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Ainda que se apresente como conclusão, este é um ponto de chegada pro visório . Buscamos produ zir algumas refle xões sob nosso percurso de le itu ra da campanha “O amor é a melhor h erança. Cuide das Criança s.”

Em nosso enfrentamento de leitu ra, problematizamos a rela ções estabelecidas entre memória e história, entre o político e o discursivo . Buscamos refletir sobre o funcionam ento discu rsivo e a produção de sentidos, h isto rica mente constitu ídos, em nosso co rpus.

Ancoramos nosso olhar na perspe ctiva teórica da AD ob jetivando o entendimento do discu rso na sua re lação com o que é constitutivo da lín gua. Nas falhas, nas fissuras do discu rso, desve la mos sítios de sentidos que se faziam irromper. Qu anto à constituição da história, na ordem do imaginá rio e do simbólico, a in sistência do dizer, a repetição de um já-d ito, se impôs como constitutivo do aparelho discu rsivo. Essa re lação, que é uma constru ção simbólica, se dá como efeito das tensões na rede de dize res da campanha, no interior da s formações discu rsiva s de que é constituída.

A memória não se apresenta, na forma do dispositivo de análise, como natural e constru ída de forma cronológica. Ela cria substância ao se articu lar numa dada forma, produzindo efeitos de esquecimentos e apagamentos, que são constitutivo s dos efeitos de sentido. Diante dessa memória pre cisamos comp reender que a s práticas não existem a não ser atra vés de uma ideolo gia, con forme Pêcheux (19 96).

A formação discursiva, cara cterizada pela campanha “O amor é a melhor herança. Cuide das criança s.”, constitui um p onto em que o discu rso se in scre ve na rede de memória institu ída pe lo dize r, pois as formações imagin árias sempre resultam de processos discu rsivo s anterio res. A FD d a campanha constitui-se por d iferentes saberes e o luga r de onde fala o sujeito determina as re lações de força no discurso , enquanto a s relaçõ es de sentido p ressupõem que não h á discurso que

não se relacione com outros. O que ocorre é um jogo de imagens: dos sujeito s entre si, d os su jeito s com o s lu ga res que ocupa m na formação socia l e dos d iscu rsos já -ditos com os possíve is e imagin ados.

Nossa leitu ra perm itiu pensa rmos que não estamos diante de uma

reprodução de seqüências discu rsivas, quando observamos a

diversidade dessa s formações de dizere s, mas do que pode ser repetido, reiterado.

O efeito de sentido, produ zido pe la posição -suje ito assumida pelos persona gens da campanha, produz uma memória que evoca o imaginário, para simultaneamente negá -lo. Como há um impossível de tudo dize r, quand o em certos lu gares discursivo s, a campanha fez irromper ma rcas d iscu rsivas constituintes do dize r que se mantive ram ao longo do proce sso discursivo.

A tensão e xistente, ao se falar de violên cia no d iscurso da campanha, re vela lu gares d iscursivos não dese ja dos, negado s

politicamente e silenciados discursivamente. O funcionamento

discu rsivo po ssibilita a não respon sabiliza ção do E stado frente a questõe s relaciona das à criança e ao adolescente, ao m esmo tempo em que dada s cond içõ es de e xistên cia foram creditadas à f amília, à esco la e à sociedade. O papel do Estado é atenuado pelo funcionamento discu rsivo.

Nossa análise buscou problematizar as rela ções entre o Estado e o ve ícu lo de comunicação, como um aparelho que cria as condições de possib ilidade para a constituição de uma dada formação ideoló gica e suas manifestaçõe s discursiva s.

E foi a memória discu rsiva que nos permitiu olha r pa ra o que esta va p resente o u ausente nos en unciados da camp anha e nos discu rsos sob re, produ zido s como deriva dos efeitos da memória constitu ída no discurso da campanha. Essa pe rcepçã o nos le vou a pensar os enuncia dos produ zidos e m torno da temática da vio lência contra criança s e adolescentes, como um dos lugare s de memória onde as designações vio lência, abuso se xu al e negligên cia sã o relacionado s, num jogo sentido, sendo reiterada mente retomados numa corrente parafrástica.

A constitu ição de nosso arqu ivo se delineou, então, entre o discu rso da campa nha e o s d iscu rso s produ zidos como efeito da rede

memória. Apesar de heterogên eo, produ ziu u m efeito de

homogeneidade, criando a impressão de que todas as formações discu rsivas repete m um já-dito. Tudo já foi dito sob re a violên cia, mas dizê-lo no vamente em um outro lu ga r de fala é que tornou possíve l a produção de sentid o no discu rso da campanha.

