“Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras.” Oração da Serenidade
Os atendimentos pastorais dos sacerdotes à comunidade apoiam-se sobre a concepção de homem sustentada pela doutrina católica. Para a Igreja Católica:
“Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (Papa João Paulo II, 1998, p. 1).
O homem vivencia, no decorrer de sua existência, inúmeras situações que o levam a se questionar a respeito de sua identidade, sua finitude e a existência do bem e do mal: “Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? Por que existe o mal? O que é que existirá depois desta vida?” (Papa João Paulo II, 1998, p 1). Estas perguntas são universais e caracterizam o percurso da existência humana, caminho que se realiza no âmbito da autoconsciência. Quanto mais o homem conhece a Deus, mais conhece acerca da realidade e do mundo, enriquecendo dessa forma sua visão a respeito de si mesmo e sua procura pelo sentido da própria existência.
O homem é um ser inacabado que se projeta para fora de si mesmo, em busca de sentido. Esta busca, profundamente radicada na natureza humana, conduz a uma primeira resposta. O ser humano não procuraria uma coisa que ignorasse por completo ou considerasse inatingível. É neste sentido que João Paulo II (1998) fala a respeito da nostalgia de Deus. Todo homem traz consigo uma imagem de Deus ainda que intuitiva.
A transcendência é um dos anseios mais profundos do ser humano que busca o sentido último do seu existir. A espiritualidade se configura, assim, como uma dimensão constitutiva do homem em sua busca de ser.
A espiritualidade e a religiosidade marcam o modo de ser de cada ser humano, uma vez que norteiam suas atitudes e comportamentos em uma incansável busca pela compreensão da complexidade da existência:
“Todo homem é, de certa forma, um filósofo e possui as suas próprias concepções filosóficas, pelas quais orienta a sua vida. De diversos modos, consegue formar uma visão global e uma resposta sobre o sentido da própria existência: e, à luz disso, interpreta a própria vida pessoal e regula o seu comportamento.” (Papa João Paulo II, 1998, p. 16)
Os comportamentos e atitudes do homem são vistos pela doutrina católica como frutos de sua liberdade e responsabilidade. O Catecismo da Igreja Católica (2000) afirma:
“Deus criou o homem dotado de razão e lhe conferiu a dignidade de uma pessoa agraciada com a iniciativa e o domínio de seus atos. ‘Deus deixou o homem nas mãos de sua própria decisão’ (Eclo 15,14). O homem é dotado de razão e por isso é semelhante a Deus: foi criado livre e senhor de seus atos.” (p.472)
Por meio de suas atitudes, o homem não transforma apenas a sociedade, mas realiza-se a si mesmo. Aprende muitas coisas, desenvolve as próprias capacidades, sai de si, transcende-se. Utiliza suas potencialidades e descobre novos recursos com os quais viver, assumindo a si mesmo como um ser possuidor de forças, potencialidades e recursos a serem descobertos, ampliados e desenvolvidos (Clinebell, 2007).
A liberdade torna o homem responsável por seus atos na medida em que são voluntários. De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (2000), o progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre os atos.
Diante dessa realidade, os presbíteros são chamados a oferecer uma atenção especial aos leigos, através do acompanhamento espiritual, com o intuito de que possam se desenvolver como cristãos e como pessoas.
O campo da ajuda espiritual à comunidade cristã é marcado por diferentes modalidades de intervenção que assumem uma diversidade de denominações, como direção espiritual, discernimento vocacional, acompanhamento vocacional, guia espiritual, counseling, aconselhamento espiritual, diálogo pastoral e psicoterapia pastoral. Essas denominações implicam em diferenças que decorrem da finalidade, do destinatário e do seu nível de crescimento espiritual, bem como da pessoa que assume a função de aconselhador (Aletti, 2008).
Ao longo do tempo, na história da doutrina e das diretrizes pastorais da Igreja Católica, essas expressões ganham maior ou menor destaque e o seu sentido não é homogêneo, mesmo quando abordadas sob a mesma nomenclatura. Elas sofrem contínuas adaptações culturais.
Nesta pesquisa procuro me ater ao aconselhamento espiritual ou aconselhamento pastoral. Essas expressões são usadas, no decorrer deste trabalho, como sinônimas. De acordo com Santos (2006), as centelhas do aconselhamento espiritual estão ligadas a uma prática antiga oferecida pela Igreja Católica: a direção espiritual.
