 10 de Novembro de 2007).

Este jovem já detinha na época um grau de independência e, diferentemente da maioria, que ali estavam em decorrência da situação de acompanhamento da família, sua integração ao Movimento não ocorreu apenas pela condição da terra, mas por convicções próprias. Vale ressaltar que este é um caso isolado no grupo em estudo.

Os relatos de outros jovens apontam, no entanto, que embora a situação vivenciada tenha sido bastante difícil, a participação do Movimento foi imprescindível para a realização daquela conquista. “No princípio foi difícil , mas melhorou depois que o Movimento assumiu”( JOMAR, 18 anos. Entrevista realizada em 10 de Novembro de 2007).

117 Nesse momento, eles se reconhecem como atores coletivos ao se engajarem ao Movimento que levanta a bandeira da reforma agrária. Uma luta que é de caráter mais amplo tende a ser incorporada no nível de suas subjetividades, ajudando-os a encontrar um lugar onde possam “ser” como sujeitos ativos. Uma constatação está posta: de uma forma ou de outra cremos que esses homens e mulheres buscaram conquistar sua cidadania112, seu lugar como atores sociais.

As buscas de alternativas em prol de um lugar para morar e, consequentemente, sobreviver, são marcadas por conflitos que nem sempre permitem alcançar uma melhor qualidade vida. Os jovens depoentes não hesitaram em afirmar que o grau de dificuldades enfrentado naquela nova situação de vida foi bastante alto. A falta de infraestrutura como água, energia e a própria condição do trabalho fizeram do cotidiano desses uma verdadeira peregrinação, principalmente em épocas de secas quando não dispunham de água nem para beber .113

Passamo por dificuldades no começo, ficamo acampado onde o gado comia. Passamo uns três meses. Depois conseguimo uma área e construímo um barraco. Passamo uns quatro anos, depois fomo para outro barraco de taipa, até levantar a casa. (ANTÔNIO, 23 anos. Entrevista realizada em 26 de Outubro de 2007).

Outros denunciam que a maior dificuldade foi a falta de alimento associada ás condições precárias para a sua subsistência. “Não tinha carroças, animal, carregamo água nas costas e era muito longe. Graças a Deus agora tudo mudou” (AMÉLIA, 15 anos. Entrevista realizada em 13 de Novembro de 2007).

Os depoimentos aqui colhidos expressam de forma unânime a realidade de exclusão a que esses sujeitos são submetidos diante das desigualdades sociais .

Quando nós chegamos aqui viemos morar debaixo de um pé de umbu (eu e meu pai), com uma lona. Tinha dia que chovia, a gente se molhava, quando não chovia a gente dormia em paz. Passamos 5 anos assim, debaixo de um pé de umbu, aí fizemos um barraco , agora ‘veio’(vieram) as casas e estamo numa casa (ALBERTO, 22 anos. Entrevista realizada em 11 de Novembro de 2007).

112 “ A articulação dos pressupostos da cidadania nos leva a inferir que primeiro, cidadania é uma prática; não é

simplesmente a compreensão passiva, da realidade, estando de posse de elementos que possibilitem a decodificação do mundo ao nosso redor ( MARTINS, 2000, p.51).

113 É importante ressaltar que essas famílias apesar de todas as dificuldades vivenciadas não enfrentaram os

conflitos pela posse da terra como a ocupação do espaço, pois o Incra já havia concedido a desapropriação quando lá chegaram.

118 Aquela situação levou-os a momentos de bastante apreensão. Como atesta Kátia, 18 anos. “Foi muito difícil, eu fiquei com medo das cobras”( Entrevista realizada em 09 de Novembro de 2007).

Os jovens oriundos da periferia urbana, a exemplo de Walter, 18 anos, relatam que o grau de dificuldade foi duplo: primeiro, por terem de se acostumar a um estilo de vida totalmente diferente daquele a que estavam habituados no meio urbano e depois, a pressão para se adequarem às novas formas de trabalho pesado, arrancando toco, quebrando pedra, etc.

As moças casadas, que também acompanharam seus maridos nessa ocasião, descrevem igualmente a situação enfrentada:

Não tinha serviço certo, não tinha dinheiro pra comprar as coisas, quando tinha um bico, fazia”(ROSE, 22 anos. Entrevista realizada no dia 09 de Novembro de 2007).

De acordo com Fátima, 26 anos, sua família enfrentou vários obstáculos, mas sempre esteve ao lado do marido, compartilhando as dificuldades:

A gente morava em um barraco de taipa, a gente tinha que cortar palma, viemos os dois, a gente trabalhava plantando palma, era a renda (Entrevista realizada em 25 de Novembro de 2007).

.

Angelina, 25 anos , descreve a sua peregrinação:

Foram muitas dificuldades, chegamo aqui numa seca braba, não tinha água pra se beber direito. Demorou muito pra conseguirmo o lote. Primeiro moramo no barraco, em vários lugares, saindo de um barraco pra outro (Entrevista realizada em 09 de Novembro de 2007).

Os depoimentos colhidos quanto as trajetórias de vida, seja acompanhando seus pais

ou maridos em busca de um espaço para morar, são muito semelhantes entre si, e marcados por tensões. O grau de dificuldade é quase unânime. Na verdade, esta é uma característica recorrente dos que lutam por espaço para morar. As suas expectativas e vivências ganham sentido de luta histórico- política quando relatam como chegaram ao assentamento e como construíram seus mecanismos de sobrevivência.

