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Les Commissions paritaires

1. LA VIE DE L’ASSOCIATION

1.3. Les Commissions paritaires

Caicó estava caminhando para o progresso e se modernizando em vários setores sociais, como a educação, a cultura e a economia. Todavia, no que diz respeito à área da saúde, existia uma precariedade nas unidades hospitalares de atendimentos a população pobre da cidade. Nesta época havia apenas o Serviço Especial de Saúde Pública do Seridó (SESP), fundado em 07 de agosto de 1929, por Dr. Aderbal de Figueiredo, vindo a funcionar no ano de 1934. Era, pois, uma Casa de Saúde que tinha como finalidade atender não somente à população carente de Caicó, mas toda a região seridoense. Além desse núcleo de saúde também houve a Associação de Manutenção da Maternidade e Proteção à Criança, mais conhecida como Mãe Quininha. Essa maternidade foi criada, em 04 de dezembro de 1966, em homenagem à mãe do ex- governador Walfredo Gurgel.

Ambos os serviços públicos demonstravam deficiência no atendimento às pessoas advindas das zonas rurais e dos municípios vizinhos a Caicó. Os médicos mais conhecidos eram doutores Milton Marinho, Oswaldo, Pedro Militão e Onaldo Pereira de Queiroz. A maioria desses médicos formou seus consultórios particulares e passou a cobrar pelas consultas. Dessa maneira, em meio a uma sociedade martirizada pelas desigualdades sociais e pela proliferação de doenças, destacou-se o médico Carlindo de Souza Dantas, que conquistou o respeito e a confiança da população pobre por ter exercido práticas medicinais marcadas pela caridade – característica esta que o tornou “o médico dos pobres” ou mesmo “o pai da pobreza”, como passou a ser conhecido e lembrado até os dias atuais.

Em 1960, quando o médico Carlindo retornou para Caicó após ter se formado em Clínico Geral pela Faculdade do Recife, logo se credenciou no SESP. Esse Serviço Hospitalar era mantido por grupos de médicos cuja direção coube ao doutor Onaldo Pereira de Queiroz, natural da cidade de Patos, na Paraíba. Este posto de saúde pertencia à Sociedade Mantenedora do Hospital do Seridó e já apresentava fragilidades no exercício da medicina curativa. Medeiros apresentou um breve quadro da situação da saúde na cidade durante o período:

A assistência médica dos pobres em Caicó dessa época achava-se destroçada, em verdadeiro estado de calamidade pública. Não havia como atender os que representavam a maioria dos que necessitavam dos serviços médicos e hospitalares públicos. O povão estava morrendo à míngua. A pouca e a incerta assistência hospitalar prestada a alguns poucos sortudos era precária e péssima e humilhante (MEDEIROS, 2000, p. 68).

Carlindo passou a ganhar fama tornando-se o preferido pelas famílias caicoenses. Segundo os relatos de pessoas que chegaram a se consultar com ele, grandes filas eram feitas de pacientes almejando atendimento. O médico socorria a todos sem distinção social. Essa preferência por Carlindo tinha como consequência a diminuição de pacientes para os outros médicos. O que levou as pessoas a transformarem Carlindo em seu predileto era, na verdade, seu forte carisma. Segundo Clóvis Pereira Júnior, um comportamento comum do médico era que ele “fazia uma consulta e passava um remédio e, a pessoa não tendo dinheiro, ele dava até o remédio”. Por outro lado, “ele tinha uma queda danada por criança”. Essa afetividade com a qual atendia seus pacientes com gestos de acolhimento, de conforto e de atenção denunciavam o caráter

bondoso de Carlindo. Assim testemunhou Ana Batista de Araújo, que conviveu com ele nesse período:

Como médico só existia ele nessa época que fazia pela pobreza, não existia outro não. Ele trabalhou no SESP, teve o maior sucesso também lá, só o médico que dava atenção e sai abraçado com pobre nos braços era ele e ninguém mais. Porque ele pegava aquele pobrezinho e sai de braço com ele. Ora tinha dia que ele chamava os esmoles tudinho da rua para almoçar lá em casa. E fazia o almoço direitinho como mandava a lei. Ele era muito caridoso10.

