“Affordance” é talvez o conceito mais fascinante na psicologia perceptiva ecológica, inaugurado por Gibson (1966). Este conceito é aprofundado por estudos subsequentes, do mesmo autor e por muitos outros investigadores (e.g. Heft, 1988) que aplicaram o conceito de affordance à análise dos envolvimentos em crianças (e.g. Kytta, 2002; Cosco, 2006), na relação de lugares preferidos entre os adolescentes (e.g. Clark & Uzzell, 2002; Korpela et al. 2002), ou numa análise integrante entre a independência de mobilidade das crianças e o número de affordances realizadas, como critério de um ambiente adaptado aquela população (e.g. Kytta, 2003; 2004).
Gibson (1979) identificou o verbo “to afford” que é explícito no dicionário com os significados: proporcionar, propiciar, fornecer – mas o substantivo affordance não surge identificado lexicalmente;
3 tradução – “nós temos de perceber para sermos capazes de nos movimentar e temos de nos movimentar para sermos capazes de
perceber” (Gibson, 1979, pp. 223)
foi Gibson (1979) que atribuiu um significado próprio ao termo, como sendo as possibilidades oferecidas pelo ambiente a um sujeito particular – ex. as superfícies possibilitam locomoção, alguns objectos possibilitam manuseio e outros animais possibilitam interacções sociais. Quando um sujeito percebe superfícies, objectos e animais, ele percebe affordances. As superfícies possibilitam locomoção, postura, colisão; o fogo, por exemplo, possibilita aquecimento, queimadura; alguns objectos possibilitam o manuseio (e.g. ferramentas), outros possibilitam ferimentos (e.g. armas de fogo), as pessoas e os animais possibilitam interacções complexas de cooperação e comunicação. Na perspectiva de Gibson (1979) as affordances são percebidas através da acção; o sistema perceptivo é capaz de captar informações necessárias para a interacção animal-ambiente. Sem a realização de affordances não se pode discutir nenhuma relação pessoal com o ambiente.
A percepção é, então, a captação de affordances, podendo estas serem directamente percebidas; durante o acto perceptivo não são as qualidades ou propriedades do ambiente que são captadas, mas as possibilidades de acção.
Uma das novidades que Gibson (1979) propõe, está exactamente neste ponto:
O sujeito, ao contrário de perceber as qualidades dos objectos, percebe as affordances; percebe o comportamento associado às características do ambiente e não a qualidade e estrutura do objecto. O facto de um objecto ser usado com uma finalidade, não significa que não possa ser usado de outras maneiras; determinado objecto, por exemplo, um lápis possibilita o manuseio e pode ser usado para escrever, ou como peso para papel ou como marcador de livro, etc... Todas essas affordances são consistentes, mas para a percepção não interessa os nomes pelas quais são chamadas. O que importa são as acções que possibilitam. Para Gibson as propriedades são menos importantes que as
affordances. A percepção é orientada para encontrar affordances num ambiente. Percepção e acção
misturam-se. A acção revela novas affordances e a percepção de novas affordances cria nova acção. Como dois lados da moeda, percepção e acção, são pares complementares em todas as situações interactivas entre organismos e o ambiente; quando as interacções acontecem mais do lado do ambiente é chamada percepção; quando acontecem mais do lado do organismo é chamada actividade. A percepção guia a acção no ambiente e essa acção fornece informação para a percepção. O sujeito obtém conhecimento do ambiente que suporta a acção e esse conhecimento também guia a acção. As crianças, por exemplo, podem perceber directamente as affordances do ambiente e usá-las como guias de acção (Clark & Uzzell, 2002).
Na perspectiva de Gibson (1979) as affordances são percebidas através da acção e a percepção das
affordances individuais são parte de toda a actividade. Através do conceito de affordance, o mundo
ambientais, certas affordances são realizadas ou concretizadas de uma única maneira distinta para cada indivíduo, o que significa que é inerente ao processo de percepção. O conceito de affordance interrelaciona a percepção individual, ao contexto material, social e cultural; é o próprio ambiente que cria possibilidades para.., e restringe certas acções individuais.
Como na psicologia perceptiva ecológica, em geral, também a percepção das affordances, tem lugar através da actividade no ambiente e, como tal, isso não é baseado em estímulos ocasionais de informação, mas num processo contínuo de temporalidade e espacialidade, pelo fluir das percepções. Mas as affordances podem existir apenas nos lugares onde os organismos vivem, como agentes activos no ambiente; por exemplo, os esquimós distinguem entre os vários tipos de neve e as crianças na Finlândia percepcionam affordances na neve, quando realizam bonecos de neve, quando esquiam ou brincam na neve, porque se relaciona com a sua experiência nos ambientes de Inverno.
