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Appendix A. Disk Labeling Conventions

No seu início, o cristianismo não era tão diferente do mundo que o cercava. Em sua obra sobre o Quarto Evangelho, Veloso (1984, p. 7) faz uma explanação que pode contribuir significativamente para os objetivos deste trabalho. De maneira bastante ampla, ele expõe as questões de debate em torno do QE e afirma que o propósito e os destinatários desse evangelho estão diretamente relacionados. O autor considera que o QE foi escrito com os seguintes propósitos apologéticos:

1- Contra os discípulos de João: a existência dos discípulos de João Batista pode ter chegado ao ano 300, ocasionando grande confusão com os cristãos na Palestina e na Síria, e o mesmo pode ter ocorrido na Ásia Menor (VELOSO, 1984, p. 7). Em Atos 19:1-7 surge uma menção aos seguidores de João Batista. Com base em “As homilias pseudoclementinas”, Veloso mostra que a rivalidade entre os cristãos e os discípulos de Batista girava em torno da pessoa do Messias, que para o primeiro grupo era Jesus e para o segundo era o próprio João. Nesse ponto o autor concorda com Brown (1966, p. XVIII) no sentido de que as aparições de João Batista no QE foram feitas com a intenção de combater um conflito existente entre os seguidores de ambos (VELOSO, 1984, p. 8);

2- Contra os cristãos heréticos: a hipótese de que o QE teria sido escrito para refutar ideias de cristãos hereges presentes na comunidade não encontra apoio dentro do próprio evangelho.

Segundo Veloso, o QE “fala pouco contra as ideias de Cerinto e mesmo que apareçam refutações aos ebionitas ou aos gnósticos, não são suficientes para justificar a tese de que esta era a principal preocupação de João” (VELOSO, 1984, p. 8);

3- Contra os judeus: é necessário admitir uma crítica do evangelho contra a posição religiosa do judaísmo; no entanto, Veloso lembra que, no QE, nenhuma hipótese deve ser considerada de maneira independente das demais (VELOSO, 1984, p. 8).

Em sua referenciada obra A Comunidade do discípulo amado, Raymond Brown (2000, p. 74) ressalta a pluralidade dos grupos que diziam acreditar em Jesus, afirmando que “o autor do quarto evangelho escreve sobre um grupo que dizia acreditar em Jesus, mas que não eram verdadeiros crentes”. De fato, o QE reflete o pensamento desse grupo de judeus em João 8:31: “Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam acreditado nele: se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos”. Brown (2000, p. 74-92) também sugere um outro grupo30

revelado no texto de João 14: 9, pelo qual Felipe, apesar de ter permanecido junto a Jesus durante longo tempo, ainda não O conhecia, representando assim um grupo de cristãos que não tinham uma compreensão correta sobre Ele. O autor aponta, ainda, para um terceiro grupo em João 12:41-42, onde se lê: “Contudo muitos dentre as autoridades creram nele, contudo não o confessavam para não serem expulsos da sinagoga. Porque amaram mais a glória dos homens que a glória de Deus”. Em vista disso, Brown declara terem existido três grupos de cristãos no primeiro século, fora dos círculos joaninos, que ele denomina como (1) cripto-cristãos, (2) cristãos judeus de fé inadequada e (3) cristãos das igrejas apostólicas.

O primeiro grupo – os cripto-cristãos – corresponde a um grupo de judeus que se sentia atraído pela mensagem de Jesus como Messias, mas embora cressem nEle como o Messias, não o confessavam ou seguiam publicamente31, isso devido ao medo dos judeus. Em 8:31 e 12:42-43, o

30 É importante destacar que BROWN (2000, p. 64-73) reconhece a existência de seis grupos em volta da comunidade joanina: os três primeiros grupos são os chamados de não crentes: o mundo, os judeus e os adeptos de João Batista. 31 Brown evita classificar Nicodemos como um cripto-cristão. Para ele, Nicodemos ilustra uma classe de pessoas que não entenderam totalmente quem era Jesus, mas sua compreensão foi aumentando gradualmente até O reconhecerem publicamente.

QE declara que esse grupo temia ser expulso da sinagoga. Brown (2000, p. 74-92) sugere que esses judeus, embora vissem Jesus como o Messias, não o confessavam publicamente, o que, na realidade, indicava que não criam nEle verdadeiramente. De acordo com o autor, “fizeram a opção de serem conhecidos como discípulos de Moisés e não como discípulos de alguém que não sabiam de onde é” (Jo 9:28).

Já os cristãos judeus de fé inadequada representam aqueles que publicamente seguiam Jesus, embora – de acordo com João 6:60-66 – não tivessem uma compreensão clara de quem Ele era. Pensavam, porém, que era um tipo de Messias rei-bélico e não o filho de Deus. Faziam parte deste grupo os doze discípulos (Jo 6:67), o que revela que mesmo estes não tinham o verdadeiro entendimento de quem era Ele (6:50-52).

O terceiro grupo é classificado por Brown (2000, p. 84-92) como os cristãos das igrejas apostólicas, apresentados em João 6:60-69. Esse grupo tem Pedro como seu porta-vozem 6:68, em que ele declara sua crença no Messias para a seguir negá-lo em João 18:25-27. Esse mesmo grupo abandona o Messias em 16:31, sendo que dele faz parte Felipe, que – como dito acima – depois de longo tempo andando com Jesus, ainda não O conhecia (Jo 14:9).

Paulo Garcia (2008, p. 91-97) afirma que o judaísmo do primeiro século estava “cercado de um grande número de movimentos e que de fato entender essa pluralidade judaica no início do século I é o primeiro limite para entender os conflitos que cercavam o ministério de Jesus e de seus seguidores”. Obviamente, pode-se depreender que, se esses grupos tanto judaicos quanto cristãos começaram a se destacar perante tantos outros grupos, foram os seus ensinamentos diante dos conflitos entre grupos religiosos que geraram uma diversidade de movimentos e interpretações. Para Garcia, o principal foco de posicionamento desses grupos girava em torno da lei e do Templo.

Se a pluralidade religiosa existente na Palestina durante o primeiro século era centrada em torno do Templo e da lei, como afirma Garcia, o ensaio de Scardelai (2008b) amplia essa tensão

do Templo, ou mais propriamente as transformações que ocorriam por ocasião do fim do segundo Templo em torno da crença do Messias–rei e do Messias Sofredor32.

O fato é que a visão plural do surgimento do cristianismo ajuda-nos a entender um pouco mais sobre o conflito existente dentro da comunidade. Richards (1995, p. 8) lembra que muitos têm uma falsa imagem do cristianismo como movimento único, com uma só estrutura e corpo doutrinário, acreditando que a pluralidade cristã veio a existir depois da sua afirmação como religião. Ao contrário, desde o seu início o cristianismo seguiu várias tendências e diversos modelos eclesiológicos.

O autor alerta para uma visão errônea das fontes apócrifas como “posteriores e heréticas” (p. 8), ao passo que muitas literaturas apócrifas “são tão antigas como os canônicos e contêm informações autênticas e verdadeiras sobre as origens do cristianismo”. Se Richards se revela um pouco exagerado em sua posição sobre a antiguidade dos apócrifos, isso é discutível; mas certamente os evangelhos apócrifos mostram uma visão cristã diversificada nos séculos II, III e IV, que provavelmente refletia um cristianismo plural que surgiu ainda no século I d.C.

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