Chapter 1 System V Compatibility Package
1.7. Library Routines in Release 3.2
Conforme abordado anteriormente, os estudos de jornalismo avançaram a partir da década de 1970, tanto em termos de quantidade de investigações quanto em relação a inovações metodológicas, de acordo com Traquina (1993, 2005). Conforme afirmado anteriormente, o autor explica que a partir desse período, estudiosos do jornalismo passaram a utilizar uma abordagem etnometodológica em suas investigações, na qual foram às redações para conhecer o processo de produção da notícia, técnica que também ficou conhecida como
newsmaking (TUCHMAN, 1978).
Para Traquina (2005), essa nova abordagem contribui para a compreensão do jornalismo de três maneiras: ao permitir que se percebesse a relevância da dimensão transorganizacional – a influência da comunidade jornalística – ao produzir a notícia; ao possibilitar reconhecer que as rotinas constituem um elemento essencial no processo de produção; ao rebater as teorias instrumentalistas que surgiram entre as décadas de 1970 e 80, as quais afirmam que há conspiração entre agentes sociais na produção da notícia e que há consciente intenção de distorção das informações na elaboração da notícia.
De acordo com Wolf (1987), a pesquisa sobre a produção da notícia (newsmaking) possibilita explicar adequada e aprofundadamente a distorção informativa que os fatores organizativos e estruturais constantemente produzem e reproduzem. Dessa maneira, serão apresentados alguns aspectos que fazem parte do processo de produção da notícia, que influenciam na sua composição e que muito contribuíram com os estudos acadêmicos do jornalismo.
O autor afirma que existem ao menos dois aspectos a serem observados na rotina jornalística. O primeiro é a maneira como o jornalista trabalha em relação às atividades práticas e desafios que enfrenta para realizar sua atividade. O segundo aspecto é como o jornalista realiza seu trabalho e quais as técnicas utiliza para a composição da notícia. Ambas as perspectivas estão interligadas, mas foram destacadas apenas para uma melhor compreensão.
Segundo Tuchman (1993), geralmente o jornalista tem ao menos um dia de trabalho para recolher informações e compor uma notícia. A exceção ocorre se estiver trabalhando em uma investigação prolongada. Por isso, é importante ressaltar que um dos grandes desafios na produção da notícia dentro da rotina prática do jornalista é o tempo. De acordo com Traquina (1993, p. 175), “o trabalho jornalístico é uma atividade prática onde os profissionais lutam contra a tirania da hora do fecho”. Porém, o tempo está ainda inserido no conceito de
atualidade e novidade, aspectos perseguidos pelos repórteres para compor as notícias, destaca o autor.
A partir de um estudo realizado na BBC, Corporação Britânica de Radiodifusão, Schlesinger (1993) afirma que o dia noticioso começa com uma reunião dos editores por volta das 9h30 da manhã. É quando as perspectivas de notícia são analisadas, em uma primeira fase de seleção. A próxima fase de seleção de notícias começa quando outro editor começa a escrever a pauta para o boletim seguinte. Em função do centro do estudo ser focado em uma emissora, são apresentados três horários de fechamento para as notícias.
Grande parte dessa corrida dos jornalistas contra o deadline ocorre no ciclo do dia noticioso, como as hard news ou notícias factuais, e as spot news, uma subclassificação da anterior, relativas a fatos inesperados como desastres naturais, grandes acidentes, incêndios, golpes de estado, dentre outras que exigem imediatismo dos jornalistas (SCHLESINGER, 1993; TUCHMAN, 1978). Contudo, há também a cobertura noticiosa que é planejada antes do dia dos acontecimentos, como a soft news, o que possibilita fazer reportagens mais maleáveis quanto ao fator tempo e são mais trabalhadas, ressalvam os autores. Tuchman (1978) apresenta uma clássica diferenciação entre hard news e soft news. A primeira é importante para o ser humano e a segunda é interessante porque lida com a vida de dos seres humanos, afirma a autora. A autora destaca, ainda, outros dois tipos de notícias: a developing
news e a continuing news. No primeiro caso, é uma subclassificação da hard news em que os eventos acontecem e seguem em desenvolvimento. No segundo caso, trata-se das notícias que contam com continuidade, como a discussão de uma Lei, campanhas eleitorais, guerras, dentre outros.
De forma similar, Molotoch e Lester (1993) classificam os acontecimentos de quatro maneiras: 1) de rotina, quando o acontecimento é intencional e as pessoas que se encarregam do acontecimento são as mesmas que promovem o evento; 2) acidentes, quando o fato não é intencional e quem o promove como acontecimento público não é a mesma que o originou; 3) escândalos, quando ocorre a partir da atividade intencional de um indivíduo, que não participa do processo de produção da notícia; 4) serendipity,4quando o acontecimento não é planejado, mas é promovido pelo próprio jornalista, os fatos surgem a partir da descoberta do repórter. O primeiro, segundo os autores, é o que ocorre mais comumente.
