Un dossier peu médiatique
4. Les revues intellectuelles : Les Temps modernes et Esprit
Mesmo a educação de adultos tendo sofrido um maior impacto a partir de 1962, é possível afirmar que em todo período, compreendido de 58 a 64, podemos encontrar algumas características que foram mantidas, no que tange à educação de adultos nesse período. A principal entre essas características, e a que fatalmente teria impulsionado o desenvolvimento de novos programas, é a que se refere ao preconceito em relação ao analfabeto.
No entanto, paralelamente às ações do governo, no final da década de 50 e início da de 60, surgiram os movimentos de educação e cultura popular, muitos deles inspirados em Paulo Freire.
As críticas à CEAA, dentre elas as enviadas por Paulo Freire, dirigiam-se às deficiências da administração e também à orientação pedagógica, como “o caráter superficial do aprendizado que se efetivava no curto espaço/período da alfabetização, a inadequação do método para a população adulta e para diferentes regiões do país” (MEC - Ação Educativa, 1977).
Assim, todas as críticas direcionavam para uma nova visão sobre o analfabetismo e para o analfabeto, assim como para um novo paradigma pedagógico para a educação de adultos. Esta nova possibilidade de perceber o adulto analfabeto e todas as questões que envolvem o analfabetismo teve o educador pernambucano Paulo Freire como idealizador.
As críticas mais contundentes à CEAA foram apresentadas por Paulo Freire no II Congresso Nacional de Educação de Adultos, realizado em 1958, o qual indicava que a “organização dos cursos deveria ter por base a própria realidade dos alunos e que o trabalho educativo deveria ser feito „com‟ o homem e não „para‟ o homem” (SOARES & GALVÃO, 2005,p.267-268).
Por conseguinte, na concepção de Freire, os materiais didáticos e a orientação pedagógica não poderiam ser as simples adaptações daqueles empregados para educar as crianças, mas de acordo com suas realidades e experiências já vivenciadas. Portanto, um dos pressupostos que sustentavam as propostas de alfabetização de Freire era o de que a leitura de mundo precede a leitura das letras. O adulto não pode então ser visto como alguém ignorante e imaturo, mas como um produtor de cultura e saberes próprios.
Antes apontado como causa da pobreza e da marginalização que emperrava o país no atraso econômico e social perante outras nações do mundo, o analfabetismo passa a ser entendido como efeito da pobreza gerada pela estrutura social não igualitária,
resultante de conchavos políticos gerados por interesses pessoais e particulares. As condições de miséria em que os analfabetos viviam é que tinham que ser problematizadas.
“Era preciso, portanto, que o processo educativo interferisse na estrutura social que produzia o analfabetismo. A alfabetização e a educação de base de adultos deveriam partir sempre de um exame crítico da realidade existencial dos educandos, da identificação das origens de seus problemas e das possibilidades de superá-los” (PAIVA,1983,p.23).
Com a tendência dos movimentos de educação de adultos voltando- se para uma educação com sentido mais amplo e menos discriminatório, valorizando a cultura popular, as expressões artísticas e as raízes culturais do povo, o combate ao preconceito em relação ao analfabeto, que ainda era bastante significativo, tornou-se menos evidente. Um reforço contra esse preconceito veio da percepção de educação de Paulo Freire – estruturada a partir do conceito antropológico da cultura – dada a sua importância para formar uma nova concepção de alfabetização e, conseqüentemente, uma nova imagem do analfabeto, como homem capaz e produtivo, responsável por grande parte da riqueza da Nação.
Sendo assim, passa-se a acreditar que uma proposta de educação de adultos – alfabetização – deva se preocupar inicialmente com o que o adulto ignora, considerando aqui as necessidades desse indivíduo no seu dia-a-dia, uma vez que, “mesmo o homem mais culto, o que ele ignora é infinito”. (PINTO,1986:84). É evidente que o educando adulto ignora os conhecimentos que definem o padrão médio do saber de sua sociedade e em seu tempo.
O que realmente é significativo no processo de alfabetização do adulto é que o educador não ignore os fatores sociais que podem ter mantido aquele adulto analfabeto e, a partir daí praticar uma educação que dê ao aluno a oportunidade de alcançar a consciência crítica de si mesmo, do seu mundo e de seu trabalho.
Portanto, é preciso estar atento ao que o adulto quer saber para tornar significativo o seu interesse por educar-se. É evidente que aprender os conhecimentos básicos do saber letrado e matemático são exigências necessárias fundamentais e indispensáveis, mas só terão realmente valor se entendidos pelo alfabetizando como
instrumentos para se chegar a muito mais. Assim, “a educação de adultos deve contemplar as exigências educacionais futuras desses cidadãos” (PINTO,1986,p.86).
Certamente, para se chegar essa educação de adultos pretendida anteriormente deve-se atentar para as formas de se fazer essa educação, que deve partir da realidade autêntica do educando, do seu mundo do trabalho, da suas relações sociais, das suas crenças, valores, gostos artísticos, gíria e outros. Assim, a aprendizagem dos elementos da leitura tem que partir de palavras motivadoras que são aquelas dotadas de conteúdo semântico imediatamente percebido pelo aluno.
