Os principais sujeitos da pesquisa são alunos de uma turma do terceiro ano do EM e uma professora da disciplina Língua Portuguesa, que designamos pelo pseudônimo de Bia Paiva. A seguir, apresentamos um breve perfil de cada grupo referenciado, conforme o perfil delineado nos questionários aplicados e entrevistas realizadas.
4.3.1 Professora de Língua Portuguesa
Bia Paiva50 está na faixa etária de 36 a 40 anos, é casada e declara ter cinco filhos. Negra, filha de uma professora de Língua Portuguesa e de um fotógrafo profissional, criada no bairro da Cremação, periferia de Belém. Ela é graduada em Letras, habilitação em Língua Portuguesa, concluiu o curso no ano de 2002, é especialista em Língua Portuguesa, já fez disciplinas do curso de Mestrado em Letras (área de concentração Literatura) como aluna especial. Toda sua formação superior foi realizada na Universidade Federal do Pará.
Trabalha há 17 anos no magistério e iniciou a prática docente ministrando aulas particulares e oficinas sobre o Português Padrão e não padrão - baseadas em livros do Prof. Marcos Bagno - na Casa da Linguagem51, para professores, oriundos do antigo curso secundário magistério, que atuariam nas séries iniciais. Segundo a docente, esta experiência foi muito significativa para a sua formação e atuação profissional, pois a interação com estes professores recém formados, que praticamente desconheciam esta discussão a respeito das variedades linguísticas, preconceito, língua como instrumento de poder e de hierarquização social influenciou muito todo o trabalho que ela realizou, posteriormente, nas redes pública e privada de ensino, como professora de gramática, de redação e de literatura.
Atualmente, a docente exerce seu ofício exclusivamente na rede estadual de ensino do Pará, é moradora do bairro onde está situada a escola, fundadora de um dos coletivos culturais da comunidade e exerce um papel atuante em questões sociais, culturais e educacionais. O reconhecimento por todo o trabalho ora realizado há quase uma década na maior escola pública estadual do bairro veio final do ano passado, quando a XI edição do Prêmio Professores do Brasil concedeu a ela o título de melhor professora na categoria Ensino Médio
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Nome fictício. 51
Vinculada à Fundação Cultural do Estado do Pará, a Casa da Linguagem funciona em um prédio histórico que data de 1870, localizado na área central da Belém, próximo ao famoso Teatro da Paz e outras construções do complexo arquitetônico da capital paraense. É um espaço de formação para o campo das linguagens em que são ofertadas oficinas, minicursos, lançamentos de livros, saraus, apresentações culturais, ofertadas gratuitamente ou mediante o pagamento de taxas de baixo custo. Para maiores informações ver: http://www.fcp.pa.gov.br/espacos- culturais/casa-da-linguagem.
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pelo desenvolvimento do projeto Juventude Periférica: do extermínio ao protagonismo, realizado ao longo do ano de 2018 na escola supracitada e descrita, que deu origem ao Cine Club TF, atual coletivo cultural, coordenado atualmente pela docente no bairro da Terra Firme.
4.3.2 A turma do terceiro ano do EM
A turma era frequentada efetivamente por 23 jovens, residentes no bairro da Terra Firme: 56.5% declararam gênero feminino e 43.5% do gênero masculino, 100% estavam solteiros (as) e na faixa etária de 15 a 20 anos, não tinham filhos. Uma aluna desta turma estava grávida. Somente 13% dos alunos declararam ter uma atividade remunerada - lavador de carro, cabeleireiro, autônomo-, os demais, 87% declararam não exerciam uma atividade formal, mas faziam pequenos trabalhos e/ou ajudavam a família ou terceiros em pequenas vendas - loja de roupa, venda de vísceras, carro de lanche - no comércio local. Todos concluíram o Ensino Fundamental em escola pública, na modalidade regular.
Em relação à escolaridade dos pais, constatamos as seguintes informações sobre a escolaridade básica materna: 4,4% possuíam Fundamental completo; 26% tinham o Fundamental incompleto; 47,8% possuíam EM completo, 13% somente o EM incompleto e apenas 8,8% concluíram o Superior completo. Em relação à escolaridade paterna: 4.4% tinham Fundamental completo, 26% apenas Fundamental incompleto, 34,8% completaram o EM, 26% o EM incompleto e apenas 4,4% completaram o ensino superior. É importante sinalizar que a maioria das mães destes jovens possui um nível de escolaridade mais elevado se comparado aos pais.
Quando questionados em relação a sua formação letrada, os alunos creditam à escola o papel de principal agência de letramento (52,2%). Juntas, Família, Igreja e Teatro correspondem a 47,8% das respostas. 56,4% consideram a figura do professor como um agente central no processo de formação de leitor, seguido da figura materna (34,8%) e do pai (8,8%). Embora não apareça nos dados estatísticos, alguns alunos citaram a figura da avó como uma pessoa importante para a construção da sua trajetória de letramento.