A perspectiva da juventude, dadas estas circunstâncias, passa a ser vivenciada num contexto de luta e sobrevivência. Esta situação provoca uma ruptura no processo juvenil, levando esses jovens para um amadurecimento precoce, devido às necessidades que surgem em decorrência da sua condição social. Diante desta realidade adotamos o ponto de vista de Carneiro( 2005), na medida em que devemos situar a categoria juvenil numa perspectiva de um conjunto de atores específicos, tributários de um processo social e histórico, criado a partir

119 da constituição de uma territorialidade,levando-nos portanto, a reconhecê-los a partir de suas especificidades locais.

Assim, a condição de ser jovem deve ser compreendida levando-se em consideração as contradições sociais que se atravessam junto à produção material e simbólica dos indivíduos e, consequentemente, do contexto social no qual se encontram inseridos.114

Os testemunhos desses sujeitos evidenciam com muita precisão que a vivência, a experiência não constituem aspectos cronológicos, e por isso a juventude atrela-se às condições sociais. Por este viés, a juventude requer ser compreendida como uma categoria de sujeitos inseridos em uma dimensão histórica. Fato que provoca similaridade de vivências e experiências relacionadas ao mesmo contexto, apesar das diversidades materiais, simbólicas e culturais que o demarcam em decorrência das relações de poder que se instauram no espaço rural. Esta talvez seja a compreensão mais lúcida para definirmos o conceito de juventude rural, identificando-a enquanto categoria social , portadora de uma heterogeneidade.

Há que se considerar, no entanto, que as condições de vida desses jovens apontam para uma discussão115 mais eficaz sobre a ampliação de políticas públicas que de fato contemplem este meio,116 cobrando ações concretas dos governos, sobretudo as relacionadas não só ao problema da reforma agrária, mas para que a garantia da concentração fundiária seja definitivamente resolvida. Assim, o debate direciona-se ao projeto de luta de classes, das transformações sociais, no sentido de colocar o jovem em um cenário de visibilidade, através de projetos de desenvolvimento sustentável, que beneficiem seus modos de sobrevivência.

Até lá, o que resulta desse processo é que as construções identitárias desses jovens passam a ser conduzidas, muitas vezes, por um processo de estigmatização do ambiente rural, em detrimento da criação de políticas públicas voltadas mais especificamente à juventude urbana, criando dessa maneira uma cortina de invisibilidade dos indivíduos que habitam no campo.

À luz deste entendimento a juventude rural passa a ser identificada por uma relação de

114 Os estudos direcionados à juventude rural se apresentam de múltiplas formas em decorrência das diversas

situações, tanto no âmbito social quanto espacial e histórico. Nesse sentido, os autores : Wanderley, 2003; Carneiro, 2005; Durston,1998 e Castro, 2006, não hesitam em destacar as imprecisões que marcam a categoria, tornando, assim, o empreendimento interpretativo um tanto quanto desafiador.

115 Um momento muito produtivo para esta discussão foi a realização do Seminário Juventude Rural em

Perspectivas, no Rio de Janeiro em 2006, na sede do CPDA Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O objetivo do evento foi favorecer o intercâmbio de experiências organizativas que envolvessem a vivência do jovem rural no contexto brasileiro.

116 Dados do PNDA( Pesquisa nacional por amostragem de domicílios) apontam que a população jovem de 15 a

29 anos correspondem a 49 milhões de pessoas, o que representa 27% da população. Desse universo, a juventude rural compõem um percentual de 4,5%, o que em termos numéricos corresponde a 8 milhões de pessoas.

120 subordinação, historicamente construída, às estruturas sociais urbanas. Tais relações são marcadas não necessariamente por uma questão geográfica, mas por situações de ordem social e econômica, propagando uma visão de campo como sinônimo de atraso, o que resulta na construção de uma categoria marcada por um processo de hierarquização social.

Na verdade, esse estigma é representado pelo fato da desvalorização cultural que se imputa ao campo como forma de morar mal . Em outras palavras, emerge o estereótipo de que o meio rural está sempre em descompasso à realidade urbana devido a hierarquização reproduzida entre o rural/urbano pela inexistência de políticas específicas para a parcela jovem rural,(CASTRO, 2008).

A invisibilidade dos jovens perante as políticas públicas surge em decorrência desta parcela ser percebida como “população minoritária”.117 Para Castro(2008) esse processo é parte da reprodução de hierarquia campo/cidade, que gera representações sociais sobre o campo, que fazem parte dos processos de reprodução das desigualdades sociais.

Sob este paradigma, devemos considerar que esses sujeitos sociais carregam especificidades próprias, vivendo com conflitos inerentes ao contexto de uma sociedade capitalista, onde as dimensões econômicas, sociais e culturais é que definirão a condição juvenil, sendo esta muitas vezes antecipada.

Na verdade, não há uma resposta chave, nem como conceituar esta categoria, a partir de uma definição precisa e estável. O mais sensato é entendê-la através de suas especificidades, que, por sua vez, são construídas histórica e socialmente.118 O que significa

dizer que a juventude rural carrega múltiplos significados para além das diversidades locais e regionais.

O cotidiano dos integrantes dessa pesquisa referenda essa assertiva , já que a sua condição de jovem está muito mais condicionada aos meios de sobrevivência do que mesmo aos fatores sociais inerentes à juventude.