Affordances expressam, então, a possibilidade do meio ambiente estimular os organismos nos
processos da percepção, bem como, a capacidade do sujeito em perceber o que está disponível no ambiente (e.g. Kytta, 2003).
Podemos referir também que a teoria de Gibson se enquadra no paradigma transaccional da psicologia do ambiente. Na perspectiva transaccional, as pessoas e o contexto coexistem e, estando juntas, contribuem para o significado e natureza do evento. O conceito de affordance quebra a divisão dicotómica sujeito-objecto e representa uma ideia transaccional da inseparável natureza da relação sujeito-ambiente. A transaccionalidade das affordances estende-se à relação organismo-ambiente, pela ligação entre os diversos elementos do ambiente e entre as estruturas de um organismo. Gibson (1979) refere que o animal e o ambiente são inseparáveis; um animal não pode existir sem um ambiente que o circunde e o ambiente implica o animal a ser circundado. Embora se possam apontar diversas reciprocidades no contexto da teoria de Gibson (citado por Lombardo, 1987), há algumas que são facilmente notadas: animal-ambiente, percepção-propriocepção e percepção-acção; entre estas, a reciprocidade animal-ambiente é central na perspectiva ecológica – o animal é um ser no mundo e o ambiente é o mundo do animal; um está funcionalmente e estruturalmente ligado ao outro. Sendo a percepç~o entendida como “conhecimento do mundo” e correspondendo a propriocepç~o ao “conhecimento de si mesmo” no mundo; o mesmo autor (1989), refere que percepção e propriocepção são processos contínuos e simultâneos; o sujeito, ao captar affordances, percebe a sua própria localização e suas possibilidades – perceber o ambiente é perceber-se a si mesmo.
Sendo as affordances, propriedades significativas de funcionamento do ambiente, percebidas através da detecção activa da informação, como refere Kytta (2002), elas são sempre únicas e específicas para
cada grupo de pessoas; o conceito parece ser bem apropriado para descrever as qualidades essenciais dos envolvimentos das crianças. As crianças tomam conhecimento do mundo e das suas possibilidades através da linguagem, da pintura, dos brinquedos e através do exemplo da aprendizagem. Por vezes, os pais ajudam-nas em como realizar essas affordances, outras vezes restringem-lhe a realização de affordances. Mas a capacidade das crianças para desenvolverem
affordances, aumenta com o crescimento e elas desenvolvem sistematicamente essa capacidade. As
percepções aumentam, à medida que elas melhoram as suas capacidades físicas; quando uma criança aprende a andar abre-se um novo campo de affordances no ambiente; se o ambiente se alterar origina um crescimento individual na criança.
A psicologia perceptiva ecológica, como percepção directa, é considerada apropriada (e.g. Kytta, 2003) para o estudo da relação criança-ambiente. Nos últimos anos, a teoria de affordances de Gibson (1979) tem permitido que as propriedades funcionais do ambiente e a resposta psicológica/comportamental sejam examinadas conjuntamente (e.g. Clark & Uzzell, 2002; Korpela et
al., 2002; Kytta, 2004). Quando as crianças encontram (descobrem) affordances no ambiente, elas
percebem esse ambiente como interessante e estimulante (causador de desafios), entendem-no como um lugar de aventura e exploração que lhes sugere o movimento e a procura de mais affordances.
A psicologia do ambiente de uma maneira geral e a psicologia perceptiva ecológica com o conceito de
affordance, em particular, apresentam uma oportunidade para divulgar de forma relevante os
estudos criança-ambiente; apesar da percepção das affordances variar individualmente e socioculturalmente, ela está relacionada com a corporalidade e acção física. No mundo pós moderno verifica-se uma alteração em que a mobilidade exterior se tornou mais restrita e/ou menos apelativa. O mundo virtual é mais sedutor para muitas crianças, do que as affordances exteriores (Kytta, 2003).