Montanari (2008) afirma que a prática da direção espiritual, canonicamente regulada, foi-se impondo a partir da segunda metade do século XVI, no clima da Reforma Católica10, como instrumento para educar as consciências e transmitir-lhes modelos dos comportamentos aceitos e esperados de um cristão. Essa prática floresceu no início do século seguinte, considerado “a época de ouro da direção espiritual”, na qual diversas publicações foram destinadas ao tema. Naquele período, em especial, a direção espiritual esteve fortemente ligada à confissão. Grande parte dos autores que escreveram tratados sobre esse sacramento, dedicaram algumas páginas à direção espiritual (Gemelli, 1945; Dalla Nora, 1950 e 1952; Ehel, 1955; Stierli, 1960; Laplace, 1968).
A situação permaneceu inalterada até a metade do século XX, período assinalado pela crise da figura tradicional do diretor espiritual, como consequência, não somente dos processos de secularização e das mudanças que a vida religiosa e sacerdotal sofreu na época pós-conciliar, mas também pelo surgimento dos conhecimentos e técnicas desenvolvidas nas áreas da ciência, principalmente das ciências humanas, entre as quais a psicologia (Montanari, 2008).
A influência da psicologia sobre a formação sacerdotal e atividades pastorais dos presbíteros foi discutida pelo Papa Paulo VI (1965b), num dos decretos do Concílio do Vaticano II, intitulado Optatam Totius, sobre a formação sacerdotal e é abordada, na atualidade, por diversos autores (Corti, 2002; Valle, 2004; Hellinger, 2005; Santos, 2006; Clinebell, 2007; Angeli, 2008).
Santos (2006) diz que a direção espiritual, do ponto de vista metodológico, pode ser focada em duas perspectivas: a teológica e a existencial. A direção
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A Reforma Católica, também denominada Contra-Reforma, foi a reação da Igreja Católica contra a expansão de outras religiões cristãs, em especial, o protestantismo.
espiritual, vista pela vertente teológica, procura sistematizar uma reflexão a respeito do discernimento vocacional. Ela tem como objetivo o acompanhamento dos religiosos e religiosas no desenvolvimento de três dimensões: tornar-se pessoa, ser cristão e do dom do exercício vocacional.
Já, na perspectiva existencial, a direção espiritual atende a todos, sobretudo os leigos que buscam ajuda do padre em momentos de dúvida, dor, angústia ou por aspirarem a um desenvolvimento espiritual.
Corti (2002) coloca que, no Evangelho, encontram-se, da parte de Jesus, dois modos de realizar encontros espirituais pessoais: o primeiro denominou de direção espiritual sistemática e o segundo, direção espiritual ocasional; o primeiro está voltado em especial para os seus discípulos e o segundo, para as pessoas em geral. Para Giordani (1985), a utilização da expressão direção espiritual no atendimento à comunidade é inadequada, porque “dirigir” evoca um tipo de relação caracterizada pelo domínio de uma pessoa sobre a outra, ocasionando muitas vezes um vínculo de dependência. Acredita ele que o termo aconselhamento, acompanhado pelo adjetivo espiritual, contempla a possibilidade da pessoa individualizar o próprio itinerário de vida.
O aconselhamento espiritual ou aconselhamento pastoral nasce da vertente existencial da direção espiritual e apoia-se sobre o exemplo deixado pelo próprio Cristo, quando, no Evangelho, ele se encontra com pessoas oprimidas, doentes, angustiadas e solitárias.
Barry e Connolly (1999) afirmam que a função específica do aconselhamento espiritual consiste em ajudar o indivíduo em seu processo de crescimento na relação com Deus. Para Barry (2005), o aconselhamento espiritual apoia-se na certeza de que Deus se comunica com os homens por meio das diversas situações vividas. Do homem, é esperado que busque compreender os possíveis significados dessas experiências. Para eles, o aconselhamento espiritual configura-se como uma ajuda oferecida a um cristão:
“Ajuda essa que capacita este outro a prestar atenção à comunicação pessoal de Deus com ele, a responder a esse Deus pessoalmente comunicante, a aumentar a sua intimidade com ele e a viver as conseqüências desse relacionamento.” (Barry e Connolly, 1999, p. 22)
Há, portanto, uma situação de aconselhamento espiritual quando uma pessoa, em busca da plenitude de sua vida cristã, recebe um apoio que a ilumina, a sustenta
e a guia no discernimento da vontade de Deus. Cabe ao conselheiro-espiritual ajudar a pessoa na escuta aos contínuos chamados que Deus faz, através dos acontecimentos diários, principalmente quando estes são vistos, pelo indivíduo, como fonte de sofrimento.
