4.4 Intégration avec SAP
4.4.2 Les communications asynchrones temps-réel
A questão fundamental da transição da modernidade para a pós-modernidade, de acordo com Maffesoli (in SCHULER; SILVA, 2006), é a substituição de uma sociedade intrinsecamente racional para uma sociedade emocional – fato que começou a ocorrer a partir de 1950. Neste sentido, as tribos urbanas são parte essencial do momento presente que se configura, já que representam a união de grupos devido ao compartilhamento de valores (emocionais) em comum. “O que parece estar em jogo nas tribos contemporâneas, é a heteronomia, isto é, ‘a lei me é dada pelo outro’. Isto vai ainda mais longe: eu não existo se não pelo outro.” (p.34, grifo do autor). A metáfora da tribo sustenta a ideia do estar-junto – também citada por Jean-François Lyotard ([1979] 1998) – afinal, é certo que as pessoas destes microgrupos se reúnem não somente pela racionalidade, mas também pelos sentimentos que são despertados.
O tribalismo se opõe ao individualismo que, para o sociólogo, teve seu auge durante a modernidade. Isso porque o indivíduo deveria adquirir uma identidade para alcançar à socialização, e atualmente o sujeito possui mais identificações múltiplas do que, de fato, uma identidade. Essa heterogeneidade é o que funda as formas tribais de existência, as formas comunitárias (MAFFESOLI, 2014) que são porosas por natureza: existe porosidade nas identidades sexuais, ideológicas e até mesmo profissionais. Isto é, a pessoa plural desempenha teatralidades, vive papeis, utiliza máscaras no dia a dia que a permitem ser dupla, dúplice e resistir aos diversos poderes estabelecidos (MAFFESOLI, 2012).
Sendo assim, Maffesoli (in SCHULER; SILVA, 2006) aposta em uma ética do afeto, em uma moral construída pelos laços criados entre os indivíduos através de uma participação comum em conjuntos mais amplos da existência. Desenvolve-se uma cultura do instinto, que brinca com a eventualidade, com o risco, com a aventura de enfrentar o destino.
Consideremos as tribos pós-modernas como sendo uma forma de compartilhar um gosto específico. Assim, nossas cidades não passariam de pontuação de lugares, às vezes de ‘pontos importantes’ onde vão encontrar-se as tribos – musical, esportiva, cultural, sexual, religiosa. E isso para celebrar o gosto que serve de cimento a cada uma das tribos. É importante insistir nisso. É a partir de emoções, paixões, afetos específicos que vamos, a partir de então, pensar e organizar o elo social. Ao mesmo tempo, ‘gostos e cores não se discutem’. Isso quer dizer que é bem delicado continuar a imaginar o mundo a partir de um universalismo que nos é tão habitual (MAFFESOLI, 2012, p.50, grifo do autor).
No mundo moderno, para o autor, havia uma racionalização excessiva da existência. Desta forma, toda a sociedade tornou-se mais racional do que emocional – afinal, através dela se alcançaria a emancipação – e o indivíduo passou a valorizar cada vez mais o pensamento e cada vez menos o sentimento. A homogeneidade estava em voga: o indivíduo era indivisível, hábil o suficiente para fazer sua história e a história do mundo (quando associado a outros). As identidades e instituições estavam reduzidas ao uno.
Já na pós-modernidade, não se pode mais restringir a sociedade a uma só verdade: para compreender a experiência social é preciso olhar para as suas múltiplas configurações – o que Maffesoli (1985) chama de experiência do relativismo. Ou seja, o sociólogo abre espaço para verdades locais já que “[...] cada situação ou cada forma social, em doses variáveis, é uma composição de elementos heterogêneos que se articulam entre si.” (p.87).
Por isso, o Estado-nação, a família, a instituição eclesiástica e até mesmo a instituição universitária, isto é, as instituições sociais que ditavam normas e modos de vida durante a modernidade, se tornam cada vez mais fracas nesta transição – como também defendeu Jean-Francois Lyotard ([1979] 1998). Não é que elas tenham desaparecido, mas
deixam de ser referência em relação as quais os indivíduos devem se orientar. Ou seja, durante um determinado período, os grandes sistemas foram válidos, mas já não são mais adequados para a sociedade heterogênea pós-moderna. Vive-se uma metamorfose, onde a impermanência de uma forma e a continuidade da vida coexistem, onde o fim não é o fim, mas sim uma saturação.
