HYDROGEOLOGICAL AND HYDROCHEMICAL CHARACTERIZATION OF THE WATERS OF THE SWAMPY AREA OF EL-KENNAR (JIJEL, N-E ALGERIEN)
4.3.2. Les eaux de surface
O pequeno mundo do Sertão tem sido escrutinado, na busca de maior entendimento do que acontece nas entranhas do seu cotidiano. Ressoa em alguns textos já produzidos que a visão dos que moram nas proximidades deles é de que “[…] são conformados, pois não lutam por seus direitos; moram num lugar onde o serviço público não atende e não reclamam” (GUIMARÃES e REIS, 2008, p. 173). Tal percepção da vizinhança, reproduzida em pesquisas que foram analisadas, revela que, apesar de habitar há décadas na região, existe certo preconceito com relação a esses descendentes de escravos. Apontando tons preconceituosos ainda mais fortes, Teixeira (1990, p. 30) diz: “Os principais estigmas do grupo, cultivados pelos vizinhos eram: preguiçosos, sem vontade de progredir, negros, analfabetos, pobres e outros”. De que forma esses estigmas negativos foram solidificados na região permanece como uma questão ainda aberta, mesmo após a realização de alguns estudos que levantaram esses dados desde o final da década de 1980. São palavras fortes e incisivas
que, provavelmente, escondam atrás de si um arcabouço de certo sentimento não apenas desfavorável, mas também carregado de hostilidade em relação a essa população rural. Esses dados já levantados merecem novos estudos e análises que aprofundem as percepções já registradas, retomando a questão da liberdade e invisibilidade.
Cabe questionar, então, a maneira imbricada existente entre o antigo ideal libertário buscado pelos fundadores da comunidade e a invisibilidade possivelmente necessária para a própria sobrevivência daquele grupo. É possível inferir que a liberdade desse povo foi sedimentada sob a égide de certa invisibilidade. Infelizmente não existem relatos escritos que façam um rastreamento de como essa visão foi construída na vizinhança nas primeiras décadas de existência do grupo, daí a necessidade de outras pesquisas que tracem um roteiro do fato e analisem a forma como os antepassados lidaram com o preconceito e sobreviveram a despeito dele. À semelhança de outros milhares de povos descendentes de escravos, aquela gente se fortaleceu sob pressão e preconceito, podendo ser encontrados muitos vestígios na história do Valongo de que o sentimento religioso teve forte influência nesse fortalecimento comunitário.
O relato de um idoso valonguense, à época com 80 anos de idade, é revelador sobre o passado de dificuldades:
A gente é nego, mas pode dizer que não faz mal né? Hoje já tá comum, né, mas é que nem naqueles tempo, naqueles tempo era uma tristeza. Quando eu era rapaz novo, quando eu ia lá em Tijucas com meu pai, humm, a gente passava mali (…) tinha aquelas mocidadezinha né, até pessoa já casada, dizia: ói, ói, vai passando um nego, aí vai passando um macaco, é só o que eles falavam era isso aí, me lembro que parece que tô vendo […] (CASTELLS, 2006, p. 426 e 427).
Ao fazer uma comparação entre o tempo passado e o presente, a fala desse morador indica que, quiçá, a visão demasiadamente preconceituosa experimentada em sua infância não seja algo que se repita na atualidade nas cercanias da comunidade. Poderia, então, interrogar neste momento: Mudou apenas a percepção do negro que habita a região ou mudou-se a configuração da sociedade ao redor e acerca deles? Em sua tese de Doutoramento, a pesquisadora Clenia Santos (2012, p. 115), analisa o efeito sobre o negro desse tipo de comportamento demonstrado por muitas pessoas. Segundo ela:
A baixa autoestima é razão de sofrimento para a população negra e tal sofrimento é constante, pois, a todo momento, se deparam com pessoas que rejeitam seu jeito de ser, sua característica física associada à sua situação
econômica e social, além de sua cultura. Assim a baixa autoestima está relacionada com a falta de respeito e de valorização da sociedade, quanto às diferenças étnico-sociais.
Na esteira desses levantamentos feitos na vizinhança do Sertão, constatou-se outro possível sinal de visão negativa sobre eles. Este talvez mais complexo, pois foi emitido pelos próprios estudiosos que os pesquisaram. No último parágrafo de sua Dissertação, após fechar as análises feitas e as conclusões da pesquisa, Teixeira (1990, p. 87) declara:
Foi possível perceber que o projeto inicial de autonomia passou também por uma transformação e hoje se confunde com o projeto de salvação prometido pela fé. Através da religião, o grupo se acomodou da busca pela melhoria de sua qualidade de vida. Se alienou de uma efetiva luta pela regulamentação das terras, uma vez que desestimula os conflitos e consola as perdas. Ao enfatizar a renúncia da vida futura e a prosperidade econômica, reforça a condição de carência e marginalidade deste grupo rural.
