[...] a inquietação é uma consequência relevante na pesquisa; mas indicar o caminho para uma prática mais efetiva é igualmente uma consequência e, talvez, a mais importante.
(BERNSTEIN, apud MAINARDES, 2007, p. 172)
A pesquisa desenvolvida é uma análise reflexiva sobre a DIS, com abordagem qualitativa, o que não exclui a necessidade de analisar dados quantitativos da rede pública de ensino do país, do DF, bem como advindos de outras pesquisas que tratam dessa temática. Quantidade e qualidade são aspectos que se complementam e podem ser considerados campos inseparáveis em pesquisa acadêmica. Considera-se que
[...] a regra é respeitar princípios éticos e de objetividade na pesquisa, bem como garantir as condições que favoreçam uma melhor aproximação da realidade social estudada, pois sabemos que nenhum método dá conta de captar o problema em todas as suas dimensões (ZAGO, 2003, p. 294).
A pesquisa empírica foi realizada em escola pública dos AI do EF do DF que participa do programa ‘Correção da Distorção Idade-Série’, nas duas formas de organização, ou seja, turmas denominadas de ‘em processo’, compostas por alunos considerados não alfabetizados, e turmas de ‘alfabetizados’. Foi desenvolvida nos meses de maio, junho e agosto de 2013.
Os procedimentos utilizados na realização da pesquisa foram: observação participante aberta, entrevistas semiestruturadas, grupo focal e análise documental.
Para o desenvolvimento desses procedimentos previstos, no ambiente escolar, foi utilizado, preferencialmente, o horário destinado à coordenação pedagógica individual, ou seja, no horário contrário ao da regência de classe, exceto a observação em sala de aula. A coordenação pedagógica é dividida em três atividades distintas: um período para coordenação individual, um para a coordenação coletiva e outro para formação continuada em serviço. Esse horário “caracteriza-se como espaço conquistado para debate, discussões, avaliação e planejamento para o exercício da prática interdisciplinar, contextualizado e de uma aprendizagem significativa” (DISTRITO FEDERAL, 2008, p. 95).
A entrevista é uma técnica privilegiada de comunicação, que pode ser considerada como conversa, e se classifica em: sondagem de opinião, semiestruturada, aberta ou em profundidade, e focalizada (MINAYO, 2011). No caso da entrevista semiestruturada, “[...]
combina perguntas fechadas e abertas, em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender à indagação formulada” (MINAYO, 2011, p. 64).
O levantamento de dados por meio do uso de entrevistas em profundidade – designadas também como ‘não-estruturadas’ ou ‘abertas’ ou ainda ‘de estrutura flexível’ (BOGDAN e BLIKEN, 2010). Esse tipo de procedimento diferencia-se da entrevista semiestruturada porque se pretende compreender como os próprios sujeitos estruturam os tópicos estudados e não somente obter dados comparáveis entre si. Os respectivos autores entendem como entrevista “[...] uma conversa intencional, geralmente entre duas pessoas, embora por vezes possa envolver mais pessoas, dirigida por uma das pessoas, com o objectivo de obter informações sobre a outra” (Ibid., p. 134).
Ao se realizar as entrevistas, esta pesquisa pretendeu entender o que a DIS produz na vida desses sujeitos e em toda a organização da escola, como isso se manifesta e o que acontece com o estudante após passar por essas experiências, consideradas, muitas vezes, como o fracasso da escola: baixa autoestima, rebeldia, abandono ou aceitação e passividade, como ‘obra do destino’.
Na apresentação da pesquisadora aos entrevistados, foram consideradas as orientações de Bogdan e Biklen (2010), ou seja, em primeiro lugar explicou-se resumidamente tudo o que seria feito, qual a utilização dos resultados, o porquê deles (as) serem escolhidos (as) e os benefícios que se espera que esse estudo tenha na discussão dessa problemática. Houve, ainda, apresentação da instituição e garantia de anonimato e sigilo.
Os participantes da pesquisa entrevistados foram: a equipe gestora em nível local – representada pelo diretor da instituição educacional e a coordenadora das turmas de DIS na escola – e as professoras das turmas de DIS. A partir de suas falas, delinearam-se as nuances e os contextos que envolvem o problema desta pesquisa. Sob a luz das teorias curriculares críticas, pretendeu-se desvelar os percalços, os avanços e as possibilidades de enfrentamento da DIS a partir dos dados advindos da pesquisa empírica.
Para buscar uma compreensão do entendimento dos estudantes sobre as causas da DIS buscando uma relação com o currículo, foram desenvolvidos dois grupos focais com estudantes pertencentes às turmas de DIS: um grupo com os estudantes das turmas ‘Em processo’ e o outro com os estudantes da turma de ‘Alfabetizados’. O grupo focal é constituído por um conjunto de pessoas selecionadas e convidadas para comentar e discutir um tema, a partir das experiências pessoais, sendo útil nos estudos em que há diferenças de poder entre os participantes, quando se quer explorar o grau de consenso e quando se quer
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compreender as diferenças e divergências, contraposições e contradições (GATTI, 2012). O critério de seleção dos sujeitos foi idade, priorizando os mais velhos. Como todos são adolescentes, antes de participarem do grupo focal, foi encaminhado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para que os responsáveis por aqueles estudantes assinassem (Apêndice F).