Essa conduta benevolente de Carlindo era a principal característica que o diferenciava dos demais médicos da época. Essa conduta causaria atritos com a diretoria da Unidade Hospitalar, o que levaria posteriormente a sua expulsão dos quadros do SESP. Conforme o depoimento de Carlindo Júnior, havia inveja e ambição por parte dos outros profissionais com relação ao seu pai. Segundo ele, os motivos que levaram ao afastamento de Carlindo do Hospital constituem-se também desta maneira:

Ele era médico e as pessoas só queriam o doutor Carlindo, e os outros médicos ficavam com as consultas boiando e no SESP o diretor era Onaldo Queiroz. E nisso baixaram a norma que cada médico só podia ter 10 consultas, 10 pra Onaldo, 10 pra Pedro Militão, 10 pra Oswaldo, 10 pra Carlindo. Aí papai disse: não tem bronca, eu atendo meus 10 ganhando e o resto eu atendo de graça. Ficou do mesmo jeito né? Nisso, ele foi expulso do hospital, porque ele infligiu às normas das 10 consultas. O que ele fez? Tinha o consultório dele que era na Coronel Martiniano e, comprou uns 40 colchões e colocou tudo no chão da casa e, papai atendia todo mundo de graça, não tinha hora nem lugar, se tivesse no açougue ele consultava, se ligasse pra ele onde ele estivesse ia. Se tivesse o rio cheio ele passava pra outro lado nadando pra atender uma pessoa11.

Como podemos observar, mesmo expulso da única instituição pública de saúde da cidade, Carlindo não diminuiu os atendimentos aos desvalidos. Montou um consultório particular localizado na rua Coronel Martiniano e foi nesse local que sua carreira de médico despontou. Passou a consultar quem ele queria sem quaisquer regras pré-estabelecidas. Para esse consultório acorriam todos os pobres doentes,

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Entrevista concedida por ARAÚJO, Ana Batista de. Entrevistador: Mary Campelo de Oliveira. Caicó/RN, 2015.

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Entrevista concedida por DANTAS JUNIOR, Carlindo de Souza. Entrevistador: Mary Campelo de Oliveira. Caicó/RN, 2015.

nomeadamente àquelas pessoas que vinham da zona rural. Toda a população sabia que seria atendida e curada pelo médico. Rapidamente, a fama de que Carlindo era um excelente médico se espalhava por toda a região: ele ficou conhecido como o médico que não costumava errar em seus diagnósticos e que doava remédio aos seus pacientes.

Nesse consultório, Carlindo exercia primeiros socorros e atendimentos emergenciais. Tinha sua própria equipe de enfermeiros, que o ajudava na realização das consultas e na operação com seus bons equipamentos presentes naquele ambiente de trabalho. Conforme testemunhou Ana Batista de Araújo, “o consultório dele, em dia de sábado, era uma loucura, ninguém tomava café, ninguém almoçava, era o dia inteiro, sábado e domingo”. Carlindo foi se tornando popular devido ao fato de também atender às pessoas de forma amorosa. Consultava os indivíduos até de pijama, posto que estes chegavam à aurora e, em troca, retribuíam o médico pelo serviço prestado ofertando-o presentes oriundos das lavouras e das criações de animais. Carlindo, por sua vez, recebia com muita satisfação todos os agrados, conforme aponta Francisco de Assis Medeiros, seu melhor amigo da infância.

Eu fui muito amigo de Carlindo, eu nasci e me criei na Praça da Liberdade de Caicó e nós convivemos a infância toda ali. Quando eu fui estudar em Natal Direito e, ele foi estudar em Recife Medicina, a verdade é que só nos reencontramos novamente depois dos cursos, ele médico e eu advogado. A nossa amizade continuou tão grande como fora na infância eu passei a ser advogado dele. Pra você ter uma ideia, ele todo dia pela manhã, quando saia de casa, ele passava na minha casa para conversar comigo e etc. Bom eu acompanhei aquela vida de médico, ele era um médico ousado, homem com uma inteligência brilhante e muito sincero12.

