• Aucun résultat trouvé

ANALYSIS OF FGM SANDWICH PLATES UNDER THE EFFECT OF MECHANICAL LOADS AND IN A THERMAL ENVIRONMENT

Para Bourdieu (1986) é absurdamente impossível tentar compreender a vida como sendo apenas uma série de acontecimentos que vão se sucedendo, mas é preciso levar-se em conta toda uma complexa matriz de relações, uma imensa rede estrutural que torna possível a sua existência e a sua compreensão. Se o desafio de buscar tal aprendizado de uma vida que seja já se configura como gigantesco, compreender a teia estrutural em um grupo de indivíduos constitui-se em tarefa virtualmente impossível para os limites estreitos de uma Dissertação. Entretanto, os levantamentos que se apresentam fazem surgir breves lampejos que auxiliam o objetivo da pesquisa e, sem dúvida, apontam caminhos para novas investigações.

O grupo do Valongo chega ao presente (2015) contando com aproximadamente 125 anos de história enquanto quilombo e cerca de 90 anos de vivência na fé adventista, que entrou pela primeira vez em seu território em meados da década de 1920 e consolidou-se nas décadas seguintes. Se, por um lado, “[…] a falta de documentos é um obstáculo difícil de ser superado para informar a origem dos primeiros negros do Sertão do Valongo” (SILVA, 2010, p. 76), a passagem do tempo parece não ter produzido modificações significativas na cultura dos atuais valonguenses, caracterizados pela postura de relativo isolamento e desapego às novidades da sociedade consumista. Estar entre seus moradores é ter impressão de que se está habitando um tempo remoto, marcado por um compasso lento em quase todos os aspectos, criando certo paradoxo com a agitação característica da sociedade moderna.

Na presente época, marcada por uma cultura geralmente massificada e também por uma pretensa globalização que parece tudo empapar em sua teia enorme, vale a pena deter-se nesses minúsculos mundos, como o dos valonguenses, onde existe uma espécie de sabedoria

ancestral muito pouco codificada, mas repleta de significações que podem facilmente escapar aos olhos apressados e tecnologizados dos que habitam este século. É exatamente essa espécie de sabedoria empírica, entranhada no cotidiano dessa gente, que se torna na principal defesa que possui frente aos desafios enfrentados (BOSI, 1993, apud JORGE e BRANDÃO, 2012).

Na visão de Guimarães e Reis (2008, p. 176) no contato com o quilombo, foi a religião que “[…] gerou unidade e coesão social. A questão da identidade também foi redefinida”. Esse dado é importante, bem como a data em que o artigo foi escrito, pois ele corrobora com a hipótese da pesquisa de que a identidade desse povo é construída essencialmente pela religião que o grupo pratica, tanto quanto pela liberdade original e oficial que o gestou, mas sem deixar de considerar a discussão sobre o conceito e prática de liberdade que a religião pode ou não desencadear. Dezoito anos antes, a pesquisa de Teixeira (1990, p. 81) apontou aspecto semelhante:

Este grupo rural encontrou na religião um sentido de união que estimulou formas de solidariedade e possibilitou a positivação de sua identidade enquanto grupo, pois se antes eram os ‘pretos do sertão’, hoje os valonguenses são conhecidos como ‘os adventistas’.

Se há indícios de que a passagem do tempo não arrefeceu a fé desse povo mas, ao que tudo indica, lhe deu ainda certa positivação identitária, cabe avaliar quais elementos se juntam naquele território negro para que tal fenômeno possa ser identificado. Uma das possibilidades levantadas na pesquisa é que o senso de comunidade se fortaleceu muito no grupo ao longo dos anos, sendo reforçado pelas práticas religiosas adventistas, que emprestou aos seus membros uma convivência igualitária com outros indivíduos da mesma fé, independente de raça, cor ou classe social, como visto no capítulo anterior, facilitando assim, no cidadão valonguense, a construção de uma identidade positiva.

Na compreensão de Silva (2010, p. 59), “uma comunidade constitui um sistema altamente especializado de reprodução cultural, de socialização e de integração social”. Já o Dicionário de Ciências Sociais (1977) define comunidade no sentido de “um conjunto de indivíduos que partilham símbolos, ritos, mitos e parentesco dentro do mesmo espaço socialmente ordenado”. Mas não se pode passar por alto, a advertência de Lemos (2009, p. 202) quando afirmou que: “[…] o conceito de comunidade é um dos conceitos mais vagos e evasivos nas ciências sociais”. Apresentar alguns recortes acerca dos processos que envolvem uma vida em comunidade no presente tem importância para essa pesquisa, visto ser

impossível olhar para a identidade existente no povo do Valongo sem observar as teias relacionais que são tecidas no seio de sua comunidade.