Um dos primeiros autores da psicologia ambiental a usar a teoria de Gibson, foi Heft (1988); o objectivo deste investigador, era criar uma taxionomia onde pudesse descrever as propriedades significativas de funcionalidade no envolvimento das crianças. Baseou-se em estudos de referência, no }mbito da geografia da criança, nomeadamente “Children’s experience of place” de Hart (1979) e “Childhood’s domain. Play and place in child development” de Moore (1986) e utilizou exemplos comuns destas obras, conduzindo uma meta-análise de diversos estudos de observação, em actividades exteriores de crianças, para criar uma taxionomia funcional preliminar desses ambientes exteriores. A taxionomia de Heft (1988) foi um esforço para identificar algumas dimensões das experiências ambientais das crianças. Contudo, nessa taxionomia, o autor não considerou as
affordances provindas de outras pessoas no ambiente da criança, as affordances sociais, que foram
considerando a interacção social, como tipo de affordance para examinar as características de algumas comunidades, com diferentes graus de urbanização, na Finlândia e Bielorússia.
Kytta (2003; 2004) identificou também quatro níveis diferentes de affordances que no seu conjunto formam um ciclo: (1) affordances potenciais; (2) affordances percepcionadas; (3) affordances realizadas e; (4) affordances adaptadas.
A grande divisão estabelece-se entre affordances potenciais e affordances realizadas (estas podem incluir os três últimos níveis – percepcionadas, realizadas ou adaptadas); as affordances potenciais são parte do ambiente material, são descritas como as qualidades ambientais enquanto que as
affordances realizadas – de vários graus – são descritas como parte do domínio individual.
Assim, affordances realizadas incluem: (a) affordances que tenham sido percepcionadas; (b) affordances que tenham sido realizadas; (c) affordances que tenham sido adaptadas.
Podemos distinguir entre affordances realizadas activamente, nomeadamente as affordances utilizadas e adaptadas e outras affordances realizadas passivamente que são as affordances percepcionadas (Kytta, 2003).
Cada individuo que percepciona, realiza ou adapta affordances, fá-lo de acordo com as suas qualidades pessoais. As affordances potenciais existem num ambiente ecológico, mesmo que ninguém as use. Todos os ambientes têm inúmeras affordances potenciais sejam ou não percepcionadas; é impossível enumerar todas as affordances potenciais para os diferentes indivíduos, grupos e situações. A realização de uma affordance potencial, mostra claramente como as affordances estão posicionadas entre o sujeito e o ambiente.
Assim, podemos afirmar que as affordances potenciais são propriedade do envolvimento, como qualidades intrínsecas, responsáveis por ajudar o desenvolvimento de ligação das crianças ao lugar. As diversas características individuais e os factores sociais e culturais regulam e afectam as
affordances que podem ser percepcionadas, utilizadas ou adaptadas.
No estudo elaborado em diversas comunidades da Finlândia e Bielorússia, Kytta (2003; 2004) criou e aplicou um modelo hipotético, baseado na avaliação simultânea da realização de affordances e no grau de independência de mobilidade das crianças; para a autora, parece claro, existir uma correlação positiva entre estes dois factores, visto que – sem possibilidades de independência de mobilidade as percepções sobre o ambiente são inevitavelmente limitadas.
O Bullerby (o ambiente ideal), Wasteland, Cell e Glasshouse. A variação das situações ambientais no modelo é interpretada com base nos campos de acção promovida, livre e constrangida. A oportunidade para a realização de affordances varia nos quatro ambientes; Teoricamente as
affordances são mais extensivas no tipo Bullerby e Glasshouse e menos extensivas em Wasteland e Cell.
O tipo Bullerby que representa o tipo ideal do lugar adaptado à criança, tem mais campos de acção promovida e livre que o tipo Glasshouse, mas o número de realizações de affordances podem ser idênticas. No ambiente tipo Bullerby, as affordances são, não só percepcionadas, mas também utilizadas e possivelmente adaptadas. Um exemplo de ambiente tipo Bullerby pode ser representado pela aldeia rural ou alguns ambientes da área urbana que as crianças podem explorar. É essencial que o ambiente Bullerby represente um ambiente que não exclua a criança da vida diária. Este tipo
Bullerby permite um ciclo interactivo positivo entre a criança e o ambiente. Neste tipo de ambiente as
possibilidades de independência de mobilidade da criança no envolvimento próximo, permite-lhe descobrir affordances ambientais. A realização de affordances, por sua vez, motiva as crianças a movimentarem-se mais no ambiente, criando mais possibilidades de novas affordances se realizarem.
No outro extremo, as crianças podem viver no tipo de ambiente Cell, sem possibilidades de se familiarizarem com o ambiente e de se movimentarem de forma independente. Aqui, o ciclo de motivação para explorarem o ambiente exterior é negativo, com restrições à mobilidade, tornando impossível às crianças descobrirem affordances e percepcionarem o ambiente como um amplo campo de affordances interessantes.
