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Da mesma maneira que há uma grande diversidade de conceitos de enquadramento para a realização de estudos de framing, há também diversas possibilidades de investigações. Segundo Vimieiro e Maia (2011, p. 236), nos anos 1990 e início dos anos 2000 diversos autores buscaram estruturar frame conceitualmente e dessa maneira visaram estabelecer uma diferenciação de modelos e conceitos de enquadramento. Dessa maneira, o campo passou a contar com “diferentes perspectivas fundamentadas em noções distintas de enquadramento ou em paradigmas diferenciados”.

Dessa forma, Porto (2004) afirma que em função do forte indeterminismo conceitual do enquadramento, ao realizar uma pesquisa é necessário especificar os níveis de análise do conceito e definir mais claramente os enquadramentos a serem utilizados.

Os estudos de enquadramento partem do que Matthes e Kohring (2008) chamam de abordagem metodológica dedutiva e indutiva. Segundo Semetko e Valkenburg (2000), a abordagem indutiva envolve a análise de uma nova história com uma visão aberta para tentar revelar a matriz de quadros possíveis, começando com conceitos muito vagamente definidos desses frames. De forma oposta, a dedutiva envolve certos frames predefinidos como variáveis do conteúdo analítico para verificar a incidência desses frames na imprensa. Essa abordagem se faz necessária para se ter uma clara ideia de quais tipos de enquadramentos são susceptíveis a estarem presentes nas notícias uma vez que os frames não predefinidos podem ser negligenciados. O presente trabalho se focará em alguns modelos de frames da abordagem dedutiva.

Diversos autores desenvolveram estudos que criaram modelos de enquadramentos. Ao investigar como o tema responsabilidade aparece na televisão e qual o enquadramento utilizado para o tema, Iyengar (1991) propõe dois tipos de enquadramentos: os “enquadramentos episódicos”, que são focados em eventos específicos, e os “enquadramentos temáticos”, que destacam um contexto analítico mais geral das notícias, que não se restringe apenas aos fatos. A partir de um estudo de experimentos controlados e de surveys o autor chega à conclusão de que os enquadramentos episódicos levam as pessoas a atribuírem a responsabilidade por problemas políticos e sociais a indivíduos ao invés de considerar questões sociais mais amplas. Dessa forma, o autor acredita que perde visibilidade a relação entre os problemas apresentados e o papel de líderes políticos. Como os enquadramentos episódico e temático têm sentido opostos, a presença de um, exclui a do outro.

Para realizar sua investigação, Semetko e Valkenburg (2000) usaram como base o trabalho de Neuman e colaboradores (1992), que pesquisaram a ocorrência de diversos frames comuns nas coberturas noticiosa dos Estados Unidos em meio a uma série de questões. Dessa maneira, Semetko e Valkenburg (2000) trabalharam com cinco modelos de frames concomitantes em uma investigação do noticiário televisivo e impresso holandês durante a cobertura da reunião entre líderes europeus para finalizar um acordo sobre a união monetária, em 1997, na Holanda. Os autores trabalharam com os frames conflito, interesse humano, consequências econômicas, moralidade e responsabilidade. Eles são descritos pelos pesquisadores da seguinte forma:

Conflito - enfatiza o conflito entre indivíduos, grupos ou instituições com o objetivo de captar interesse da audiência. Baseados em trabalhos de Cappella e Jamieson (1997), os autores afirmam que em função da ênfase no conflito, as notícias têm sido criticadas por induzirem o cinismo público e a falta de confiança nos líderes políticos.

Interesse humano - este enquadramento traz uma face humana e um ângulo emocional para apresentar um evento, questão ou problema. Refere-se a um esforço para personalizar as notícias, dramatizar ou tornar as notícias emocionais com o objetivo de capturar e reter o interesse da audiência.

Consequências econômicas - retrata um evento, problema ou questão em termos da consequência econômica que causará a um indivíduo, grupo instituição, região ou país.

Moralidade - coloca o evento, problema ou questão no contexto de doutrinas religiosas ou prescrições morais. Em função das regras profissionais de objetividade, jornalistas frequentemente fazem referências a enquadramentos morais indiretamente – por citação, tendo alguém (alguma fonte) que levante a questão. Um jornal pode, por exemplo, usar os pontos de vista de um grupo de interesse para levantar questões sobre a transmissão sexual de doenças, por exemplo. A notícia pode conter mensagens morais ou oferecer uma prescrição moral específica sobre como se comportar.

Responsabilidade - este enquadramento apresenta uma questão ou problema de forma a atribuir responsabilidade para a sua causa ou soluções ao governo, a um indivíduo ou grupo. Embora a existência de enquadramento de responsabilidade nas notícias não tenha sido mensurada explicitamente, os veículos de comunicação americanos têm sido responsabilizados por moldar o entendimento público quanto a quem é o responsável por causar ou resolver importantes problemas sociais, como a pobreza (IYENGAR, 1987).

Como um de seus resultados, os autores detectaram que o frame mais comum no noticiário estudado foi o de atribuição de responsabilidade, seguido de conflito, consequência econômica, interesse humano e por fim moralidade. Além disso, os três primeiros eram mais comuns aos noticiários impressos, sérios e sóbrios e os dois últimos mais comuns à televisão, especialmente aos programas sensacionalistas.

Com o objetivo de especificar os diferentes níveis de estudos, Porto (2004) propõe dois modelos de enquadramento para análise de conteúdo: os “enquadramentos noticiosos” e os “enquadramentos interpretativos”. Segundo o autor, enquadramentos noticiosos – “são padrões de apresentação, seleção e ênfase utilizados por jornalistas para organizar seus relatos” (PORTO, 2004, p. 91-92). Seria, o “ângulo da notícia”. Em geral os enquadramentos noticiosos são criados por jornalistas e são resultado das escolhas deles quanto ao formato das matérias, que têm como consequência a ênfase seletiva em determinados aspectos de uma realidade. Enquadramentos interpretativos – operam em um nível mais específico e têm uma independência relativa em relação aos jornalistas que os relatam. São “padrões de interpretação que geram uma avaliação particular de temas e /ou eventos políticos, incluindo definições de problemas, avaliações sobre causas e responsabilidades, recomendações de tratamento, etc.”. O autor afirma que os enquadramentos interpretativos têm origem, em geral, em atores sociais e políticos externos à prática jornalística. Destaca, ainda que os jornalistas citam outros autores para promover interpretações específicas da realidade política.

O autor destaca que a diferença entre os dois enquadramentos está, principalmente na fonte da informação. Ressalva que é possível trabalhar com os dois modelos de enquadramentos simultaneamente em uma pesquisa, mas em níveis diferentes de análises, como o próprio Porto (2001) realizou ao investigar a cobertura da Folha de S. Paulo das Eleições dos Estados Unidos em 2000. Em um primeiro momento o autor analisou os enquadramentos noticiosos presentes no conteúdo do período eleitoral daquele país. Em um segundo momento, analisou os enquadramentos interpretativos presentes em um evento em específico das eleições: a cobertura dos conflitos da apuração dos votos.

Os modelos de enquadramentos discutidos neste capítulo serão desenvolvidos em pesquisa empírica do capítulo 3 deste trabalho. Outros modelos de enquadramentos que são bastante conhecidos são: enquadramento de cavalos, muito utilizado em estudos que abordam disputas eleitorais, em que o foco das notícias recaem em quem está na frente em termos de intenções de votos; e o enquadramento dramático, no qual as notícias contam com elementos de violência, conflito e perigo (PORTO, 2004). Contudo, por não corresponderem ao perfil da pesquisa esses não serão usados como base da investigação deste trabalho.

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