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DEUXIEME PARTIE - LE DEROULEMENT DU PROCES CIVIL

SECTION 2 – L’INSTRUCTION DU LITIGE

B.- LES REGLES COMMUNES A L’ENSEMBLE DES MESURES D’INSTRUCTION

Isto considerado, indago sobre como seria abordar a feira, meu objeto de pesquisa, a partir dessa perspectiva formista. Para fazê-lo, recorro a Bourriaud, que acompanha o pensamento de Maffesoli e de Simmel, para tratar a feira enquanto forma.

Segundo Bourriaud, ao tratar a questão da arte e das exposições artísticas, a forma é uma “unidade coerente, uma estrutura (entidade autônoma de dependências internas) que apresenta as características de um mundo [...]” (BOURRIAUD, 2009: 26). Uma forma é, segundo Bourriaud (2009), um encontro fortuito que se torna duradouro. Maffesoli acrescenta que a forma exprime a pluralidade e a intensidade de uma existência, de um mundo, e que só através dela a vida pode existir. A forma, segundo Maffesoli, dá sentido à vida (MAFFESOLI, 2005: 87-88). Ela engendra a unicidade, àquilo que dá coesão às coisas - a liga de Bourriaud – mesmo as coisas mais contraditórias.

O formismo [expressão filosófica da forma], ao contrário, mantém juntos todos os contraditórios, favorecendo assim um sentido que se esgota em atos, que não se projeta, que se vive no jogo das aparências, na eflorescência das imagens, na valorização dos corpos (MAFFESOLI, 2005: 86)

A possibilidade de pensar a feira como uma forma não apenas abre múltiplas possibilidades de compreensão da própria feira, mas também nos possibilita colocar em evidência as múltiplas formas que se geram neste interstício que, também, é a feira. “[...] sendo elas [as formas] a causa e o efeito dessa cultura dos sentimentos da qual estamos medindo o impacto.” (MAFFESOLI, 2005: 86). A feira é o espaço por excelência onde múltiplos sentidos se formam, e lá “são postos à prova e vividos à medida que vão surgindo” (MAFFESOLI, 2005: 14). Somente assim, acredito, podemos colocar em evidência os fenômenos estéticos que caracterizam a pós-modernidade.

Ora, ainda que uma feira, não importa qual ela seja materialmente falando, não tenha surgido de um encontro fortuito – inesperado, ou provindo de uma colisão, tenha, ao contrário, nascido da necessidade expressa de um encontro, de uma troca; sua formação e os elementos que a sustentam e que, ao mesmo tempo, são sustentados por ela – o feirante, a freguesia, suas barracas, boxes, ambulantes, camelôs, dentre outros. - reverberam nesse espaço, provocando “encontros fortuitos”, gerando sentidos sem fim, emuladores de formas, gestando um mundo em si, na própria feira e no seu entorno. A feira nasce do encontro, algumas vezes provocado, algumas vezes espontâneo e fortuito. É o encontro que a sustenta e a conforma; e, assim

conformada, tornou-se, no tempo e no espaço, duradoura. Duradoura porque imanentiza e temporaliza sensações, provocando um presenteísmo eternizado no momento. Ela é duradoura somente no encontro, no toque, este, fugaz e fortuito. Os elementos que a constituem, melhor, que a conformam, agregaram-se numa forma. Entre eles existe uma liga que os mantém unidos, que faz com que tenham sentido entre si, mesmo os elementos mais díspares. E é a forma que possibilita um equilíbrio sinestésico entre os elementos que a conformam. Um equilíbrio advindo da equação subjetiva desses elementos percebidos, ou melhor, sentidos ou intuídos pelos indivíduos que compõem a forma feira.

A feira não se compõe como espaço moderno, pois ela não restringe as possibilidades das relações humanas, ela mantém no espaço livre, gerando múltiplas formas de relações humanas de gênero, de classes, de sentidos. Possibilitando os espaços sinestésicos. Ou seja, a feira é um daqueles espaços imaginários pré-modernos que configuram o pós-moderno, porque, na feira, encontramos o paradoxo próprio da vida, e a vida é polissêmica. Aqui, compreendo pós-modernidade tal como Maffesoli, como uma recuperação das dinâmicas arcaicas (MAFFESOLI, 2000).