Ocorre então o que Maffesoli (in SCHULER; SILVA, 2006) chama de reencantamento do mundo, que representa o fim da modernidade, de uma sociedade focada no dever-ser. O sociólogo acredita que “[...] algo qualitativamente diferente está se produzindo. E este qualitativamente diferente nos remete a esta Terra – amor mundi” (p.61, grifo do autor). Tal reencantamento também diz respeito à saturação dos grandes esquemas analíticos, como a máxima da liberdade – ela não está mais em foco, pois, sendo uma categoria judaico-cristã, perdeu seu valor e se transformou em um ideal democrático. A liberdade pós-moderna significa que cada indivíduo autônomo, com a sua liberdade, pode se relacionar com outros indivíduos autônomos que, por sua vez, possuem as suas liberdades.
Desenvolve-se uma nova socialidade, ligada ao espaço, que tem suas bases nos afetos e nas emoções. “Neste sentido, o homo politicus ou o homo economicus vai cada vez mais dar lugar, tanto para o melhor quanto para o pior, ao homo estheticus.” (MAFFESOLI, 2014, p.28, grifo do autor). Ou seja, o homo economicus tinha sua vida explicada pelas leis econômicas (visão que se mostra redutora nos dias de hoje); já o homo estheticus tem sua existência explicada por um conjunto mais amplo que alia comunicação e tecnologia (MAFFESOLI, 1985).
Tal estetização do tempo presente se evidência através do surgimento do pós- modernismo arquitetural e do design. O primeiro enquanto construção orgânica a partir de diversos elementos díspares, cuja forma é realizada a partir de irregularidades, de fragmentações; e o segundo pois
A ideia de base do design é que o objeto, mantendo sua funcionalidade, deve ser adornado. O objeto é vestido, estetizado. Para lançar mão de uma metáfora, trata-se de dourar a pílula. Essa, servindo ao objetivo previsto, é situada em um ambiente onde o prazer dos olhos tem o seu lugar. A multiplicação de lojas e de revistas de decoração mostra bem que é o conjunto de objetos da vida quotidiana que é passível de um tratamento desse tipo, e que ele serve de cenário ao teatro do mundo onde é representada a cena da existência social (MAFFESOLI, 2012, p.7 e 8, grifo do autor).
A importância do design remete a características da pós-modernidade: as diversas modulações da forma, o culto ao corpo, ao prazer de ser, ao qualitativo da existência. Aliados à relevância da vida quotidiana, ao sentimento de pertencimento tribal e a volta do emocional,
resultam na mudança do paradigma social – que agora está baseado em um tripé englobador da experiência, do coletivo e do vivido.
A valorização dos objetos, também evidenciada pelo design, expõe ainda a verdadeira inversão que existe entre o moderno e o pós-moderno. No tempo presente, somos possuídos pelos objetos, até mesmo quando deles mantemos distância. A sociedade da consumição deteriora os afetos e os objetos devido à fixação no dispêndio, “[...] na perda de si no outro, qualquer que seja este outro: o outro da natureza, o outro do grupo, o outro da deidade” (in SCHULER; SILVA, 2006, p.35). Uma série de valores estão cedendo lugar a outros modos de ser, que são essencialmente da ordem do sincretismo.
Importante salientar que a moda também possui papel fundamental na sociedade pós- moderna para Maffesoli (2012), pois nunca na história da humanidade o indivíduo adornou o corpo com tanta veemência. Basta perceber que os cuidados com aparência não são mais somente das mulheres, mas homens, crianças e idosos também se preocupam com o exterior. Esse aspecto representa, além do culto ao corpo, o tribalismo, quando o jeito de vestir, cortes de cabelo e até mesmo o uso de piercings e tatuagens identificam o indivíduo como pertencente a uma determinada tribo.
O que é imprescindível para Maffesoli (1985) é perceber o todo orgânico da sociedade pós-moderna: as preocupações, desejos, ilusões coletivas. A pós-modernidade privilegia a ambiguidade e a complexidade da natureza humana, nas quais há uma harmonia conflitual que permite a coexistência de diversas características. O que está de fato em jogo no mundo contemporâneo são estas emoções compartilhadas que constroem uma atmosfera emocional, mais forte do que a própria economia de si.