Segundo Callens (1968), Deus permite que o homem viva desilusões para elevar sua alma e centrá-la nEle, o único que pode encher um coração e satisfazê-lo por completo. Contudo, Ele não o abandona nesse caminho. Ao ser humano foi dado conhecer as luzes do Espírito Santo que possui uma missão dupla. Começa por auxiliá-lo a esclarecer o sentido sobrenatural dos acontecimentos que podem enfraquecer sua fé, revelando o bem escondido em determinadas situações. Em seguida, o Espírito Santo restaura-lhe as forças e, dessa forma, possibilita-lhe conhecer o sentido e obter a força para aceitar as interferências divinas em sua vida.
A missão do Espírito Santo não se limita a reforçar a visão da fé a respeito dos acontecimentos que tocam a pessoa, ele deseja antes incutir nela um senso divino, uma espécie de instinto de segurança para discernir e reconhecer a Deus em todas as coisas.
Todos os homens, pela graça do batismo, podem contar com as inspirações do Espírito Santo. A única condição imposta para sua ação é a disponibilidade, pois Deus opera em seres dotados de liberdade e a respeita sempre.
À luz da fé, as desilusões, dissabores, fracassos tomam outro significado, pois são sempre vistos como possibilidades de crescimento. Mesmo quando prova, Deus continua a ser um pai que deseja o crescimento e a felicidade de seus filhos. Ele quer a felicidade total, a qual planeja dar-lhes e que nem sempre coincide com a que eles desejam.
“Deus vos ama e quer vos fazer empregar essas múltiplas dificuldades como trampolins para vossa perfeição” (Callens, 1968 , p. 64)
O aconselhamento espiritual apresenta-se como um serviço em que o padre- conselheiro assiste as pessoas, mais comumente, quando devem enfrentar situações problemáticas e resolvê-las, tendo presente, por um lado, uma preparação humanista e, por outro, a preparação ética, espiritual e teológica:
“O conselheiro pastoral [ou espiritual] não é simplesmente o confessor, é o fruto de uma longa evolução e de uma original colaboração entre teologia e ciência do
comportamento, entre religião e ciência. Nos Estados Unidos, o conselheiro pastoral trabalha em estreita colaboração com os serviços de higiene mental e com as comunidades religiosas locais e oferece uma válida contribuição ao enfrentar e, sobretudo, ao prevenir muito sofrimento social, problemas ligados à droga, ao álcool, conflitos familiares, violência, depressão, suicídio, delinqüência juvenil e outros. Além dos lugares de culto (igrejas, sinagogas), atua no âmbito dos hospitais, presídios, universidades, quartéis, escola primária e secundária.” (Danon, 2003, p. 206)
De forma semelhante a estes autores, Clinebell (2007) afirma que o aconselhamento espiritual combina a experiência da fé com as complexidades do existir, uma vez que utiliza uma diversidade de métodos terapêuticos para ajudar as pessoas a lidarem com seus problemas e crises existenciais e espirituais de forma condizente com seu crescimento.
Para o autor, esta relação de ajuda espiritual possui uma função reparadora, necessária quando o crescimento das pessoas é comprometido ou bloqueado por dificuldades inerentes à vida. De acordo com ele, existem duas espécies de crises, pelas quais as pessoas podem estar passando ao procurar por aconselhamento pastoral. São elas: as crises desenvolvimentais, vivenciadas ao longo da vida, em momentos de transição e adaptação; e as crises acidentais que causam tensões e perdas não esperadas. Em todas estas situações de crise, é preciso buscar possibilidades de crescimento espiritual.
O aconselhamento espiritual configura-se, assim, como uma relação em que se dá o desenvolvimento de aptidões potenciais de enfrentamento, por parte do aconselhando, tendo em vista o seu crescimento espiritual:
“O aconselhamento pastoral visa ajudar as pessoas a lidar construtivamente com seus problemas imediatos, tomar decisões, encarar responsabilidades e corrigir comportamento prejudicial a si mesmas e às outras, bem como expressar, experimentar e, consequentemente, resolver sentimentos, atitudes e autopercepções que bloqueiam o crescimento” (Clinebell, 2007, p. 33).
