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Ação Metodologia

Tendo já definido que cada página representa um painel, resta saber como podemos mover estes painéis de forma independente, podendo desta forma alterar as suas ordens, bem como remover ou adicionar novos painéis de imagens. Entendemos ser assim essencial esta possibilidade de deslocalização e reposicionamento, adição e subtração por representarem os aspetos centrais da meto- dologia de Aby Warburg no seu Atlas Mnemosyne. Sem estas dinâmicas na sua morfologia enquanto objeto editorial, Atlas:

Memória: Ação seria apenas um catálogo de imagens estáticas,

encerradas nas páginas de um livro com início, meio e fim, desvir- tuando-se do seu objetivo metodológico.

Descartando à partida a possibilidade de um livro na sua repre- sentação clássica e fixa, procuraram-se soluções que permitissem uma flexibilidade estrutural das suas páginas, desde calcadores metálicos, baguetes, parafusos de encadernação, até mesmo elás- ticos, tornando em tudo móvel cada página desta publicação. Mas muito embora estas soluções permitissem, de forma mais ou menos capaz, montar e desmontar o livro, ao mesmo tempo não ofereciam uma certa estabilidade formal e estética.

Curiosamente, foi no arquivo que se encontrou a solução de encadernação final, mais propriamente nas capas de arquivo com ferragens de argolas em perfil metálico. A possibilidade que estas oferecem pela sua natureza funcional, permitem a alteração total das folhas que arquivam, e conceptualmente possibilitam criar uma ponte com o tema abordado. Resolveu-se assim um dos problemas centrais de um livro que se queria aberto nas suas montagens.

De forma a manter esta publicação em aberto, ou seja, de forma a que possa existir para além do que nela contém, foram adicionadas folhas em branco que, como painéis vazios de um atlas editorial,

Morfologia

— Como trazer o universo movível do Atlas para um corpo editorial?

Mas se as argolas se apresentam como uma boa solução, já a capa como revestimento parece um elemento frágil formal- mente e esteticamente, incorrendo em banalizar o seu conteúdo e, por consequência, este acabar por perder a sua força enquanto objeto editorial. Desta forma, e focados em tentar dar conti- nuidade ao conceito de arquivo, optou-se por desenvolver uma

caixa-arquivo que ao mesmo tempo é o próprio livro, não sendo

apenas o seu depositário, mas sim parte integrante do próprio editorial, tendo as ferragens acopladas no seu próprio corpo. Relativamente aos seus acabamentos, forrou-se esta em tecido preto, tendo estampado na frente/capa uma elipse17 alusiva à sala de estudo oval da biblioteca de Aby Warburg, e na sua lombada o título Atlas: Memória: Ação.

*

Se, por um momento, esquecermos o objetivo de Aby Warburg com o seu Atlas e nos forcarmos apenas na mecânica da sua metodologia (utilização de grandes painéis onde afixava imagens, nem sempre fixas, que migravam entre estes suportes), encontramos então um paralelo com o livro-objeto proposto. A liberdade estrutural encontrada para a mobilidade da página e dos seus conteúdos reproduz a do Atlas Mnemosyne, estando naturalmente condicionado às suas características formais, por nos propormos a pensar a sua metodologia a um exercício de design editorial. Assim, a leitura destes painéis-folhas depende da ação do seu leitor, pelo virar de cada página, sem, contudo, o obrigar à linearidade da leitura, e permitindo-lhe também tornar-se editor da sua estrutura editorial. Assim como Aby Warburg o fazia, o leitor poderá organizar ou reorganizar todas as páginas estabelecendo novas relações entre os seus conteú- dos, formulando novas leituras. Fica também em aberto a possibilidade de adicionar conteúdos, ou mesmo a sua remoção, se assim entender, pela facilidade e quase apelo que este edito- rial faz pela sua morfologia. São estas possibilidade que lhe conferem uma orgânica inesgotável sempre em constante ação. Se Aby Warburg procura “sobrevivências” de uma antiguidade primitiva pelas relações entre imagens de vários tempos, este