Este modelo de avaliação faz uso dos microambientes (microsistemas) e mesoambientes (mesosistemas) definidos por Bronfenbrenner (1989 citado por Kytta, 2003). Também os exoambientes e macroambientes podem contribuir para um ambiente adaptado à criança. Como exemplo, é referida a distância que os pais têm de realizar para o emprego e a flexibilidade de horários de trabalho – total relação com o exoambiente que pode influenciar a possibilidade das crianças criarem relações com o ambiente próximo. Também os factores macroambientais, como as ideias vigentes sobre a infância e os pré-requisitos favoráveis ao desenvolvimento, podem afectar a vida das crianças.
No ambiente tipo Glasshouse, a criança familiariza-se com o ambiente, mas só através da assistência dos pais; sem autorização para explorar o ambiente de forma independente, a criança não aprende muitas coisas essenciais sobre ele.
Há muitas diferenças entre os ambientes Wasteland e Cell. No tipo Wasteland, os campos de acção promovida e livre, não resultam num largo número de realizações de affordance, porque o ambiente
est| vazio de ”coisas” para descobrir. As affordances são pouco ou nada diversificadas. No ambiente
Cell, os campos de acção livre e promovida são restritos, o que torna impossível a criança explorar as affordances do ambiente.
Em resumo, nos tipos Bullerby e Wasteland as crianças percepcionam affordances positivas e negativas, de uma forma realista; nos tipos Cell e Glasshouse as crianças não aprendem sobre as
affordances ambientais, sendo que, no tipo Cell, as crianças desconhecem mesmo as affordances.
A autora refere que este modelo de avaliação de ambiente adaptado às crianças, não deve ser interpretado de uma maneira determinista; com a ajuda deste modelo é possível identificar as variações, relativamente às qualidades individuais e aos factores socioculturais. O mesmo ambiente material pode ser tipo Bullerby para uma criança e tipo Cell para outra.
A idade e o crescimento também têm influência na relação da criança com o ambiente, podendo variar; por exemplo, uma área residencial com transportes públicos inadequados pode ser ambiente tipo Bullerby para uma criança pequena e tipo Glasshouse para um jovem que precisa ter acesso a
affordances mais afastadas. Como são estudadas affordances ambientais para diversas idades, a
categoria usada deve ser escolhida cuidadosamente. O modelo de avaliação pode ser extensivo a outros grupos etários, mesmo para adultos. Neste caso, torna-se importante identificar as affordances pertencentes a vários grupos etários. As affordances interessantes para cada grupo e a sua avaliação podem formar a base para o desenvolvimento de um modelo de ambientes adaptados ao Ser Humano.
A infinidade de affordances potenciais do ambiente abre vários mundos; cada utilizador do ambiente – criança, adulto, pessoa idosa, pessoa deficiente pode, na base do que for capaz, criar o seu próprio mundo. Num ambiente adaptado ao Ser Humano, as affordances são realizadas por cada utilizador; o ambiente é visto como um grupo de várias affordances que podem eventualmente misturar-se.
Para Kytta (2003) o tipo de ambiente Glasshouse pode tornar-se mais comum no futuro. Os media e outras fontes de informação indirecta, dão às crianças a ideia de que o ambiente é um campo amplo de affordances mas, por causa da restrição da mobilidade, as crianças não têm acesso a essas
affordances. A informaç~o, “em segunda m~o”, apenas pode dar uma ideia distorcida de affordances e o modelo de avaliação pode ser utilizado para examinar realidades virtuais. Assim, às duas dimensões apresentadas (realização de affordances e independência mobilidade) pode, segundo Kytta (2003) juntar-se uma terceira dimensão: o valor emocional das affordances para as crianças. Isto permitiria que o modelo usado esclarecesse a base motivadora para a acção no ambiente. Em futuras investigações, a incidência sobre as bases emocionais da percepção de affordances devia ser mais
específica, podendo o estudo das bases motivadoras das affordances transformar-se no desafio essencial para o futuro da psicologia perceptiva ecológica.
Clark & Uzzell (2002) realizaram um estudo com o intuito de desenvolverem escalas de valores, de forma a medirem as affordances em diversos contextos frequentados por adolescentes – em casa, vizinhança, escola e centro da cidade. A metodologia usada para examinar o significado funcional dos ambientes, por diferentes grupos de utilizadores, baseou-se na teoria das affordances de Gibson. A medição das affordances relacionava-se com duas necessidades do desenvolvimento dos adolescentes: (1) a necessidade de lugares de interacção social e (2) a busca de lugares de recolhimento.