Nosso corpus nos coloca d iante de u ma formação discu rsiva que tem, em seu inte rior, o d iscurso de aparelhos ideo lógicos, na forma como aborda Althu sser (1974). A FD do discu rso mid iá tico, se impõe como FD dominante, ga rantindo uma certa maneira de in terpreta r o que venha a se r formulado. Essas rela ções en gend ram um saber qu e constitu i uma rela ção entre o ideal projetado pela campanha e o real da constitu ição socia l.

Estamos diante de um campo que tende sempre a se desestabilizar frente a um real, que não cessa de querer ser in scrito pela FD. Entende mos, no entanto, que reside sempre um fundo indizível, um re sto que não se materializa numa formulação discursiva. Esse cond icionamento e lim itação estão postos no d iscu rso atra vés de formações ideoló gicas que, ao determinarem o que deve se r dito, o ra silen ciam ou pro duzem o esquecimento de vo zes, forjando uma aparente unidade d e sentido.

Nossa análise pe rmitiu-no s pensar que a memória é constitu ída não por um repertório de cenas vividas, conhecidas e sistematizada s em esquemas mentais d ispon íve is a qualque r instante, mas po r um conjunto de estratégias, fazendo irromper o s se mpre-lá de outras formações discu rsiva s.

Atra vés de nosso gesto de le itura e ntendemos que a vio lência, dentro da formação discu rsiva da ca mpanha, está delimitada de forma a produ zir um efeito de e vidência e totalização. A partir desse

funcionamento, percebemos que os discu rsos sobre vio lência ,

produ zido s sob d eterminadas condições de p roduçã o, tendem a reprodu zir esse mo do de rep resentaçã o da vio lência, do abuso se xual

e da negligên cia, tomados no interio r da formação discu rsiva do discu rso da m ídia , como da mesma ordem.

Com isso, podemo s afirmar que o d iscu rso contra a violência, constitu inte da ca mpanha em análise, repre senta um lugar de fala que aciona refle xões e inte rpretaçõe s so b um efeito de totalidade que é próprio do jeito de constituir o discurso midiático, mas é atrave ssado pelo que lhe é constitutivo – as d escontinu idades, a s ausências, a ideolo gia. Esse ap arelho d iscu rsivo n os in vade

n o p l a n o p e s s o a l, t e c id o , p e l a s n e c e s s á r ia s i lu s õ e s d e h o m o g e n e i d a d e e e s t a b i l i d a d e , é n o “ s ó - d e p o is ” d o t e m p o p s ic a n a l í t ic o e i d e o l ó g ic o q u e p r o d u zim o s s e n t id o s p a r a o s a c o n t e c im e n t o s im p r e v is í ve is e d e s c o n t í n u o s q u e , ir r o m p e n d o , le v a r a m - n o s a a t i t u d e s , g e s t o s e f a l a s a c o n t e c i d a s e p o r a c o n t e c e r ( M AR I AN I , 1 9 9 8 , p . 1 3 ) .

Em nossa análise, procu ramos oferecer elementos que

problematizassem a historicidade das represen tações da vio lência na forma como foram formuladas no discurso da campanha. Do contrá rio, estaríamos apena s rep rodu zindo e co nsolidando alguns sentidos e não outros, a lguns luga res d iscu rsivos em detrimento de outros.

Buscamos nos remeter para além da linea ridade das se qüências discu rsivas. A metáfora, nesse sentido, como mostra Pêcheu x (1996), sinaliza pa ra o papel constitutivo da ausência na lin gu agem. Isso nos dá condiçõe s pa ra pensarmos a re lação do político e d o ideoló gico na formulação do discurso contra a violên cia e suas condições de produção.

Nossa aná lise , ao fazer irromper da s formações discu rsivas, o s

condicionamentos ideoló gicos que lhes são determinantes,

desestabiliza, em alguma medida, os sentidos que o discurso da campanha se esforça po r manter intactos, pacificados. Entendemos, então, que memória de ve ser pen sada sempre como constitu ída e atra vessada por interpreta ções p ro visórias da rede de d ize res.

A campanha, com os jogo s polissêmicos e parafrástico s, ofereceu um artif ício para lidar com o que não se pode comp reender ou com o

que se teme, abrindo espaço para que o pro ibido e o não dito pudessem vir à tona. Os sentido s p rodu zido s, p ela forma de identificação do monstro na camp anha, rompem com a rede de dizere s, mas a ela se remetem, uma ve z que há sempre o repetível, a possib ilidade de dizer o mesmo, de outra forma. O que e ssa representa ção do monstro possib ilita é dar a crian ça, especia lmente, instrumentos para lidar com o desconhecido, com o que lhe causa medo. Há uma outra história a ser contada. Há um outro suje ito a simbolizar.