Quando as pessoas têm o seu desenvolvimento bloqueado, encontram dificuldades para satisfazer suas necessidades básicas: “a necessidade de receber e de dar amor; a necessidade de ser estimado por si mesmo e pelos outros; a necessidade de segurança, alimentação e abrigo; a necessidade de autonomia e
liberdade interiores; a necessidade de um sentido de vida; e a necessidade de um relacionamento crescente, confiante com Deus” (Clinebell, 2007, p. 29). É essa dor e a esperança de aliviá-la que, muitas vezes, as levam a buscar o aconselhamento pastoral e lhes dá a abertura necessária para permitir que o conselheiro cuide delas. Para tanto, é importante compreender o estado de ânimo em que vive a pessoa numa determinada situação e ajudá-la a tomar consciência de suas aspirações e recursos para buscar o caminho que a leva à plena realização de seu relacionamento com Deus.
O aconselhamento espiritual configura-se como uma relação de ajuda, uma vez que pretende devolver à pessoa, na medida do possível, a livre disposição de seus recursos internos (Giordani, 1985). Para Giordani, o conselheiro espiritual possui três funções: a facilitação, a avaliação e a orientação que visam ao crescimento espiritual do aconselhando.
Facilitação é a capacidade do padre de ampliar a percepção do aconselhando rumo ao autoconhecimento e reconhecimento da presença de Deus em sua vida. Embora o aconselhando seja, ele mesmo, o único a ser capaz de tomar consciência de seus valores, suas possibilidades e disposições internas, ele sente a necessidade de ser confirmado por uma pessoa de sua inteira confiança, a fim de encontrar o apoio e a coragem necessários para explorar seu próprio mundo interior e descobrir quem é realmente.
Grün (2004) lembra que, no monaquismo primitivo, não se pensava na possibilidade de um encontro com Deus sem um encontro consigo mesmo. Para ele, se o homem quiser conhecer Deus, deve aprender a conhecer a si mesmo:
“Tudo aquilo que nós encontramos na vida, todos estes problemas são justamente o que nos permite chegar mais perto de Deus. Para mim, o caminho até Deus, passa pelas nossas paixões, emoções e problemas.” (2008).
Do ponto de vista metodológico, o padre-conselheiro busca promover, na pessoa, uma consciência clara, refletindo sobre os conteúdos e sentimentos que surgem no decorrer do encontro, de maneira que o indivíduo possa reconhecê-los como seus e, assim, descobrir novos aspectos do seu existir. Esta comunicação leva a uma espiritualidade autêntica em que o indivíduo passa a apresentar-se a si mesmo, aos outros e a Deus, como realmente é.
Num de seus mais belos encontros, Jesus e seus discípulos voltavam de Jerusalém para a Galiléia e atravessavam a Samaria, no momento em que seus companheiros decidiram procurar alguma coisa para comer. Era lá pelo meio-dia. O sol brilhava intensamente. Fatigado, ele sentou-se para descansar junto a um velho poço onde os habitantes daquela cidade vinham retirar água desde há muito tempo. Estava só, quando viu se aproximar uma mulher samaritana com um cântaro na cabeça. A mulher assustou-se ao ouvi-lo pedir que lhe desse de beber; afinal, os judeus não falavam com os samaritanos devido a divergências políticas e religiosas. Jesus respondeu à sua perplexidade, falando sobre Deus, a fonte da água viva: “Todo aquele que bebe desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der, nunca terá sede, pois a água que eu lhe der, será nele uma fonte de água que salta para a vida eterna” (Jo 4, 13-14). Naquele instante, a mulher lhe pediu daquela água. Ele, porém, solicitou que olhasse para dentro de si mesma, para sua história de vida, suas dores e feridas ao lhe pedir que chamasse seu marido. Ela revelou que não tinha mais nenhum companheiro e ele concordou. Mais uma vez, ela espantou-se com sua grande capacidade de intuir o que se agitava em seu coração e chamou-o de profeta. Jesus relevou-se, então, como o Messias que viera para transformar a história da humanidade e a história pessoal de todos os que se propõem a estar verdadeiramente com ele. E, antes de seguir seu caminho, falou da importância de se adorar a Deus, em espírito e verdade. Só adoramos a Deus quando nos mostramos como realmente somos:
“Jesus nos põe em relação conosco mesmos, com os domínios inconscientes de nossa alma, com o palpitar de nossa vida e nos abre para os irmãos e irmãs” (Grün, 2001, p. 53).