Cabe questionar se, de fato, religião e alienação seria um binômio conceitual harmonioso e integrado, como possivelmente foi apresentado nas palavras acima. Seria essa opinião, ao ser assim emitida, também uma forma preconceituosa de ver um grupo de ex- escravos que se apega à religião e tem o seu modo peculiar de viver? Estaria a conclusão de Teixeira demonstrando que a religiosidade desses negros seja a causa de sua acomodação com relação às questões que deveriam requerer forte interesse por parte deles? Seria a prática da religião a causadora da renúncia da prosperidade para o povo do Valongo e o reforço de sua condição de carência? Entende-se como relevantes esses questionamentos expostos a partir da conclusão desse importante trabalho de Dissertação, que foi o primeiro a abrir as portas do Valongo para pesquisas acadêmicas. De fato, foi a conversão ao adventismo que desestruturou o projeto de autonomia e liberdade daquele povo ou haveria outras investigações que poderiam dialogar com as análises de Teixeira?
Comentando as conclusões levantadas na pesquisa de Vera Teixeira, os estudos de Guimarães e Reis (2008, p. 176) apontam um aspecto interessante, que é a potencialização dos estigmas já existentes sobre esses negros. Elas dizem: “No entanto, ao vincular a fé a questões econômicas, a autora está criando um elemento de estigmatização que até então não aparecia nos discursos sobre o grupo”.
Segundo uma declaração de Mircea Eliade (1992, p. 43) acerca do passado, “o homem religioso desejava viver o mais perto possível do Centro do Mundo”. Pelo visto, para os valonguenses a religião continua exercendo essa função central em seu pequeno mundo, cuja
experiência cotidiana pode ser comparada à sensação descrita por Eliade de se habitar em um lugar reencantado (1992). Sendo assim, provavelmente haja mais no Valongo que simples alienação. Seria essa forma de visão de mundo cultivada pelos habitantes daquela estreita faixa de terra, quase esquecida pelo governo, apenas uma forma de alheamento provocada pelo adventismo ou haveria alguma dimensão diferente dessa que pudesse ser investigada? Ora, mesmo na delicada questão da legalização de suas terras, tema que geralmente desperta grande interesse em comunidades semelhantes, Castells (2007, p. 69) observou que havia pouco interesse por grande parte do grupo pelo andamento e resolução do processo, “[…] recheado de justificativas por vezes confusas e contraditórias”.
Quando são analisados em conjunto, esses fatores apontam para o prevalecimento de um modo de viver bastante peculiar nesse quilombo. E não apenas isso, é também um jeito tido como sendo muito desconectado com as realidades desse tempo, o que leva a interrogar- se se a religião praticada por aquele povo é a causa da acomodação que se apresenta como sendo parte integrante do seu cotidiano ou se podem ser encontrados ali outros fatores que mereçam uma análise. A sequência do capítulo se ocupará em discutir a temática do modo de vida valonguense e levantar questões julgadas como indispensáveis de serem pensadas a respeito do assunto.
Além desses aspectos levantados, algo mais pode ser arrolado à presente investigação, diante do cenário exposto, e diz respeito ao imbricamento entre liberdade e religião, os dois fatores abordados até aqui para referenciar a comunidade do Valongo. Esses dois conceitos se apresentam como geralmente tensionados entre si e talvez jamais possam ser harmonizados, oferecendo, assim, possibilidades investigativas diversas. Bem, se é possível deduzir que o ideal de liberdade, mesmo não sistematizado ou compreendido, foi o elemento essencial para a gênese do grupo estudado; pode-se também alegar ser impossível a compreensão desse mundo valonguense sem que se perceba a maneira como a religião é relevante para a vida cotidiana daquelas pessoas. Guimarães e Reis (2008, p. 176) afirmam que: “a religião tem uma importância fundamental na visão de mundo dos valonguenses”. A expressão “importância fundamental” utilizada pelas pesquisadoras carrega em si uma força que não deve passar despercebida. Pelo visto ela foi escolhida para retratar uma determinada realidade enxergada por elas no meio ambiente do Valongo e que aponta para um jeito de viver a espiritualidade que não é facilmente encontrado em uma comunidade quilombola.
Seria possível, então, sintonizar a experiência religiosa valonguense com a expressão usada por Geertz (1989) segundo a qual esse tipo de vivência espiritual se torna em modelo para a realidade de certos grupos sociais? Os levantamentos bibliográficos da pesquisa apontam nessa direção. Borges (2000, p. 144) mostra a fala de uma jovem da comunidade, descendente de um dos fundadores do grupo. Numa frase ela sintetiza, de certa forma, um sentimento que pode ser facilmente captado na maioria dos moradores do Sertão. Disse ela: “a igreja é a maior alegria que temos aqui”.
Aliado à liberdade experimentada desde o nascimento da comunidade, o adventismo praticado no Sertão há nove décadas pode ter contribuído para a manutenção da cultura valonguense e, sem dúvida, é uma importante especificidade que o Valongo possui em relação a outras comunidades quilombolas, que Guimarães e Reis (2008, p. 173) apontaram como “cenário sui generis para o estudo antropológico”. Eis, pois, liberdade e religião, coexistindo nesse microcosmo e levando a presente investigação a questionar se existem elementos que sejam capazes de torná-las mais integradas entre si em outros ambientes onde sejam vivenciadas enquanto realidades sociais.