O estudo foi realizado em 539 adolescentes com idades entre 11-16 anos, com base em diferentes ambientes, constatando que o espaço próximo, a escola e o centro da cidade acolheram interacções sociais e comportamentais de recolhimento; o ambiente da casa não suportou comportamentos de interacção social; em vez disso, forneceu affordances para dois tipos diferentes de recolhimento: recolhimento com os amigos ou recolhimento pela busca de segurança. Foram ainda observadas diferenças de género e idade na escala de valores, pela frequência, uso e exploração dos ambientes.
Woolley & Johns (2001) realizaram um outro estudo em Sheffield (Grã-Bretanha) numa praça (“Tudor Square”) muito popular entre os adolescentes praticantes de skate. O grupo estudo
(“skateboarders”) experimentou três categorias principais de affordances que tornavam a praça
atraente: (1) as características físicas – degraus, escadas; (2) as acessibilidades – fica no centro da cidade, perto da estação caminho ferro; (3) a presença constante de muitos praticantes de skate –
affordances sociais/ convívio, sabendo que a presença de outras pessoas pode ter um papel
importante no significado funcional do ambiente.
Também Lieberg (1997) no seu estudo com adolescentes Suecos identificou as mesmas duas motivações, pelas quais os adolescentes se apropriavam dos lugares: pela interacção social e pelo recolhimento. Os lugares de interacção social sugerem duas atitudes: (1) possibilitam ao adolescente retirar-se do mundo adulto para estar com os seus pares; (2) possibilitam ao adolescente encontrar o mundo adulto, através do ambiente social, no centro das cidades. Os lugares de recolhimento podem ser usados para evitar outros adolescentes ou pares.
O autor refere que o espaço próximo (vizinhança) oferece boas oportunidades para lugares de recolhimento mas não para interacção. Contrariamente, o centro da cidade estimula (proporciona) actividades de interacção. A partir das affordances de interacções sociais e comportamentos de recolhimento, surgiram dois estudos: um estudo piloto e grupos-alvo sobre as affordances em casa, no
espaço vizinho, na escola e no centro da cidade. O estudo piloto – numa amostra de 411 adolescentes, com idades entre 11-15 anos, desenvolveu-se após analisadas quarenta affordances diferentes que se relacionavam com a interacção social, a privacidade, o recolhimento e busca de liberdade. O grupo foco – num total de seis grupos foco em cada género, com grupos de idade de 9, 10, 11 anos em que os participantes pertenciam todos à mesma escola. Com base na teoria das affordances de Gibson, este trabalho examinou sistematicamente a função da casa, vizinhança, escola e centro da cidade, em termos das suas affordances, tendo em conta duas necessidades básicas de desenvolvimento – interacção social e recolhimento.
A principal conclusão do estudo, refere que a vizinhança, a escola e o centro da cidade, podem todos suportar a interacção social e comportamentos de recolhimento. O centro da cidade fornece significativamente mais lugares para interacção que a vizinhança e a escola; mas não há uma diferença significativa em como esses envolvimentos são usados para interacção. A vizinhança fornece significativamente mais lugares para recolhimento que a escola e o centro da cidade; o centro é usado menos frequentemente que a vizinhança e a escola. O ambiente de casa não suporta comportamentos de interacção; ela fornece affordances para dois tipos diferentes de recolhimento:
(1) recolhimento envolvendo estar com os amigos e (2) recolhimento pela procura de segurança. Uma razão para as diferenças nos resultados é que, a casa, é um ambiente fechado, enquanto que a vizinhança, a escola e o centro da cidade são ambientes predominantemente abertos. A casa é também associada à família e isso pode explicar não haver estímulo de interacções sociais.
No estudo, verificamos ainda, que o centro da cidade e a vizinhança estimulam a interacção social e o recolhimento. A percepção das affordances para a interacção social, na escola e centro da cidade, atinge o pico máximo aos 13-14 anos; isto pode reflectir uma elevada associação entre a interacção social e a idade. Mas, o uso da vizinhança para interacção social decresce com a idade; os participantes mais velhos usam significativamente menos a vizinhança para interacção que os mais novos. Não decresce o uso da vizinhança para recolhimento, mantendo importância para comportamentos de retiro. O autor considera que não está clara a relação, entre a preferência por um ambiente e a percepção de affordances – ex. aqueles que menos preferiam a vizinhança e o centro da