O contexto em que o QE foi desenvolvido já pode ser percebido quando falamos das suas fontes literárias. A maioria dos estudiosos não conseguia ver o QE como um livro que foi preparado de uma só vez, mas como resultado de um processo que se desenvolveu a partir de memórias, conflitos e textos em extratos. No entanto, nem sempre é fácil relacionar os diferentes estratos para as sucessivas fases de composição do evangelho.
Ashton (2007, p. 107) afirma que “às vezes, estes são tão intrinsecamente ligados que não há nenhuma costura literária visível”, mas mesmo para fins de argumentação, para que se possa conceder a presença de estratos separados, ainda temos de nos confrontar com a tarefa de decidir o que veio primeiro, mesmo que seja uma inferência, embora respaldados pelo bom senso e pelo texto, bem como pelos estudos já realizados ao longo da história.
Ashton (2007, p. 107) também afirma que mesmo a Fonte Sinais, a mais aceitável das teorias de Grundschrift, como a carta de fundação da comunidade e primeira expressão escrita da sua fé, não pode ser reconstruída com tanta confiança. Na tentativa de entender as fases de desenvolvimento do livro precisamos contar com a história da comunidade que lia o livro, pois ambas estão sempre conectadas. Martyn (1968, p. 90), distingue três períodos na história da comunidade:
1- O período inicial envolve "a concepção de um grupo messiânico dentro da comunidade da sinagoga". Antes da fundação da comunidade houve uma disputa entre os discípulos de Jesus e os de João Batista; essa disputa estaria na pré-história da comunidade. 2- No segundo período "parte do grupo nasce como uma comunidade separada por
experimentar dois traumas principais: a excomunhão da sinagoga e o martírio"; Se compararmos a versão de Martyn da história da comunidade com a versão de Brown em seu comentário da história do QE, veremos que elas divergem em um ponto importante. Apenas na fase 4 (a segunda edição do Evangelho) Brown fala de "uma adaptação da história do cego à nova situação no final dos anos 80 ou 90, que em que ocorreu a excomunhão dos judeus que acreditavam em Jesus como o Messias da sinagoga". Para Martyn a primeira edição do Evangelho não foi publicada até depois desse evento traumático.
3- O período final, que é caracterizado por Martyn como um "movimento em direção a configurações sociais e teológicas fortes”; o que tinha sido um grupo interno da sinagoga de judeus cristãos agora se tornou - contra a sua vontade - uma comunidade separada dos judeus cristãos" (idem). A experiência traumática da excomunhão pôs um selo sobre o que deve ter sido um crescente sentimento de alienação e, sem dúvida, isolamento.
O QE na visão de Martyn seria uma obra que narra a história de um evento real na vida da
comunidade de tal modo que pode ser visto como uma reconstrução de um episódio no ministério
de Jesus. Por exemplo, o capítulo 9 (a cura do cego), que plausivelmente constrói um drama. Todos os principais protagonistas têm as próprias analogias na experiência da comunidade: o cego seria um convertido cristão, o Sinédrio, o conselho local judaico; Jesus é um profeta do último dia que fala em seu nome. Os pais do cego são membros da comunidade joanina.
A relação entre a história da comunidade e o desenvolvimento do QE também foi consideravelmente trabalhada por Sénen Vidal, que sintetizou em sua obra autores como Bultmann, Wengst, Brown, Culmann, Boismard e os harmonizou em sua teoria18. Segundo Vidal, as tradições básicas (TB) consistiram em textos de origem diversas, relativos a ações/ditos de Jesus. Estes são os textos mais primitivos e, portanto, mais próximos do Jesus histórico e que estão na base dos demais Evangelhos.
Nessa base estão os relatos sobre Jesus e sobre João Batista (1,19-33; 1,37-49; 3,23-30), tendo uma clara intenção apologética, assim também o relato independente da conversão dos samaritanos em Sicar (4,5-41). A estes foi acrescentada certa coleção de milagres, que transparecem em Marcos, bem como os relatos da paixão, fonte comum também aos Sinóticos.
Vidal afirma que o primeiro escrito do QE seria o texto surgido do trabalho redacional inicial, no qual foram unidas as tradições básicas (relatos sobre João Batista, de milagres, da
18VIDAL, S. Los escritos originales de la comunidad del discípulo “amigo” de JesúsSígueme Ediciones,
paixão), na forma de uma história da paixão de Jesus, mas com a intenção de ser uma etiologia da comunidade joanina (E1).
A trajetória do Jesus joanino é lida como reflexo da trajetória histórica da comunidade joanina, assim o contexto sócio-histórico seria do conflito com as autoridades farisaicas e a expulsão da sinagoga nos anos 80. Dessa forma teria surgido o segundo Evangelho com a releitura dos primeiros escritos sob nova ótica (E2). Isto teria acontecido provavelmente na década de 90– 100, marcada por grandes perseguições aos cristãos em geral. Em seguida, uma nova edição teria sido feita pela comunidade joanina (E3) com novas glossas ao longo do texto e o cap. 21.
Vidal também salienta que a comunidade joanina atravessava um processo de institucionalização apostólica, por isso existe no QE grande esforço com relação à ética do amor fraterno e à expectativa pelos acontecimentos escatológicos futuros. Vidal conclui dizendo que o QE foi escrito por várias pessoas num largo espaço de tempo entre uma redação e outra, possivelmente unidos em torno de uma mesma tradição/memória ligada ao discípulo amado.
A história do desenvolvimento do livro, quando olhada a partir do prisma da comunidade, ajuda a esclarecer os processos de redação do QE e os motivos do desenvolvimento do livro, Nascimento (p. 35) observa que a crítica literária (análises estilísticas) ofereceu a possibilidade de delimitar os diversos documentos dentro de uma mesma obra ou dentro de uma determinada tradição.
Ao analisarmos o QE do ponto de vista de suas fases de desenvolvimento, é possível perceber diversos níveis literários e passagens que não parecem suficientemente pertinentes a seu contexto atual. Ashton chama “aporias” elementos presentes no texto e que indicam fases históricas literárias na sua composição. Rubeaux estaria certo ao afirmar que a obra literária foi elaborada lentamente numa tradição oral a partir de necessidades catequéticas, apologéticas, missionárias e de busca de identidade”19.