5.3.2 Débit de la source annoncée avec sélection tardive
5.3.2.2 Débit de la source
Donald Winnicott (1896-1971) não discute, em sua obra, as aproximações e os distanciamentos existentes entre o atendimento realizado por psicólogos e líderes religiosos. Entretanto, seus seguidores interessados em psicologia da religião têm apresentado grandes contribuições para a discussão dessa temática (Jones, 2002). Destacarei, aqui, as reflexões do psicanalista winnicottiano Mário Aletti (2007, 2008) sobre o assunto.
Aletti (2008) lança algumas reflexões acerca das semelhanças e diferenças entre o acompanhamento espiritual e a intervenção psicológica. Com o termo acompanhamento espiritual, ele se refere indistintamente às diferentes consultas pastorais que podem ser muito diversificadas entre si. Utiliza a expressão intervenção psicológica, por sua vez, no contexto psicanalítico, interessado “em compreender, explicitar e aprofundar as raízes representacionais, motivacionais e relacionais da conduta” (p. 26).
Para Aletti, tanto o acompanhamento espiritual quanto a análise de uma pessoa que crê, visam a uma religiosidade que se configure como um relacionamento amadurecido com um Deus, significativo do ponto de vista psicodinâmico, ou seja, com uma representação de Deus integrada e coerente com o conjunto do psiquismo do próprio sujeito (Aletti, 2007). No entanto, para ele, as duas modalidades de ajuda possuem objetivos distintos. O objetivo da psicoterapia é a libertação da personalidade como um todo e a emergência da verdade do sujeito, da qual a religiosidade é apenas uma das facetas envolvidas. Já para o acompanhamento espiritual, a finalidade específica e, muitas vezes, única, é o amadurecimento da fé da pessoa.
Aletti (2008) propõe diversos temas de “confronto entre a ‘cura’ psicológica e o ‘cuidado’ que sustenta também a intervenção do conselheiro espiritual” (p. 28). Ele privilegia o aspecto relacional, dando ênfase à figura de quem dá ajuda e não daquele que a recebe, considerando que ambos os casos se configuram como uma relação assimétrica em que o analista ou o conselheiro espiritual não pode prescindir de abstinência e neutralidade.
A assimetria que caracteriza a intervenção psicológica e o acompanhamento espiritual é constantemente reconhecida e aceita pelos envolvidos. Aletti (2008) acredita que essa característica não tira, daquele que pede ajuda, a sua responsabilidade pelo processo relacional e pelas decisões de sua própria vida, mas coloca necessariamente uma maior responsabilidade pelo processo, no guia. O autor acrescenta:
“Como todas as relações assimétricas, a relação de ajuda é exposta ao risco da sedução (...) A sedução é um descambar sobre os planos da dinâmica relacional, da assimetria da diversidade para a assimetria da complementariedade e da assimilação do outro. Quando, ao contrário, o bom mestre estimula no discípulo o desejo da diversificação e da superação; indica um caminho que ele
percorreu até certo ponto, mas que nunca termina, buscando uma meta que nunca foi alcançada, que está aberta a possíveis novos percursos, porque ao mestre se pede, ao caminhar, que ensine um método e não que fixe uma meta” (p. 31)
A responsabilidade entre os dois envolvidos é menor quando não é determinado o êxito do percurso de ajuda previamente. Aletti (2007) ressalta que, mesmo no discernimento vocacional, o êxito do itinerário do seminarista não pode ser garantido. De forma semelhante, o analista não pode dar garantias da mudança de atitudes por parte de seu analisando.
Segundo esse psicanalista, a cura deve ser orientada pelo bem-estar de quem pede ajuda e não pela gratificação pessoal daquele que ajuda (Aletti, 2008). Todas as intervenções feitas pelo guia devem resultar de um questionamento: “aquilo que eu falo/faço serve a mim ou ao meu paciente/aconselhando?” (p. 33). Dessa forma, o analista ou o conselheiro espiritual atingirá uma compreensão acerca da dinâmica transferencial e contratranferencial.