A temporalidade da feira rompe com o paradigma moderno de tempo. Sua estrutura temporal é atemporal, mantendo-se da mesma forma, assim como ela sustenta a temporalidade das relações humanas estabelecidas em seu seio. É aí que podemos perceber o presenteísmo inerente à condição pós-moderna, do aqui agora.

Para a compreensão de uma sociedade, de uma comunidade, a feira é o local privilegiado, pois os modelos de socialidades ali presentes são mais perenes e fluidos, estabelecidos numa temporalidade do instante, no momento, e, portanto, formam-se de maneira pontual. Utilizo-me do conceito de socialidade em Maffesoli para compreender os processos de formação do vínculo interpessoal que ocorre na feira. Essa socialidade maffesoliana ocorre em uma relação dionisíaca, presente nas relações humanas, por meio do qual a sensação, o universo emocional sobrepõe-se à racionalidade. O que caracteriza a sociabilidade seriam “[...], ces rapports tactiles, par sédimentations successives, ne manquent pas de créer une ambience special; ce que j’ai appelé une union en pointille.” 16 (MAFFESOLI, 2005: 132).

Relações que se tocam, que se encontram, estabelecidas em pontilhado uma com as outras, dando-se de formas múltiplas e concomitantes. Essas relações ocorrem nos momentos                                                                                                                

16 “[...] essas relações táteis, por sedimentações sucessivas, não deixam de criar um ambiente especial; o que eu chamei de união em pontilhismo.” (tradução da pesquisadora)

das trocas, sobretudo das trocas simbólicas privilegiadas pelo estar-junto - do riso, da fala, das posturas corporais, das expressões, dentre outras tantas possíveis a ser abordadas – e, acredito, mais intensas do que as relações econômicas estabelecidas determinam, num a priori, no local.

Procuro analisar esse local, a feira, de acordo com critérios estéticos desenvolvidos tanto por Maffesoli como por Bourriaud, quando os mesmos elaboram a utilização do conceito de forma em suas pesquisas. Maffesoli, no que tange às relações de socialidade, onde quer que elas ocorram e, em Bourriaud, quando trata a arte e as exposições artísticas. Segundo Bourriaud, a forma é uma

Unidade estrutural que imita um mundo. A prática artística consiste em criar uma forma capaz de “durar”, fazendo com que entidades heterogêneas se encontrem num plano coerente para produzir uma relação com o mundo. (BOURRIAUD, 2009: 149).

Pensando na feira enquanto forma, compreendendo-a como um local que só se conforma a partir das relações humanas, pode-se dizer que, sem essas relações, a feira não existe, e a forma que a conforma também não. Não existe feira sem interação humana, e toda interação humana gera uma forma, uma forma de estar-junto. Essa forma advém de uma socialidade, de uma determinada socialidade e não de qualquer uma. Portanto, essa socialidade que gera formas de estar-junto, pode ser percebida através dos elementos estéticos os quais a compõem. Esses elementos estéticos são tanto endógenos como exógenos, ou seja, alguns elementos são trazidos para ela, e nela interagem, enquanto outros são gerados na própria feira e a partir dela.

Essa forma é o resultado das relações humanas estabelecidas na feira; são efeitos e, consequentemente, a causa; dela e nela emanam desejos e necessidades que se materializam, ganham vida, que estão no mundo. Assim, materialmente, podemos identificar alguns elementos que a compõem: suas barracas, seus boxes, camelôs, ambulantes, ruas, carros, tráfego, espaços de circulação, além e principalmente de formas de falar, de risos, de estar, sonoridades, posturas de seus frequentadores – feirantes, passantes, comerciantes, freguesia, seus bêbados e loucos, e frequentadores de toda ordem. A partir de uma análise sincrônica – uma análise que pretende estabelecer as relações que ocorrem entre os elementos na feira, de maneira que um elemento não seja percebido de forma isolada, mas sim dentro de sua relação com os demais -, pretendo perceber os elementos estéticos advindos das interações que constituem a feira.