“A alfabetização é mais que o simples domínio mecânico de técnicas de escrever e ler. Com efeito, ela é o domínio dessas técnicas em termos conscientes. É entender o que se lê e escrever o que se entende. (...) Implica uma auto-formação da qual pode resultar uma postura atuante do homem sobre seu contexto. Por isso a alfabetização não pode se fazer de cima para baixo, nem de fora para dentro, como uma doação ou uma exposição, mas de dentro para fora pelo próprio analfabeto, apenas ajustado pelo educador. Isso faz com que o papel do educador seja fundamentalmente dialogar com o analfabeto sobre situações concretas, oferecendo-lhe os meios com os quais possa se alfabetizar”
(FREIRE, 1989,p.72).
Mediante essa percepção de educação/alfabetização idealizada por Paulo Freire, o processo de alfabetização de adultos passou a conceber o homem como sujeito de sua educação e não como objeto dessa. Portanto, reafirma com esse analfabeto um compromisso com sua realidade, sob a qual ele deve intervir cada vez mais na busca da transformação e ascensão.
Neste período, observa-se um predomínio do “realismo em educação” em detrimento do “entusiasmo na educação”, sendo que este desapareceu com o fracasso da CEAA. Agora, preocupados não apenas com novos métodos mais eficazes, mas com as conseqüências políticas, sociais e econômicas de seus programas, surgem novos profissionais da educação voltados para a educação de adultos.
O II Congresso Nacional de Educação de Adultos contou com a participação de Paulo Freire, teve como objetivo analisar o sentido da educação para o
desenvolvimento e a questão da educação para todos. Visava um estudo do problema da educação de Adultos em seus múltiplos aspectos.
A importância da educação de adultos passa a ter um caráter de adequação social. O homem brasileiro precisava adequar-se para sobreviver ao período “dinâmico” pelo qual o país estava passando. Esperava-se, com o II Congresso de Educação de Adultos, que os especialistas em educação de adultos apontassem caminhos a serem seguidos pelo governo Kubitschek.
O período ficou caracterizado na educação de adultos como “educação para o desenvolvimento”. As condições exigiam cada vez mais pessoas habilitadas e qualificadas para constituir a mão-de-obra e a mobilização dos processos que levavam ao desenvolvimento da Nação. Não se tinha tempo para esperar a conclusão dos cursos de forma regular, e isso tornou necessária a adoção de medidas que visassem uma ação rápida, intensiva, ampla e de resultados práticos e imediatos.
Com o desejo de constituir novas idéias pedagógicas para a alfabetização e educação de adultos, variadas teses foram apresentadas, mas pôde-se observar grande variedade ideológica entre elas.
O processo de educação de massas era o único caminho apontado para uma revolução brasileira. Uma das principais idéias que surgiram visava “a educação de adultos como instrumento de transformação social e construção da sociedade futura, sob a influência do nacionalismo”. (PAIVA,o.c,p:209).
Com relação aos objetivos da educação de adultos, nesse período, estes se concentravam na demonstração do interesse pela participação no processo de democratização político-social do país. Dentro dessa nova perspectiva para a educação de adultos, no Seminário Regional, realizado em Pernambuco, Paulo Freire relatara o tema “A educação dos adultos e as populações marginais: os problemas dos mocambos, chamando a atenção para as causas sociais do analfabetismo e condicionando a sua eliminação ao desenvolvimento da sociedade” (GADOTTI & ROMÃO,2000: p.37).
Nesse Congresso ficou claramente perceptível a tendência do pensamento educacional brasileiro ao abandono do “otimismo pedagógico” para dar lugar a uma nova concepção de educação e alfabetização de adultos, agora voltados muito mais claramente para o “realismo pedagógico” ou seja “a consideração dos aspectos internos do processo educativo ao lado de sua vinculação com a sociedade” (PAIVA,o.c,p:211) . Assim as preocupações principais ligadas à educação de adultos voltam-se prioritariamente para a qualidade do ensino, e não para a criação de novos métodos.
Nasce uma nova concepção de educação de adultos. O adulto analfabeto, tido como inferior, começa a ser visto sob a concepção defendida por Paulo Freire. Ainda em 1958 surgiu, como mais um instrumento de difusão da educação de adultos, a Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo (CNEA), a qual se destinava à educação popular em geral e tinha como principal concepção reconhecer a ineficácia das campanhas desenvolvidas anteriormente.
A Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo (CNEA) foi criada como resposta às críticas mencionadas no II Congresso Nacional de Educação de Adultos referentes às ações, consideradas dispersas e desarticuladas. Como tentativa de superar as críticas, foram criados projetos-pólos com atividades que integravam a realidade de cada município e serviam como modelo para expandir a Campanha por todo o país.
Porém, a CNEA (1958), assim como a CNER (1950) pouco se diferenciaram da CEAA e acabaram sendo extintas em 1963, quando foi criado o Plano Nacional de Alfabetização pelo Ministério da Educação e Cultura.