Cada grupo focal foi preparado para conter oito participantes, convidados a participar voluntariamente da pesquisa, e foi realizado na própria escola pesquisada, no turno de aula, pois, segundo justificativa das professoras, assim a participação seria maior, uma vez que elas não têm sucesso em atividades em horário contrário. O horário da realização foi decidido em comum acordo com a direção e coordenação da escola. Foi organizado em uma sala de aula, desocupada, com duração entre uma hora e meia a duas horas, com a utilização de dois gravadores de voz e do pesquisador como moderador. Houve a participação, no decorrer dos grupos focais, de outra pesquisadora, mestranda, que desenvolvia a pesquisa na mesma escola, a fim de dar apoio às observações.
Antes da realização do grupo focal a pesquisadora ficou durante um período fazendo observação em sala de aula com o objetivo de criar um vínculo com os estudantes, conhecê- los e também a rotina e organização dos mesmos no desenvolvimento das atividades e nos grupos.
Para Gatti (2012), o número de participantes deve ser de seis a doze para possibilitar a participação, a oportunidade de socialização de ideias e aprofundamento do tema. A autora recomenda que o ideal seja não trabalhar com mais de dez pessoas. Embora escolhendo mais de oito estudantes para enviar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, no dia da realização da atividade nem todos os estudantes trouxeram o termo assinado. Como são adolescentes, não participaram do grupo, mesmo afirmando, de forma oral, que os pais tinham autorizado. No primeiro grupo focal, houve a participação de nove estudantes e no segundo, seis, quantidades que possibilitaram uma maior interação entre os estudantes e a pesquisadora. Com os pais de estudantes matriculados nessas turmas foram realizadas entrevistas semiestruturadas. O critério de seleção foi a disponibilidade para fazer uma entrevista com a pesquisadora. Foram realizadas dez entrevistas, sendo oito mães e dois pais. Quatro entrevistas ocorreram na escola, quatro nas residências dos participantes e duas por telefone. As entrevistas foram gravadas, exceto as que ocorreram via telefone. Posteriormente foi feita a transcrição para a análise por meio do material impresso.
Nesta pesquisa também foi utilizada a análise documental, que consiste em “[...] estudos baseados em documentos como material primordial, sejam revisões bibliográficas, sejam pesquisas historiográficas [...]”, extraindo “deles toda a análise, organizando-os e interpretando-os segundo os objetivos da investigação proposta” (PIMENTEL, 2001, p. 180). Analisaram-se históricos escolares dos estudantes, para identificar a gênese da DIS, e currículos da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEDF) utilizados pela instituição de ensino no seu Projeto Político-Pedagógico (PPP). Para isso, foi necessária a análise de outros documentos oficiais elaborados pela SEDF que regulamentam e organizam todo o sistema público de ensino do DF.
A pesquisa bibliográfica buscou obras relacionadas ao currículo, à DIS e à avaliação formativa. Para Minayo (2011), desenvolver uma pesquisa bibliográfica requer disciplina. O pesquisador deve ter uma prática sistemática de estudo e estabelecer critérios para a escolha das obras e dos autores, deve ser crítico e estabelecer um diálogo reflexivo entre as teorias e outros objetos de estudo, precisa dar conta do estado atual do problema, deve ter foco e sempre estabelecer diálogo com o tema e o objeto de estudo.
A observação participante aberta, como procedimento, foi feita na escola pesquisada. Primeiramente verificou-se a localização da escola, a distribuição dos espaços físicos, em qual local estão funcionando as turmas de DIS e como a temática é trabalhada nos momentos da coordenação pedagógica, na reunião com os responsáveis e em sala de aula na organização e desenvolvimento das atividades. A denominada ‘observação participante aberta’ difere da observação casual e da formal porque o observador é identificado e os sujeitos sabem que estão sendo observados (VIANNA, 2003). Caracteriza-se pela presença constante do pesquisador no campo de pesquisa, sendo que
[...] esse é um procedimento que possibilita realizar mais que a mera descrição dos fatos, porque parte do pressuposto de que os acontecimentos do cotidiano se inter- relacionam com estruturas sociais mais amplas e com tradições que foram sendo incorporadas pelo grupo em ritos e costumes, que tem sua gênese em situações distantes do momento em que são vividas (TURA, 2003, p. 190).
A delimitação das ações observacionais revelou-se necessária a fim de que o problema de pesquisa se tornasse visível a todos os interlocutores. Vianna (2003) recomenda que algumas dimensões sejam consideradas: espaço físico, pessoas envolvidas no processo, conjunto de atividades relacionadas que as pessoas executam, coisas que as pessoas tentaram fazer e emoções sentidas e expressas. Para essa atividade, foram desenvolvidas práticas de
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concretização de observação participante com o uso de várias estratégias: registro de arquivos, observação, notas de campo, conversas e entrevistas informais.
Outro tipo de observação participante oculta produz conhecimentos válidos, mas costuma ser criticada por questões éticas, considerando que os sujeitos não têm conhecimento de que estão sendo observados, o que para Vianna (2003) é um fato bastante questionável.
Dessa forma, as análises sobre os dados levantados no trabalho empírico foram construídas e consolidadas no cruzamento de informações obtidas por meio de três procedimentos centrais da investigação: a análise documental; as entrevistas com as professoras, a coordenadora pedagógica, o diretor e os responsáveis; assim como a observação participante. Essa triangulação (ZAGO, CARVALHO et al.) permitiu detectar, sempre que ocorrer, alguma possível divergência entre os dados, um ponto de tensão nas ocorrências. A organização e análise dos dados foram feitas a partir dos problemas apresentados neste trabalho.
Além da descrição do percurso metodológico desenvolvido, torna-se fundamental compreender as ligações entre os eixos teóricos que cercam o problema central desta pesquisa, que serviram de orientação para o campo empírico a ser pesquisado, ou seja, currículo, série/ciclo e avaliação das aprendizagens.