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Serendipity, significa a faculdade ou talento para fazer uma descoberta por acaso, involuntariamente (MOLOTOCH; LESTER, 1993, p. 49).
Sobre a distribuição da rotina jornalística no tempo, Traquina (2005) destaca que as empresas jornalísticas esperam que os acontecimentos julgados com valor-notícia ocorram nas horas normais de trabalho, quando há um número maior de repórteres e fotógrafos disponíveis para produzir notícias. Acontecimentos antes ou depois dos horários previstos devem apresentar importância que justifique o deslocamento de um jornalista para cobri-los.
O texto pronto do repórter, necessariamente passa por uma “cadeia organizacional” que é composta por vários editores e assistentes, de acordo com Breed (1993). Cada um deles faz ressalvas ao texto até que ele se aproxime das preferências da linha editorial do jornal e seja publicado. Caso o texto esteja inadequado ao que é esperado pelos editores, o repórter vai saber, porque ele será publicado com alterações ou não será publicado. Após a publicação, todos criticam a notícia. Segundo o autor, todo jornal tem uma política editorial que é determinada pelo dono da empresa. Quando o repórter infringe essa política – que não é claramente exposta aos novatos, o jornalista tem de aprender por “osmose” – sofre algum tipo de sanção, como ser passado para uma categoria inferior na carreira. Para entender o sistema de recompensas, Darnton (1990) afirma que o repórter tem que aprender a “ler o sistema hierárquico” da redação. A partir da avaliação da dinâmica da redação, o autor afirma que o repórter que recebe boas coberturas durante semanas tende a se mudar para uma mesa próxima do editor, contudo, se o jornalista faz constantes matérias ruins, ficará estagnado em sua posição atual ou será “exilado”. Ao ler o “mapa”, o repórter pode saber onde está e para onde está indo, afirma o autor. Conforme apresentado na discussão de teoria organizacional, esse é um dos motivos que, segundo Breed (1993), os jornalistas acabam cedendo às políticas editoriais do jornal sem grandes contestações, desde que elas não infrinjam os códigos de ética da profissão.
Além de tentar impor ordem ao tempo, as empresas jornalísticas tentam impor ordem ao espaço, acredita Tuchman (1978). A autora afirma que baseado no interesse do leitor pelas notícias, os veículos de comunicação usam três estratégias para conseguir ordenar o espaço: a territorialidade geográfica, quando as empresas dividem o mundo em áreas de responsabilidade territorial; a especialização organizacional, quando trabalham com correspondentes em organizações que acreditam que possam produzir acontecimentos que gerem noticiabilidade; e a especialização em relação aos temas, uma vez que as empresas jornalísticas se dividem em seções que preenchem algumas rubricas do jornal. Com isso, a depender do enfoque do jornal e da intensidade do fato, acontecimentos considerados notícia devem ocorrer em algumas regiões, mas não em outras, afirma.
É possível entender ainda melhor a rotina do jornalista ao se apresentar a maneira como produzem as notícias. Para a construção da notícia, o jornalista considera alguns critérios que o protege das críticas, os quais Tuchman (1993) chama de “ritual estratégico da objetividade”. Conforme explicado anteriormente neste capítulo, ao realizá-lo, o jornalista utiliza alguns procedimentos para ser o mais objetivo possível nas notícias, uma vez que a total objetividade não é considerada possível pela autora e diversos outros pesquisadores. Outro critério importante que é adotado na produção das notícias é o senso comum. Trata-se de uma referência ao conhecimento que pertence a todos e é tomado como adquirido. Segundo Tuchman (1993, p. 87), o senso comum determina se uma informação pode ser aceita como fato e acrescenta que “os jornalistas não publicam fatos com informações que contradigam o senso comum”. Ainda de acordo com a autora, a seleção das notícias que entram ou não no jornal são baseadas no newjudgement, que é a capacidade do jornalista de fazer julgamentos a partir de sua experiência com as relações interorganizacionais, com a organização onde trabalha e com outras organizações buscando critérios que enfatizem sua objetividade.
A busca pela objetividade como ritual estratégico (TUCHMAN, 1993) é também uma maneira do jornalista manifestar seu profissionalismo, afirma Soloski (1993). Baseado em Roscho (1975), o autor acredita que nesse caso, a objetividade não está nas notícias, mas no comportamento dos jornalistas na produção das notícias. Dessa maneira, ao buscar a objetividade os jornalistas estariam buscando relatar os fatos da maneira mais imparcial e equilibrada possível.
O profissionalismo é utilizado como um método através do qual as empresas jornalísticas controlam o comportamento dos repórteres e editores, afirma Soloski, (1993). Para o autor, é um mecanismo de controle transorganizacional que oferece liberdade ao jornalista, e para limitar ainda mais o comportamento dos funcionários, as empresas implantam as próprias políticas editoriais que devem ser seguidas por todos. Como consequência, o profissionalismo possibilita o controle do comportamento dos jornalistas ao estabelecer padrões e normas e ao determinar o sistema de recompensa profissional, aspecto já abordado anteriormente neste capítulo.