Em seus estudos sobre os quilombos, Leite (2000, p. 344) observou que: “De todos os significados do quilombo, o mais recorrente é o que remete à ideia de nucleamento, de associação solidária em relação a uma experiência intra e intergrupos”. É provável, entretanto, que essas descrições não deem conta de todo o fluxo dinâmico e efervescente que formam o cotidiano verificado nos grupos sociais. Arruti (1977, p. 26) parece ter captado essa noção:

Se o uso mais freqüente da noção de grupo étnico nas ciências sociais esteve ligado ao uso popular da expressão, que remete ao significado grego ‘grupo de pessoas de mesma raça ou nacionalidade que apresentam uma cultura comum e distinta’ (Keyes 1976), tal noção tornou-se incapaz de continuar dando conta das necessidades analíticas dos antropólogos contemporâneos.

Se essa afirmação era verdadeira no final da década de 1970, quase quatro décadas depois, elas podem ser analisadas com mais exatidão, pois faz-se necessária uma constante atualização na compreensão dos grupos sociais que compõem a sociedade do século 21.

Olhando dentro desses parâmetros dinâmicos pode-se asseverar que o povo do Valongo vive a essência do que significa uma comunidade e os pesquisadores que entram em contato com ele têm constatado que a vivência partilhada da simbologia religiosa cria ali um ambiente propício à socialização.

A faixa de terra que abriga a comunidade valonguense desde o final do século 19 não são terras legalizadas pelo poder público, apesar desse povo ser detentor da Certidão de Reconhecimento emitida pela Fundação Palmares como remanescente de quilombo. Mas, junto com a fé, é esse território que simboliza o pertencimento dos membros do grupo, onde se compreendem como um “nós”, um povo, uma comunidade, portadores de uma história herdada pelos ancestrais, de uma cultura compartilhada e habitantes de uma terra que podem chamar de sua (COSTA, 2009, apud JORGE e BRANDÃO, 2012). Entretanto, na visão sociológica de Durkheim, os indivíduos são coagidos para agir de determinada forma por causa da consciência coletiva reinante onde ele está inserido (WEIDUSCHADT, SOUZA e BEIERSDORF, 2013). Ao contrário disso, pode ser referido que é exatamente o sentimento comunitário que tem a capacidade de fazer o indivíduo sentir-se identificado por um grupo social. Para que essa identificação aconteça o indivíduo é levado a abrir mão de alguns

aspectos de sua liberdade individual. Comentando a posição de Bauman sobre isso, Carolina Lemos (2009, p. 204) lembra que:

[…] existe uma tensão entre a utópica e almejada segurança da comunidade e a ideia de liberdade. Isto porque, na medida em que a vivência em comunidade significa a perda da liberdade, acaba gerando-se um dos dilemas mais significativos para a compreensão das dinâmicas sociais da contemporaneidade. Paradoxalmente, almejamos e resistimos à segurança, em prol da liberdade individual.

Em determinado grau esse paradoxo será enfrentado pelos sujeitos que compõem uma comunidade e a maneira como se lida com esse dilema pode levar ao fortalecimento ou ao enfraquecimento de um grupo.

Na riqueza da cultura do Valongo encontra-se toda uma tradição alimentar, produção de medicamentos fitoterápicos, vivência familiar, bem como uma gama de saberes que foram arrolados pelo IPHAN de Santa Catarina como patrimônio imaterial e geraram um livro de 268 páginas, publicado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2008. Tendo como título: Ecos e Imagens do Patrimônio Imaterial: Inventário Nacional de Referências Culturais do Sertão do Valongo, a obra apresenta um apanhado de dez artigos, envolvendo dezenas de pesquisadores do Estado que se debruçaram sobre o patrimônio imaterial existente no povo do Valongo.

Entende-se que essa obra (Figura 21) apresenta uma relevância no sentido “de que se supere a invisibilidade e exclusão de que têm sido vítimas muitas das populações tradicionais, através de sua valorização cultural” (CASTELLS e REIS, 2008, p. 13). A obra apresenta os resultados das pesquisas desenvolvidas no Valongo entre os anos de 2005 a 2007, com o objetivo de fazer um levantamento minucioso do patrimônio imaterial ali existente. Para Castells e Reis (2008, p. 14), ele se constitui num “instrumento de visibilidade da comunidade que habita o Sertão do Valongo […]”.

