É importante observar-se que a leitura que cada receptor faz ao ouvir o material sonoro está diretamente ligada à sua bagagem cultural, representada por códigos particulares e específicos de leitura e compreensão (que podem ser entendidos como “ícones musicais”). São esses códigos que vão determinar o nível de flutuação entre o que o emissor (compositor) desejou dizer e o que o receptor (ouvinte) compreendeu. As chamadas “obras abertas” são aquelas que assumem uma postura de livre interpretação,
não pretendendo guardar para si um único significado, mas uma gama deles, que irão gerar uma vasta multiplicidade de leituras, em alguns casos, sugerindo até que o receptor interaja com as mesmas. No final das contas, por mais que se pretenda mediar ou guiar as obras, elas só se completarão na mente do público.
Conforme Wisnik,
As sociedades tradicionais não admitem a música como puro som sem significação, não há entre elas uma poética da sonoridade em si. Mas pode-se dizer que, nelas, a música está sujeita, como sempre, à flutuação do significante, que oscila entre não dizer nada e dizer tudo, porque, sem portar significados, aponta para um sentido global (universo sonoro que, se não diz
tudo, diz, de algum modo, um todo). (WISNIK, 1989, p. 77 – grifos do autor)
Após a leitura desse sub-capítulo, penso que existem relações e reflexos entre o álbum dos Beatles e a atualidade. Muitas das ditas inovações (e o mashup é um exemplo) já estavam presentes em nossa cultura há décadas, mesmo que de forma embrionária. Além disso, como procurei demonstrar, um álbum como “Pepper” apresenta elementos suficientes que permitem identificar a atuação (e interrelação) das matrizes propostas por Sanatella (2005). Pode-se dizer, também, que “Pepper” constituiu uma narrativa. Partindo de uma audição de forma linear (começando pela primeira faixa) e seguindo seu curso natural (ouvindo as faixas de acordo com a ordenação proposta pelo grupo), surgirão elementos que possibilitam reconhecê-lo como um discurso narrativo. Embora exista flutuação no caráter de interpretação da obra em questão, ainda assim ela pode ser vista como uma narrativa.
Era comum nos anos de 1960 que se realizassem audições fechadas para imprensa e convidados, a fim de mostrar um novo lançamento. Esses happenings como eram conhecidos, funcionavam como estratégia de promoção. Mostrarei adiante que hoje este tipo de proposta (embora ainda seja utilizada) migrou para o plano digital.
Fig. 34 – Beatles em happening fechado para convidados exclusivos no dia do lançamento do álbum96
Existe uma última informação sobre o álbum dos Beatles que deve constar em minha pesquisa. Baseado no cruzamento de dados entre as fontes “Pet Sounds” – livreto encartado (CD, 2001), “Revolver” – livreto encartado (CD, 2009), John Covach (2006), Cliton Heylin (2007), Barry Miles (1997) e Robert Dimery (2007) 97 , constatei uma outra motivação, além das anteriormente apresentadas, para a realização de “Peppers”: trata-se do álbum “Pet Sounds” do grupo americano Beach Boys. Brian Wilson (integrante dos Beach Boys), compositor, músico e produtor musical de “Pet Sounds”, realizou esta obra motivado e influenciado pelo álbum dos Beatles intitulado “Rubber Soul”, lançado antes de “Peppers”. Wilson julgou que “Rubber Soul” era um dos melhores álbuns já produzidos na história da música. Ele nutria uma competição criativa
96 Fonte: <http://3.media.tumblr.com/tumblr_kpos9gy15K1qzdzwdo1_500.jpg> acesso em 20/01/2010. 97
com Paul McCartney, sendo esta “disputa” igualmente alimentada pelo integrante dos Beatles. Para ilustrar essa relação, elaborei a seguinte figura 98 :
Fig. 35 – Diagrama de influência entre Beatles e Beach Boys (década de 1960)
Conforme pode ser observado, “Rubber Soul” (Beatles) foi lançado em 03/12/1965. Brian Wilson ouviu o trabalho dos Beatles e o utilizou como fonte de inspiração e motivação para a produção do álbum “Pet Sounds”, lançado em 16/05/1966. Nesse período, os Beatles já trabalhavam no álbum “Revolver” 99 (o), lançado em 05/08/1966. A audição de “Pet Sounds” serviu como inspiração e motivação para que Paul McCartney (e seus companheiros de banda) produzissem e lançassem “Peppers” em 01/06/1967.