Para as empresas o controle sobre os jornalistas é importante porque a sua credibilidade está relacionada com a sua “capacidade de manter a integridade da sua operação jornalística” (SOLOSKI, 1993, p. 96). Por outro lado, ao serem considerados os controles interorganizacionais, o profissionalismo jornalístico protege os jornalistas da intervenção da
direção do jornal, permitindo a ele desviar de alguns desejos da direção sem se comprometer, destaca ainda o autor.
O uso criterioso das fontes pelos jornalistas é um dos procedimentos cobertos pelas regras do profissionalismo e da política editorial de diversos veículos de comunicação. “Uma fonte é uma pessoa que o jornalista observa ou entrevista e que fornece informações. Pode ser potencialmente qualquer pessoa envolvida, conhecedora ou testemunha de determinado acontecimento ou assunto” (TRAQUINA, 2005, p. 190).
Segundo Tuchman (1993, p. 85), ao selecionar a fonte o jornalista faz algumas generalizações, como: precisa saber se ela tem credibilidade, uma vez que entende que a maioria dos indivíduos tem interesses pessoais a defender; os presidentes das comissões estão em uma posição em que sabem mais que as outras pessoas em uma organização e por terem fatos à disposição deles devem ter informações mais precisas; as instituições e organizações têm procedimentos destinados a proteger tanto a instituição como as pessoas que estão em contato com ela, por isso as afirmações devem ser avaliadas com cautela.
Traquina (2005) simplifica os critérios utilizados para seleção de fontes pelos jornalistas em três aspectos: a autoridade, a produtividade, a credibilidade da fonte. Quanto à autoridade, assim como Tuchman, o autor afirma que os jornalistas preferem fazer referência a fontes oficiais ou que ocupam cargos institucionais de autoridade. A produtividade diz respeito às fontes que fornecem materiais suficientes para a produção da notícia, sem que o jornalista precise buscar muito mais informações. O autor acredita que a produtividade é uma das razões para o jornalista preferir fontes institucionais. E a credibilidade da fonte está relacionada à necessidade que tem o jornalista de ter acesso a informações que possa confiar, sem ter que investigar muito para comprová-las.
Diante dessas generalizações, Traquina (1993) conclui que, para os jornalistas, quanto maior a autoridade da fonte, mais credibilidade ela tem, o que leva as fontes oficiais a corresponderem mais às expectativas dos jornalistas que as demais. Com isso, elas tendem a ter maior contato com o campo jornalístico e por isso são favorecidas no processo de produção de notícias. Também por essa razão, conforme afirma Hall e colaboradores (1993, p. 229), os media tendem “a reproduzir simbolicamente a estrutura de poder existente na ordem institucional da sociedade”. Traquina (1993) destaca, ainda, que situação inversa é também verdadeira uma vez que outros agentes sociais não têm acesso regular aos veículos de comunicação.
Molotoch e Lester (1993) distinguem o acesso da sociedade aos media de três maneiras: acesso habitual, disruptivo e direto. O primeiro caso ocorre quando as necessidades
de acontecimento de um indivíduo ou grupo normalmente coincidem com as demandas de produção jornalística. Os funcionários do governo com cargos de relevância são um exemplo disso. Os autores afirmam que o “acesso de rotina é uma das importantes fontes e sustentáculos das relações existentes de poder” (MOLOTOCH; LESTER, 1993, p. 44).
O acesso disruptivo ocorre quando um indivíduo ou grupo que apresenta pouco poder tem de fazer notícia gerando a surpresa, o choque ou uma forma de agitação do mundo social gerando acontecimentos antirrotina e estimulando a cobertura dos veículos de comunicação. Um exemplo disso são as manifestações nas cidades que param o trânsito, intervêm no plano diário de uma localidade, em busca de atenção de um problema ou causa de um grupo. Por fim, o acesso direto ocorre quando o próprio jornalista descobre algo, investiga e a informação obtida se torna notícia. A avaliação dos autores quanto à preferência dos jornalistas pelas fontes oficiais será reforçada pelos resultados de uma análise de conteúdo realizada no noticiário político do jornal Folha de S. Paulo e que será apresentada no capítulo 3 deste trabalho.
O propósito desta parte do capítulo foi contextualizar o jornalismo a partir de seus valores, das teorias utilizadas para os estudos de seu conteúdo e do seu modo de produção. Como afirma Darnton (1990, p. 96), “o contexto do trabalho modela o conteúdo da notícia, e as matérias também adquirem forma, sob a influência de técnicas herdadas de contar histórias”. Dessa maneira, entende-se que é possível compreender melhor o noticiário atual, assim como porque as notícias têm o perfil que têm na contemporaneidade e ainda apreender quais aspectos podem ser melhorados. A seguir, serão apresentados aspectos considerados importantes na seleção do que deve ser noticiável.