Quanto ao acesso e ao domínio da escrita, 78,2% destes estudantes consideram que a escola foi a instituição onde aprenderam a escrever e 21,8% afirmam que a família e a igreja contribuíram para o aprendizado da escrita. Eles afirmam usar a escrita no dia a dia, em especial, para fins escolares (47,8%) e para uso das redes sociais (13%). Por sinal, a maioria afirma ter acesso à internet (95,6%) e a considera como principal veículo de comunicação
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para ter acesso a redes sociais, notícias, curiosidades, conteúdos escolares, documentários, contos.
Todos estes alunos afirmaram já ter lido, pelo menos, um livro52 ao longo da sua trajetória escolar. Em relação a outros bens culturais, os estudantes relataram ter acesso a filme, música, festas populares, dança, teatro. Por fim, cabe mencionar que boa parte destes jovens (91,3%) participa ou já participou das atividades realizadas pelos coletivos culturais53 do bairro.
Em relação aos temas debatidos na escola mais recorrentemente, eles apontam os seguintes: preconceito em geral, racismo, cultura negra, homofobia, questão de gênero, bullying, cultura do estupro, diversidade cultural, violência, saneamento básico, desigualdade social, história do Pará, cultura local. Os temas são atuais e delineiam um trabalho com as demandas locais de formação, tais como desigualdade social e cultura local, além das temáticas que também incidem sobre esta população. No que se refere aos recursos didáticos que consideram facilitadores da aprendizagem escolar, os alunos acreditam que o uso da Internet e de recursos tecnológicos contribuiria, consideravelmente, para a aprendizagem, porém a escola, muitas vezes, não os disponibiliza.
Os estudantes, contudo, percebem o esforço dos professores em preparar apresentações e levar seus próprios equipamentos para facilitar o processo de ensino- aprendizagem. Esse dado denuncia que, embora a Internet hoje faça parte da formação desses alunos, ela se constitui ainda como uma ferramenta que a escola nega a estes sujeitos. Eles acabam reconstruindo o acesso de outra forma, por via de outros meios negociados, mas não com o sistema escolar vigente.
Quanto às ações didáticas facilitadoras da aprendizagem, 39,1% acreditam que atividade e explicação viabilizam a construção do processo de aprendizagem e 30,4% creditam somente a “boa” explicação do professor a ação didática mais relevante no processo de ensino.
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Livros que os alunos mencionam quando questionados acerca da última leitura que fizeram: 50 tons de cinza, Rei congo, A maldição do tigre, O nome da rosa, O pequeno príncipe, After, Tomorrow land, Manifesto comunista, O império, A cidade que encolhe, Mentes brilhantes, Caverna do dragão, Azul, O alienista, Tudo e todas as coisas, Mentes tranquilas, Almas felizes. No questionário, não perguntamos que obras foram indicadas pela escola, mas em virtude das nossas observações e convivências em campo, supomos que são livros recomendados pelos professores da escola, pelos coletivos culturais do bairro, pelas igrejas – há muitas igrejas evangélicas espalhadas pelo bairro- e pelos familiares, parentes ou amigos mais próximos.
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Na pesquisa aqui descrita, estamos entendendo que os coletivos culturais podem ser considerados “instituições” não formais que atuam na comunidade nas seguintes áreas: Capoeira, Dança de Rua, Teatro, Comunicação. Alguns dos coletivos mais atuantes no bairro são: Teatro Ribalta (promoção de oficinas de teatro), Tela Firme (grupo que gerencia mídias para divulgar acontecimentos da comunidade), Casa Preta (grupo que discute questões de negritude e realiza eventos para a promoção da cultura afrodescendente e indígena), Capoeira Angola: eu sou angoleiro (grupo que ensina e promove a capoeira angola no bairro).
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Em relação ao ensino de Língua Portuguesa, destacamos os seguintes dados: 39,1% consideram-no importante para a melhoria da prática de ler, de escrever e de falar “corretamente”, 26% concebem a relevância desta disciplina para o mundo do trabalho, preparação para o ENEM e para formação do indivíduo; 8,8% analisam que os alunos têm direito de conhecer a gramática e os usos da Língua Portuguesa; 4,4% julgam que a apropriação dos conhecimentos da LP contribui para a melhoria da aprendizagem de conteúdos de todas as demais disciplinas, para observar e compreender a realidade a sua volta. No que tange aos gêneros textuais trabalhados na escola, os discentes dizem já ter trabalhado com os seguintes: letra de música, seminário, carta, crônica, poema, redação - texto dissertativo, narrativo, argumentativo e “textos” jornalísticos.
Para finalizar este tópico, elencamos o que estes alunos indicam como possíveis melhorias para o EM na escola investigada: (i) melhor estrutura física, (ii) disponibilidade de recursos tecnológicos , dentre eles, o livre uso da Internet e de equipamentos como: computadores, data show, (iii) abertura da biblioteca, (iv) inclusão de atividades culturais, (v) aulas mais dinâmicas, (vi) “pontes” entre as disciplinas escolares, (vii) uso de material didático mais específico, contendo mais fontes e detalhes, (viii) melhor interação entre discentes e docentes, (ix) mais participação dos alunos nas atividades escolares, (xi) um menor número de paralisações, (xii) oferta de merenda escolar e de água de boa qualidade.