Toda a motivação e inspiração entre McCartney e Wilson foi baseada em duas concepções: a primeira, utilizar-se o estúdio de gravação (G) como um instrumento musical, servindo-se de todos os recursos disponíveis para gerar novos sons, seja
98 Fonte: (PALUDO, 2010)
99 Ouça uma influência desse álbum, comparando uma faixa dos Beatles dessa época com uma faixa do
grupo Chemical Brothers nos anexos digitais. A comparação está disponível na pasta “Consideracoes Finais” por tratar-se de um desdobramento atual desse estudo. (nota do autor)
através da utilização de instrumentos inusitados e ruídos, combinados para formar uma sonoridade única, ou através da manipulação do som realizada com os equipamentos disponíveis no estúdio. Um detalhe que deve ser destacado refere-se ao número de canais de áudio disponíveis: o álbum dos Beatles foi gravado na Inglaterra utilizando-se quatro canais. Já os Beach Boys gravaram seu álbum nos Estados Unidos, dispondo de oito canais (sendo eles pioneiros nesta tecnologia que ainda não havia sido implementada em solo britânico). A segunda questão diz respeito a um conceito elaborado pelo protudor americano Phil Spector, chamado de “Wall of Sound” (traduzindo livremente, “parede sonora”). O conceito de Spector baseava-se na construção de “music layers”, isto é, camadas de som produzidas através da duplicação de instrumentos (gravar-se, por exemplo, mais de uma guitarra executando as mesas notas em uníssono), utilização de efeitos de reverberação para “ampliar” a sensação de espacialização tridimensional do som, ou ainda (o que Brian Wilson explorou bem mais do que os Beatles), a mistura entre instrumentos diferentes (como um Theremin e uma guitarra, por exemplo) para gerar-se um “novo instrumento” inexistente. O resultado deveria soar grandioso com alta-fidelidade de som compatível tanto com um bom tocador de vinil quanto com um modesto rádio AM. “Pet Sounds” utilizou diversos instrumentos incomuns no rock para a época, como french horn, mandolin, Theremin, cravo, viola e clarinete (os Beatles utilizariam o clarinete em destaque na faixa “When I’m Sixty-Four” (o) de “Peppers”. Em suma, esta disputa por elaborar projetos musicais sofisticados e diferenciados teve reflexos na historio da música pelas décadas que se seguiram. “Sgt. Peppers” e “Pet Sounds” foram os álbuns que mudaram para sempre o jeito de se pensar e produzir um álbum musical.
Em 1997 foi lançado o box set Beach Boys – “The Pet Sound Sessions” (o) contendo uma série de outtakes (G) de “Pet Sounds”. Assim como os Beatles, Brian Wilson era perfecionista quando estava envolvido com a produção musical. Nos anexos digitais é possível ouvir uma faixa desse box set que demonstra isso. Em 2009 a obra dos Beatles foi remasterizada. Além de encartes contendo explicações sobre cada título, foi incluído um “mini-documentário” sobre cada álbum. Os documentários (o) sobre os álbuns “Rubber Soul” e “Sgt. Peppers” também estão disponíveis nos anexos digitais,
assim como um vídeo extraído do You Tube que mostra a relação entre o álbum dos Beatles e o dos Beach Boys. 100
E assim, encerro a primeira etapa deste estudo. Passarei agora para a segunda parte, começando a identificar as reconfigurações ocorridas no cenário da produção musical a partir da década de 1980.
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CAPÍTULO II:
1. RECONFIGURANDO I...
tags: atualização, reconfiguração, produção
Fazendo uma rápida retomada do que foi exposto até aqui, no capítulo anterior, recorri a alguns recortes do início do século XX até a década de 1980, envolvendo questões técnicas, estéticas e conceituais. Demonstrei como funciona o trabalho de um produtor musical, como esta profissão se desenvolveu a partir da década de 1950 (quando ainda era desconhecida da maioria das pessoas comuns), como os movimentos contraculturais influenciaram este processo e a importância dos álbuns dos Beatles e dos Beach Boys neste contexto. Neste segundo capítulo, novamente recorrerei a alguns pontos importantes que irão auxiliar a compreender como está a produção musical contemporânea no que diz respeito à produção e circulação do material sonoro. Reforço que, devido a inúmera quantidade de desdobramentos existentes hoje, seria pretencioso e inviável querer dar conta de tudo. Assim, me limitarei a apontar alguns fragmentos relevantes ao meu estudo, mas que permitem compreender como está o mercado de produção musical hoje. O primeiro deles, diz respeito ao produtor do século XXI. Este é o tema que abordarei a seguir.