17

“A forma elíptica da Biblioteca, alusiva a Kepler e à sua descoberta da forma das órbitas dos planetas, simbolizava igualmente a vitória de Warburg contra a sua doença, pois o erudito estabelecia um paralelo entre a sua libertação das forças obscuras da irracionalidade que o mergulharam na esquizofrenia, e o trabalho libertador da ciência moderna no que diz respeito às crenças antigas e medievais na astrologia e no poder dos astros.” (Checa, 2010, p. 16)

Ação Metodologia

editorial convida o leitor a deixar-se levar pelas imagens e pelas relações entre elas, tanto pelas suas características estéticas como retóricas, para assim encontrar múltiplas leituras ou interpretações condicionadas pelo seu olhar. Por esta mesma razão, é proposto um ensaio visual, vendo na metodologia do

Atlas Mnemosyne uma possibilidade catalisadora de gerar

livremente leituras subjetivas e libertas à performatividade dos seus conteúdos.

Atlas: Memória: Ação é na sua essência um atlas nas suas apro-

ximações ao trabalho que o inspirou, tanto através da potência da articulação das imagens, como pela sua capacidade de trans- formação, numa perpétua busca por um conhecimento invisí- vel – ou nem sempre óbvio – alimentado pela imaginação de quem o vê, ou, neste caso, de quem o folheia.

Compreender a arquitetura e a força anímica do Atlas Mnemosyne, seja pela estrutura do pensamento do seu autor ou na forma como este se manifestava na sua vida (como podemos percecionar na sua biblioteca), é essencial para pensar este projeto. Da mesma maneira, é importante observar materializações de outras propostas, que aproximando-se à que é feita neste relató- rio, se cruzem com as intenções do exercício prático proposto. Recuperando exposição Atlas ¿Cómo llevar el mundo a cuestas?, esta surge neste relatório com uma dupla potência: ora por permitir compreender através do pensamento de Georges Didi-Huberman tanto o trabalho de Aby Warburg com o seu

Atlas Mnemosyne e o seu autor, bem como servir-se dela para

pensar a o trabalho editorial aqui proposto.

Embora esta não seja um projeto editorial, é possível esta- belecer uma ponte entre as suas intenções e o seu desenho expositivo e as de um livro que se quer também atlas.

Naturalmente, outros projetos serviram também de inspiração para pensar as especificidades do design editorial proposto, tanto pela sua proximidade à ideia de atlas ou à metodologia do seu autor bem como na sua materialização sob a forma de um livro nas suas múltiplas possibilidades, permitindo que assim se possam questionar as fronteiras do seu território.

Casos

Esta exposição, comissariada por Eva Schmidt, esteve aberta ao público de Dezembro de 2012 até Março de 2013, no

Museum für Gegenwartskunst Siegen (Siegen, Alemanha),

propondo a mostra de obras de vários artistas inspirados pelo pensamento de Aby Warburg e do seu Atlas Mnemosyne, mais especificamente, nas múltiplas configurações e possibilidades do uso de coleções fotográficas.

Na vasta lista de trabalhos apresentados nesta exposição, destacamos o de Paula Roush, fundadora do MSDM (Mobile

Social Design Medium, Londres), estúdio onde se dedica ao

trabalho artístico, ao design e à pratica fotográfica em intera- ção com a cultura urbana contemporânea, publicação e envol- vimento com o público.

Em Dear Aby Warburg, Paula Roush apresenta-nos um arquivo experimental do seu projeto Photo Found Foundation18, que opera nas relações entre arquivo e memória. Este arquivo é apresentado e distribuído em caixas dispostas na sala de um museu em mesas e prateleiras, contendo material inspirado em dois arquivos queer e feministas de Londres: Hall–Carpenter

Archives e Feminist Library.

Este arquivo é aqui referenciado não tanto pelo seu conteúdo ou formato, mas pelas atividades que surgem a partir dele. De forma a manter o arquivo aberto e ativo, foram promovidos workshops em que os seus participantes foram convidados a trazer imagens dos seus arquivos pessoais com o objetivo de as misturar ao mate- rial já existente, e dessa experiência desenvolver projetos edito- riais livres no formato de photobookzines.

Este exercício livre pela apropriação de imagens e conse- quente formalização em pequenas publicações alimentadas pela dicotomia arquivo-memória, torna este projeto interessante para