Figura 21 - Capa do livro publicado pelo IPHAN sobre o Valongo

Fonte: CASTELLS, Ecos e Imagens do Patrimônio Imaterial: Inventário Nacional de Referências Culturais do Sertão de Valongo. 1a. ed. Florianópolis: Iphan / 11ª Superintendência Regional, 2008.

v. 1. 296 p.

Segundo Arruti (2006, p. 82) comunidades remanescentes dos quilombos, semelhantes àquela encontrada no Valongo, devem ser reconhecidas como símbolo de uma cultura e de um modelo de luta histórica, pois são detentoras de uma identidade positiva. É a partir de tal reconhecimento que se abrem as possibilidades para que ocupem um lugar novo em relação àqueles que moram na vizinhança, como também diante das forças políticas organizadas, pois “trata-se de reconhecer, naqueles grupos - até então marginalizados - um valor cultural absolutamente novo […] até então, desconhecidos deles mesmos”. As iniciativas na forma de pesquisas acadêmicas e as políticas públicas das últimas décadas têm sido um auxílio na

direção do empoderamento desses indivíduos, outrora marginalizados, mas que vão reconhecendo de forma crescente seu valor cultural e, com isso, construindo eles mesmos uma identidade própria.

Nos estudos de doutorado de Engemann (2006, p. 130), são encontradas afirmações que se alinham aos propósitos desta pesquisa, quando ele afirma que:

A mera junção dos cativos não os transforma certamente numa comunidade, a vida comunal se constrói, isto é, produz e reproduz, na medida em que certos saberes e fazeres são compartilhados, aceitos e respeitados pelo conjunto de seus coabitantes. Isso demanda o transcurso do tempo, que vai sedimentando vínculos, consolidando práticas e estipulando rivalidades e dissensões.

Ou seja, há indícios de que a comunidade encontrada no Sertão do Valongo tornou-se, desde a sua origem, bem mais que o mero ajuntamento de ex-escravos, visto que já se uniram naquela época conturbada como três famílias. Percebe-se também que foi mais que a passagem do tempo que solidificou seus laços e fez com que houvesse no lugar algo para além de um agrupamento populacional, mas um organismo social comunitário viável e de reconhecido valor para os seus habitantes. Como bem lembra Lemos (2009, p. 205): “A comunidade existe por meio de um processo de construção simbólica da semelhança entre os seus membros e da acentuação da diferença relativa a outras comunidades”. Essa afirmação se encaixa nos moldes do que aconteceu no Valongo.

Quando se avalia, como é a proposta deste estudo, a maneira como a identidade desse povo se constrói sob a égide da liberdade e da religião, percebe-se que o espírito comunitário existente no grupo constituiu-se em fator preponderante para que sua realidade fosse tal qual é no presente.

Se o caráter da identidade é um movimento dinâmico, vivenciado num constante processo de metamorfose e fazendo uma conexão frequente entre a história individual e o contexto onde esse indivíduo está inserido (CIAMPA, 1987 apud FARIA E SOUZA, 2011), então é possível inferir que a dinamicidade imbricada entre a liberdade e a religião formaram, e continuam formando, uma certa identidade no povo valonguense. Pelos levantamentos realizados pode-se dizer também que não foram os líderes religiosos adventistas que lhes forneceram os elementos essenciais dessa identidade única, também não receberam a identidade através da vivência inicial dos seus antepassados no território do Sertão, que buscavam a liberdade para suas famílias. Mais que isso, é o conjunto complexo de todos esses

componentes e de outros tantos não verificados, mas existentes, que faz com que os valonguenses tenham esses caracteres exclusivos.

Nesse sentido concorda-se plenamente com a afirmativa de Dubar (1997) segundo a qual a “[…] identidade nunca é dada, é sempre construída e a (re)construir” (CIAMPA, 1997, p. 104, apud FARIA e SOUZA, 2011, p. 37). Tal dinamismo faz com que a vida em comunidade se torne em constante exercício de adaptações e, como afirmou Lemos (2009, p. 206), referindo-se ao pensamento de Cohen (1985), “[…] os indivíduos constroem, simbolicamente, uma comunidade, transformando-a num recurso e num repositório de significados e num referente para a sua identidade […]”. Se é verdade, pelo inferido até aqui, que a força dos ideias de liberdade e dos sentimentos religiosos são moldadores da identidade do povo do Valongo, essa coleção de significados que sua cultura constrói, apresenta, sem dúvida, uma riqueza cultural que merece ser preservada, além de pesquisada.