A acolhida cordial e sincera, seguida de uma atitude de escuta atenta e interessada no que a pessoa diz e como diz, cria uma atmosfera favorável à comunicação (Feldman e Miranda, 2001). A disponibilidade do padre-conselheiro para escutar e ajudar, constitui, para o aconselhando, um sinal da acolhida demonstrada pelo próprio Jesus Cristo para as pessoas que dele precisaram (Giordani, 1985).
Segundo Giordani, esta postura não pode se limitar ao momento inicial do encontro, mas deve acompanhar todo o diálogo e exige do sacerdote três atitudes: a atenção física, que deixa evidente para o aconselhando a disponibilidade do
conselheiro; a observação para captar sinais não verbais, pois os comportamentos são formas de comunicação preciosas; e um escutar atento que expressa uma participação profunda e a implicação do padre-conselheiro na situação da pessoa.
A capacidade de escuta não se restringe à pessoa do aconselhando, envolve também a escuta de si mesmo e de Deus. A abertura que o padre dá aos seus pensamentos e sentimentos, bem como à expressão dos mesmos, está diretamente relacionada a sua autenticidade:
“Se o conselheiro espiritual é autêntico, será capaz de estabelecer uma relação plena e genuína consigo mesmo, com os outros e também com Deus. Esta liberdade se baseia, a nível humano, em uma concepção positiva da natureza, e numa perspectiva sobrenatural, se converte em uma manifestação de fé em Deus, que é Pai e que aceita a cada um de nós sem impor condições. Só o conselheiro espiritual autêntico estará apto para acompanhar as pessoas na conquista de sua liberdade e do valor necessário para chegar a ser elas mesmas e de alimentar uma plena confiança em Deus11” (Giordani, 1985, p.115)
A possibilidade de escutar a Deus, através da manifestação do Espírito Santo, nos leva a ver o aconselhamento espiritual como um emaranhado entre aspectos humanos e divinos. Existem, por um lado, as capacidades, habilidades e atitudes humanas e, por outro lado, aquilo que é divino, inexplicável, intocável, mas que pode ser vivido no atendimento espiritual.
Angeli (2008) não só admite a presença do mistério na situação do aconselhamento espiritual, como postula a existência de uma relação triangular que conta sempre com a presença de um terceiro: Deus. Tal princípio afirma que o sacerdote deve deixar um espaço amplo para a ação da graça divina; isso exige que ele se recorde que é um representante, um porta voz, um mensageiro de Deus, o qual tem a função de se fazer ponte entre o aconselhando e Deus.
No decorrer do encontro, aconselhando e conselheiro apreciam a situação, vivida pelo primeiro, em busca de seus sentidos e significados. Nisso consiste a função de avaliação ou apreciação. Com o objetivo de unir a pessoa a Deus e de levá-la a perceber a sua situação, a partir dos ensinamentos de Jesus Cristo e da Igreja Católica, o padre-conselheiro tenta ampliar a percepção do aconselhando. Para isso, pode se valer de citações bíblicas, da vida dos santos, dos ensinamentos
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e informações sobre a doutrina da Igreja e de todo o conhecimento filosófico, teológico e psicológico que possui.
A experiência de levar a pessoa a ver uma dada situação com maior clareza encontra-se na narração de Lucas (Lc 24, 13-34), em que Cléofas e um outro discípulo encontram Jesus no caminho de Emaús. Eles puseram-se a caminhar, na tarde do terceiro dia, depois da ressurreição, rumo à aldeia que distava a aproximadamente duas horas, a pé, da capital. Por todo o trajeto, os dois não paravam de falar a respeito da morte de Jesus. O sol já descambava quando o próprio Jesus se juntou a eles. Os seus olhos, porém, estavam como que fechados, de modo que não o reconheceram. Ele lhes perguntou o porquê daquela tristeza evidente. Admirado, Cléofas comentou que ele, por ser forasteiro, devia ser o único