TAUX DE FRACTIONNEMENT
LEVIER D’ACTION : P RELEVEMENTS
A partir desse momento, apresenta-se e discute-se os fatores capazes de facilitar e incentivar a participação voluntária dos mesários nas eleições, bem como aqueles que a inibem. Cabe ressaltar, que alguns dos fatores aventados podem desencadear resultados opostos, o que se deve, como explica a Teoria da Subjetividade de Rey, à maneira particular como os indivíduos apreendem a realidade e significam suas experiências, concretizando, assim, rotas singulares de produção de sentidos subjetivos.
Merece destaque a desconfiança que grande parcela da população sente em relação à classe política, incentivada e disseminada ao longo de uma trajetória histórica, em que figura um poder público constantemente abalado por escândalos e baseado no uso de artimanhas e em práticas de favorecimento enraizadas na nossa cultura até os dias de hoje e compartilhadas por seus atores políticos. Obstacularizando, como demonstram os diversos estudos mencionados no item 2.3 desta pesquisa, o desenvolvimento moral da democracia brasileira.
Nesse sentido, percebe-se que a “desconfiança na política” é geral entre os participantes da pesquisa, entretanto pode configurar-se em um fator capaz tanto de inibir, quanto de estimular à participação de voluntários no processo eleitoral. Na concepção dos participantes Gustavo e Fabrícia, por exemplo, não há nada que se possa fazer para mudar a situação política, pois consideram que todos os candidatos são “farinha do mesmo saco”.
Já para outros, como Tereza, Lourenço e Marcelo, a “desconfiança na política” parece funcionar como um impulso à participação, tanto como mesário quanto em outras ações, como propõe Marcelo:
“Quando tomamos à frente e participamos efetivamente da construção social, nos envolvendo em projetos sérios, sem ficar naquela de esperar que „outros‟ façam porque têm mais obrigação ou porque são pagos para isso, enxergamos que as coisas podem realmente melhorar, além de acontecerem com mais transparência” (CI).Cabe registrar, que foi
mesmo depositando esperanças nas eleições, como fonte geradora de mudanças sociais, ressalta a imensa dificuldade enfrentada pelos brasileiros na escolha de “um bom candidato”, o que gera certa tensão entre o valor que atribuem ao voto e a difícil tarefa de “escolher bem”, como se pôde apreender no depoimento de Tereza a seguir transcrito:
“Penso na dificuldade em se escolher um bom candidato, acredito na „força do voto‟, reconheço a importância de se escolher bem, é uma decisão que não pode ser errada (...). Mas, diante de tanta decepção, vem a questão: Qual o melhor candidato?” (QD).O fator
discutido que, sem dúvida, parece ter maior capacidade para estimular a participação voluntária no processo eleitoral são as “folgas”, garantidas como direito através do art. 98, da Lei 9.504/97, e do art. 1º, da Resolução TSE 22.747/2008, que dispõe (BRASIL, 2008, p. 365):
Art. 1º. Os eleitores nomeados para compor mesas receptoras ou juntas eleitorais e os requisitados para auxiliar seus trabalhos serão dispensados do serviço, mediante declaração expedida pela Justiça Eleitoral, sem prejuízo do salário, vencimento ou qualquer outra vantagem, pelo dobro dos dias de convocação.
[...]
§ 2º. A expressão dias de convocação abrange quaisquer eventos que a Justiça Eleitoral repute necessários a realização do pleito, inclusive as hipóteses de treinamentos e de preparação ou montagem de locais de votação.
[...]
Contudo, ressalta-se que sua avaliação positiva não foi unânime, pois não desperta interesse nos voluntários que não estão inseridos no mercado de trabalho, como a participante Fabrícia, ou naqueles que não podem gozar as folgas em decorrência de sua atividade profissional, como Lourenço, que é Técnico de Manutenção em um hospital público e declarou:
“Não tiro folga, já estamos com a equipe muito reduzida (...), minha folga pode custar muitas lágrimas” (CG).
Nesse sentido, fora sugerido por Gustavo e avalizado pela maior parte dos participantes, que se institua um pagamento pecuniário aos mesários, como retribuição pelo serviço prestado à Justiça Eleitoral, o que geraria a economia dos valores gastos na captação e convocação dos voluntários, quais sejam: impressão e envio de correspondências, telefonemas e confecção de cartazes/folders da campanha, como se transcreve abaixo:
“Acredito que se pagassem cinqüenta contos ia ter fila de gente interessada na porta dos cartórios (...). Não me parece ser um valor elevado diante do que se deve gastar para
Como fator de incentivo, foi, ainda, recomendado que houvesse uma maior aproximação da Justiça Eleitoral com a população, por meio da realização de palestras e propagandas, enfatizando o valor da atuação dos mesários nas eleições e da participação política consciente, mesmo, e principalmente, em anos não eleitorais, quando, segundo Bianca, “(...) ninguém
mais ouve nem falar em Justiça Eleitoral” (CG).
Um fator inibidor da participação voluntária, que recebeu bastante destaque durante a discussão, foi a presença de mesários desinteressados e pouco cooperativos, que acabam desmotivando os outros componentes do grupo e prejudicando o andamento dos trabalhos, desestimulando os voluntários mais dedicados a continuarem atuando naquela seção.
Quanto à situação exposta, pode-se assegurar, como servidora do cartório eleitoral, que é comum o contato de mesários solicitando sua transferência de seção ou até mesmo seu desligamento do projeto, devido a má atuação de outro membro do grupo. Diante dessas reclamações, procura-se averiguar a veracidade dos protestos junto aos demais mesários da seção e, quando procedentes, providencia-se a substituição do voluntário que não demonstra a boa-vontade requerida pela função.
Diante disso, os participantes Osvaldo e Carlos sugeriram que os mesários voluntários passem por um rígido processo de seleção, da forma como, respectivamente, transcreve-se abaixo: “Seria interessante que o TRE fizesse uma seleção mais rigorosa desses mesários, porque a
gente vê muita gente assim, que não tem consciência né, só quer bater papo com os outros, se divertir, parece que nem está preocupado com o trabalho” (CG).
“Mas para resolver mesmo, tinha que ser uma seleção realizada por uma empresa especializada mesmo, que o TRE contratasse só para fazer isso, porque, pela minha experiência no serviço público, não acredito que os cartórios dariam conta, (...). Serviço público é assim em todo lugar, sobra trabalho e falta gente pra fazer” (CG).
Outro fator inibidor apontado pelos participantes Joel e Carlos, ambos mesários há mais de cinco pleitos, foi a exigência de participar do mesmo treinamento dado aos mesários iniciantes, o que caracterizaram como “monótono e desnecessário”, ainda, como “mera repetição que nada acrescenta”. Todavia, de acordo com a visão de Ismael, mesário mais antigo do grupo, com a qual concordaram os demais participantes da pesquisa, inclusive esta pesquisadora, o treinamento sempre traz novidades, no que se refere a alterações legais e
atribuições dos membros, servindo ainda como um espaço para a troca de experiências entre mesários de escolas diferentes, como se observa na declaração a seguir:
“(...) eleição acontece só de dois em dois anos, então acho importante relembrar todos os procedimentos para evitar dúvidas de última hora” (ISMAEL - CG).