Comentou também sobre a atuação de Carlindo como médico na cidade de Caicó:

Havia muitos problemas de saúde, uma mãe chegava com uma criança, vamos dizer morrendo ou coisa parecida e, ele atendia como se tivesse atendendo a pessoa mais importante do mundo. Ele não tinha distinção e adorava o chamado populismo pois Carlindo era estupidez do popular. Ele não perdia um forró nos sítios estava dentro de tudo não por política, mas porque gostava das coisas populares. Ele era o homem que sempre tava com

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Entrevista concedida por MEDEIROS, Francisco de Assis. Entrevistador: Mary Campelo de Oliveira. Natal/RN, 2015.

uma calça azul e um paletó com uma gravata e um chapéu na cabeça. Adorava ouvir aquele converseiro daquele povo e se sentia estupidamente realizado naquela atividade dele. Carlindo sofria certas restrições por parte de alguns médicos mercantilistas que viam o dinheiro acima de tudo, Carlindo era o contrário, se você fosse dá um nome cientifico ao comportamento dele, era ele um cara pródigo. Gastava mais do que ganhava então dinheiro pra ele era o que menos importava e o que nunca faltou por incrível que pareça. Ele trabalhava noite e dia de modo que a vida que ele tinha era essa13.

Como podemos examinar na fala de Francisco Medeiros, Carlindo era caracterizado por sua inteligência brilhante; “um homem pródigo”. Mas, por outro lado, também segundo Medeiros, Carlindo era o tipo de cidadão que gastava mais do que possuía. Contudo, não gastava consigo, mas com a população carente de Caicó. Por isto é que Medeiros não hesitou em defender que seu amigo praticava o populismo de forma extraordinária. Medeiros, assim como Santana, confirmou que Carlindo exercia sua profissão em prol dos necessitados; atendia os mais pobres “como se fossem os mais importantes do mundo”, e abraçava os pacientes independentemente da condição social que possuíam. Atitudes caridosas como essas, no decorrer de sua carreira, passaram a ser problemáticas, e Carlindo passou a sofrer restrições dos médicos que se importavam mais especificamente com o dinheiro que tinham a receber por cada consulta.

Carlindo Dantas, por sua vez, surgiu como o “médico do povo”, e consultava multidões sem delas nada cobrar. Passou a ser enaltecido não somente pelos que lhe acompanhavam pessoalmente, mas também pela própria imprensa local, que destacou eventos nos quais Carlindo se envolvia e colaborava à construção de um discurso favorável ao médico, que passou a ser visto como o mártir da medicina. No jornal A

Folha, em uma Coluna Estudantil, foi divulgada a seguinte notícia: “os nossos aplausos

ao Dr. Carlindo, que oferece atestado de saúde grátis aos estudantes pobres”. Além disso, esse médico não se limitava ao espaço caicoense, tendo realizado ainda consultas em Jardim do Seridó, Currais Novos, São Rafael, Jucurutu e outros municípios.

O Deputado Estadual Carlindo de Souza Dantas, recebeu um voto de louvor emanado da câmara municipal pelo fato de aquele médico ter prestado ajuda aos atingidos pelas as inundações nos municípios de Jucurutu, São Rafael, e Jardim de piranhas. (A FOLHA, 06 de maio de 1967).

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A medicina caridosa exercida por Carlindo Dantas também ficou na memória do povo seridoense. Uma carreira meteórica que contribuiu para multiplicar seus inimigos, mas também o público que passou a admirá-lo como o ídolo de uma geração. A convivência espontânea de Carlindo com o povo e as suas proezas em favor das classes desassistidas dos órgãos públicos rendeu-lhe, no ano de 1966, a vitória nas urnas como Deputado Estadual. Aliás, é notória a intensa participação de médicos em campanhas eleitorais.

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