“É, igualmente, importante que o diretor (espiritual) seja consciente do que acontece nele e, através dele, estando atento à sua dinâmica inconsciente representacional, transferencial e contratransferencial” (p. 43)
A exigência da abstinência, para a psicanálise, possui uma relação profunda com a dinâmica da transferência e contratransferência. A relação emotiva, vivida pelo paciente, através da transferência, e pelo analista, por meio da contratransferência, é uma condição sine qua non para a análise e, de certo modo, para o acompanhamento espiritual:
“As motivações, os afetos e os aspectos relacionais inconscientes são importantes tanto na ajuda espiritual, quanto na psicanálise, porque eles entram numa relação humana, como ‘humus’ da troca verbal. A questão decisiva será em ser consciente disso e não o uso que fazemos disso. A psicoterapia, especialmente aquela psicanalítica, faz da exploração e interpretação da transferência e do desejo inconsciente o lugar para uma reestruturação de toda a vida afetiva, enquanto o acompanhamento espiritual visa o amadurecimento da relação com Deus, apoiada sobre o esclarecimento consciente e sobre o compromisso da vontade, além, certamente, da Graça Divina.” (p. 43)
Esta relação entre transferência e contratransferência não é uma relação de simpatia ou de facilitação da comunicação consciente entre paciente e analista. A
transferência exige do analista que se apresente como um lugar de projeção para as vivências do paciente as quais, embora estejam ligadas ao passado, são reapresentadas no decorrer da análise e colocadas em jogo, permitindo assim uma recontextualização dos afetos (Aletti, 2008). Para que isso seja possível, cabe ao analista uma posição de abstinência e de neutralidade, isto é, ele procura não invadir o campo perceptivo do paciente com suas vivências, julgamentos e experiências pessoais.
Os conceitos de abstinência e de neutralidade, oriundos da psicanálise, encontram diversos entraves no campo da ajuda espiritual. O conselheiro espiritual compartilha da mesma fé de quem lhe pede ajuda e é considerado como um mestre e um exemplo. Além disso, o acompanhamento espiritual é edificado sobre a experiência e o crescimento espiritual do conselheiro, de sua maturidade religiosa, da experiência pessoal com Deus e da capacidade de ser instrumento do amor de Deus.
A neutralidade consiste, basicamente, numa atitude disponível de reconhecer as escolhas de valor e os comportamentos da pessoa, sem influenciá-los. Embora a neutralidade não seja uma atitude esperada do conselheiro espiritual, Aletti (2007) sugere que o bom mestre espiritual é aquele que sabe que o processo de ajuda espiritual é marcado por avanços e regressões que devem ser compreendidos a partir das características e possibilidades do sujeito. Faz parte da neutralidade esperada do conselheiro espiritual o saber escutar, o saber abster-se da gratificação e do elogio, o saber esperar e o saber encontrar as palavras e expressões que reflitam a possibilidade de o aconselhando sentir-se como protagonista de seu próprio percurso.
“Uma intervenção do conselheiro espiritual que seja animada pela esperança de que Deus se manifesta e chama a pessoa através da relação instrumental com o ‘pai’ espiritual será sempre menos preocupada de ajudar e acelerar o crescimento, através dos conteúdos, das exortações, das prescrições, das proibições, das escolhas guiadas” (p. 41)
Para Aletti (2007; 2008), Deus é oferecido ao homem pela cultura, entretanto, o pensamento consciente de Deus, a imagem que cada um de nós faz Dele passam pelo filtro da representação mental pessoal. Voltando-se para os conhecimentos decorrentes da teoria winnicottiana, Aletti (2008) afirma: “podemos dizer que a
pessoa que acredita ‘re-cria’ a fé que ‘encontra’” (p. 22); e o bom conselheiro espiritual é aquele que dá espaço para que cada um de seus aconselhandos recrie sua fé, a partir das dificuldades vividas, no instante em que busca por acompanhamento espiritual.